Lancelot ganhava velocidade, o vento lambendo o seu rosto, desgrenhando-lhe os cabelos loiros e compridos. Cuidava de desviar dos galhos das árvores que invadiam a trilha no meio da mata, o cavalo embrenhando-se nela a galope, acompanhando o outro animal que galopava em uma trilha paralela.
– Quer fazer disso uma corrida, moleque? – Harry gritou. Sorria para o jovem guerreiro, agora com seus dezoito anos.
– Você me diz... – Lance provocou e inclinou o corpo, aproximando o peito do lombo do cavalo, de modo que este ganhasse ainda mais velocidade.
– Calma aí, garoto. – Eles ouviram a voz de Hermione vir do alto de suas cabeças.
Lancelot tornou a erguer o corpo e imediatamente o cavalo respondeu, reduzindo a velocidade. Harry fez o mesmo e os dois olharam para cima, além das copas das árvores, que a morena sobrevoava montada no lombo de Tempestade.
– Hermione! – Lancelot cumprimentou-a.
– Lancelot – ela respondeu e seu tom o fez acreditar que sorria. – Talvez devam se apressar. O jantar não demorará a ser servido.
– Está voltando para o Castelo? – Harry quis saber.
– Para onde mais? – a morena brincou. – Vamos, garota! – E com duas batidas de asas de Tempestade, sumiu no ar.
Harry e Lancelot deram meia volta com os cavalos e partiram a galope rumo à fortaleza que cercava o Castelo de Hogwarts e o pequeno vilarejo em volta. Ultrapassaram a ponte elevadiça e observaram Hermione se despedir de Tempestade e a fêmea de dragão alçar voo enquanto desciam de seus cavalos e caminhavam com eles até um camponês que os levaria para os estábulos.
– Hermione domina Tempestade com uma leveza que eu ainda me impressiono – Lance disse.
– O que diabos aquela mulher não domina? – Harry fez, sorrindo.
– Esperava que você me dissesse.
– Terrível admitir, mas exerce total domínio sobre mim desde que me entendo por gente – o moreno disse. – É ela quem me tira do sério...
– É ela quem o põe nos eixos – Lance completou e riu. – Todos sabemos disso.
– Está ficando ousado como Sirius – Harry reclamou.
– E todos não aprendemos com ele? – o loiro brincou, arrancando risos de Harry.
– Tem razão.
Seguiram juntos para o Castelo, logo alcançando o pátio, onde Draco e Gina juntaram-se a eles.
– Boa cavalgada? – Draco quis saber.
– Boa – Harry assentiu. – Planejamos sair para caçar ao amanhecer.
– Imagino que Ron já se escalou para tanto – Gina comentou.
– Falando em mim, irmãzinha? – Ron surgiu logo após adentrarem o saguão do Castelo.
– Falando na caçada de amanhã cedo – Lance disse.
– Eu deveria deixar que fossem só os dois. Decerto Lance trará dois ou três pernis, Harry deve trazer um porco... Por que me dar ao trabalho se posso ficar com a parte prazerosa? – Ron brincou. – Porém, é uma forma de aliviar a tensão. Dá um trabalho dos diabos lidar com quatro mulheres todos os dias.
Todos riram.
– Eu lido apenas com uma, não sei o que faria se tivesse quatro – Harry disse.
– A sua vale por quatro, Harry – Ron disse, rindo.
– E ainda bota mais medo que muito macho – Draco reforçou, recebendo um olhar fulminante de Gina. – O que? Acaso disse alguma inverdade?
– Eu poderia arrancar a sua língua, Malfoy – Hermione disse, aproximando-se do grupo.
– Viu? Ela me dá arrepios! – Draco disse, apontando para a nuca, onde os pelos estavam eriçados.
– Em seu lugar, eu me calaria – Lance disse. – Hermione cumpre suas ameaças.
– Já fez alguma maldade das que prometeu a você? – Gina perguntou.
– Não, mas eu jamais arriscaria chamá-la de titia de novo – Lance respondeu e novamente todos riram, inclusive Hermione.
– Voltando a falar nas mulheres de Ron, Luna levou as crianças? – Gina perguntou.
– Imagino que sim – Ron respondeu. – Não está estranhando a calmaria?
– Justamente por isso perguntei.
– Lilá, Luna e Parvati levaram todos antes que eu deixasse o Castelo com Tempestade – Hermione disse. – Estavam todos correndo pelo pátio e pareciam incansáveis. Não sei que tipo de proposta ela fez para que todos as acompanhassem, mas funcionou muito bem.
– Bolo de casamento, talvez – Lance brincou.
Todos riram e não demorou até serem abordados por um pequeno grupo de crianças entre quatro e oito anos.
– Estavam procurando por eles? – Harry fez. – Pronto, estão todos aqui!
E lá estavam quase todas as crianças que agora residiam no Castelo. Duas das três meninas de Ron e Luna e o casal de Draco e Gina.
– Falta uma cabecinha de fogo – Draco sinalizou.
– Não falta – Luna disse, juntando-se ao grupo, acompanhada por uma garotinha de oito anos, ruiva e com o rosto pintado de sardas. – Tentei levá-los direto ao salão de jantar, mas quiseram acompanhar os pais.
– Já operou um milagre e tanto quando conseguiu arrancá-los daqui para um banho – Gina comentou.
Seguiram todos ainda embalados em conversa para o salão, onde Narcisa e Narisa estavam já à mesa cuidando respectivamente de um menino e uma menina, com cinco ou seis anos. Sirius e Remus estavam ausentes, provavelmente em mais uma das loucas aventuras de Sirius.
Cho Chang e Cedrico Diggory já estavam presentes e serviam três bocas. Lilá e Parvati dividiam-se na tarefa de servir três crianças, dois meninos de Lilá com Colin Creevey e uma menina de Parvati e Simas Finnigan. Os seus maridos estavam fora aquela noite, visitando alguns povoados por ordem de Harry e Hermione.
– Essas crianças são o agito deste Castelo – Harry disse.
– Antes eles do que nós – Hermione fez, sorrindo. – Pelo menos assim saímos do foco de conversa.
– Também não podemos participar de muita coisa – o moreno comentou.
– Me tranquiliza saber que não deixo preocupações aqui quando saímos em nossas batalhas – a morena disse.
– Não me tranquiliza nada é saber que você está lá comigo.
– Tem certeza? – Hermione brincou.
– Você entendeu o que eu quis dizer.
– Entendi?
– Gosto de tê-la comigo porque é uma grande guerreira, mas temo não tê-la comigo quando voltar – Harry explicou-se, ainda que soubesse ser desnecessário.
– Nós ficaremos juntos, Harry – ela disse. – Até o fim, estaremos juntos.
– Eu não conseguiria de outra maneira.
– Se não vão comer, avisem – Ron fez, passando pelos dois. – Lancelot está esticando o olho para o frango e eu ficaria feliz em participar da disputa.
– Você nem comeu o que pôs no prato! – Hermione retrucou.
– Mas há lugar para mais – Ron avisou. – Sempre há.
– Vem, vamos tomar nossos lugares – Harry chamou, puxando-a pela mão.
† – † – †
O dia já havia amanhecido há várias horas e, sob o olhar atendo de seus mentores, Lance tentava pela milésima vez acertar os feitiços que seu mestre de magia, Alvo Dumbledore, o mandara realizar.
– Vamos, Lance, concentre-se – Dumbledore diz, calmo.
– Estou tentando, mestre – responde o menino. – Mas não sei consigo.
– Já lhe disse, Lance, a fé em si mesmo é o primeiro passo para realizar os grandes feitos.
– Sim, mas para um mago de mais de um século, é fácil falar... para um garoto de dezoito anos, é fácil suar.
– Lance, tudo que precisa fazer é transformar essa espada em flechas. E para fazer isso, dobre a natureza... – instrui Dumbledore. – Primeiro derreta o metal da espada, depois prepare a madeira para se tornar as flechas que tanto gosta de atirar e então, faça com o metal quente a ponta perfeita.
– Estou tentando, mas derreter metal e mantê-lo assim quando o senhor fica resfriando-o é muito difícil.
– Não é sempre que o destino estará do nosso lado. Não são apenas as forças da natureza que terá que dobrar para derrotar Lorde Voldemort. Terá que dobrar o destino a seu favor.
– Mas para que esse feitiço me será útil? – pergunta Lance.
– Esse feitiço, Lance, quando bem aperfeiçoado, lhe garantirá nunca ficar sem flechas em um campo de batalha – responde Hermione.
– E também é útil quando lutar com um oponente cuja espada e alcance forem mais longos que o seu... você derrete a ponta da espada dele – graceja Harry.
– Entendido – o menino assente e volta a se concentrar no que fazia.
Enquanto isso, Harry e Hermione comentavam o que viam.
– Sabe que ele não vai conseguir – Harry afirma.
– Ele ainda precisa, sim, de mais treino, nós mesmos demoramos a dominar esse feitiço – confirma Hermione.
– Ele é habilidoso com armas.
– Mas a magia dele é forte.
– Quando se trata de explosões, com toda certeza. – E os dois rirem, lembrando o tanto de vezes que o rapaz havia explodido algo.
– E olha que sempre pensaram que quem explodiria esse Castelo seríamos nós – fala Hermione.
O problema foi que Lance se concentrou tanto em esquentar o metal, que acabou por deixá-lo muito quente. Quando foi juntar à madeira, o metal explodiu os gravetos que ele moldara, lançando farpas no ar. No susto, foi a vez do próprio metal se desfazer em dezenas de fragmentos pontiagudos que voaram em todas as direções.
– Protego – Hermione fez, protegendo a si e a Harry num movimento rápido enquanto Dumbledore protegia a ele e ao jovem rapaz.
– Melhor pararmos por hoje – diz Dumbledore. – Descanse e mais tarde, se seus mentores permitirem, volte para conversarmos.
– Ele voltará, mestre – garante Harry.
† – † – †
Apesar daquela guerra que já durava tantos anos, o dia estava calmo no vilarejo de Midgard. O sol brilhava e os habitantes daquele, que era um dos vilarejos mais promissores de toda Inglaterra.
Foi quando uma enorme pedra caiu sobre uma casa, destruindo-a por completo. Em seguida, uma chuva de flechas voou para cima de todos que na rua estavam. Pessoas corriam gritando, corpos caíam e crianças choravam assustadas.
Do alto de uma elevação na campina, três homens observavam seus respectivos batalhões exterminarem a cidade.
– É ótimo estar de volta – diz o Avery, um dos Comensais mais antigos do Lorde das Trevas.
– Apenas camponeses ingleses gritam assim – fala o segundo, era Yaxley, se deliciando com os gritos de horror que ouvia. Em seus lábios sustentava um sorriso sádico.
– Nem me fale, parece que estou ouvindo uma sinfonia – concorda Dolohov, o terceiro Comensal.
Enquanto isso, em Hogwarts, Cedrico entrou correndo pelos portões do Castelo. Gina, vendo o companheiro de tantas batalhas adentrar Hogwarts com tanta pressa, se dirigiu ao pátio.
– Chame Harry e Hermione, Midgard esta sendo atacada – grita, desesperado, o cavaleiro. Gina adentra o Castelo, enquanto Cedrico reunia Ronald, Draco, Simas e mais alguns dos comandantes que ali estavam. Gina retorna acompanhada de Harry, Hermione e Lance, que insistia em acompanhá-los.
– Me deixem ir com vocês – pede Lance.
– Gina, proteja o Castelo. Mandarei Simas ficar e pedirei a Cedrico para ceder alguns arqueiros para que Hogwarts fique segura – Hermione começa a ditar o plano.
– Enquanto nós iremos voando, Ronald e Cedrico atacam pelo leste e Draco deve cobrir a retaguarda.
– E eu? – pergunta Lance.
– Você ficará perto de Sirius e Remus e não se arriscará muito. Precisamos de você com a cabeça em cima do pescoço e de preferência respirando – Harry fala, duro, para o rapaz que apenas assente.
– Eu e Harry faremos o primeiro ataque – Hermione decide.
Com o exército devidamente organizado, eles partem cavalgando, com Harry montando em Tornado, Hermione em Tempestade e Lance voando pela primeira com Ventania rumo a uma batalha. Sirius e Remus estavam montados em seus grifos.
Quando chegaram ao vilarejo, boa parte das casas já se encontrava destruída e outras estavam em chamas. Os Comensais atacavam os camponeses que ali tentavam, sem grande sucesso, defender suas terras.
Harry e Hermione observavam o campo de batalha e viram que no momento em que Ronald chegou ao local, já ordenou que suas tropas atacassem enquanto Cedrico atingia com seus arqueiros aqueles que estavam mais afastados da aldeia. Sirius, como sempre, assim que avistou o exercito inimigo, já desceu com o grifo e começou a cortar as gargantas que sua espada alcançava. Lance, para a raiva de Hermione, seguia o aventureiro. O menino incitava seu dragão a cuspir fogo e destruir o que visse pela frente que ele considerasse inimigo.
– Eu sabia que Sirius seria péssima influência – Hermione fala, balançando a cabeça.
– Dessa vez, eu não tenho culpa nenhuma – afirma Harry.
– Claro que tem, de quem ele é padrinho?
– Meu, mas Lance nunca foi realmente mandado por nós.
– Pode até ser, mas devo lembrá-lo que precisamos dele vivo.
– Tudo bem, estou indo.
– Ótimo, eu me encarrego daqueles três. – Hermione indica que iria atacar os cavaleiros na campina.
– Espere, Hermione – Harry tenta chamar a morena assim que reconheceu Avery, mas Hermione já voava em alta velocidade para atacar aqueles Comensais. – E depois a culpa é minha – Harry grita aos céus, furioso, indo atrás de sua esposa.
Avery, percebendo a aproximação do dragão, sorri malicioso. Ele apenas levanta a mão e uma chuva de flechas cai sobre a morena, que se defende também com um feitiço de proteção. Aquela batalha seria puramente de magia.
– Nos encontramos novamente, menina Granger – diz o cavaleiro.
– Quanto tempo, Avery – Hermione o “cumprimenta” com pesada ironia.
– Vocês dois, cuidem dos outros, Granger é minha.
Avery então revelou que sua montaria era um hipogrifo. Agora Hermione tinha o arco e flecha já em punho. O feiticeiro a encarava com sua espada levantada. Hermione, sem esperar que seu adversário fizesse o primeiro movimento, dispara uma flecha em chamas que é facilmente rebatida por ele.
– Você pode fazer melhor que isso – provoca Avery.
Harry, que tentava ir de encontro à esposa, é interceptado por Yaxley.
– Você é meu, Potter – fala Yaxley.
– Está com saudades de levar uma surra? – pergunta Harry.
– Espero que esteja pronto para seu funeral.
Harry salta de Tornado e ataca Yaxley, que também havia desmontado seu cavalo. O choque entre as espadas se misturou com os demais que já eram ouvidos pela campina. A cada estocada que um dava, o outro defendia para já contra-atacar.
Lance acompanhava Sirius. Para o rapaz, estar em sua primeira batalha era emocionante. Remus havia se juntado a eles e abatia os inimigos. O sangue já manchava aquela terra pisoteada e que um dia fora um verde belo.
Cedrico e Ronald tentavam retomar a cidade. Draco tirava o máximo de camponeses que conseguia do campo de batalha.
Hermione e Avery lutavam com a magia. Pedras voavam, flechas em chamas passavam raspando próximo ao rosto de ambos e por várias vezes, Hermione teve que desviar-se para não ficar sem o pescoço. Mas, em uma pequena distração, Avery acertou um feitiço que lançou Hermione de cima de seu dragão. A morena foi ao chão e caiu desacordada. Lance havia se virado naquele mesmo instante e viu a mentora caída. Uma fúria tomou conta de si. Harry, que tentava se livrar de Yaxley, também ficou furioso.
Lance apressou-se em se livrar de Dolohov, com quem travava um duelo de espadas, e foi ao encontro da mentora. Olhou para Avery e sequer pronunciou uma palavra. Apenas direcionou a ele um feitiço que o levou ao chão, desacordado.
Antes que Harry fizesse qualquer outro movimento, Lance olhou para Yaxley, que engoliu em seco e gritou para seus homens recuarem. O hipogrifo de Avery o pegou e saiu voando enquanto Dolohov partiu cavalgando. Yaxley ainda olhou para o menino uma vez mais antes de fugir.
Harry pegou Hermione no colo e partiu para o Castelo. Os Comensais que haviam sobrado eram exterminados pelos cavaleiros de Hogwarts. Lance ficara para terminar o que havia começado. Ao final, quando todos retornaram ao Castelo, a baixa havia sido pequena, mas a vitória, arrasadora.
Continua...