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1. Destino e Opção


Fic: O Amor entre nós [Femmeslash] ATUALIZADA 07/03/2009


Fonte: 10 12 14 16 18 20
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Não, eu nunca fui romântica. Não posso dizer que pensava com a maior frieza do mundo sobre o amor, mesmo porque... Nunca dediquei muito de meu tempo pensando nele. Eu sempre estive certa de que o romantismo não leva a lugar algum. Mas o amor, esse sim... Levou-me a um caminho que eu jamais imaginei.
É uma grande coisa para quem não ligava muito para o amor - mas para quê eu ligaria? Sonserinos não ficam se derretendo pelos corredores ou perdendo noites de sono por causa disso; até mesmo o amor nós encaramos com elegância e um pouco de indiferença. Claro que eu poderia contar minha história rapidamente, mas a graça está nas pequenas coisas... Minha avó dizia que o diabo mora nos detalhes. Eu demorei muito tempo para perceber o quão certa ela estava.
Eu nunca liguei muito para o amor até ela aparecer na minha vida. Ou fui eu que apareci na dela...? Não sei, não tenho certeza. E aparecer é uma expressão errada, porque eu já a conhecia - ou assim achava. O fato é que as coisas mudaram quando, de um jeito inevitável, eu precisei dela e ela precisou de mim. Nós nos reencontramos por destino e nos unimos por egoísmo. Mas por que permanecemos unidas? Porque esse foi o caminho pelo qual o amor nos levou.
ooo
Hermione balançou a cabeça, completamente atordoada. Por um momento seus pensamentos se paralisaram, até seu coração acelerar incontrolavelmente quando ela voltou a si. Desconhecia o lugar onde estava; sabia apenas que era um cômodo pequeno, com pouca iluminação e sem janelas. Examinou o local lentamente: havia um colchão fino, sobre o qual estava folgadamente sentada, uma cadeira velha, paredes que pareciam forradas com papel de parede sujo e a única luz vinha de um objeto em cima de uma escrivaninha, obviamente enfeitiçado.
Um enjôo lhe subiu quando ela reparou que, ao lado da escrivaninha, havia alguém de pé, batendo as unhas sobre o móvel empoeirado quase casualmente. A garota tentou respirar fundo e colocar a cabeça no lugar, observando a figura oculta na penumbra. Tinha um tamanho mediano, talvez um pouco mais de sua própria altura, e estava mergulhada em silêncio.
- Não pense que isso é muito legal para mim. - Pela voz, era obviamente outra garota, e pelo tom, não muito mais feliz do que a própria Hermione estava naquele momento. - Estou tão contente quanto você.
Respire fundo e acalme-se, a morena pensou, fechando os olhos brevemente. Reconhecia aquela voz, embora não soubesse dizer de onde, mas sabia que estava com muito menos opções do que gostaria. Fosse quem fosse, ela estava à mercê de alguém - e considerando toda a situação, não parecia ser alguém muito confiável.
Sabia que não devia ter ouvido Ron. A idéia de ir até o Três Vassouras ter um "último dia de felicidade", segundo o mesmo, era terrivelmente estúpida... E ótima, visto o que estava por vir. Já não bastava o casamento de Fleur e Bill ter dado certo? Não bastava ter sido uma festa ótima e sem nenhum contratempo? Não, para Ron não bastava... Ele tinha de sugerir a maldita saída, e tinha que convencer Harry e Hermione. E eles tinham que se divertir e beber de tudo o que não fosse alcoólico demais, não é?
O problema era que a bebida desceu rápido demais - ou talvez eles estivessem lá há muito tempo, ela não saberia dizer - e ela teve de ir ao banheiro. Ora, o que diabos ela devia fazer, convidar Harry a ir com ela? Hermione apenas se levantou e entrou no banheiro, mas não teve tempo de fechar a porta; fora estuporada antes disso. E simplesmente acordara ali.
Idéia estúpida, imbecil e desnecessária, com certeza. Num momento, ela estava tendo um dia ótimo, e no outro... Estava trancada num quarto, se sentindo fraca como se não comesse há dias, de frente com alguém nada amigável.
- Eu sei o que você está pensando... - A voz fria voltou a soar no aposento. - "Ah, meu Deus, uma Comensal cruel e insana me seqüestrou, e agora eu estou ferrada sem meu amado pobretão e meu amigo Cicatriz". - A mulher debochou, gesticulando levemente, enquanto a boca de Hermione se abria lentamente. - Bom, vou dizer uma coisa...
Ela andou alguns passos e sentou-se na cadeira, que pareceu agüentá-la só por mágica, e cruzou os braços e pernas. Sua voz, dessa vez, pareceu muito mais séria.
- Você foi, sim, seqüestrada por uma Comensal, mas eu não sou insana e cruel. E você está totalmente ferrada, Granger.
A morena engoliu em seco. Seus pensamentos voaram em todas as direções, fazendo um turbilhão de emoções lhe atravessarem. Era um quarto escuro e ela estava com uma capa negra, mas Hermione teve quase certeza de quem era ao ouvir os apelidos maldosos de Harry e Ron.
- Parkinson... - Ela murmurou com uma voz rouca, antes que pudesse conter a língua na boca. A mulher começou a balançar o pé no ar sem emitir nenhum ruído. Elas passaram minutos a fio, longos e terríveis minutos a fio em silêncio. Hermione piscava debilmente, sem sequer saber se a mulher estava olhando para ela ou não, e lutava contra o impulso de desabar no colchão e dormir.
- Você teria sorte se eu fosse te torturar, sangue-ruim. - Ela levantou e abriu a porta com um feitiço não-falado, e Hermione distinguiu pontas louras de cabelo escapando pelos lados do capuz da capa. - Mas parece que a sorte te odeia.
A porta bateu, trancada por outro feitiço, e a garota ficou sozinha no cômodo. Hermione deitou e, a muito contragosto, chorou.
Pansy se abaixou, os lábios frouxos e a mente distante dali, e passou pelo buraco pequeno que havia na parede. Caiu em outra sala, um pouco maior e mais iluminada, que tinha pessoas vestidas exatamente como ela; algumas andavam com ansiedade, outras estavam simplesmente abaixadas. Ela andou até a pessoa mais alta da sala, que estava de pé, encostada em uma parede.
- Ela acordou. - Ela murmurou. - Mas acho melhor alimentá-la antes, ou ela não vai durar nem um dia.
O Comensal apenas virou a cabeça para ela e respondeu, desdenhosamente:
- O especialista aqui sou eu, menina. - Ele tirou a varinha de dentro de uma manga e desaparatou, agitando ainda mais os poucos que sobraram ali. Alguém se aproximou com intenção de conversar, mas ela não deu bola; apenas se afastou e também se sentou ao lado de outros três.
Não queria conversar com absolutamente ninguém, porque estava num estado em que não mediria suas palavras - e a única pessoa com quem poderia falar sem medir não estava ali. Ela não sabia onde ele estava, não sabia o que estava fazendo e sequer sabia se voltaria a vê-lo. Se Pansy fosse falar, diria que odiava aquela situação e tudo o que provinha dela; odiava o fato de não ver Draco há mais de uma semana, de saber que Narcissa estava se desesperando com a impossibilidade de ajudar seu filho, de ser obrigada a escolher um lado puramente por medo e, além de tudo, seguir um velho bruxo doentio e obcecado em dominar o mundo.
Era (ou deveria ser) nova demais para ter de escolher. Mas Draco também não era? E não era terrivelmente injusto que ele tivesse de pagar pelas escolhas erradas da sua família e pelo erro ridículo de seu pai? Definitivamente era, e ambos acabaram com marcas odiosas nos braços. Mas Pansy sempre soubera que o mundo não era justo.
Não que isso significasse desejo de seguir o Lord das Trevas - muito longe disso. Nem ela e nem seus pais o possuíam, já que, embora apoiassem a pureza de sangue, eram inteligentes o suficiente para não querer se associar a um lado ligeiramente "desequilibrado" da sociedade bruxa. Não querer a mistura dos mundos bruxo e trouxa era uma coisa; querer a aniquilação dos trouxas e sangues-ruins era outra bem diferente.
Mas o mundo nunca tinha sido justo, não é? E de repente Pansy se viu sendo chantageada pelo próprio Draco, que fora o infeliz incumbido de levar aquela mensagem a ela. Nada sutilmente, o mais alto escalão dos Comensais deixou bem claro que ela deveria colaborar com eles, se quisesse preservar sua família e sua própria saúde. Se você quiser ir por bem, bem, ainda se lembrava exatamente do que seu amigo dissera, se você quiser ir por mal, bem também. Só não garantimos o seu estado na devolução.
Sentada, ela riu sozinha, muito azeda. Devia estar muito feliz em entregar a sangue-ruim Granger a eles, não devia? Devia querer assistir de camarote sua tortura, aliás... Há coisa de meses atrás, ela faria qualquer coisa para ter o privilégio de ver um Crucio bem mirado naquela "vaca grifinória". Mas agora, um ato simples como estuporá-la no banheiro feminino (num golpe de sorte extrema) e vigiá-la até que acordasse era muito desagradável.
- Quanto tempo será que vão nos deixar aqui? - O homem que estava sentado ao lado dela indagou, baixinho. Ela deu de ombros, indiferente. Podia sentir ele a fitando por baixo do capuz negro, mas não ligou. - Desde que saiamos vivos, já está bom. - Ele completou, meio para si mesmo, e voltou a ficar em silêncio.
Bom? Bom? Que tipo de coisa o faz crer que sair daqui seja muito bom? Ela pensou, sarcasticamente. Ele não vê que ninguém que está aqui vai sair igual ao que era quando entrou.
Havia sido deprimente ter de vigiar Granger inconsciente, e ainda ter que relançar o feitiço várias vezes. Tinha sido orientada a não deixá-la acordar até segunda ordem, o que resultou em três dias exaustivos sem dormir e comendo mal, apenas olhando a garota jogada sobre o colchão. Guardava para si mesma o segredo de ter previamente escolhido um quarto com colchão, para supostamente poder descansar... Mas ela não sabia que não poderia dormir. Às vezes, até queria tirar Hermione dali e se deitar, mas - e era aí que se encontrava seu segredo - ela havia ficado com pena da morena.
Ainda relutava diante daquela idéia. Pena, que droga de pena deveria sentir de uma maldita mestiça que, ao contrário dela, escolhera de plena vontade de que lado ficar? Pansy tentava se convencer de que Hermione havia pedido por aquilo, ficando descaradamente ao lado de Potter, se aliando a Dumbledore, e tomando cerveja amanteigada no Três Vassouras. Era uma idiota, uma idiota.
Mas Pansy ainda duvidava que, em vida, Dumbledore teria sido capaz de chantageá-la para se juntar a ele.
ooo
Não podia ter clima pior. Se fosse um silêncio devastador, ainda estaria bom; mas havia os soluços de Ron, audíveis demais para permitir isso. Harry estava ao lado dele, os olhos inchados mas secos, assim como Ginny, que abraçava o irmão pelo outro lado.
- Vocês estão agindo como se ela estivesse morta. - A voz anasalada de Tonks soou estupidamente. - E ninguém realmente sabe o que aconteceu. - Molly suspirou e continuou de pé, ao lado da auror sentada.
- Nós não temos muitas opções, não é? - Seus olhos se marejaram por um momento, até ela apertar os lábios e reprimir o choro. - Já tentamos todos os feitiços de localização que existem, já avisamos a Ordem, notificamos o Ministério...
- Grande merda, o Ministério! - Ginny exclamou, revoltada. - Quanta coisa o Ministério fez por nós até agora? Quanta coisa o Ministério fez até agora, mãe? Eles parecem mais preocupados em apagar o fogo que a imprensa faz do que salvar as pessoas que realmente correm perigo! Nem mesmo conseguem manter os prisioneiros em Azkaban!
- Ginny, controle a boca, eu ainda sou sua mãe. - Molly retrucou, já corando. - Sei que o que está acontecendo é difícil, mas nós simplesmente não temos mais o que fazer! Se você tem alguma sugestão que nós ainda não tentamos, vamos, pode dizer. - Os olhos da caçula se estreitaram perigosamente.
- Eu não tenho sugestão nenhuma, mamãe, porque eu não fui formada para ter! Não é minha obrigação saber o que fazer; e nem a sua, já que nós não somos aurores e não temos nenhum direito de meter o nariz nisso. Mas me dá raiva saber que tudo o que podemos fazer é tentar pressionar aqueles burgueses inúteis do Ministério pra ver se, uma vez na vida, eles se importam!
- Eu não discordo de você, Ginny, mas os aurores se importam de verdade. - Seu pai lhe cortou, passando a mão pela cabeça. Já tinha feito tudo o que podia; não adiantava ficar alimentando discussões. - Eles certamente estão tentando descobrir onde Hermione está. Só nos resta esperar.
Ginny e Molly suspiraram ao mesmo tempo, irritadas, e eles então mergulharam no quase-silêncio mais uma vez. Harry, o único presente em condições de falar que não havia dito nada, fechou os olhos sem saber se queria rever ou apagar as últimas cenas daquela noite marcada. Marcada para quê? Ele ainda não tinha descoberto. Estava supostamente marcada para ser a última noite feliz dos três - e que infeliz coincidência! - talvez fosse mesmo.
Eles estavam rindo, não por causa do pouco álcool que consumiram, mas porque estavam simplesmente... Felizes. Estavam lembrando da careta que Ginny fez ao colocar o vestido amarelo de dama de honra - que, segundo ela, a deixava parecendo um canário com a cabeça em chamas - e que parcialmente manteve durante todo o casamento. Ela só se aquietou quando pôde dar uma escapada e trocar de roupa; e mais engraçada que a careta dela, só a cara que Fleur fez ao vê-la sem o vestido amarelo.
Foi no meio disso que Hermione se levantou para ir ao banheiro, sem saber que uma Pansy transfigurada havia aguardado a noite inteira por aquilo e a estava esperando atrás da porta. Ela não sabia, Harry não sabia e Ron não sabia... E ele daria tudo para saber.
Parecia uma coisa tão simples. Ele só queria ter conhecimento que alguém estava lá... Se ele soubesse, tudo poderia ter sido tão diferente! Ron não conseguia parar de chorar, sua mente só pensava que ele jamais teria proposto aquela saída. O casamento de seu irmão havia ocorrido na noite anterior, mas ele teve a esplêndida idéia de fechar o final de semana com chave de ouro. A culpa era dele.
Por culpa dele, Hermione estava só Deus sabia aonde, talvez passando por coisas que nem Deus quereria saber. E ela estava tão linda, corada e risonha, imitando o bico de Fleur para o outro vestido de Ginny... Foi quando ela levantou e apontou para o banheiro, sem dizer nada. Ele não se virou para vê-la entrar, sem saber para o quê Hermione caminhava. Talvez se ele tivesse sugerido qualquer outro lugar, em qualquer outro dia... Era apenas uma questão de escolha; da escolha que ele fez ao convidá-los e que ela fez ao aceitar. Ron não tinha a menor idéia do que mais poderia acontecer, mas a essencialidade da coisa o estava matando tão lentamente quanto uma sanguessuga: a idéia era dele, a insistência na idéia foi dele, e o que resultou da idéia era culpa dele.
Ron não conseguia, não podia e não queria parar de chorar. Apenas porque sabia que não tinha o que dizer.
ooo
Seu estômago roncava e ardia de fome, mas ela não tinha o que comer. Não tinha com quem reclamar, nem como se defender. O choro; o choro às vezes é uma válvula de escape: você mergulha nele, deixa que as lágrimas e os espasmos dominem seu corpo, e faz sua mente se entorpecer alguns minutos, só para depois ser obrigada a encarar a situação. Era como uma pedra caindo sobre as costas de Hermione, a realidade após o choro.
Eu não vou falar nada, foi seu pensamento imediato. Ela podia falar o que sabia e prejudicar Harry de um modo irremediável, ou podia agüentar o que quer que fosse, e ficar quieta. Morrer e viver poderiam, talvez, depender disso... Mas ela estava mais disposta a morrer com honra do que a viver como uma covarde. A morte foi para onde sua mente se voltou no mesmo instante.
Ela definitivamente não queria morrer. A garota se levantou com dificuldade e andou até a escrivaninha, tencionando abrir a única gaveta do móvel, mas parou com a mão estendida no ar. Aquele lugar parecia tão abandonado que não seria de se surpreender se houvesse um bicho-papão lá dentro; também não seria surpresa se tivessem colocado um lá. Ela estava desarmada, sem poder se defender, e soltá-lo provavelmente seria só o começo da sua tortura psicológica. Hermione mordeu o lábio, duvidosa, e desistiu.
Lentamente, começou a tatear as paredes, com um fiapo de esperança. Nem as paredes, nem o colchão, nem o chão e nem o teto guardavam nenhuma surpresa para ela, que apenas sentou e resolveu esperar para ver qual seria a próxima coisa que o destino iria aprontar. Sentada e quieta, seus pensamentos tomaram outro rumo: Pansy Parkinson.
Obviamente a garota a estava esperando dentro do banheiro feminino, e a seqüestrara. Mas o que realmente surpreendia Hermione era o fato de que ela não se lembrava de ter visto Pansy manifestar apoio abertamente a Voldemort em nenhum momento - e pelo o que se lembrava, Pansy sequer havia compartilhado dos planos de Draco no sexto ano. Ela não parecia estar envolvida sob nenhum aspecto com os Comensais da Morte e, no entanto... De repente se tornara um deles. Talvez estivesse sob a Imperius, porém seu comportamento não era o de alguém enfeitiçado; ela parecia perfeitamente sã e normal, cinismo e frieza onde sempre estiveram. Exceto pela amargura.
Hermione tentou se colocar no lugar dela, e chegou a conclusão de que ela não estaria infeliz, se fosse Pansy. Aliás, estaria dando pulos de felicidade por ter conseguido capturar a melhor amiga de Harry Potter, a sabe-tudo infernizante, a sangue-ruim cheia de informações valiosas. Assistiria sua tortura de camarote. Todavia, "diversão" parecia ser a única palavra totalmente não vinculável a Pansy, o que fez Hermione suspeitar de que talvez, assim como Draco, ela estivesse sendo chantageada.
Sons do lado de fora cortaram sua linha de raciocínio bruscamente, e ela sentiu seu corpo se contrair de nervosismo. Passos, palavras indefiníveis, medo. Houve nova fuga em massa de Azkaban, pouco antes do casamento de Bill. Suas mãos se agarraram ao colchão, e ela desejou mais que tudo ter uma sensação de alívio nos minutos seguintes.
A porta se abriu com um estalo, e um Comensal alto passou por ela. Hermione pôde distinguir um sorriso diabólico sob a máscara que ele usava.
- E então, sangue-ruim? Vai ser do modo fácil ou do difícil? - Ele lhe perguntou cinicamente, já lhe apontando a varinha.
Ela trincou os dentes quando respondeu:
- Não vai ser de modo nenhum. - Ele balançou a cabeça, ainda sorrindo. - Babaca. - Hermione completou, com gosto.
Alívio foi uma coisa que não passou nem perto dela nos dias que se seguiram.
ooo
Caos. Não, não... Desgraça. Não, pensando bem, caos estava melhor, caos combinava mais com o estado em que sua casa estava. Pansy foi caminhando pelo hall de entrada devagar, com medo do que mais poderia ver pela frente. As cadeiras delicadas estavam espalhadas e quebradas, todos os quadros jaziam no chão...
Seu corpo parecia se entorpecer à medida que ela ia avançando. A sala de estar estava quase inteira, exceto por alguns buracos nas paredes e o sofá tombado para trás; a mesa da sala de jantar, cujo tampo era de vidro, estava chamuscada e obviamente, sem o tampo. Depois do choque inicial, a loira disparou para as escadas brancas, indo diretamente para o quarto de seus pais.
Estava vazio. As paredes desgastadas, como se tivessem recebido todo tipo de feitiço, e a cama desarrumada não lhe pareciam um bom sinal. Mas foi ao virar e olhar a parede que Pansy sentiu todo o seu sangue descer para os pés.
Um dia, o que fora uma linda penteadeira com um espelho enorme era agora um amontoado de madeiras. O espelho havia se multiplicado em centenas de cacos, grandes e pequenos, arrepiantes como um grito de dor. Porque os cacos, a parede e a madeira estavam banhados de sangue.
Pansy fechou os olhos com força um momento. Ofegou sem perceber uma vez, depois outra, e outra, até sua respiração se tornar um choro convulsivo - que ela não queria que acontecesse, mas que, mais uma vez, estava fora de seu controle. Tudo o que idealizara para o momento de retorno à sua casa depois de passar quase duas semanas como "hóspede" dos Comensais de repente se tornara uma ilusão.
Eles disseram que era só eu, ela pensou, cheia de ira. Que só cabia a mim salvá-los. Mas era óbvio que era mentira; era óbvio que foram exigir algo a seus pais que não obtiveram. Nenhum auror ou encarregado do Ministério da Magia faria aquilo - revirar a casa talvez sim, mas não o sangue. Não sem querer saber onde ela estava.
A loira sabia que já não adiantaria procurá-los no seu quarto, ou nas outras dependências da casa, pois eles simplesmente não estariam lá. Primeiro fora Draco, depois ela mesma, e agora seus pais se sujeitaram ao fanatismo absurdo dos Comensais da Morte. Estupidez principalmente deles, que arriscavam seus pescoços sem perceber que seu Mestre os descartaria, a todos, em um piscar de olhos.
Pansy chorou até perder a noção do tempo. Queria estar tomada de ira, queria voltar para o misterioso lugar onde a mantinham e matar quantos Comensais conseguisse... Mas ela estava apenas entorpecida. Gelada dos pés à cabeça, gelada por fora e por dentro, sem sequer conseguir pensar com coerência.
A única coisa da qual tinha consciência era a de que não era uma assassina. Arquitetara um plano para seqüestrar Hermione, a seguira e a havia entregado para sabe-se lá quem, mas nunca teria coragem de matá-la. Aliás, não sabia dela já fazia dias, mas permanecera confinada junto com outras pessoas na mesma situação que ela.
No meio de toda a confusão física e psíquica pela qual passava, sua Marca Negra ardeu terrivelmente e ela se viu obrigada a limpar as lágrimas e a aparatar indo diretamente para as pessoas que, de uma forma ou de outra, atingiram seus pais. Jogou o capuz sobre a cabeça e aparatou.
Pansy havia sido convocada para a mesma sala onde passara tanto tempo apenas esperando outras ordens. Corriam boatos de que a casa ficava ao sul da Inglaterra, e era ou um velho castelo abandonado, ou uma casa subterrânea. Não importava, nenhum deles sabia a localização exata. Um Comensal devidamente encapuzado a recebeu, atento aos olhares dos outros que permaneciam ali. Nenhuma magia os obrigava a ficar; a ameaça era uma forma de coação muito mais eficiente.
- Vá vê-la. Alimente-a e faça o que puder para ela resistir. Nós recomeçaremos amanhã. - Sem saber porquê, Pansy não quis fitá-lo quando sentiu um aperto no peito. Apenas deu meia-volta e andou em direção ao buraco que dava acesso ao quarto da garota com os ombros caídos e um peso enorme nas costas.
Destrancou a porta com um feitiço e passou por ela, a fechando novamente. Hermione estava de costas para a porta, deitada numa posição fetal, e Pansy suspirou e deu a volta no colchão, sem poder deixar de ficar surpresa com o que vira.
Hermione parecia ter emagrecido dez quilos, os ossos dos ombros e rosto marcados sob a pele. De olhos fechados até parecia morta, a pele pálida e fina reforçando a impressão de Pansy. Estava maculada por hematomas roxos e amarelados, e duas manchas de sangue seco provenientes de seu nariz indicavam que ela havia sofrido bastante.
A sonserina apertou uma mão contra a outra, sua cabeça doendo terrivelmente, sem saber por onde começar. Nunca fora excepcionalmente boa em feitiços de saúde, e naquele momento não lhe ocorria nada melhor do que deitar ao lado da grifinória e morrer junto com ela. Por fim, Pansy se sentou no espaço que sobrava no colchão e fechou os olhos tentando se lembrar dos melhores feitiços de cura que conhecia.
Uma exclamação e um movimento defensivo foram o sinal de que Hermione havia acordado. A garota se encolhera ainda mais, se é que era possível, para longe da figura coberta. Ela não tinha como saber quem era, coisa que Pansy percebeu rapidamente.
- Sou eu. - Ela disse, o mais suavemente que podia; o que, naquela hora, não era muito. A morena ofegou algumas vezes, sentindo uma explosão de dor pelo corpo tenso. Meneando a cabeça, Pansy ponderou o que seria pior: deixar Hermione achar que ela iria torturá-la, dizer seu nome ou mostrar seu rosto.
Tentando a primeira opção, ela tirou a varinha da capa apenas para ver a garota deitada cerrar os olhos e os punhos com força e se retesar ainda mais. Bufando, ela abaixou o capuz e disse:
- Olhe para mim. - Nada mudou. - Olhe para mim, Granger. - Ela continuava da mesma forma, e Pansy se impacientou. - Será que você não lembra que eu disse que eu não iria te torturar? Olhe para mim, Hermione!
Apesar de seu tom agressivo, a grifinória abriu os olhos lentamente e visualizou os cabelos louros e a expressão desgostosa de Pansy. Não mudou sua posição e continuou na defensiva, mas pareceu um pouco mais atenta... Um pouco mais sã. Pansy, com os olhos distantes, continuou friamente:
- Agora preste atenção, garota. Eu vou fazer um feitiço para te deixar mais relaxada, vai diminuir a sua dor no corpo. Suponho que esteja com dor nele, estou certa?
- Está. - Hermione respondeu, rouca, os olhos castanhos fixos na outra. - E em outros lugares também, acho que quebraram meu nariz. Mas qual é a graça em aliviar a minha dor, Parkinson?... Seus colegas se empenharam tanto em provocá-la. - Pansy abriu a boca ligeiramente, surpresa, e não segurou seu pensamento:
- Até quase morta você responde com petulância, sangue-ruim? - Ela quase riu, mas rir não parecia uma coisa viável pelos próximos duzentos anos, então apenas apontou a varinha para a morena devagar para lhe lançar o feitiço. - Nervus Acquiescere. - Com um aceno, Hermione pareceu desabar, cada músculo do seu corpo relaxando e se rendendo ao cansaço. Ela suspirou, piscando lentamente, com a sensação boa que lhe percorreu.
- Você ainda não me respondeu. - Ela murmurou, sem se mover.
- Me mandaram fazer isso. - A sonserina respondeu, secamente, e continuou tentando puxar pela memória bons feitiços. Lançou um Tergeo para limpar o sangue da face da grifinória e um feitiço que sua mãe inventara para limpar alguém que não pode tomar banho, mas ainda não conseguia pensar em nada para consertar o nariz de sua refém.
- Episkey. - Hermione disse repentinamente. - Lance um Episkey no meu nariz. - Pansy ergueu uma sobrancelha, desconfiada, fazendo a outra rolar os olhos. - É só um feitiço de cura. - Ainda desconfiada, ela lançou o feitiço que fez o nariz de Hermione voltar imediatamente ao que era antes. - Eu estou com fome.
Pensando nas coisas mais energéticas que a grifinória poderia comer, Pansy conjurou uma tigela de mingau de aveia, que a outra comeu com avidez. Depois, macarrão com molho, carne, ovos, bacon e lingüiça formaram a primeira refeição da morena em mais de uma semana. Hermione comia quase como um animal, sentada ao lado de Pansy, que permanecia em silêncio.
Era surreal o que sua vida se tornara em cerca de meses. O som da respiração da garota ao seu lado e seus suspiros de satisfação pareciam debochar da dificuldade da loira em aceitar tudo o que estava acontecendo; um por um, os seus alicerces estavam desabando, puramente por culpa de alguém. E ela continuava seguindo as ordens desse alguém porque tinha uma maldita marca no seu maldito braço.
- Então quer dizer que você se juntou a eles, hein? - Hermione disse, de boca cheia. Queria descobrir por quê a outra estava ali, por quê tinha um semblante de extremo desgosto e por quê estava com cara de quem acabara de chorar. Como não podia fazer essas perguntas e obter respostas confiáveis, tentaria provocá-la até o limite, atiçá-la com perguntas inconvenientes. Se Pansy estava sendo ameaçada, era só uma questão de tempo fazê-la explodir - e então Hermione poderia conseguir sua liberdade. Se eu viver até lá, ela pensou.
- É o que parece. - Pansy replicou num resmungo, irritada por ter seus pensamentos interrompidos.
- Mas você não parece muito feliz. - A outra continuou, ainda mastigando a comida com prazer. - Não teve a recompensa que esperava por me capturar?
- Eu devia ter deixado você morrer, se você fosse calar a boca. - A loira replicou, sem tirar os olhos frios da parede. Hermione reprimiu uma risadinha amarga, já terminando o prato. Com certeza Pansy não tinha nem poder nem autorização para matá-la, ela não tinha com o que se preocupar.
- Você pode ser idiota, mas não é uma assassina. - Pansy finalmente a fitou, olhos estreitados, e a morena sustentou o olhar. - Eu sei e você sabe.
Repentinamente, a Comensal começou a rir abertamente, em gargalhadas. Desconcertada, Hermione desviou o olhar e, sem saber o que fazer, ficou em silêncio.
- A idiota aqui é você. - Pansy disse, em meio às risadas. - Tentando me provocar, me atazanar... Acha que sou burra, Granger? Acha que a sua inteligência de sabe-tudo vai te ajudar em alguma coisa agora?
- Não. Só acho que você parece muito infeliz. - A morena replicou baixinho, sem fazer efeito nenhum sobre a outra.
- Como se fosse da sua conta! Eu não tenho porquê estar infeliz, e você já vem deduzindo as coisas... Eu nem tenho mais como ficar infeliz, então cala essa sua boca e agradeça por eu ter vindo te alimentar! - Pansy continuou, fora de controle. Seu olhar era quase um rosnado para a outra, uma declaração de guerra. - Quem está sem saída nenhuma aqui é você, Granger. Quem não tem pra onde correr é você. - Ela completou, já totalmente séria.
Respirando fundo, Hermione ergueu os olhos para ela e respondeu num tom simplista:
- Tem certeza, Parkinson? Sou que não tenho pra onde correr ou é você? - O lábio inferior de Pansy tremeu, e ela saiu praticamente correndo do quarto. Jamais iria dar a Hermione o gosto de vê-la chorar.
Apenas podia especular se vira ou pensara ver Pansy Parkinson a ponto de chorar. Hermione deduziu que talvez os Comensais da Morte tivessem feito com a ela a mesma coisa que fizeram com Draco Malfoy, já que a garota parecia dividida entre o que queria e o que devia fazer. Ora, nada me faz pensar que ela não queira ser uma Comensal, ela pensou, exceto pela cara de choro.
O mais próximo que já vira Pansy chorar fora quando Draco ofendeu Bicuço e foi ferido; e ainda assim, ela parecia diferente. Agora, parecia se sentir enterrada num poço sem saída, entre o choque e o conformismo... E ainda assim, era a única chance de Hermione de sair do cativeiro. Mas a idéia de lidar com alguém psicologicamente instável era muito desagradável. Era ruim pensar que ela teria que tentar se virar do jeito que podia, e depender de uma Comensal da Morte transtornada. Era ruim pensar em jogar com Pansy até conseguir o que queria, e puxá-la até o seu limite.
Era ruim porque, por algum motivo misterioso, Hermione detestou ver os olhos inchados e os cílios molhados de Pansy.
ooo
Quando eu virei uma chorona? Pansy se perguntou, reprimindo o choro silenciosamente, no corredor estreito que separava o quarto de Hermione e a "sala comum", como era chamada, onde costumava ficar. Ela respirou fundo e tornou a se erguer, o rosto seco e o queixo apontado para frente. Atravessou o buraco que dava para a sala.
Parou num canto e permaneceu ali, fitando o chão. Ainda estava difícil acreditar em tudo aquilo, mas seu cérebro, inconscientemente, começava a arquitetar um plano para se vingar de Voldemort.
Apenas três dias depois ela se deu conta da chance que tinha em mãos: Hermione. A garota era tudo o que Pansy precisava naquele momento; ao mesmo tempo em que ela poderia ferrar os Comensais usando-a, a morena também poderia ser seu passaporte para o lado da Luz - e, em todo caso, garantia de sobrevivência.
Pansy às vezes aparatava para alguma cidade bruxa para ler um jornal; por mais que aquela guerra estúpida a desinteressasse, seria bom se manter informada. Todas as vezes, o fato de Hermione ter sido seqüestrada era uma notícia importante, mas, além dos eventuais desaparecimentos e mortes, nenhuma novidade diferente deixava Pansy alarmada.
Um dia, porém, ela pegou o jornal e viu algo na capa que fez um arrepio correr seu corpo: "Família Malfoy Desaparecida". Por quê alguém se importaria com eles?, fora o primeiro pensamento da loira, que estava assombrada. Rapidamente ela se deu conta de que os Malfoys ainda eram famosos no mundo bruxo, e que embora Lucius e Draco fossem Comensais da Morte, ninguém tinha certeza absoluta sobre Narcissa. Todavia, isso só agravava ainda mais as coisas, já que eles estavam desaparecidos a bem mais tempo do que o noticiado e agora seriam oficialmente procurados tanto pelos Comensais quanto pelo Ministério.
Não era nenhum consolo o ar de dúvida que o porta-voz do Ministério mantinha na foto: eles não sabiam se deviam procurar vítimas de Voldemort ou cúmplices. Cúmplices! Pansy pensou, irada. Como se Draco tivesse muita vontade de lutar pelo Lord das Trevas!
O que nem ela nem ninguém sabia é que quem mais estava investigando Lucius, Narcissa e seu filho eram Harry Potter e Ron Weasley.
ooo
Hermione pensou que iria se acostumar, conforme os dias iam passando. Mas a dor continuava intensa, os gritos continuavam altos... A única coisa que havia mudado era o temperamento de seus torturadores, que ficavam cada vez mais e mais irritados por ela não falar nada.
Por sorte, ela havia aprendido oclumência pouco antes de ser raptada; pouca coisa, mas o suficiente para barrar algumas tentativas de Comensais. Mas seu silêncio estava lhe custando um preço bem alto: estava há quase uma semana sem comer, e todos os machucados e escoriações que Pansy curara tinham retornado ao seu lugar. Além disso, estava com febre e sentia uma dor no seu estômago que jamais sentira antes; era quase como se ele estivesse se dissolvendo, constantemente e sem pausa.
Ela cogitou ter sido amaldiçoada, mas não conhecia em absoluto nenhuma maldição que fizesse aquele efeito – e, para piorar, estava morrendo de fome. No fim ela estava certa, Hermione pensou, desconsolada, eu estou mesmo ferrada. Pensei que ela iria aparecer mais vezes... Como eu queria que ela viesse me dar comida.
A dor no seu estômago se intensificou e ela teve impulso de vomitar, mesmo sem nada no estômago; Hermione virou para o lado, a cabeça para fora do colchão, e sentiu algo quente subir garganta acima e invadir sua boca. Antes mesmo de cuspir, ela já sabia o que era... Nem precisou olhar a mancha vermelha no chão, o gosto metálico do sangue já estava na sua boca. Vomitou sangue mais algumas vezes, a dor sempre piorando, pelo o que foram minutos, horas ou talvez dias, ela não sabia dizer com certeza. Dormiu algumas vezes, acordou e chorou um pouco, já sem esperança nenhuma.
Do outro lado da porta, Pansy tentava desfazer os feitiços de proteção que havia no quarto. Era como atirar no escuro; ela apenas tentava os contra-feitiços que conhecia, sem saber se funcionava. Estava totalmente decidida a tirar Hermione dali; aquele seria seu trunfo com a turma do outro lado. Eles nunca poderiam recusar asilo, se pedisse, se ela fosse a responsável pelo retorno da garota.
Que se ferrassem os Comensais, que se ferrasse Voldemort! Ela já não tinha muitas chances de viver sendo Comensal - e o que teria a perder? Seus pais com certeza estavam mortos, ela já não tinha seus amigos por perto, o resto de sua família estava distante e não dava a mínima para ela. Pansy já não podia confiar em ninguém, muito menos no círculo de Voldermort - exceto em uma pessoa. E era nisso que ela iria apostar todas as suas fichas.
Ela abriu a porta a tempo de ver o pior acesso de Hermione, e sentiu o sangue sair de sua face no mesmo instante. Fechou a porta e se prostrou ao lado da grifinória, tentando raciocinar com calma. Já não era apenas sangue; parecia uma massa disforme, como uma geléia, e Pansy fechou os olhos com força um momento. Merda.
A morena já não tinha força para se apoiar nos braços; estava jogada de bruços, apenas cuspindo o que lhe vinha. A dor se tornara tanta que ela estava delirando há algumas horas - podia jurar que vira Harry e Ginny se beijando, Snape sorrindo para ela, trepadeiras lhe envolverem como um cobertor. Sabia que eram delírios, mas não conseguia parar de visualizá-los... Era uma coisa bizarra atrás da outra, e a dor, a dor que quase a cegava. Agora, Pansy Parkinson parecia segurar sua cabeça entre os braços e passar as mãos nos seus cabelos devagar, murmurando que ela não podia morrer. Aquele delírio talvez ganhasse de todos.
O acesso passou, e a dor diminuiu bastante, fazendo Hermione suspirar profundamente. A loira apertou os lábios, agachada ao seu lado, as pontas do sapato tocando no sangue e os braços ainda sustentando a cabeça da sua refém.
- Você está melhor? - Pansy perguntou baixo. Será que a garota não podia arrumar uma hora melhor para morrer? Não ali, sob sua responsabilidade, não na sua frente... Não justamente quando ela iria tirá-la dali. Hermione voltou o rosto para cima, incrédula.
- É você? - Ela murmurou debilmente. - É você mesmo, Pansy? - A loira balançou a cabeça. - Você pode me curar? - A outra perguntou prontamente.
- Não. Sei que você foi amaldiçoada, mas não sei como reverter isso. Preciso tirar você daqui, você não pode morrer agora. - Hermione não fazia idéia de por que Pansy dissera aquilo, e nem se estava falando a verdade. Mas ela era a única forma de sair dali, então a morena tinha de tentar. Ela mordeu o lábio inferior e acenou com a cabeça, e Pansy a fez ficar de pé com muito esforço.
Andou com ela servindo de apoio até estar do lado de fora da porta, garantindo que não houvesse ninguém lá. Segurou a morena pelo braço com força, e mandou que ela se concentrasse o máximo que pudesse. Pansy, por fim, pegou a varinha e respirou fundo mais uma vez antes de desaparatar. Ela estaria rezando naquele momento, se acreditasse em Deus.
ooo
O único lugar no qual se podia aparatar em St. Mungus era na recepção. O que era bem óbvio, visto o rebuliço que estava ali; tudo havia ficado pior depois da guerra, ainda que ela não tivesse nem metade da violência que a primeira tinha. Pansy, apesar de não ser a única carregando alguém ferido, fora rapidamente notada pelo estado em que Hermione estava - e, pelos olhares que lhe lançavam, ela devia sair dali mais rápido do que chegara.
Apoiou a morena sentada no chão e desaparatou diretamente para sua casa. Por um momento, ficou imaginando o que faria se tivessem aurores ali, ou mesmo Comensais; mas não havia ninguém. A casa continuava da mesma forma que antes, desarrumada, vazia, fria e mórbida.
Pansy subiu as escadas, dessa vez devagar, e foi diretamente para seu quarto, que estava intacto. Queria deitar na cama e descansar um pouco, descansar mais a mente do que qualquer outra coisa - mas já não tinha vontade de morrer. Aliás, a vontade mais pura que estava era a de vomitar, já que não via uma coisa tão asquerosa e assustadora quanto o que Hermione cuspiu fazia tempo.
Ela foi até o banheiro e vomitou na privada, bem mais do que achava que tinha no seu estômago. Foi como se botasse para fora todas as coisas que a estavam envenenando, de uma só vez; mas não podia negar que Hermione não saía da sua cabeça. Pansy sabia exatamente o que ela tinha, embora não soubesse curar: era uma maldição modificada, que andava em moda ultimamente entre os Comensais da Morte por causar dor lenta e extrema.
Basicamente, nascia algo como uma sanguessuga dentro do estômago da vítima, que se alimentava do órgão e depois "regurgitava" tudo. Só pensar naquilo já era apavorante, ter então visto no chão o que Pansy sabia ser sangue e tecido provenientes da outra era demais... E diziam que a dor que a pessoa sentia era simplesmente insuportável. Se a maldição não fosse revertida, o processo continuava até a vítima morrer de hemorragia.
Pansy só esperava que os medi-bruxos soubessem como a reverter, já que era magia negra forte - e se Hermione morresse, nada daquilo valeria a pena, nem o sacrifício de Pansy, nem o sofrimento da outra. A loira levantou e lavou o rosto na pia, escovou os dentes e se olhou no espelho pela primeira vez em quase duas semanas.
Não estava muito melhor do que a própria Hermione. Sua pele estava amarelada, olheiras nos seus olhos e os lábios brancos lhe deixaram parecendo uma vampira. Parecendo morta. Talvez o que realmente devesse estar.
Mas estava decidida a sobreviver, mesmo que fosse de pirraça. Ela entrou no quarto e começou a fazer uma mala, enfiando roupas, sapatos e fotos de qualquer jeito na mala magicamente aumentada. Convocou as jóias que sua mãe tinha no quarto com um Accio, sabendo que não conseguiria entrar lá novamente, e viu uma caixa voar até ela.
Abriu a caixa com delicadeza, e pegou um colar de pérolas que havia nela. Sua mãe amava aquele colar, sempre que podia estava com ele, mas seu pai o detestava. Ele dizia que, desde muito antigamente, acreditava-se que pérolas só podiam pertencer a quem fosse puro de coração; do contrário, trariam lágrimas e desgraça a quem as possuísse. Pansy franziu as sobrancelhas, temendo voltar a chorar, e segurou o colar com força na mão. Talvez seu pai estivesse certo.
Engolindo em seco, ela guardou com cuidado o colar e a caixa na mala, a fechou e foi para frente do espelho que havia sobre a sua cômoda, com a varinha em mãos. Podia não ser exemplar em feitiços de cura, mas podia se vangloriar de ser ótima em Transfiguração.
Com alguns acenos de varinha, ganhou cabelos castanhos compridos, rosto ligeiramente mais gordo e olhos arredondados como nozes, também castanhos. Tornara-se um tipo comum, que passaria despercebido com facilidade. Guardou a varinha no bolso interno do casaco leve, já que era verão, pegou a mala que estava leve graças à magia e saiu de casa a passos longos e dignos, sabendo que não voltaria a pisar ali tão cedo.
ooo
Fosse qual fosse o motivo para Harry e Ron perseguirem os Malfoys, este fora esquecido quando uma enfermeira reconheceu Hermione e avisou Molly, fazendo o que havia sido pedido pelos aurores. Os primeiros a se prostrarem ao lado da cama da morena foram ela, os pais da garota, Arthur e Ginny, mas não demorou muito para Tonks se juntar e começar a chorar junto com as duas Weasleys.
Pansy, por sorte, estava errada em duvidar da capacidade dos medi-bruxos; eles sabiam exatamente o que Hermione tinha e sabiam como curá-la. Assim que ela chegou, desmaiou e foi levada para um leito, acordando novamente só para ter mais uma crise; já estava sem os hematomas e machucados, mas só ao ver o sangue o medi-bruxo já soube que maldição ela tinha. Reverteram a maldição e deram-lhe inúmeras poções para acelerar a recuperação de seu estômago.
Ainda estava fraca e com fome, mas não podia comer durante algumas horas. Então Hermione dormiu, e permaneceu assim nove horas seguidas, num sono maravilhosamente pesado e sem sonhos.
A luz feriu seus olhos quando ela os abriu, sonolenta, dificultando sua visão. Depois de algum tempo, Hermione identificou seus pais, boa parte da família Weasley ao redor de sua cama, Harry, Remus e Tonks lhe sorrindo. Ah, meu Deus, obrigada... Ela pensou, seus olhos com lágrimas que não eram de dor, abrindo um sorriso tonto.
- Como está se sentindo, srta. Granger? - O medi-bruxo apareceu ao seu lado, sua face franzida e séria.
- Estou... - Ela pigarreou para responder. - Acho que estou bem. Sem dor, mas com muita fome. - Ele balançou a cabeça, anotando alguma coisa numa prancheta.
- Daqui a pouco você poderá comer. - Alguma enfermeira chamou alto pelo Doutor Goldblum, visto que o medi-bruxo se virou, alarmado. - Com licença, vou deixá-la com seus amigos. - E saiu de perto a passos largos e rápidos, com a postura de quem carrega o peso do mundo.
Sua mãe foi a primeira a se atirar sobre Hermione, sem saber se ria ou se chorava, fazendo a morena a abraçar com força. Quase nada no seu corpo doía; os músculos estavam um pouco sensíveis, mas sem machucados. Depois dela, Ron se adiantou e a beijou na boca - para surpresa sua e de mais ninguém - e lhe sorriu o maior sorriso que ela já o vira dar. Ele e Harry pareciam irremediavelmente felizes.
Nos seus olhos azuis estava estampado o alívio e ela percebeu o quanto estava aliviada também de vê-los todos ali. Era como estar de volta para casa, retomar a sua vida... Porém, ainda que estivesse muito feliz, alguma coisa não se encaixava. Hermione, por fim, balançou a cabeça e esqueceu o assunto, tentando decidir se beijava todos ali, se ria, se conversava ou se pedia um bom prato de comida.
Tinha tempo de fazer tudo. Tinha todo o tempo do mundo, mesmo tendo a consciência de que, no meio de uma guerra, ninguém sabia ao certo quanto tempo lhe restava.

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