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11. I Don‘t Care At All


Fic: Yellow - Dramione


Fonte: 10 12 14 16 18 20
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Porque um jornal, mesmo que mentiroso e sensacionalista, não pode jogar uma bomba como o namoro de Draco Malfoy e Hermione Granger e isso passar despercebido por Hogwarts, ora. Nem por qualquer outro lugar em que saibam quem nós somos. Seria pedir demais, admita". Essa era uma das muitas divagações de Hermione que iam embora devagar. Ficavam tempo suficiente para fazer sentido, fazê-la sentir algo e evanescer. Fragmento por fragmento ia embora, até não sobrar nada e outra ideia roubar-lhe o lugar. Para uma mente ativa como a dela, não encontrar soluções era angustiante. A solução se chamar paciência também não era a melhor coisa. Teria que lidar com sua frustração de qualquer jeito, e saber a resposta não era a mesma coisa que aceitá-la, simplesmente por que uma solução lógica não pode ser aplicada a um problema emocional.


E emoção era o seu problema, pois para ela, qualquer coisa que remetesse a sentimento significava Draco Malfoy. O garoto com nome no céu que costumava fazer de sua vida um inferno, o próprio. Draco, o garoto loiro com vestes escuras e a constelação. Exatamente ele. E talvez por causa dele, estivesse sendo desprezada. Mas não só pelo sonserino, dessa vez Hogwarts se uniu nesse propósito. “O mundo se esquece rapidamente da bondade”, pensou.


Ela conjurou uma colher e mexeu displicentemente seu suco de abóbora, mesmo sabendo que não havia necessidade. Gesto tão pouco prático quanto se enfurecer com o tal Nathan Braddock, o maldito repórter. Pouco prático, mas não desnecessário, já que ela tentava não se descontrolar e mandar tudo às favas, mandar cuidarem da própria vida. Executar o gesto inútil a impedia de fazer exatamente isso. Porque as pessoas - de início os grifinórios - a estavam hostilizado silenciosamente. Principalmente as garotas, as que não a ignoravam preferiam falar mal ciente que Hermione estava no recinto, mas fingindo que não.


As pessoas de outras casas a olhavam estranho, até mesmo alguns professores. E era justamente aí que Draco Malfoy se encaixava, ele era a razão. O suposto namoro entre eles era. Pois as pessoas que estavam ali acharam imperdoável a Princesa da Grifinória namorar o Príncipe da Sonserina, simplesmente um ultraje. Ah, se soubessem como ela se sentia...


Era incompreensível o motivo que levou dois jovens que jamais se deram bem a assumir um relacionamento em público de uma hora para outra, deveriam pensar. Estaria alguém submetido a algum feitiço ou poção? Era uma possibilidade, isso sim fazia sentido. Não era crível que Draco Malfoy a fizesse sentir coisas boas, o tipo de coisa que sentimos ao namorar. Certo? Incerto. Ninguém sabia o que houve, mas seja como for não gostaram da novidade. A garota foi tratada mal pela grande maioria da escola, a revolta era quase unânime. A reação quando dizia respeito a ela era essa, para o sonserino não totalmente. Zangada como estava, Hermione não notou que o garoto também não gostou da novidade e sofria a seu modo. De modo geral, ele sofria o mesmo tipo de coisa, mas um pequeno grupo de garotas dando atenção ao sonserino a fazia pensar o contrário.


Desde o fim da guerra os Malfoy dividiam a opinião da sociedade. Do mesmo modo que algumas pessoas achavam que todo mundo merece uma segunda chance na vida, havia quem achasse que os três deveriam estar mortos. Draco, por sua vez, ficou furioso ao ponto de se afastar tanto de Hermione, quanto dos próprios amigos. Seus sentimentos em relação a garota eram fortes, e isso o deixava confuso. Mesmo sem a ordem disfarçada de pedido dos pais, ele não era muito fã de se aproximar dela em público. Já se sentia tão humilhado, inclusive pela própria consciência, que preferia não interferir na vida da garota e ouvir um belo e sonoro não. Mesmo arrependido pelas coisas que fez, aquele ainda era Draco Malfoy, o orgulho já era uma característica inerente do seu ser.


Saber que por um ato “heróico” dela estava recebendo cada vez mais olhares não era a melhor coisa para ele que já era inclinado a manter distância. As pessoas cochichavam quando o garoto passava, mas Draco ainda as podia ouvir dizendo que ele estava com Hermione por interesse, somente para limpar sua imagem. Que ele estava se submetendo a ter um relacionamento com uma nascida-trouxa - não qualquer uma, Hermione Granger - para parecer digno da absolvição do Ministério da Magia. Com exceção de um certo número de garotas, a escola inteira demonstrava o odiar.


O garoto Malfoy mantinha sua fama de conquistador desde muito cedo, havia quem achasse que era o queridinho das garotas. Até onde isso seria só falácia? É difícil definir, boatos são coisas imprecisas. O fato é que as garotas não admitiam que o garoto mais disputado da escola subitamente aparecesse namorando alguém que sempre odiou. Uma garota como a Granger não poderia ser digna, até mesmo por que Draco nunca a considerou digna sequer de estudar ali. Então por que isso? Além de não fazer sentido era uma afronta pessoal a cada uma delas.


A reação de muitas garotas foi provocar o sonserino para provar a si mesmas que não eram inferiores à menina que já tinha honrarias demais. Draco foi visto como troféu e se tornou um brinquedo cobiçado aos olhos daquelas pobres crianças tolas, apesar da reputação arruinada dos Malfoy. Então se de um lado a grifinória sofria desprezo por se deixar conquistar por um canalha, por outro Draco era alvo da atenção feminina disposta a desbancar Hermione Granger em alguma coisa. Combinação com risco de deixar alguém magoado.


- Mione, você está bem? - Neville Longbottom lhe tocou a mão e arrancou seus devaneios.


- Neville. - A boca sorria, os olhos não. - Como vai? 


"Bela técnica, Granger. Responder com uma pergunta para não mentir", ela saudou-se mentalmente. Mas por que infernos se chamaria pelo sobrenome ao pensar? Sua consciência estava consumindo muito daquele garoto estúpido, a última coisa que precisava era falar ou pensar como ele.


- Tudo certo. É só que... bem... - Ele não parecia saber muito bem como prosseguir.


- Pode falar. - Ela sustentou seu olhar para demonstrar confiança. - O que foi?


- Eu sei que não é da minha conta nem de ninguém, mas vai deixar que te tratem desse jeito? Está na cara que essa notícia é falsa. Eu estava na sala, lembra? O professor praticamente nos ameaçou para não nos separarmos do grupo que ele escolheu. Isso só não me parece muito justo.


Hermione suspirou, mexeu seu suco de abóbora mais uma vez e tomou um pouco dele na colher como se fosse sopa. Olhou para a mesa da Sonserina e disse ao ver novamente a cena que se repetia há alguns dias.


- De fato, não me parece muito justo mesmo.


Draco estava rodeado de garotas mexendo no cabelo, fazendo caras e bocas, tentando parecer atrativas. Ou em uma linguagem mais clara, se insinuando. Era mesmo muito hipócrita um mundo onde a garota era tida como errada e o rapaz era visto como prêmio. Eles negaram o envolvimento, é claro, mas as pessoas acreditavam no que queriam.


- Pretende fazer alguma coisa? Se precisar de alguma ajuda não hesite em me chamar, me deixa agoniado te ver assim.


- Assim como?


- Não sei bem. Calma?


Agora sim um sorriso verdadeiro.


- Não se preocupe, está bem? Só ando cansada ultimamente. Preciso de ao menos uma semana sem que nada bizarro aconteça e então posso voltar ao normal.


- Espero que volte mesmo.


Ele sorriu, se levantou de seu lado e foi para a mesa de Luna falar com a amiga. Hermione estava sozinha ali, pois Gina e Harry estavam namorando e Ron decidiu simplesmente desaparecer. A relação deles estava estranha, é verdade, mas pelo menos Ron era familiar. Ainda lhe daria um tipo de segurança estar com o ruivo a seu lado mesmo que só conversassem trivialidades do que ficar sozinha ali recebendo olhares atravessados de toda a escola. Decidindo se focar no que importa, os estudos, ela se pôs a caminho da biblioteca até dar o horário da aula de Poções em conjunto com a Lufa-Lufa. Felizmente não seria com a Sonserina, não queria lidar com o burburinho agora.


Faltavam cerca de dez minutos para a aula começar, mas ela já aguardava em frente a sala. Quando o professor Horácio Slughorn apareceu e autorizou a entrada, Hermione sentou na primeira fileira e esperou que a matéria fosse aplicada para poder se distrair. Os alunos se acomodavam nos lugares conforme chegavam, mas evitando Hermione. Exceto um garoto da casa amarela.


Maximilian Roger Owens era um rapaz até certo ponto comum. Foi capitão do time de Quadribol da Lufa-Lufa, mas devido ao grave ferimento durante a Batalha de Hogwarts, preferiu ceder o lugar a outra pessoa. Agora narrava os jogos, mas não era a mesma coisa que jogar. Mestiço, filho de pai bruxo e mãe trouxa, ambos mortos. Seu pai morreu em sua frente, não era uma história agradável. Lembrou-se de como foi.


Ele estava desacordado e com um grande bloco de pedra esmagando seu pé esquerdo e parte de sua perna. As roupas agora não passavam de andrajos, e estava todo sujo de fuligem e sangue. Vez ou outra pessoas passavam pelo local em que estava, mas Max parecia morto a quem porventura o notasse. Não soube quanto tempo passou desde que desviou por muito pouco do feitiço de Bellatrix, mas agora sua consciência estava começando a voltar.


Ao contrário da maioria das pessoas que souberam o que acontecia em Hogwarts naquele dia, o Sr. Owens tentou aparatar na propriedade, obtendo êxito. Após muito desespero com a possibilidade de seu filho estar morto, ele enfim o encontrou. Ele tentou levar o filho para casa, porém Maximilian Owens era um autêntico lufano, era essencialmente generoso e leal. Não deixaria que seus colegas perecessem e o mal triunfasse. Pediu para Guido ir para casa e se protegesse, mas o pai se recusou...


Explosões, lembrava de explosões. Mas ainda não era isso, forçou um pouco a memória e lembrou que a movimentação ficou mais intensa, então já que não iriam embora juntos, não iriam naquela hora. Duelaram com algumas pessoas, inclusive Comensais da Morte, e em algum momento se perderam na confusão. Agora sim, um duelo e ele foi para outro corredor. Bellatrix Lestrange o perseguiu com sua voz estridente e lançou um feitiço. Max por pouco conseguiu desviar, mas a parede que estava bem atrás de si explodiu, fazendo as pedras caírem em cima dele. Com a varinha quebrada e inconsciente, Max não ouviu Bellatrix se gabar por ter matado outro lufano. Mas Guido sim, quando a Comensal foi embora ele gritou em desespero enquanto procurava o filho perto de onde ela estava.


- Max! - O Sr. Owens disse quando o viu, o filho estava voltando a consciência.


Mesmo sem seus óculos, o garoto viu um Comensal da Morte a pelo menos cinco metros de seu pai dizer como quem dá um bom dia entediado.


- Avada Kedavra.


E então seu pai era só um corpo, não havia o sorriso que tinha quando o viu, não haviam lágrimas, não havia vida. Era só um pedaço de carne morta e ossos. Guido morreu, e ele estava atônito. O Comensal virou as costas antes que o corpo de seu pai batesse no chão e foi embora. Já Max não conseguia se mexer, não só pelo trauma que teria pelo resto da vida. Não sentia muito de seu corpo, e o que sentia estava doendo. Não soube naquela hora, mas o pé e um quarto da perna esquerda haviam sido esmagados como resultado da explosão, e consequentemente, as grossas paredes que caíram em cima dele.


Então ficou ali por horas e horas esperando a morte chegar, já não se importava mais. Fitava o teto, os olhos fixos e chorosos. Seu último esforço seria para lembrar da família, principalmente do pai. Não conseguia focar em bons momentos, aqueles segundos que representavam a morte de Guido voltavam a sua mente como um círculo. Max não faria questão de parar de repetir isso em sua mente, se tivesse algum controle.


Então em algum momento, várias pessoas que foram suas aliadas no lado que decidiu lutar apareceram e Hermione Granger o viu. Chamou alguém para ajudá-la a tirar tudo aquilo de cima do garoto. Max jamais soube quem ou quantos, só se lembrava da grifinória por que ela não parava de tentar consolá-lo. Ainda assim só lembrou dela dias depois de retornar a Hogwarts, a memória voltando em flashes até que sua mente revelasse quem o ajudou. E assim o pai de Maximilian Owens morreu em sua frente, mas ele sobreviveu.


Hoje usava uma prótese substituindo o pé esquerdo e metade de sua canela. Uma amiga da família tinha contatos importantes entre os trouxas, conseguindo assim a doação. Sem o pai, o baixo padrão de vida que já estava acostumado desceria um pouco mais. Mas essa não era a parte mais lastimável da história de Max, definitivamente não.


- Com licença, se importa se eu sentar aqui? - Ele perguntou e aguardou a resposta da garota.


Todavia, Hermione só soube de tudo aquilo depois, pois sequer prestou atenção quando levantou os olhos na direção dele. Se tivesse feito isso com um mínimo de interesse, teria notado que ele parecia ser ligeiramente mais alto do que ela, que por trás do óculos quadrados haviam olhos assim como os seus, castanhos, só mudando ligeiramente a tonalidade. Naquele momento antes de conhecê-lo de fato, não notou que o cabelo que ia até a nuca do rapaz, era assim como ele, indefinido. Uma espécie de loiro escuro mais puxado para o marrom que ela não notou, pois estava mais interessada na leitura. Ela ignorava que ele tivesse uma história tão triste, pois já tinha os próprios problemas para se preocupar agora.


- Fique à vontade.


O garoto sentou-se e tirou os materiais da bolsa que carregava. O assobio era familiar a Hermione, mas ela não perguntou nada ao lufano sobre isso. Horácio Slughorn entrou na sala e saudou a todos enquanto se organizava. Tirou um pergaminho da pasta que carregava, ao terminar de ler o professor se pronunciou.


- Muito bem, jovens. Antes de explicar os poderes medicinais atribuídos a poção que faremos hoje, tenho um recado da nossa diretora para passar a vocês. Depois do almoço haverá um jogo misto de Quadribol, o prêmio para as casas vencedoras só será revelado após o término da partida.


Muitos alunos ficaram animados com a novidade, mas algo não passou despercebido a Hermione, que levantou a mão.


- Senhorita Granger...


Casas, professor?


- Naturalmente. Corvinal e Lufa-Lufa contra Sonserina e Grifinória. Mas eu gostaria de deixar as coisas claras sobre a bonificação aos vencedores. McGonagall deixa uma exigência muito bem definida... “O prêmio só será válido caso o jogo termine em clima de harmonia”. - Ele citou.


As reações a tal novidade variou de aluno para aluno. No geral, os lufanos não se preocuparam muito, pois tratavam bem todas as casas. Só esperavam conseguir vencer os adversários, pois separadamente eles eram muito bons.


Os corvinais não estavam naquela sala, mas tinham um pensamento parecido ao receberem a notícia. Todavia, a conclusão deles sobre os outros era a seguinte: Grifinórios e sonserinos poderiam ganhar em um piscar de olhos ou se aniquilar sozinhos. Tinham excelentes jogadores, mas a segunda opção era a mais provável. Enquanto os leões se baseavam nos sentimentos, as cobras eram regidas pela arrogância. Nada disso ajuda em um jogo de Quadribol, então sim, Corvinal ganharia. Eles eram perfeitamente capazes de jogar com estratégia e companheirismo em parceria com os lufanos. 


Para Hermione aquilo não importava, tinha medo de altura e só ia aos jogos para torcer pelos amigos e se certificar que ficariam bem. Depois de conhecer Viktor Krum tentou analisar o esporte para entender melhor o rapaz, mas uma dúvida sobre todos eles persistia. Como podiam ser loucos de gostar de uma coisa tão perigosa? Decidida a não fazer tantas conjecturas sobre o gosto alheio foi que ouviu seu colega.


- Deve estar aliviada, não é mesmo? O seu time e dos seus amigos jogará com seu namorado, e não contra. Deve ser bom não estar dividida.


"Ah, não. Outro não. Será que tudo é motivo para falarem sobre o Malfoy comigo?", ela pensou. Se surpreendeu ao perguntar para o garoto que mal conhecia o que gostaria de falar para a escola inteira.


- Você acha mesmo que de todas as pessoas do mundo eu namoraria logo Draco Malfoy? - O jeito inconformado de falar da garota fez Owens levantar uma sobrancelha.


- Sinceramente? De forma alguma. O Profeta Diário não é a fonte mais confiável do mundo bruxo, mas eu não te conheço o suficiente para saber.


A grifinória então deu um sorriso confiante e estendeu a mão ao garoto.


- Muito prazer, sou Hermione Jean Granger. - Enquanto apertava a mão do lufano ela continuou a falar. - Dezoito anos, cabelos e olhos castanhos, como pode ver... Pertenço a casa dos nobres de coração, amo chocolate, ler e não pretendo namorar Draco Malfoy.


- Muito bem. - Ele sorriu ao dizer. - Te conheço de vista, é claro. E a propósito, nunca te agradeci devido ao choque, mas aceite meus agradecimentos atrasados. - E então levantou a barra da calça, mostrando parte da perna esquerda. O sapato era normal, o padrão dos estudantes de Hogwarts. A diferença era que em vez de ter uma canela em cima dele, só havia metal. O garoto usava uma prótese trouxa e ainda sorria quando se apresentou, assim como a grifinória boquiaberta havia feito há pouco. - Sou Maximilian Roger Owens, mas pode me chamar de Max. Faço primaveras no inverno, mais especificamente dia onze de fevereiro... Gentil e leal, filho único e amante de Quadribol. Bom, realmente amante por que agora é meu amor proibido. - Ele riu novamente e completou. - E claro, muito grato a você por ter me tirado de baixo de um desmoronamento.


- Merlin, me desculpe. Eu não o reconheci de imediato. Eram tantas pes...


- Muito bem, abram seus livros na página quarenta e dois, estou curioso para saber como se sairão em duplas. E tenham cuidado, a poção de hoje é muito perigosa! - O professor Slughorn disse verdadeiramente animado em lecionar novamente. Agora com o ex-aluno maquiavélico morto, pôde ter sua liberdade de novo.


- Não se desculpe, Granger. - A voz de Owens não passava de um sussurro, audível somente para Hermione. - Eu mesmo não sabia que foi você a me ajudar, o choque foi muito grande. Descobri quando voltei para a escola.


- Oh, Owens, eu sinto tanto.


- Obrigado, mas acho que de uma forma ou de outra, todos perdemos. A vida, alguém que amamos, a sanidade… É um mundo difícil e sempre será. Mas por favor, me chame de Max. É tão impessoal o uso dos sobrenomes entre colegas.


- Claro. - A garota não pôde refrear um sorriso ao lembrar com carinho de seu pai, que sempre detestou formalidades. Se Max fosse um ser humano tão bom quanto o senhor Granger, Hermione havia acabado de fazer um excelente amigo.


Os dois se divertiram preparando a poção, por mais que não falassem de nada pessoal. Diante de uma recomendação de Hermione e um franzir de cenho de Owens, ela explicava alguma coisa referente a matéria.


- Esqueci minha adaga de prata, pode me emprestar a sua, Owens?


- Só quando se desculpar pela ofensa. - Ele sorriu e afastou a adaga.


- Desculpe, Max. - Ela se retratou. - Você me lembra meu pai, sabia?


Todo o humor sumiu do rosto do garoto que agora mirava Hermione como se ela tivesse lhe dito as palavras mais incompreensíveis do mundo. Se para ela as palavras Draco Malfoy significavam sentimento, para ele qualquer coisa que remetesse a família, ou especificamente a seu pai, lembrava sofrimento. Claro, a garota não soube na hora, mas se preocupou mesmo assim. Max ser comparado a um pai o fez sentir uma coisa nova, uma emoção nunca antes sentida, até por que Hermione foi a primeira pessoa a fazer uma comparação do tipo. Ele amava Guido e sempre amaria, mas o que aquela grifinória disse, mesmo sem saber como ele interpretaria, o fez ter um certo respeito por ela.


- Meu pai, sabe… - Ele pigarreou. - Sinto muito, eu realmente não quero falar sobre isso.


Então pegou a adaga que repousava a seu lado e deixou no meio da mesa, fingindo ler o livro de Poções. Hermione reparou que após alguns minutos ele continuava na mesma página com o olhar vidrado. Max não estava ali, estava no passado. Como ele fez a maior parte do dever e foi bem participativo na aula - já que Hermione continuava melancólica por achar que cem por cento da população feminina de Hogwarts estava dando em cima de Malfoy - ela o deixou em paz. Sabia que tinha feito besteira, mas não sabia exatamente qual. Tinha uma vaga noção, mas não era certo perguntar “E aí, garoto que eu acabei de conhecer… Está triste por que seu pai morreu ou algo assim?”. A verdade poderia ser até mais cruel, o pai dele poderia ser a pior das criaturas aos olhos do garoto. Hoje definitivamente não era seu dia, Hermione pensou. Tentou puxar papo com o garoto uma única vez, mas desistiu ao não obter êxito. A aula já chegava a seu fim, e o estado catatônico de Max não.


E então, distraída como estava pensando em tantas coisas, não percebeu quando sua expressão começou a se alterar e a mão que mexia delicadamente a poção aumentou a velocidade gradativamente. Sequer ouviu sua dupla a chamando antes de um jato da mistura fervente escapar do caldeirão, queimando sua barriga.


- AI! - Gritou Hermione ao se curvar, visando inconscientemente proteger a área afetada. A dor era tanta que em um segundo ela já estava debruçada sobre a mesa, tentando não gritar mais. O problema não era a temperatura em si, até por que aquela não era uma queimadura comum. Se seus sentidos não tivessem embotados pela dor, a grifinória lembraria que a semente de urticária com a quantidade certa da seiva bruta de vagem sudorífera é uma mistura extremamente corrosiva. A mão que pressionava o ventre foi retirada pelo amigo preocupado, que havia conjurado um pano molhado em uma espécie de pomada e imediatamente pressionou na pele ferida perto do umbigo.


- Hey, sabe uma curiosidade que eu sempre tive? Por que "tudo junto" se escreve separado e "separado" se escreve tudo junto? A origem de algumas palavras é um mistério para mim.


- O quê? - Ela perguntou completamente perdida.


- Sim, é verdade. Como será que as pessoas decidiram o nome das coisas? Outra questão importante, mesmo não sendo uma questão, é a seguinte: imagine o primeiro ser humano que viu um caranguejo coberto de lama e pensou que se fervesse o bicho ele ficaria gostoso.


- Do que você está falando? - A garota perguntou com uma voz gutural. Não percebeu que a sala inteira a observava com apreensão. O próprio professor olhava a cena sem entender muito bem.


- Por Merlin... - Slughorn disse.


- Temos sua autorização para ir à Ala Hospitalar, professor? - Max disse já passando o braço de Hermione por cima de sua cabeça e a levando em direção a saída, enquanto a outra mão ainda pressionava o machucado. Quando estavam no meio da sala ouviram a resposta.


- Sim, senhor Owens. Muito obrigado.


Quando estavam no corredor o garoto voltou a conversar com Hermione.


- Conhece a história do mago com o coração peludo?


- Sim. - Ela estava consideravelmente mais calma. Sua sorte foi a agilidade do amigo, que tanto contrastou com o jeito amuado do mesmo há pouco.


- Então finja que não. Minha tia costumava me contar de um jeito único, você nunca mais verá do mesmo jeito. - Max pôs-se a misturar histórias para distrair a garota, que percebia e tentava o corrigir. Conforme via que não adiantava muito contrariá-lo, entrou na brincadeira, chegando até a formular teorias sobre os personagens. A dor que outrora era excruciante se abrandou, e ela percebeu que Max ainda segurava seu bálsamo. Chegaram na entrada da Ala Hospitalar, mas não estavam sozinhos.


Malfoy segurava a mão de uma mulher sentada em uma cadeira, olhando atentamente Hermione pôde ver que era a professora de Estudo dos Trouxas. Talvez a voz de seu pensamento o tivesse chamado tão alto que o garoto se virou. Subitamente ela parou, como se tivesse sido pega no flagra, mas o caminhar de Max a fez continuar como se nada tivesse acontecido. Draco mal percebeu, pois o incômodo de vê-la praticamente abraçada ao desconhecido foi suplantado pela constatação que estava ferida.


- Mas o que p... - Ele balbuciou. Os outros dois entraram no recinto, com Max já chamando a responsável.


- Madame Pomfrey! Madame Pomfrey, onde a senhora está?


- Não grite, idiota. Não vê que ela está passando mal? - Draco não se referia a curandeira-chefe, e sim a mulher que acompanhava.


- Desculpe, senhora Lewis. Venha, Hermione, eu cuido disso. - Owens fez menção que a levantaria no colo, mas de súbito pareceu lembrar de alguma coisa. A perda de parte da perna era recente, ele não estava inteiramente acostumado. Olhou para baixo e com um suspiro pediu que se sentasse em uma maca. Draco olhava aquilo ultrajado. Nunca viu aquele lufano na vida, e de repente ele aparece nessas circunstâncias, inclusive chamando Hermione pelo primeiro nome? Só podia ser brincadeira! E ainda teve a audácia de o ignorar completamente. Conforme o garoto conversava com Hermione em sua tentativa de acalmá-la, Draco notou como ele puxava ligeiramente a perna esquerda. No que Max levantou parte da blusa de Hermione, o sonserino não aguentou.


- O próprio Filch cuidando da sabe-tudo, que meigo.


- Estupefaça! - Bradou o lufano. Uma luz vermelha saiu da varinha do garoto e uma exclamação da boca de Hermione. O feitiço acertou Draco em cheio, que bateu com violência na parede e desmaiou. Hermione desceu da maca sofregamente, mas ignorou a dor. Na parte traseira da cabeça do sonserino, o vermelho maculava minimamente o platinado. A garota pensou em algo sobre anjos caídos antes de exclamar.


- Droga, Max! - E se virando para o loiro inconsciente completou. - Droga você também, Malfoy. É incapaz de respeitar? Rennervate. - Murmurou o contra-feitiço, o fazendo acordar.


- Eu não deveria ter feito isso. - Max falou para si.


- Não mesmo, querido. Vou ter que chamar os pais dos dois agora. - Minerva McGonagall não parecia nada feliz ao entrar no recinto. - Papoula, vim pegar uma poção para dor de cabeça, mas vejo que está ocupada. Por que estão todos aqui?


- Eu estou grávida, Minerva. Não é incrível? - Suzan Lewis, atual professora da matéria Estudo dos Trouxas, disse emocionada.


- Não se esqueça que precisa de cuidados, Suzan. É uma gravidez de risco, você precisa de repouso absoluto. Deveria ir até o St. Mungus o mais rápido possível. - Madame Pomfrey a lembrou ao voltar do armário em que ficavam guardadas as poções.


- Meus parabéns, querida. Posso procurá-la mais tarde?


- Com certeza.


- Está combinado. E quanto aos outros três? Senhorita Granger, os senhores Potter e Weasley estavam ocupados hoje?


- Eu me distraí e um bocado de poção veio em minha direção, diretora. Max cuidou do ferimento na hora e me trouxe até aqui.


- Pois bem, e onde o senhor Malfoy se encaixa na história?


- Eu desmaiei no corredor e ele impediu que eu caísse no chão, Minerva. Quando acordei estava aqui e descobri que seria mãe. - A professora de Estudo dos Trouxas respondeu pelo sonserino ainda tonto.


- E como se não bastassem as duas precisando de cuidados, ainda há um duelo aqui? Por favor, em somente uma aula vocês conseguem fazer toda essa bagunça...


- Eu me descontrolei, senhora. Hermione não tem nada a ver com isso.


- Certo, senhor Owens. Há algum parente seu que se responsabilize por esse tipo de comportamento?


- Não tenho parentes vivos.


- Mas certamente há alguém que se preocupe com o seu bem estar, não é mesmo?


- Tem uma amiga da família, uma tia de consideração… Rosemary Palmer.


- Pois muito bem, senhoras e senhores. Parabéns a você, Suzan, espero que seu filho nasça com toda a saúde do mundo. Vou pedir a Hagrid para acompanhá-la ao St. Mungus, tomara que ele já tenha acabado sua tarefa na Floresta Proibida. Vamos, vocês irão pela lareira da minha sala. - Ela sorriu para a mulher quando ela se levantou e pôs-se a seu lado, mas ao encarar os outros ali a expressão de simpatia da diretora se extinguiu. - Papoula, cuide da senhorita Granger e do senhor Malfoy, sim? Vou convocar os Malfoy e a senhora Palmer para uma reunião com dor de cabeça mesmo.


Quanto mais as mulheres se distanciavam, maior era a compreensão dos garotos que a situação não era boa.


 


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