Lily acorda naquela tarde por volta de 18h, ainda na sua forma de corça, e ainda no cercado do Mercúrio. Achando melhor se transformar de volta, e retornar ao castelo, antes que o Hagrid fosse buscá-la, ela diz para o Mercúrio que ela já volta, e levanta-se, e pula graciosamente pela grade do cercado, correndo na direção da floresta. Tendo certeza que ela está fora da visão da cabana do Hagrid, ela se transforma de volta em Lily Evans, próxima ao lago, e começa a caminhar de volta ao castelo, quando ela tem uma idéia repentina, e se dirige de volta a cabana do Hagrid.
Ela bate na porta. “Hagrid? É a Lily.”
Ela ouve movimento no lado de dentro. “Espera um minuto.” Vem a resposta do Hagrid, aparentando estar bem preocupado.
“Tarde, Lily!”
“Boa tarde, Hagrid!”
“Entra, entra.” Ele diz, segurando a porta aberta com uma mão, e acenando para ela entrar com a outra.
“Está fazendo alguma confusão essa tarde, Hagrid?”
“Claro que não, só estou cozinhando um pouco do meu famoso muffin de amora com hortelã. Eu estava justamente retirando eles do forno quando você bateu. Quer um?”
“Hortelã?...” Ela pergunta, incerta.
“Isso mesmo.”
“Sem ofensa, Hagrid, mas eu acho que vou recusar. Eu gosto que a minha comida faça bem a minha saúde, em vez de um risco para ela. Como está o Mercúrio?”
“Excelente! Ele fez uma nova amiga. Eu gostaria que você pudesse vê-la, Lily. Uma linda corça. Eles passaram a tarde inteira juntos.”
“Awww… que adorável.”
“Talvez ela retorne quando você estiver aqui. Você ia gostar dela.”
“Talvez eu fique aqui até o anoitecer para ver se ela aparece. Só falta uma hora mesmo...”
“Ah, é verdade, eu esqueci de te dizer, o Professor Potter não vai poder vir hoje a noite. Então eu vou acompanhar vocês dois nessa noite.”
“E quanto a meia-noite?”
“Ah… é… eu não tenho certeza se ele vai estar livre até lá. Ele me disse que qualquer coisa ele me avisava.”
“Livre de quê?”
“Ah… nada.”
“Hagrid, eu estou com a leve impressão que você está me enganando.”
“É?”
“Você está deliberadamente se desviando da pergunta. Mas, tudo bem. Não é da minha conta mesmo. Além do que, eu não estou muito ansiosa para ver o Professor Potter.”
“Ah?”
“Nós estávamos praticando na aula hoje, e eu o atingi com um feitiço estúpido. Eu não deveria, e ele ficou zangado comigo. Eu não deveria ter feito aquilo. Eu quis me desculpar, mas ele saiu correndo antes que eu tivesse a oportunidade, e então eu perdi a coragem, e saí. Ele tem sido tão bom comigo, e tem me ajudado tanto ultimamente. Primeiro, com o Mercúrio, e depois com as minhas aulas extras, e eu tinha que estragar tudo tentando vencer no duelo contra o Professor. Eu só gostaria que nós dois pudéssemos esquecer que isso aconteceu.”
“Foi exatamente isso o que ele disse essa tarde.”
“Então você falou com ele. O que você acha que eu devo fazer?”
“Se desculpar...”
“Sim, obviamente, mas além disso...”
“Somente se desculpe, e veja o que acontece...”
“Eu acho que eu vou. Aparentemente, é a única coisa que eu posso fazer...” Lily suspira.
“Alegre-se, Lily. Ele é uma boa pessoa. Não é do estilo do Potter guardar rancor com alguém que não seja da Sonserina...” Hagrid diz, a confortando. Lily ri. Professor Potter é um Grifinório orgulhoso? Ou ele tem um rancor tão forte contra Sonserinos…
Hagrid faz um chá para acompanhar os seus muffins, e eles conversam até o sol se pôr. Eles vão para o lado de fora, para que a Lily possa alimentar o Mercúrio. Ela olha para as estrelas novamente… elas dizem que vão ter julgamentos a seguir.
Ela não precisa das estrelas para saber disso. O Lorde das Trevas está ficando cada vez mais poderoso a cada dia que passa, e a sua lista de vítimas está se tornando cada vez mais longa.
Uma lágrima escorre pela bochecha dela, enquanto ela pensa em duas pessoas em particular, cujos nomes estão naquela triste lista… Rose e William Evans. Lily agora é a única Evans restante, porque a Petúnia não tem mais o sobrenome. Ela o substituiu por Dursley no último inverno, mas Lily não foi convidada para o casamento. Petúnia a excluiu completamente da vida dela.
Ela odeia quando começa a pensar na família dela, ou na falta da família dela. Sempre a faz chorar dessa forma. Ela limpa as lágrimas para que o Hagrid não as veja, mas ela não consegue limpar o peso no coração dela. Como que um coração tão vazio pode pesar tanto? Ela se sente como se não tivesse ninguém. Depois da morte dos pais dela, ela percebeu o quanto que as amizades dela eram vazias. Claro que eles são bons para ter em volta, nas aulas, e nas refeições, mas com quantos deles ela realmente pode se abrir? Nenhum, salvo o Hagrid. Hagrid também perdeu os pais dele, e ele entende pelo o que ela está passando, além do que, ele tem a carga adicional de ser um meio-gigante, em um mundo que é tão preconceituoso sobre tipo sangüíneo. Lily também entende disso muito bem, sendo nascida trouxa. Ela e Rupert eram bem próximos, mas desde que ele começou a sair com alguém no início do sexto ano, eles não tem mais se visto tanto, e agora que a Lily mora no dormitório dos Monitores Chefes, ela somente o vê durante as aulas.
O que ela não daria para ter a Petúnia com ela agora… ela ainda ama muito a irmã, e ela não a culpa por se afastar dela. Foi culpa da Lily que os pais dela foram assassinados…
X
James anda em círculos no seu escritório. Ele sabe que está dando muito mais atenção a esse assunto, do que ele deveria. Se tivesse sido qualquer outro feitiço… qualquer outro… diabos, se tivesse sido uma maldição imperdoável, teria sido melhor… bem, talvez não, mas teria sido muito menos humilhante. Ele se considera sortudo que a turma não tenha visto isso, ou tomado conhecimento. Sirius tinha razão, não é tão ruim quanto ele achava que era. Não teria tido tanta importância, se não fossem pelos pensamentos que continuam a percorrer a mente dele. É uma aluna, é uma aluna, é uma aluna. Sem exceções. Ponto final.
Ele decide visitar o Hagrid, para dizer que está livre para buscar a Lily hoje a noite, e que eles poderiam retornar ao esquema usual. O Sol já havia se posto há muito tempo, e ele pensa que a Lily já deve estar de volta no castelo; não que ele esteja tentando evitá-la, ou algo do gênero…
Recolocando os óculos e pegando o casaco, ele sai do escritório. O ar noturno está muito mais frio. Parece que o Inverno está finalmente chegando. Tem uma luz acesa na cabana do Hagrid, e ele ia bater na porta, quando ouve vozes. Ele caminha para a lateral da casa, passando pela plantação de abóboras nas pontas dos pés, para poder ouvir melhor.
“Hagrid? Você acha que os nossos pais ainda podem nos ver? Eu quero dizer, que talvez eles estejam nas estrelas, em algum lugar, olhando para nós? Ou você acha que uma vez que você morre, você sai completamente desse mundo?” James reconhece a voz da Lily.
“Não sei sobre as estrelas, mas enquanto você os ame...”
“Não diga que eles vão sempre viver no meu coração...”
“Ah, humm… por que não?”
“Porque se essa é a única forma, então eu prefiro esquecer deles… Qual é o sentido de amar as pessoas, se elas não podem retornar o seu amor?”
“Lily!”
“O quê? Talvez você já tenha passado desse ponto Hagrid, mas para mim, a única coisa que eu recebo por deixá-los no meu coração, é dor.”
“E as lembranças felizes?”
“Felizes na época, mas pensar sobre elas agora, somente me faz lembrar que eu nunca mais vou ser feliz de novo. Eu gostaria que alguém me obliviasse. Que eu esquecesse os meus pais, a Petúnia, que eu estou sozinha no mundo, que eu deixei o meu Professor favorito zangado, esquecer que existe qualquer coisa nessa vida, além do que eu tenho nesse momento… Ah, Hagrid, pára de chorar...”
“Eu não agüento ver você tão triste...” Hagrid fala, entre lágrimas.
James se sente mais e mais desconfortável, por estar bisbilhotando nessa conversa. Ele quer fazer que a presença dele ser reconhecida, mas ele não quer fazer as coisas ficarem embaraçosas por interromper, e ele também não quer que eles saibam que ele ouviu a conversa deles. Mas ele é o professor favorito dela? Um pequeno sentimento de satisfação se acomoda, junto com todos os outros embaraçosos.
“Desculpe-me, Hagrid. Eu não deveria descarregar em você dessa forma.”
“Não, está tudo bem. Todo mundo precisa descarregar de vez em quando. Você não fala nada sobre os seus pais desde o Natal do ano passado.”
“Fazem dois anos que eles se foram, Hagrid, porque eu não consigo superar isso? Isso não é realmente uma pergunta Hagrid, você não precisa responder.” Ela diz, mas ele responde da mesma forma.
“É porque você não preencheu o vazio do seu coração.”
“Nada pode tomar o lugar dos meus pais.”
“Eu não quis dizer isso, mas você pode preenchê-lo com amor.”
“Hagrid, você está começando a parecer piegas.”
“Mas ele tem razão.” James diz, caminhando pela cabana, na direção deles. E ele que não queria interromper, ou que eles tivessem ciência que ele estava bisbilhotando.
“James!” Hagrid fala, olhando surpreso para ele. Lily nem olha para ele. Ela se sentou rapidamente quando ele falou, e agora estava abraçando os joelhos dela no peito dela, olhando para os sapatos dela.
Se arriscando um pouco, ele se senta ao lado dela. “Nada pode tomar o lugar dos seus pais, mas ter alguma coisa, ou alguém que você ame, te dá um motivo para viver, a sua razão de vida.”
Ela permanece em silêncio, então ele continua. “Mas o que vai ajudar esse vazio ser preenchido é ser amada também… saber que as pessoas se importam com você.”
Ela mantém a cabeça abaixada, mas ele a ouve fungar, e vê que ela está limpando os olhos.
“Eu sei...” ela fala roucamente. “Isso é ser egoísta? Querer ser amada?”
“Egoísta? Isso só significa que você tem uma alma, é só isso. Você tem ressentimentos do Mercúrio, por ele se ligar a você? Ele precisava de alguém que o amasse, que tomasse conta dele, e ele escolheu você. Ele fez algo de errado?”
“O Mercúrio é um bebê, e eu não sou.”
“Foi egoísmo?”
“Bom, eu acho que foi mais auto-preservação. Ele iria morrer sem carinho e proteção, eu não.”
“Mas você também não ia viver...”
“Como que você pode dizer isso tão facilmente? Eu não posso simplesmente me dirigir a alguém, e ordenar que eles me amem, você sabe que isso não funciona assim! Se funcionasse, eu não estaria nesse estado patético que eu estou agora.”
A garota tem um ponto inatacável. O problema dela poderia desaparecer se ela fizesse a coisa certa, dissesse a coisa certa, ou fizesse o feitiço certo…
“Você tem razão, você só tem que abrir o seu coração, e esperar...”
“Ele soa tão piegas quanto você, Hagrid.” Ela diz secamente.
Não vem resposta alguma. Ela olha para os lados e percebe que Hagrid saiu. “Hagrid?”
“A verdade pode ser tão piegas como pode ser dolorosa, engraçada, profunda, ou maravilhosa… mas a verdade é a verdade.” James continua.
“E como é que você sabe que isso é a verdade?” Ela pergunta, com cepticismo.
“Isso vem por eu ser mais velho, e mais sábio, é claro!” Ele diz alegremente, acariciando a cabeça dela.
Depois de um momento de silêncio, Lily diz. “Merlin, eu estou com fome. Eu estou realmente tentada a experimentar um dos muffins do Hagrid.”
“Não faça isso.” Potter fala, sério. “Eu cometi o mesmo engano no meu sétimo ano, e as minhas gengivas sangraram por 2 dias seguidos… Eu assustei alguns alunos do primeiro ano, os convenci que eu era um vampiro.” Ele verifica o relógio dele. “Se você conseguir esperar mais uma hora, nós podemos pedir aos elfos domésticos para nos darem comida. Eles sempre estão felizes em ajudar.”
“Eu vou começar a babar se eu pensar sobre a comida deles. A única coisa que eu comi o dia inteiro, foi a maçã que você me deu essa manhã.”
“Você não foi para o almoço ou para o jantar?”
“Não. Eu… não quis ir ao Salão Principal hoje.”
“Ah.” Diz o James, entendendo ela. “Nem eu quis, para falar a verdade.”
Eles não continuam nesse assunto, como se fosse um acordo silencioso. Em vez disso, a Lily se deita, e continua a olhar para as estrelas.
“É quase lua cheia...” Ela diz.
“Quase...” Ele diz, também deitando de costas, colocando as mãos atrás da cabeça. James não precisa ser lembrado da lua cheia. Depois de estar com o Remus pelas últimas 100 luas cheias, ele sempre sabe exatamente quando elas ocorrem. Eles ficaram deitados dessa forma por muito tempo, a maior parte dele em um silêncio confortável, mas com ocasionais comentários aleatórios.
“Sabe, quando eu era uma criança eu tentava criar as minhas próprias constelações.”
“Eu tentava mandar uma coruja para o homem na lua… eu acho que confundi, e exauri, o pobre Dragão.”
“Você colocou o nome da sua coruja de Dragão?”
“Eu queria um dragão para o meu quinto aniversário, mas os meus pais, em vez disso, me deram uma coruja… Então eu me contentei em chamá-lo de Dragão.”
A Lily ri. “Esse foi o melhor presente de aniversário que você já recebeu?”
“Uma vassoura.”
“Em qual idade?”
Agora foi a vez do James rir. “Todos os anos, desde 7 anos até os 17. A única coisa com a qual os meus pais sempre me mimaram. Quadribol.”
“Você foi Capitão de Quadribol, não foi?”
“Sim, fui...”
“Você sente falta?”
“De ser capitão?”
“De jogar Quadribol.”
“Absolutamente. Eu sou treinador assistente do time de Quadribol, e eu ainda vou algumas vezes para o campo de Quadribol de noite, e vôo um pouco. Eu também costumava fazer isso quando eu estava na escola… É bom ter o campo todo só para você mesmo, somente voar na paz e sossego da noite… mas eu ainda sinto falta do estresse e da intensidade de uma partida. E, é claro, eu sinto falta de vencer...”
Para a Lily, isso soa absolutamente perfeito. Somente sobrevoar acima do mundo e voar o mais rápido o possível, ou o mais lento que ela quiser, a noite, aonde ninguém possa vê-la. Ela não consegue pensar em nada mais revigorante e tranqüilizante, ao mesmo tempo.
“Isso parece exatamente com o que eu preciso nesse momento… uma pena que eu não vôo numa vassoura desde o terceiro ano, eu nem sei se ainda sei.”
“Da onde você acha que vem a expressão ‘como voar numa vassoura’?”
“Um trouxa diria, ‘como andar de bicicleta’.”
“Uma bicicleta?”
“Eu tenho certeza que você já as viu. Eles são pequenos aparelhos com duas rodas, e você pedala… os trouxas as utilizam para transporte.”
“Ah, sim, eu sei sobre o que você está falando. Eu já as vi antes. Então voar na vassoura é como andar de icicleta. Uma vez que você aprendeu, nunca mais esquece. Venha.” Ele diz, se levantando.
“Hein?”
“Nós vamos para o campo de Quadribol por...” Ele olha para o relógio, “meia hora. Depois de toda essa conversa sobre voar, eu não posso esperar para montar numa vassoura.”
“Hein?” Ela diz de novo, aparentando estar confusa à oferta dele de ajudá-la a se levantar.
“O tempo está passando, Evans, e eu quero ir para o campo.”
“Ah.” Ela diz, pegando a mão dele, e deixando que ele a puxe para cima. “Nós voltamos logo, Mercúrio.”
Eles caminham em passos rápidos até o campo. James, porque está ansioso para voar, e a Lily, somente para acompanhar o passo do Professor dela. Quando finalmente chegam ao campo, James sibila “Maldição” baixinho.
“O que foi?” Lily sussurra incerta.
“Parece que o campo já está ocupado. Eu não tenho certeza, mas eu acho que você daria a eles 5 por curiosidade, e 9 por ‘fator de divertimento’.” Um gemido suave é carregado pela escuridão. “É melhor mudar para um 10… para ele de qualquer jeito… Merlin, eu odeio fazer isso. Você fica aqui atrás, não vá a lugar algum.” Ele ordena.
“Odeia o quê?” Ela não agüenta, e pergunta, mas ele não responde, ele já está caminhando na direção do centro do campo. Ele libera um som alto com a sua varinha, e então a acende, aparentemente para ver melhor o caminho dele, ou talvez para deixar o casal saber aonde ele está, agora que ele os fez ciente da presença dele. Ele gostaria de dar um tempo para eles ficarem decentes. Ela não consegue distinguir nenhuma palavra, mas consegue distinguir vozes diferentes. A voz profunda do Potter, e a de outro homem, mas mais alta no tom, e a de uma garota, com tom muito mais alto. A conversa pára, e o silêncio permanece. Ela não ouve os passos na direção dela, até que eles estejam a poucos metros dela.
“Eu odeio ter que ser um Professor o tempo todo.” ele responde a pergunta dela, como se não tivesse passado nenhum tempo. “Provavelmente, eu acabei de arruinar uma noite muito romântica para aqueles dois, eles tinham uma cesta, velas, e tudo mais, provavelmente era um piquenique sob as estrelas...”
“Aww...”
“Exatamente, e agora eu sou o babaca do Professor que estragou tudo.” Ele diz, caminhando de novo na direção do campo. A Lily se sente como se não tivesse escolha a não ser seguí-lo.
“Quem eram eles?” Ela pergunta, curiosamente.
“Mathews and Burrows.”
“Eu nem sabia que eles estavam juntos… O que você disse?”
“Tirei 20 pontos da Grifinória, e disse para eles que caso eu os pegasse fora do horário de novo, seriam 200 pontos, e uma detenção todos os sábados pelo resto do termo...”
“Isso parece cruel, mas na verdade, cada um apenas teve apenas 10 pontos retirado… considerando a transgressão, foi uma punição bem leve.”
“Essa é, definitivamente, a pior parte de ser um professor… ter que reprimir e punir. Isso me coloca em um humor terrível… mas, bem, eu acho que vou pegar a Ophelia, e você pode ter a Viola.”
“O quê?”
“Vassouras, Evans. Vassouras. A Viola é um modelo mais novo que a Ophelia.”
“Você as tem aqui?”
“10, na verdade. Juliet, Cordelia, Ophelia, Viola, Beatrice, Portia, Helen, Cleopatra, Desdamona, e Hero. Você fica com a Viola.” Ele diz, entregando a vassoura para ela.
“Obrigada, Shakespeare.” Ela diz, pegando a heroína da Décima Segunda Noite.
“Eu juro que é o meu único fetiche trouxa.”
“Você não precisa se defender por gostar de Shakespeare, ou qualquer coisa que seja relacionado aos trouxas.”
“Só não conta para ninguém.” Ele ri, mas a Lily não está sorridente.
“Por que você tem vergonha?”
“Porque simplesmente não é legal.”
“Ok, porque eu gosto de música trouxa, e visto roupas trouxas, e gosto de autores trouxos, eu sou menos legal?”
“Não, você é diferente, você é nascida trouxa, crescida com trouxas. Para um puro sangue procurar coisas trouxas, é uma vergonha.”
“Por quê? Porque você está se rebaixando por gostar de coisas trouxas?”
“Não, não foi isso que eu quis dizer.”
“Você quis dizer que gostar de coisas trouxas é vergonhoso.”
“Exatamente, mas somente entre as pessoas que não tem linhagem trouxa.”
“Você sabe de uma coisa, Professor Potter, você está falando que nem um Sonserino.” Ela cospe, enquanto voa para longe, deixando o James olhando para ela, completamente chocado.
Lily descobre que voar realmente é que nem andar de bicicleta. Ela está tremendo um pouco quando decola, mas pode ter sido pela força que ela usou no temperamento dela. Ela o comparou com um Sonserino, mas para ser justa, nem todos os Sonserinos são puros sangues partidários da supremacia, e ela conhece várias pessoas racistas, de todas as casas. Ela somente o comparou a um Sonserino porque sabia que isso ia chatear ele.
O ar frio da noite esfria o temperamento dela, assim como as bochechas e o nariz dela, e percorre os braços e a espinha dela. Quanto mais alto ela voa, mais a temperatura parece diminuir, e mais claro parecia enxergar. Ela tem que se desculpar dessa vez…
James sai do seu transe alguns momentos depois, e se lança atrás dela. Ela o vê se aproximando, e diminui para que ele possa alcançá-la. Ele abre a boca para falar, mas ela o corta.
“Me desculpa, Professor, eu perdi a calma. Não é culpa sua que as coisas trouxas não são populares, é somente como a sociedade mágica é, eu sei disso. E eu não deveria ter te chamado de Sonserino; foi injusto tanto para você, quanto para os Sonserinos.”
“Eu também me arrependo. Foi algo impensável de dizer, eu não sei porque eu disse…”
“Porque é a verdade. Acredite em mim, Professor, eu não te culpo por nada, eu não estava nervosa com você… só… com as coisas em geral.”
“Que as coisas trouxas são vergonhosas?”
“Eu posso te fazer uma pergunta, Professor?” Ela diz, não se importando em responder a dele.
“É claro.”
“Gostar de uma nascida trouxa seria tão vergonhoso? Eu quero saber a verdade. Você é um puro sangue, e eu tenho certeza que nenhum dos meus amigos me diriam a verdade, se eles soubessem que magoariam os meus sentimentos.”
James tenta pensar em uma resposta apropriada. Ele conhece vários caras que dizem que, quando as luzes estão apagadas, você não consegue dizer a diferença entre uma puro sangue e uma nascida trouxa, mas mesmo assim eles não levariam uma nascida trouxa para casa, para conhecer os pais. Por outro lado, James conhece vários caras que não se importam de jeito nenhum. Uma bruxa é uma bruxa.
“Algumas pessoas iriam achar que sim, e outras não.”
“Eu posso te fazer outra pergunta?”
“É claro.”
“Você acha que, mesmo aqueles que normalmente não se importariam, podem ficar tentados, durante os dias de hoje, com a ascensão do lorde das trevas, de colocar uma distância entre eles e os seus amigos trouxas, pela própria segurança deles?”
“Você acha que as pessoas têm feito isso com você?” James pergunta, genuinamente surpreso. Ele nem havia considerado isso antes, que a ascensão do Voldemort ao poder pode quebrar as amizades...
“Desde a morte dos meu pais, ninguém me convidou mais para a casa deles durante o verão, achando que eu sou um ímã de Comensais da Morte, já os tendo atraído duas vezes. E eu falei com o Jimmy Davis, ele me disse que os pais dos amigos deles também não querem mais que ele os visite.”
“Isso é… terrível.”
“Eu não os culpo. Isso não significa que eles odeiam os nascidos trouxas, eles só estão tentando proteger a família deles.” De repente, ela começa a rir tristemente. “Parece que eu vou ter que esperar um longo tempo para preencher aquele vazio...”
“Nem todos são tão covardes, Evans. Algumas pessoas vão se importar com os seus amigos nascidos trouxas, a despeito do lorde das trevas. Como o Dumbledore diz, o amor é uma motivação muito mais forte do que o medo.”
“Grande homem, o Dumbledore.”
“Você parece o Hagrid falando.” James diz, sorrindo pela primeira vez, desde que a conversação no céu começou.
“E eu queria. Sabe de uma coisa, se você não tivesse dito ‘como o Dumbledore diz’, aquela frase teria sido incrivelmente piegas. Mas, de alguma forma, ele não pode ser piegas. Qualquer coisa que ele diz, somente parece profunda.” Ela diz, sorrindo de volta.
“Que pena para ele, ser levado a sério o tempo todo. Eu gosto de um pouco de sentimentalismo na minha vida.” James faz uma espiral em torno dela, e então desce para bem próximo do chão, girando como um parafuso, antes de subir novamente, retornando ao lado dela.
“Que vôo pomposo esse, Professor Potter.” Ela diz, sorrindo de alegria.
James hesita. As emoções trazidas pelo sorriso dela, e por ela chamá-lo de ‘Professor’, parecem entrar em conflito uma com a outra. Nesse cenário, voando em vassouras, quinze minutos para a meia-noite, falando sobre amor, ódio, e o lorde das trevas… movimentam tantas emoções profundas nele… E ainda assim, quando ele a ouve chamá-lo de Professor, é como se ele tivesse voado direto para uma parede de tijolos, uma parede de tijolos que ela colocou entre eles.
Ele se lembra da peça dentro da peça Sonhos de Uma Noite de Verão, onde os amantes somente podiam sussurrar através de uma rachadura na parede. Ele se sacode mentalmente, desejando saber porque aquela cena veio a mente dele, ela não se relaciona nenhum pouco com essa situação…
Eles voam mais algumas voltas, antes de descerem, e retornarem a cabana do Hagrid, para alimentar o Mercúrio.
“Obrigada pelo passeio...” A Lily diz em uma voz sedosa, e baixa.
“O quê?” James pergunta, confuso e interessado, ao mesmo tempo.
“Eu estava falando com a Viola.” Ela responde, tentando não rir. “Você deveria tentar agradecer à sua vassoura de vez em quando… é educado.”
“Obrigado pelo passeio, Ophelia.” Ele diz para a sua vassoura.
“Agora quando você diz, parece errado.” Ela brinca.
“Primeiro você reclama que eu não a agradeci, e depois você me zoa quando eu agradeço. Eu não consigo vencer, não é?”
“Aparentemente não. Mas você tem que admitir, foi engraçado.”
“Foi hilário, eu só não estou acostumado a ser quem é ridicularizado.”
“Não, eu aposto que você era quem fazia as peças...”
“Esse era eu.”
“Até à custa de outras pessoas...”
“As crianças podem ser cruéis. Por sorte, nós crescemos.”
“Verdade… Oi Mercúrio! Você está com fome? Eu aposto que você está, vem aqui garoto… sim… bom garoto!” Ela diz, caindo de joelhos, e colocando os braços dela em volta do Mercúrio, o abraçando e o acariciando.
É difícil olhar a Lily e o Mercúrio e não sorrir, o James pensa. Ambos aparentam estar tão felizes por estarem um com o outro.
“Você poderia me passar a mamadeira?” Ela pergunta para ele, interrompendo os pensamentos dele.
“Tente convocar sem a sua varinha.” Ele diz.
“O quê?”
“Não tem motivos porque você não deveria praticar quando você puder, mesmo se nós não estamos tecnicamente em uma aula. Somente faça o melhor possível, veja se você consegue fazer isso.”
“Certo.” Ela fecha os olhos em concentração por vários momentos, com as sobrancelhas dobradas. Ela faz um suspiro de frustração. “Eu não consigo.”
“Tenta dizer em voz alta, pode te ajudar a concentrar.” Ele sugere.
“Accio mamadeira!” Ela sussurra, de olhos ainda fechados. A mamadeira ainda não veio. Ela abre os olhos, e olha de cara feia para ela. “ACCIO MAMADEIRA!” Ela ordena, quase que gritando. A mamadeira voa na direção dela, e ela a pega com orgulho.
“Muito bem.” James diz.
“Eu fiquei com medo, por um minuto, que não fosse me ouvir… mas eu consegui a atenção no final, só precisei intimidar um pouco.” Ela ri, enquanto começa a alimentar o Mercúrio. “Não tão rápido, bebê. Devagar… vai com calma, você não quer se engasgar… É isso, bom garoto...” Ela fala com ternura.
“Ele já aparenta estar muito mais forte do que estava ontem...”
“Bom, para sermos justos, ele estava machucado seriamente quando nós o encontramos, ele provavelmente acabou de se recuperar.”
“Muito bom. Ele aparenta como se precisasse de mais ou menos um mês para mudar para comida de adulto, e o pêlo dele se transformar completamente em prata… Os unicórnios crescem rapidamente.”
“Por causa da necessidade, eu imagino.”
“Provavelmente...” Diz o James. Ele pensa se a Lily amadureceu mais rápido que os colegas dela, por causa da necessidade. Ter perdido a família dela, a forçou a amadurecer mais rápido? “Ele terminou?”
“Parece que sim… sim, a mamadeira está vazia.”
“Vamos retornar ao castelo?”
“Sim, o meu estômago está a ponto de se rebelar...”
“Para a cozinha então. Eu te vejo amanhã, Mercúrio.”
“Tchau, garoto. Eu te vejo logo.”
Dessa vez, James que tem que tentar alcançar o passo da Lily. O estômago dela está roncando tão alto que o James podia jurar que tinha um Dragão Welsh Green pronto para atacar. Quando os elfos domésticos perguntaram o que eles querem, James pede “uma variedade de queijos para começar, e depois disso, um peru assado com molho branco, e de acompanhamento purê de batata. Um bom vinho tinto para mim, e suco de abóbora para a dama.”
O prato com os queijos veio em primeiro lugar, e eles dois pegaram um pedaço.
“Como está?” Ela pergunta.
“Mmmm… Tem o gosto da verdade.”
“Eu estava pensando se você pediu isso para ser simbólico.”
“O que eu posso dizer, eu sou profundo.”
“Sim, eles sempre dizem que águas limpas correm longe.”
Quando o prato principal chega, Lily o come com satisfação.
“Dizem as más línguas que eu sou o seu professor favorito...” James fala, descaradamente.
“Onde você ouviu isso?”
“Eu ouvi um boato...”
“Eu diria que você ouviu na plantação de abóboras, isso que sim.”
“Você está me acusando de bisbilhotar?” Ele pergunta, em ofensiva falsa.
“Você nega?”
“Somente se você estiver me acusando.”
“Então eu não vou te acusar. Eu odiaria transformar o meu professor predileto em um mentiroso...”
“AH Ha! Então eu ouvi você corretamente.”
“AH Ha! Então você estava bisbilhotando.”
“Eu nunca neguei...”
“Um mero detalhe técnico.”
“Mas mesmo assim é verdade.”
“E nós dois sabemos o quanto você é bom com a verdade… sendo mais velho e mais sábio...”
“Exatamente. Eu fico contente que você tenha aprendido alguma coisa hoje, Evans.”
“Sim, eu aprendi que o meu Professor é um sabe-tudo arrogante. Ou, pelo menos, ele acha que sabe tudo...”
“Se eu sou um arrogante sabe-tudo, então porque eu sou o seu professor favorito?” Ele reage.
Ela pára por um momento, tentando pensar em uma resposta. Então, ela decide que em vez de uma resposta vivaz que continuaria com a brincadeira, ela opta por falar a verdade para ele.
“É porque você não se importa sobre ser um professor, você somente se importa sobre ensinar. Tanto fora da sala de aula, quanto dentro dela. Eu posso dizer pelo jeito que você organiza a sua aula, é completamente diferente dos outros professores. Você não está preocupado em entregar os alunos, dar notas, e devolver os deveres, mas você projeta a sua aula de tal forma que a ênfase é realmente fazer os alunos aprenderem… e eu realmente admiro isso.”
“Eu estou tocado, Evans.”
“E não é somente isso, você foi bom o suficiente para me ajudar com o Mercúrio, com as lições de magia sem varinha, sem mencionar que você me mostrou aonde fica a cozinha...”
“Sim, sim, já chega. Você vai me ver corando em qualquer momento.”
“Tudo bem, eu paro. Eu terminei agora. Eu provavelmente deveria ir.”
“Mas a noite ainda é nova!”
“Fácil você dizer, você não tem que acordar no amanhecer… antes do amanhecer, realmente.”
“Verdade. Sim, sim, já passou da sua hora de dormir. Já para a cama, Evans.”
Ela balança a cabeça, e ri silenciosamente do professor instável dela, enquanto eles saem da cozinha.
Eles seguem em caminhos diferentes quando atingem o retrato do dormitório dela, e James volta para o escritório dele, retira o espelho, e chama o seu melhor amigo.
“Sirius.” Nenhuma resposta. “Sirius!”
O rosto do amigo dele aparece no espelho. “Isso é melhor ser importante… você sabe que horas são?”
James olha para o relógio dele. “Quase duas. Você estava dormindo?”
“Não.” Ele diz de mal-humor.
“Oh… é… eu estou… interrompendo?” Ele pergunta com cuidado. Sirius suspira.
“Não, não mesmo. Nós já havíamos terminado mesmo.” Ele vira o rosto para o lado, enquanto fala com outra pessoa no quarto. “Você pode ir para casa, benzinho. Eu te mando uma coruja um dia desses.”
“Mas, Siri… são 2 da manhã…” James a ouve dizer.
“Bem, você sabe como aparatar, não é?” James espera por mais um minuto, durante o qual ele imagina que a garota estºa colocando as roupas dela, e juntando as coisas. Então, ele se vira para o espelho, e diz. “O que há, cara?”
“Você não está com pena de deixar essa ir?”
“Não, eu estava pensando em alguma desculpa para fazer ela ir embora, quando eu ouvi o espelho. Excelente momento, cara, excelente desculpa para mandar ela se mandar daqui.”
“Falando sobre relacionamentos imperfeitos com mulheres, eu resolvi as coisas com a Evans.”
“Foi mesmo?” O Sirius diz com um sorriso astucioso no seu rosto.
“Sim, bem, nós não conversamos sobre aquilo essa tarde, mas definitivamente acalmamos as coisas, mas não antes de eu fazer outra besteira...”
“O que foi que você fez...” Ele disse, deixando de fora o implícito ‘dessa vez’.
“Eu disse que as coisas trouxas não são legais.”
“E...”
“E ela é uma nascida trouxa.”
“Eu entendo… então a nossa pequena flor Lily não gostou disso, não é?”
“Na verdade não, ela realmente me chamou de Sonserino e voou para longe.”
“Ai!”
“É.”
“Você disse que ela voou?”
“Nós estávamos no campo, ela estava na Viola.”
“Eu me lembro da Viola, bons tempos… ela foi a que você ganhou no quarto ano, certo?”
“Ela mesma.”
“Bom ano.”
“Verdade.”
“Então, o que vocês dois estavam fazendo voando juntos?”
“Bem, nós ainda tínhamos meia hora antes da alimentação, e nós estávamos conversando sobre Quadribol, e eu simplesmente tinha que montar numa vassoura. Não podia deixá-la sozinha, então eu a levei comigo. Tinha um casal transando no campo antes de nós chegarmos lá, maldito dever embaraçoso, aquele...”
Sirius dá outra risada, que mais parece um latido. “Então, você transou com a Evans?”
“Não!” James grita.
“Dê tempo ao tempo, cara...”
“Pára, Sirius, ela é uma aluna.”
“Uma aluna que você me liga as 2 da manhã para falar sobre...”
“Sim, mas...”
“Esquece, eu só estou te sacaneando. Então, como você resolveu as coisas?”
“Nós tivemos uma grande conversa sobre a morte dos pais dela, e sobre ela se sentir sozinha, e ser tratada com frieza, por ser nascida trouxa, nesses dias sombrios.”
“Então você conversou sobre os sentimentos dela?” Sirius pergunta, com a voz escorrendo com gozação.
“Olha, eu não te espelhei para que você pudesse me importunar.”
“Desculpa, cara, continua.”
“De qualquer forma, no jantar na cozinha, ela disse que eu sou o professor preferido dela.”
“Você também seria o meu favorito, cara. Sem contar a querida Minnie, é claro.”
“É claro.” O James concorda.
“Dê os meus melhores cumprimentos para a Minerva, ok?”
“Claro.”
“Então… o que você está planejando fazer a seguir?”
“A seguir?”
“Com a Evans?”
“Eu não estou planejando em fazer nada com a Evans, exceto continuar a ajudá-la, e tentar não deixá-la com raiva.”
“Parece um excelente plano.”
“Eu também acho. E outra coisa.”
“Sim?”
“Amanhã, vamos ficar em Hogsmeade pela primeira metade da noite. Não vamos para Hogwarts até depois da 1, e eu tenho que sair um pouco antes do amanhecer.”
“Certo. Algum motivo em particular?”
“Lily e Hagrid vão estar do lado de fora a meia-noite com o unicórnio, e eu tenho que pegá-la para a alimentação do amanhecer.”
“AH. É claro que o motivo tinha a ver com a Evans.”
“O que você quer dizer com, é claro?”
“Eu quero dizer que ela é tudo que você fala ultimamente.”
“Isso não é verdade.”
“Ok, não é inteiramente verdade… mas é quase. Não negue. Boa noite, Pontas.” O amigo dele diz, terminando a conversa antes que James pudesse tentar negar, o que, ele tem certeza, foi a intenção do Sirius.
“Boa noite, Almofadinhas...” Ele murmura depois que o rosto do amigo dele já havia sumido do espelho. |