O tempo ameno em Londres era um tanto incomum, mas bem-vindo. Há quem atribua o tempo agradável a um bom dia e imagina que quando chover, o dia será ruim. Se isso fosse uma regra, aquela seria a exceção. Hermione Granger não estava em seu melhor humor. Ia apressada na frente, uma ideia que não sabia se cumpriria rondando seus pensamentos. Não sabia aonde estava com a cabeça quando tomou a frente da defesa de Malfoy, por mais que fosse estranho pensar nele como alguém injustiçado. Ela andava na frente, a cabeça nas nuvens. Nuvens que apareciam gradativamente no céu, fazendo o dia parecer não tão bonito quanto antes, mas isso não alterou o clima agradável. Ao menos em termos meteorológicos, já que entre ela e os dois garotos que a acompanhavam o “clima” não estava nada bom.
Era verdade que já foi submetida a muito estresse, mas por mais estranho que possa parecer, a falta de pressão a levava a loucura. Pode-se ficar viciado em um certo tipo de tristeza, afinal. Quando estava sob ameaça constante ainda conseguia se obrigar a manter o foco, tinha que estar com a cabeça no lugar para ajudar os outros. A vitória podia depender disso. Mas o que fazer quando os pensamentos podiam circular livres em sua mente, inclusive os piores? Ela não sabia, era como se estivesse de fora só observando as reações.
Nos últimos anos poderia ter morrido em centenas de oportunidades, se é que se pode chamar assim. Esse ainda não era o seu maior problema, Hermione sentia que estava lutando contra si mesma. A questão que rondava seu subconsciente era a seguinte: “Quem ganha quando a luta é contra si?”. Porque ela tinha que lidar com coisas difíceis demais, profundas demais, e não havia magia no mundo capaz de ajudá-la. Sentia traindo-se por ter sentimentos por Draco Malfoy, culpava-se por milhares de coisas que sequer teve controle em algum momento, e uma das consequências de tudo isso era o seu temperamento estar mais estourado do que de costume. Harry alfinetando sobre o assunto também não a ajudava, e novamente a culpa estava ali. Ainda esperava que a qualquer momento o amigo explodisse e dissesse o quanto tudo aquilo era errado, tentasse colocar juízo em sua cabeça. Hermione tinha tanta convicção que essa era a reação correta que passou a esperá-la e se enfurecer por ela nunca chegar. Em vez disso recebia compreensão, e podia jurar que encorajamento. Ela não queria compreensão, queria parar com o sentimento idiota. Se fosse para lutar contra si, que fosse para o lado ajuizado vencer. Afinal, teria um ganhador quando se luta contra si mesmo? Essa era uma pergunta que a sabe-tudo não sabia responder. Suspirou ao constatar sua impotência pela milésima vez. Milésima? Não, a milésima havia sido há muito tempo. Draco Malfoy era só um de seus problemas, havia todo um mundo ainda, e ele era cheio de outras pessoas.
Ela seguia a passos rápidos e com a cabeça nas nuvens, não só por pensar em alguém cujo nome é uma constelação. Um avião passou e atrás dela a pessoa com o nome no céu parecia ter tomado o maior susto de sua vida.
- Meu santíssimo Merlin, o que é isso? - o loiro deu um grito e estacou, colocando a mão no peito. Os olhos arregalados que normalmente trariam diversão a Hermione só conseguiram levar preocupação. Não adiantava, era mais forte do que ela. - Precisamos nos abrigar em algum lugar e descobrir como nos livrar dessa coisa. O que foi, não se importam em morrer? - Ele estava verdadeiramente inconformado pela indiferença dos grifinórios. - Depois de tudo o que houve não se importariam em morrer assim?
- Malfoy, se acalme. O nome daquilo é avião e não vai nos matar. - Harry, que estava mais próximo, tentou tranquilizar o garoto.
- Está surdo, Potter? Não ouviu o barulho que aquela coisa fez?
- É uma máquina enorme, você esperava o quê? Garanto que não é maior que o escândalo que está fazendo.
- Harry… - Hermione chamou enquanto se aproximava muito séria de Draco. - Ele não esperava nada, não sabia da existência de aviões. - Quando chegou perto o suficiente do garoto, colocou a mão no ombro esquerdo dele e buscou seu olhar. Agora com a expressão mais gentil, falou. - Está tudo bem, nós não vamos deixar que te aconteça nada. Essa é uma máquina enorme, feita principalmente de metal. O nome é avião e é um meio de transporte muito usado por trouxas, só que para longas distâncias. Quer um exemplo? - Diante de um aceno de cabeça por parte dele, a garota explicou. - Se quiséssemos ir para a Bulgária agora, pegaríamos uma chave de portal e viajaríamos milhares de quilômetros em segundos. Quase uma aparatação, não é? Como os trouxas não tem essa tecnologia e precisam viajar, criaram o avião. Se fôssemos de avião levaríamos algumas horas até lá. Entendeu?
- Sim. - Draco então limpou a garganta. - Acho que entendi o conceito da coisa. Mas isso pode nos matar?
- Bem… Tecnicamente, sim. Mas a possibilidade é muito remota, as pessoas lá dentro correm mais risco.
- Mione? - Harry tentou a alertar.
- E entraram mesmo assim? - O sonserino estava realmente interessado.
- Entraram. É mais fácil um acidente de carro nos matar em terra do que acontecer alguma coisa com o avião.
- Ou seja, vamos todos morrer. - Draco deu uma risada esganiçada. - E carro é…?
- Aquilo. - e apontou para o tráfego na rua, para desespero do rapaz.
- Está brincando, não é?
- Não, Malfoy, não estou. Mas não vai acontecer nada, eu garanto.
- Não pode garantir nada, Granger.
- Ah, eu posso sim. - disse se afastando. - Ainda tenho muitos livros para ler, não deixarei que nada aconteça conosco.
Draco viu Hermione lhe oferecer um suave esboço de sorriso que se desvaneceu no ato. Mas que estranho, ela tentou sorrir apesar de olhar para ele. A brisa escolheu aquela hora para soprar, fazendo os cachos da garota voarem para todos os lados. Ela fechou os olhos aproveitando a sensação e seu sorriso era completo ao olhar para Harry, em seguida.
- Tem dinheiro trouxa aí, Capuleto? - o grifinório perguntou para a garota. - Estou morrendo de vontade de tomar sorvete.
- Você não passa de uma criança, gentil senhor.
- Vou considerar isso como um sim.
E de fato era. Hermione agora ia no meio deles, mostrando a cidade a Harry, que não teve muitas oportunidades de vê-la, e a Draco que parecia não se importar com nada. Chegaram a uma filial do Starbucks que surpreendentemente estava quase vazia. Entraram e foram fazer os pedidos. O atendente era um loiro de olhos castanhos que deveria ter a idade deles. Com aparelho nos dentes, sorriu ao vê-los se aproximar. O rapaz olhou para Hermione interessado. Apesar de ela estar com dois rapazes, ele pareceu não se incomodar com isso.
- Então, senhorita, o que deseja? - disse o atendente de forma galante. Não pôde ouvir a resposta de Hermione, pois foi Harry que se pronunciou com um sorriso igualmente canalha.
- H.J., posso sugerir um sabor?
A garota o olhava alarmada, o que diabos Harry estava fazendo, afinal?
- Claro, H.J. - ela tentou parecer natural ao dizer aquilo. Só se aproveitou da coincidência que era seu primeiro nome e o do meio terem as mesmas iniciais do amigo para implicar com ele, mas o amigo em questão não se deixou abalar e mostrou qual era seu plano maligno.
- Para você eu recomendo o sorvete de pistache, com granulado em cima fica irresistível. Já seu namorado talvez goste de um milkshake de chocolate, ele é sempre muito clássico. Eu quero um sundae nesse copo maior e com muita cobertura. Chocolate, por favor.
E então sorriu. Harry estava desenvolvendo um tipo novo de vilania, aquele sorriso poderia facilmente competir com um sorriso Weasley e isso não era bom para o mundo. Aparentemente, as pessoas que entravam para a família de Arthur e Molly ganhavam novas habilidades. Se Hermione pudesse escolher de qual forma o amigo seria agraciado, com certeza escolheria outra coisa. Até a paixão de Ron por comida seria melhor do que aquilo. Junto com sorriso ele pareceu desenvolver muito cinismo. Seu plano maligno era deixar Hermione sem graça? Se fosse, teve êxito.
- Harry, pegue uma mesa enquanto eu pago, sim?
- Claro, claro. Se quer privacidade com o seu namorado é só pedir, irmãzinha.
O olhar mortal que Harry recebeu dela seria o mesmo que receberia caso derramasse café em seu livro preferido. E droga, Hermione amava ler. Ele estava encrencado. Enquanto a garota separava o dinheiro para pagar pelos lanches e esperava ao lado de Draco que fossem entregues, o sonserino procurava o moreno com o olhar. O viu quando o atendente se pronunciou.
- Hey, gostei da tatuagem. - Draco olhou para o próprio braço, mas o rapaz se dirigia a Hermione. - Mud... Mudblood. Uau, que técnica impressionante. O que significa?
- O nome de uma banda satanista do Kansas. - Diante do choque do rapaz, ela estendeu a mão. - Tome, pode ficar com o troco.
Entregou as notas e Draco pegou os lanches que um outro funcionário deu. A garota foi em direção ao grifinório e o mandou levantar, assim ele fez.
- Ora, eu não fui contra as regras e nem estou andando há tanto tempo para ser chamada de sangue-ruim por outro loiro idiota. - Hermione saiu do estabelecimento praguejando sobre garotos loiros e suas incapacidades de serem bons seres humanos.
- O que fez, Malfoy? Mais respeito com sua futura esposa.
- Não comecem, vocês dois.
- O que foi? Foi você que disse que eram um casal. - Harry se defendeu do olhar mortal que a garota não fazia questão de esconder. - Até que terminem esse lindo relacionamento a senhorita não tem escolha, vai ter que ouvir eu falar do seu namorado. E depois do seu ex-namorado.
- Ok, Malfoy. - Hermione disse se virando. - Foi péssimo enquanto durou, mas tem que chegar ao fim. Estou terminando com você.
- Que seja. - respondeu olhando para o milkshake e dando mais um gole pelo canudinho. - Qual é mesmo o nome disso?
- Céus, eu mereço! É por isso que nunca deu certo, você presta mais atenção em um copo de veneno do que em mim.
- Espere um pouco, Granger. - Draco disse, finalmente parecendo prestar atenção. - Isso aqui é veneno? Por isso o meu é diferente, não é mesmo? E por que os trouxas venderiam para ser tomado assim?
- Por Merlin, só tem o mesmo nome! Me admira você achar que trouxas e bruxos tem alguma semelhança.
- Também não é assim.
- Então como é?
- Ora, eu só pensei que esse tipo de coisa seria igual para não levar a um engano fatal.
- Por que bruxos e trouxas se misturariam, no fim das contas?
- Ainda não respondeu por que ser vendido assim na rua, para qualquer um ver. Aberto a luz do dia algo que... Espere. Está fazendo o mesmo que fiz com Joseph, não é mesmo? - Ela riu. - Isso foi muito baixo, Granger! Tenha alguma dignidade.
- O que posso fazer? Aprendi com o pior.
E no fim a discussão boba fez Hermione relaxar de novo. Estava com uma ideia em mente desde que Harry avisou que sairia do orfanato. Poderiam dizer o que quisessem dela, mas o moreno às vezes era a mais teimosa das criaturas. De certa forma era uma pena para ela que essa teimosia se manifestasse para que quebrassem regras. Era de se supor que uma pessoa tão milimetricamente regrada como Hermione Granger sofreria com um melhor amigo com esse tipo de comportamento, mas vez ou outra precisava terrivelmente daquilo. A impulsividade de Harry demonstrava coragem, no fim das contas. Ao menos na maioria das vezes, ela não podia ignorar a estupidez que já foi tal impulsividade. Mas era uma pena que para pelo menos tentar fazer algo que queria tanto quanto hoje, tivesse que usar a desculpa de que não podia se separar do amigo. Não estava assumindo sua responsabilidade, mas essa não era a única coisa que a assustava no momento.
Desde que saíram do Lar de Orfãos Destiny Child que a mesma ideia estava em sua cabeça. Uma visita. Uma simples visita. Não a alguém, mas a quê. Ela só queria ver um lugar para ter alguma paz e então voltar a sua programação normal. Não que fosse normal em um momento estar se sentindo muito grata por ter um amigo como Harry e no instante seguinte o ameaçar de todas as formas possíveis. Até mesmo caminhar perto de Malfoy havia sido uma experiência estranha, o dia não estava correndo como planejado. Seu plano inicial consistia em ignorar a presença do sonserino e tentar aproveitar o dia ao lado de Harry enquanto interagiam com criancinhas. Ela não era estúpida ao ponto de acreditar que tudo daria certo, de qualquer forma ela não era estúpida e ponto. Mas sua imaginação aberta a possibilidades não cogitou isso. Defender Malfoy, brigar e fazer as pazes com Harry sem nem perceber quando voltavam a ficar bem, vagar por aí... Com certeza coisas mais estranhas já aconteceram no mundo, mas isso não amenizava o que estava sentindo.
Já Malfoy caminhava perto dos dois enquanto tomava tranquilamente seu milkshake. Como só conhecia a parte bruxa da cidade, não é como se ele tivesse opção. Mas aquilo definitivamente lhe trazia uma vantagem, ele poderia conviver com Hermione do jeito que ela realmente era sem que a garota ao menos percebesse. Ver na prática como era seu relacionamento com o Eleito também era muito vantajoso, e perceber que apesar do afeto evidente aquilo não passava de amizade o fazia querer sorrir para os dois e os agradecer por isso. Se era estranho se sentir grato por duas pessoas não se envolverem romanticamente? Com certeza. Se o sentimento o abandonaria por causa disso? Definitivamente não. Teve muita sorte na escolha dos parceiros, afinal. Mas algumas aparências Draco tinha que manter, era mais forte que ele.
- Então o plano de vocês é simplesmente vagar por aí até dar a hora de voltar? Francamente, Granger, pensei que fosse a inteligente dos dois.
- Eu só preciso fazer uma coisa e então poderemos voltar para que você corra e diga ao professor que te obrigamos a fazer coisas horríveis. Te alimentar, onde já se viu? Tenho certeza que McGonagall ficará furiosa por não termos o abandonado por aí. Já prepare a cara de inocente, Harry, vamos precisar.
- Besteira, não funcionou nem quando eu realmente era. Por que funcionaria agora?
- Tem razão. Por que não dizemos que Malfoy nos obrigou?
- Como ficaram todo esse tempo com a fama de bonzinhos? Vocês são terríveis.
As barreiras estavam começando a ruir, mas eles nem se deram conta. Será que quando percebessem seria tarde demais?
O tempo ameno em Londres era um tanto incomum, mas bem-vindo. Há quem atribua o tempo agradável a um bom dia e imagina que quando chover, o dia será ruim. Se isso fosse uma regra, aquela seria a exceção. Hermione Granger não estava em seu melhor humor. Ia apressada na frente, uma ideia que não sabia se cumpriria rondando seus pensamentos. Não sabia aonde estava com a cabeça quando tomou a frente da defesa de Malfoy, por mais que fosse estranho pensar nele como alguém injustiçado. Ela andava na frente, a cabeça nas nuvens. Nuvens que apareciam gradativamente no céu, fazendo o dia parecer não tão bonito quanto antes, mas isso não alterou o clima agradável. Ao menos em termos meteorológicos, já que entre ela e os dois garotos que a acompanhavam o “clima” não estava nada bom.
Era verdade que já foi submetida a muito estresse, mas por mais estranho que possa parecer, a falta de pressão a levava a loucura. Pode-se ficar viciado em um certo tipo de tristeza, afinal. Quando estava sob ameaça constante ainda conseguia se obrigar a manter o foco, tinha que estar com a cabeça no lugar para ajudar os outros. A vitória podia depender disso. Mas o que fazer quando os pensamentos podiam circular livres em sua mente, inclusive os piores? Ela não sabia, era como se estivesse de fora só observando as reações.
Nos últimos anos poderia ter morrido em centenas de oportunidades, se é que se pode chamar assim. Esse ainda não era o seu maior problema, Hermione sentia que estava lutando contra si mesma. A questão que rondava seu subconsciente era a seguinte: “Quem ganha quando a luta é contra si?”. Porque ela tinha que lidar com coisas difíceis demais, profundas demais, e não havia magia no mundo capaz de ajudá-la. Sentia traindo-se por ter sentimentos por Draco Malfoy, culpava-se por milhares de coisas que sequer teve controle em algum momento, e uma das consequências de tudo isso era o seu temperamento estar mais estourado do que de costume. Harry alfinetando sobre o assunto também não a ajudava, e novamente a culpa estava ali. Ainda esperava que a qualquer momento o amigo explodisse e dissesse o quanto tudo aquilo era errado, tentasse colocar juízo em sua cabeça. Hermione tinha tanta convicção que essa era a reação correta que passou a esperá-la e se enfurecer por ela nunca chegar. Em vez disso recebia compreensão, e podia jurar que encorajamento. Ela não queria compreensão, queria parar com o sentimento idiota. Se fosse para lutar contra si, que fosse para o lado ajuizado vencer. Afinal, teria um ganhador quando se luta contra si mesmo? Essa era uma pergunta que a sabe-tudo não sabia responder. Suspirou ao constatar sua impotência pela milésima vez. Milésima? Não, a milésima havia sido há muito tempo. Draco Malfoy era só um de seus problemas, havia todo um mundo ainda, e ele era cheio de outras pessoas.
Ela seguia a passos rápidos e com a cabeça nas nuvens, não só por pensar em alguém cujo nome é uma constelação. Um avião passou e atrás dela a pessoa com o nome no céu parecia ter tomado o maior susto de sua vida.
- Meu santíssimo Merlin, o que é isso? - o loiro deu um grito e estacou, colocando a mão no peito. Os olhos arregalados que normalmente trariam diversão a Hermione só conseguiram levar preocupação. Não adiantava, era mais forte do que ela. - Precisamos nos abrigar em algum lugar e descobrir como nos livrar dessa coisa. O que foi, não se importam em morrer? - Ele estava verdadeiramente inconformado pela indiferença dos grifinórios. - Depois de tudo o que houve não se importariam em morrer assim?
- Malfoy, se acalme. O nome daquilo é avião e não vai nos matar. - Harry, que estava mais próximo, tentou tranquilizar o garoto.
- Está surdo, Potter? Não ouviu o barulho que aquela coisa fez?
- É uma máquina enorme, você esperava o quê? Garanto que não é maior que o escândalo que está fazendo.
- Harry… - Hermione chamou enquanto se aproximava muito séria de Draco. - Ele não esperava nada, não sabia da existência de aviões. - Quando chegou perto o suficiente do garoto, colocou a mão no ombro esquerdo dele e buscou seu olhar. Agora com a expressão mais gentil, falou. - Está tudo bem, nós não vamos deixar que te aconteça nada. Essa é uma máquina enorme, feita principalmente de metal. O nome é avião e é um meio de transporte muito usado por trouxas, só que para longas distâncias. Quer um exemplo? - Diante de um aceno de cabeça por parte dele, a garota explicou. - Se quiséssemos ir para a Bulgária agora, pegaríamos uma chave de portal e viajaríamos milhares de quilômetros em segundos. Quase uma aparatação, não é? Como os trouxas não tem essa tecnologia e precisam viajar, criaram o avião. Se fôssemos de avião levaríamos algumas horas até lá. Entendeu?
- Sim. - Draco então limpou a garganta. - Acho que entendi o conceito da coisa. Mas isso pode nos matar?
- Bem… Tecnicamente, sim. Mas a possibilidade é muito remota, as pessoas lá dentro correm mais risco.
- Mione? - Harry tentou a alertar.
- E entraram mesmo assim? - O sonserino estava realmente interessado.
- Entraram. É mais fácil um acidente de carro nos matar em terra do que acontecer alguma coisa com o avião.
- Ou seja, vamos todos morrer. - Draco deu uma risada esganiçada. - E carro é…?
- Aquilo. - e apontou para o tráfego na rua, para desespero do rapaz.
- Está brincando, não é?
- Não, Malfoy, não estou. Mas não vai acontecer nada, eu garanto.
- Não pode garantir nada, Granger.
- Ah, eu posso sim. - disse se afastando. - Ainda tenho muitos livros para ler, não deixarei que nada aconteça conosco.
Draco viu Hermione lhe oferecer um suave esboço de sorriso que se desvaneceu no ato. Mas que estranho, ela tentou sorrir apesar de olhar para ele. A brisa escolheu aquela hora para soprar, fazendo os cachos da garota voarem para todos os lados. Ela fechou os olhos aproveitando a sensação e seu sorriso era completo ao olhar para Harry, em seguida.
- Tem dinheiro trouxa aí, Capuleto? - o grifinório perguntou para a garota. - Estou morrendo de vontade de tomar sorvete.
- Você não passa de uma criança, gentil senhor.
- Vou considerar isso como um sim.
E de fato era. Hermione agora ia no meio deles, mostrando a cidade a Harry, que não teve muitas oportunidades de vê-la, e a Draco que parecia não se importar com nada. Chegaram a uma filial do Starbucks que surpreendentemente estava quase vazia. Entraram e foram fazer os pedidos. O atendente era um loiro de olhos castanhos que deveria ter a idade deles. Com aparelho nos dentes, sorriu ao vê-los se aproximar. O rapaz olhou para Hermione interessado. Apesar de ela estar com dois rapazes, ele pareceu não se incomodar com isso.
- Então, senhorita, o que deseja? - disse o atendente de forma galante. Não pôde ouvir a resposta de Hermione, pois foi Harry que se pronunciou com um sorriso igualmente canalha.
- H.J., posso sugerir um sabor?
A garota o olhava alarmada, o que diabos Harry estava fazendo, afinal?
- Claro, H.J. - ela tentou parecer natural ao dizer aquilo. Só se aproveitou da coincidência que era seu primeiro nome e o do meio terem as mesmas iniciais do amigo para implicar com ele, mas o amigo em questão não se deixou abalar e mostrou qual era seu plano maligno.
- Para você eu recomendo o sorvete de pistache, com granulado em cima fica irresistível. Já seu namorado talvez goste de um milkshake de chocolate, ele é sempre muito clássico. Eu quero um sundae nesse copo maior e com muita cobertura. Chocolate, por favor.
E então sorriu. Harry estava desenvolvendo um tipo novo de vilania, aquele sorriso poderia facilmente competir com um sorriso Weasley e isso não era bom para o mundo. Aparentemente, as pessoas que entravam para a família de Arthur e Molly ganhavam novas habilidades. Se Hermione pudesse escolher de qual forma o amigo seria agraciado, com certeza escolheria outra coisa. Até a paixão de Ron por comida seria melhor do que aquilo. Junto com sorriso ele pareceu desenvolver muito cinismo. Seu plano maligno era deixar Hermione sem graça? Se fosse, teve êxito.
- Harry, pegue uma mesa enquanto eu pago, sim?
- Claro, claro. Se quer privacidade com o seu namorado é só pedir, irmãzinha.
O olhar mortal que Harry recebeu dela seria o mesmo que receberia caso derramasse café em seu livro preferido. E droga, Hermione amava ler. Ele estava encrencado. Enquanto a garota separava o dinheiro para pagar pelos lanches e esperava ao lado de Draco que fossem entregues, o sonserino procurava o moreno com o olhar. O viu quando o atendente se pronunciou.
- Hey, gostei da tatuagem. - Draco olhou para o próprio braço, mas o rapaz se dirigia a Hermione. - Mud... Mudblood. Uau, que técnica impressionante. O que significa?
- O nome de uma banda satanista do Kansas. - Diante do choque do rapaz, ela estendeu a mão. - Tome, pode ficar com o troco.
Entregou as notas e Draco pegou os lanches que um outro funcionário deu. A garota foi em direção ao grifinório e o mandou levantar, assim ele fez.
- Ora, eu não fui contra as regras e nem estou andando há tanto tempo para ser chamada de sangue-ruim por outro loiro idiota. - Hermione saiu do estabelecimento praguejando sobre garotos loiros e suas incapacidades de serem bons seres humanos.
- O que fez, Malfoy? Mais respeito com sua futura esposa.
- Não comecem, vocês dois.
- O que foi? Foi você que disse que eram um casal. - Harry se defendeu do olhar mortal que a garota não fazia questão de esconder. - Até que terminem esse lindo relacionamento a senhorita não tem escolha, vai ter que ouvir eu falar do seu namorado. E depois do seu ex-namorado.
- Ok, Malfoy. - Hermione disse se virando. - Foi péssimo enquanto durou, mas tem que chegar ao fim. Estou terminando com você.
- Que seja. - respondeu olhando para o milkshake e dando mais um gole pelo canudinho. - Qual é mesmo o nome disso?
- Céus, eu mereço! É por isso que nunca deu certo, você presta mais atenção em um copo de veneno do que em mim.
- Espere um pouco, Granger. - Draco disse, finalmente parecendo prestar atenção. - Isso aqui é veneno? Por isso o meu é diferente, não é mesmo? E por que os trouxas venderiam para ser tomado assim?
- Por Merlin, só tem o mesmo nome! Me admira você achar que trouxas e bruxos tem alguma semelhança.
- Também não é assim.
- Então como é?
- Ora, eu só pensei que esse tipo de coisa seria igual para não levar a um engano fatal.
- Por que bruxos e trouxas se misturariam, no fim das contas?
- Ainda não respondeu por que ser vendido assim na rua, para qualquer um ver. Aberto a luz do dia algo que... Espere. Está fazendo o mesmo que fiz com Joseph, não é mesmo? - Ela riu. - Isso foi muito baixo, Granger! Tenha alguma dignidade.
- O que posso fazer? Aprendi com o pior.
E no fim a discussão boba fez Hermione relaxar de novo. Estava com uma ideia em mente desde que Harry avisou que sairia do orfanato. Poderiam dizer o que quisessem dela, mas o moreno às vezes era a mais teimosa das criaturas. De certa forma era uma pena para ela que essa teimosia se manifestasse para que quebrassem regras. Era de se supor que uma pessoa tão milimetricamente regrada como Hermione Granger sofreria com um melhor amigo com esse tipo de comportamento, mas vez ou outra precisava terrivelmente daquilo. A impulsividade de Harry demonstrava coragem, no fim das contas. Ao menos na maioria das vezes, ela não podia ignorar a estupidez que já foi tal impulsividade. Mas era uma pena que para pelo menos tentar fazer algo que queria tanto quanto hoje, tivesse que usar a desculpa de que não podia se separar do amigo. Não estava assumindo sua responsabilidade, mas essa não era a única coisa que a assustava no momento.
Desde que saíram do Lar de Orfãos Destiny Child que a mesma ideia estava em sua cabeça. Uma visita. Uma simples visita. Não a alguém, mas a quê. Ela só queria ver um lugar para ter alguma paz e então voltar a sua programação normal. Não que fosse normal em um momento estar se sentindo muito grata por ter um amigo como Harry e no instante seguinte o ameaçar de todas as formas possíveis. Até mesmo caminhar perto de Malfoy havia sido uma experiência estranha, o dia não estava correndo como planejado. Seu plano inicial consistia em ignorar a presença do sonserino e tentar aproveitar o dia ao lado de Harry enquanto interagiam com criancinhas. Ela não era estúpida ao ponto de acreditar que tudo daria certo, de qualquer forma ela não era estúpida e ponto. Mas sua imaginação aberta a possibilidades não cogitou isso. Defender Malfoy, brigar e fazer as pazes com Harry sem nem perceber quando voltavam a ficar bem, vagar por aí... Com certeza coisas mais estranhas já aconteceram no mundo, mas isso não amenizava o que estava sentindo.
Já Malfoy caminhava perto dos dois enquanto tomava tranquilamente seu milkshake. Como só conhecia a parte bruxa da cidade, não é como se ele tivesse opção. Mas aquilo definitivamente lhe trazia uma vantagem, ele poderia conviver com Hermione do jeito que ela realmente era sem que a garota ao menos percebesse. Ver na prática como era seu relacionamento com o Eleito também era muito vantajoso, e perceber que apesar do afeto evidente aquilo não passava de amizade o fazia querer sorrir para os dois e os agradecer por isso. Se era estranho se sentir grato por duas pessoas não se envolverem romanticamente? Com certeza. Se o sentimento o abandonaria por causa disso? Definitivamente não. Teve muita sorte na escolha dos parceiros, afinal. Mas algumas aparências Draco tinha que manter, era mais forte que ele.
- Então o plano de vocês é simplesmente vagar por aí até dar a hora de voltar? Francamente, Granger, pensei que fosse a inteligente dos dois.
- Eu só preciso fazer uma coisa e então poderemos voltar para que você corra e diga ao professor que te obrigamos a fazer coisas horríveis. Te alimentar, onde já se viu? Tenho certeza que McGonagall ficará furiosa por não termos o abandonado por aí. Já prepare a cara de inocente, Harry, vamos precisar.
- Besteira, não funcionou nem quando eu realmente era. Por que funcionaria agora?
- Tem razão. Por que não dizemos que Malfoy nos obrigou?
- Como ficaram todo esse tempo com a fama de bonzinhos? Vocês são terríveis.
As barreiras estavam começando a ruir, mas eles nem se deram conta. Será que quando percebessem seria tarde demais?