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3. Draco


Fic: Yellow - Dramione


Fonte: 10 12 14 16 18 20
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Era um desafio para Draco Malfoy estar naquele castelo. Depois da ascensão e queda de Lord Voldemort e seus seguidores, muita coisa estava diferente. Para alguém que sempre viveu de aparências esse era um período particularmente difícil. Foi duro para o garoto se esforçar a vida inteira para trazer orgulho ao pai. Tentava se sentir digno do sobrenome que possuía, e o jeito para tornar isso possível era menosprezar os outros. O Príncipe da Sonserina, como era chamado, pensou na ironia e assertividade desse apelido. Os Malfoy eram uma das famílias mais importantes e tradicionais do mundo bruxo, e tinham uma imagem a zelar. Era de fato como se eles fossem da realeza, e ele foi ensinado a desprezar e humilhar aqueles que não eram nobres. Draco pensava também se daria tempo. É lógico que não pararia com o fim do ano letivo e continuaria buscando a redenção, mas um ano era pouco para reparar os erros com quem mais falhou. Naquele ano ele estava agindo diferente, o garoto que nunca foi descrito de forma positiva por alguém imparcial estava com a consciência pesada. Não soube exatamente em qual momento começou a repensar suas atitudes que antes lhe pareciam corretas, mas hoje era uma pessoa diferente. Carregava um arrependimento muito grande pelo mal que causou, apesar de continuar com o mesmo orgulho. Parou inclusive de odiar o Trio de Ouro. Ele ainda tinha uma implicância pelos grifinórios, mas não pelo velho preconceito. Potter de fato era um intrometido, mas salvou o mundo bruxo. Granger era e sempre seria uma irritante sabe-tudo, algo nela o tirava do sério. Weasley parecia um tanto patético às vezes, mas talvez fosse um cara legal. Não que Draco fosse admitir isso em voz alta algum dia. O problema é que ele não pôde tirar suas próprias conclusões a respeito das pessoas, depois do sobrenome a informação que se seguia na mente dele era a linhagem. Se a pessoa era sangue-puro, sangue-ruim, mestiço ou um traidor do sangue. Agora via que isso não era certo, se preocupar em saber essas informações antes mesmo de reparar na tonalidade dos olhos das pessoas. Não teve a decência de conhecer aqueles três direito. Ou pelo menos os dois garotos, com Granger a história sempre foi diferente. Ele sentia algo forte pela garota, então sendo ela quem era, optou por agir como se fosse algo muito ruim. E de fato era. Quem iria gostar de pensar toda hora na mesma pessoa com tanta intensidade? Nem o ódio aparente justificativa isso. Tudo bem que ela era uma garota nascida-trouxa e com a maior inteligência que ele já viu, conseguindo até superá-lo. Todas as circunstâncias os colocava como rivais, ela praticamente pedia para ser odiada. Mas a influência que a garota exercia nele, mesmo sem saber, era imensa. Como naquele instante, por exemplo. Era a quinta noite seguida que ela fazia a mesma coisa, passava muito tempo na mesa da Grifinória perdida em pensamentos e depois saía. Nos primeiros dias Draco a seguiu e a observou de longe. Ela costumava ficar em frente ao Lago Negro ou nos jardins observando o céu. O que era estranho, pois até mesmo certa noite quando o céu estava nublado ela ainda olhava para cima. Na terceira noite o garoto mudou seu ponto de observação para não ser pego. Não iria fazer nenhum mal a Hermione, mas sua reputação estava muito desgastada para que acreditassem. Ele olhava para ela do alto da Torre de Astronomia quando alguém se aproximou da garota por trás. Estava quase empunhando sua varinha para defendê-la quando a grifinória se assustou e jogou quem quer que fosse dentro do Lago com uma rapidez impressionante. Draco não conseguiu reprimir o sorriso de orgulho ao ver aquilo e pensar algo como "essa é a minha garota", mas sacudiu a cabeça e brigou consigo mesmo. Não só por que não tinha uma garota, mas também por que ela nunca seria a Granger.


Tentando se concentrar em outra coisa foi que olhou para o que acontecia lá embaixo e viu o Potter sair da água e a garota o secar com magia, provavelmente se desculpando. Ou ralhando com ele por assustá-la, ela poderia fazer isso até com o próprio Merlin se ele estivesse em seu caminho. Não importava se fosse ali ele, Draco, alguém rico e com um sobrenome conhecido. Não importava se fosse seu melhor amigo e irmão, como eles diziam, mesmo que o garoto tivesse salvado o mundo mágico e trouxa. Admirava muito isso nela, apesar do seu jeito esquentado. Na verdade admirava ainda mais o jeito esquentado, mas ela jamais saberia. Hermione Granger era seu segredo e sempre seria, por que ele preferia a morte a interferir mais ainda na vida daquelas pessoas.


Quando viu que a garota ficaria em segurança já que estava com o amigo, Draco decidiu ir embora. Os dois vinham na direção do castelo, então saindo de onde estava agora um encontro seria quase impossível. Mas pensamentos que não tinha controle tomaram conta de si, e ele sentou no chão frio tentando se acalmar. Afrouxou a gravata verde e prata e sentiu se apossar dele de novo... Um irracional medo do futuro lhe assaltou mais uma vez, mesclado com lembranças do passado. Medo. Terror. Coisas que ele viveu, mortes que presenciou. A guerra deixa marcas, até quem parece inatingível em sua indiferença pode ser uma vítima do que houve. Ele tinha, literalmente, uma marca da guerra. A marca negra, que jamais queimaria de novo, mas sempre estaria lá. Draco ficou ali sentado, olhos fechados, roupas amarrotadas. Passou as mãos pelo cabelo como um sinal de nervosismo, mas tentava se acalmar. Não soube quanto tempo ficou ali, pois seu único pensamento para tentar remediar a situação era somente se concentrar no inspirar e expirar que o manteria vivo. "Só respire", ele pensava. E foi o que fez. Aos poucos sua respiração normalizou e ele assumiu a costumeira postura incólume. Longos minutos passaram, mas seu rosto enfim se tornou uma máscara quase sem expressão. Olhando atentamente, só os olhos vermelhos pelo sono e pelo recente episódio denunciariam que algo não estava bem. Ajeitou a postura, suas roupas e cabelo, e rumou para as masmorras.


Saiu da Torre se esgueirando como uma sombra, e quase foi pego por Filch. Mas o garoto era astuto e conseguiu se safar tranquilamente. Enquanto andava pelos corredores ouviu mais um barulho e se escondeu pensando ser o zelador, mas ao ouvir o nome do antigo inimigo sendo sussurrado soube que estava enganado. Não havia decidido se isso era bom ou ruim até olhar na direção que o som vinha e ver Granger e Potter fechando uma porta e indo na direção contrária. O som veio dali, eles ficaram muito tempo naquela sala de aula, pois o loiro permaneceu um bom tempo na Torre de Astronomia tentando acalmar seus pensamentos e as batidas de seu coração, por mais que não soubesse precisar a quantidade de minutos passados. Os grifinórios haviam entrado no castelo há muito tempo quando ele decidiu rumar para seu dormitório e tentar dormir. Se isso fosse o que parecia ser, Draco não queria nem imaginar o que aconteceu ali dentro. Apesar do que diziam, aqueles dois não tinham nenhum laço de sangue e se gostavam de verdade, até um cego veria. Soube que a garota não estava mais namorando com o Weasley, e ponderou que não era impossível que ela descobrisse que na verdade preferia o outro amigo, esse mais compatível com ela. Foi repetindo um mantra mentalmente que saiu de onde estava escondido e foi em direção às masmorras, dessa vez fazendo barulho e não se importando. "Não interfira, deixe-a ser feliz. Droga, Malfoy, não se importe". Riu com escárnio e falou em voz alta.


- Tarde demais.



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