Capítulo 9
Aberratio Delicti
“Eu fiz como você me disse, Tom”, ela continuou, falando muito rápido. “Eu vim com você por sua chantagem, mergulhei em seus pensamentos, corrompi a minha alma, menti, matei um homem, tudo por seu ideal. Eu não penso mais, não questiono mais, apenas não me peça para não te desejar, porque isso é algo que a minha humanidade não permite”.
Tom deixou escapar um sorriso pelo canto dos lábios e Ginny percebeu a alteração em sua expressão, mesmo que não o encarasse mais, por sua vergonha.
“Eu disse”, ele sussurrou ao ouvido de Ginny, entrelaçando seus dedos aos cabelos ruivos.
Ela fechou os olhos, quando sentiu os lábios dele em seu pescoço. O frio não incomodava quando Tom estava perto, segurando com força a sua cintura, deixando-a presa em seus braços, de onde jamais fugiria, mesmo que desejasse. Esquecia de respirar nesses momentos, segurando a respiração ao máximo, até se tornar insuportável, para só então inspirar o ar quente com o cheiro dele.
“Eu estava certo”, murmurou, beijando os lábios de Ginny em seguida, com delicadeza. “Estava certo como sempre”.
E, mais uma vez, era como se alguma energia desconhecida atravessasse o corpo de Ginny, fazendo com que pudesse sentir as batidas aceleradas do seu coração encher o quarto inteiro. Esquecendo de respirar, escutando apenas o silêncio, prendendo-se a cada segundo naquele momento em que seu mundo se resumia a Tom, em um paraíso. O Éden, bem no meio do inferno. Seu deus e seu demônio, na incrível e fascinante dualidade de Tom.
Era como um vício. Tom e seus lábios eram causadores de uma dependência que a tornavam insana. Precisava prender-se a ele, diminuir a distância, entregar-se aos delírios de sua própria mente doente. Queria abrir os olhos para observar o rosto do seu anjo, mas tinha medo de acordar, de ter seus lábios separados mais uma vez e de mergulhar sozinha de novo no abismo de sua própria consciência, onde Tom era distante, como o próprio Deus.
Abriu os olhos, relutante. E encontrou os dele abertos também. Tom não se entregava. Seu olhar de veludo continuava o mesmo, ainda que suas mãos dissessem que ele a desejava. Havia a mesma malícia do negro em contraste com a pele branca, o mesmo paraíso estranho e diferente do céu. Não havia promessas eternas, ou sentimentos claros naquela confusão em que Ginny se perdia, dentro da escuridão dos olhos de apenas um tom.
Ele afastou seus lábios, observando com atenção a desaprovação do castanho da íris de Ginny. Seu dedo selava a boca rosada, silenciando perguntas, calando o desejo, mas não impedindo um suspiro. Sorriu.
“Talvez alguns momentos de reflexão acalmem os desejos que incandescem você por dentro”.
Ele se afastou, tirando sua camisa e colocando sobre o baú, de onde tirou outra, que vestiu imediatamente. Ginny tentou não olhar para Tom, procurou refrear sua vontade de empurrá-lo contra a parede e exigir que ele a desejasse também, que a amasse, que não fosse o que era. Por tudo o que ela era, pela sombra da garota provinciana e inocente que fora um dia, hesitou. Precisava manter o mínimo do seu orgulho.
“Troque-se e durma. Descanse nessa primeira noite de sono tranqüilo que tem a oportunidade de desfrutar depois de tantos dias, pois amanhã iremos à igreja”.
Dito isso, ele se sentou na cama, encostando-se nos travesseiros e pegou alguns pergaminhos com escrituras bíblicas para ler. Ginny caminhou até o baú e o abriu lentamente, encontrando as vestes de dormir. Desamarrou os laços do seu vestido, encontrando um pouco de dificuldade nos amarrados em suas costas, e retirou a parte superior das vestes, deixando-as escorregar pelos braços, sentindo os olhos de Tom às suas costas, observando-a. Despiu-se de vergonha e procurou não se importar, quando deixou as
saias deslizarem por suas pernas, fazendo-a sentir frio. Vestiu a roupa de algodão e amarrou o cordão da gola frouxa, soltando os cabelos em seguida, passando os dedos entre as mechas para penteá-los.
Quando se virou, confirmou o que seus instintos já lhe diziam, pois Tom a olhava. A mesma expressão e os mesmos olhos lhe traziam as mesmas dúvidas, as mesmas incertezas e a sensação de que não havia chão. Parecia que estava caindo eternamente em um precipício que não possuía fim, deixando que o frio do inverno a congelasse por dentro, secasse-lhe a garganta e a impedisse de raciocinar com clareza.
Foi o meio sorriso de Tom que a fez despertar e caminhar até o seu lado da cama, onde deitou insegura. Queria poder abraçá-lo, acariciar os cabelos negros até que ele dormisse em seus braços, enquanto sentia a respiração dele em seu pescoço. Suas ilusões. Seus desejos não atendidos se acumulavam como a neve que caía do lado de fora, cobrindo o chão e transformando o colorido em tons de branco.
“Não quero que se sinta assim”, ele falou por fim, encarando o teto.
“Não pode mandar no que eu sinto”.
“Tem razão”, falou achando graça.
“Como quer que eu me sinta? Sei que jamais terei o seu amor, por que me nega todo o resto?”
Tom não respondeu, apenas deitou-se sem desviar os olhos do teto. Ele nunca respondia quando não tinha uma resposta perfeitamente formulada e convincente. Talvez por isso nunca falasse nada que pudesse ser motivo de arrependimento. Seus atos sempre pensados e palavras calculadas lhe davam vantagens sobre quem desejasse, pois Tom sabia como cada expressão sua afetava as pessoas ao seu redor.
“Você é linda, Eva. Tão bonita que os ventos parariam de soprar, as águas de correr e os céus se abririam, só para observá-la”, falou baixo, sem desviar a sua atenção das sombras projetadas no teto.
Ginny suspirou, tentando entender os motivos que ele tinha para não desejá-la como ela o desejava. Sempre dizia que ela possuía encantos que seriam apreciados por qualquer deus, então por que a indiferença? Respirou tentando não fazer mais perguntas a si mesma e se aproximou, colocando a cabeça sobre o peito de Tom, que não se alterou com a iniciativa.
“Você se importa em dormir assim?”, perguntou insegura, ao ouvido do sacerdote.
“Não”.
Ginny tentou não sorrir. Apenas murmurou qualquer coisa em agradecimento e fechou os olhos, escutando a respiração e as batidas do coração de Tom. Tudo tão compassado e calmo, sempre no mesmo ritmo, suave. Respirava fundo para conseguir captar todo o cheiro que a deixava tonta, que lhe provocava, incitava ao pecado, sua tentação.
Enquanto tentava esvaziar a mente, adormeceu. Abraçada a Tom, que continuou acordado, em sua mesma expressão, com seus pensamentos voando longe e em seus próprios desejos. Ele fitava o teto e as sombras, pois ele não se entregava nem aos seus próprios sonhos quando estava dormindo.
Ninguém precisou chamá-la na manhã seguinte. Acordou sozinha ao sentir que seus braços já não estavam em volta do corpo de Tom. Ginny abriu os olhos sem muita vontade e viu que ele não estava no quarto. Ela se encolheu na cama, os lençóis estavam frios e sua mente turva, talvez pelo hábito de não pensar mais nas questões que antes achava importante. Não queria mais se preocupar com quem era ou no que havia se transformado, mas por vezes as lembranças de sua casa, dos seus irmãos e de Harry faziam com que sua mente lutasse por seu verdadeiro jeito de ser.
Não era Eva, seu nome era Ginny Weasley.
Ginny, Ginny, Ginny...
Estava se esquecendo de como era ser ela mesma, sentia que a sua verdadeira identidade estava perdida em algum lugar no passado recente. Ginevra estava perdida graças a ele, o Tom que nunca poderia chamar de seu.
A porta se abriu e ele entrou com um sorriso nos lábios, parecendo satisfeito com qualquer coisa, segurando algum objeto feito de prata. Ele, a cada dia, parecia ficar mais bonito e imponente, enquanto ela procurava desviar de seu próprio reflexo nas pratarias ou nos lagos congelados pelos quais passava por medo de ver sua alma mutilada através do rosto sem ânimo. Ela sentia tudo isso, mas não raciocinava mais quando se tratava de Tom, orbitando em torno dele como se fosse um anexo da existência daquele deus, adaptando-se como podia para não ser descartada, porque pior do que se anular seria não tê-lo. Não poder senti-lo. Seu vício.
“Trouxe algo para você comer”, falou, colocando a bandeja na cama.
Ginny olhou para a refeição belamente arrumada e suspirou. Havia pão, algumas frutas, queijo, mas não sentia fome. Tom percebeu e se sentou diante dela, colocando a bandeja para o lado e, em seguida, tocando sua face com delicadeza.
“Você precisa comer”, sussurrou. “Mesmo que não tenha fome, porque não pode ficar fraca”.
“E você se importa?”.
“Sim”.
“Como pode se importar?”.
“Eu não te amo, mas isso não significa que eu não me importo e eu preciso que você se mantenha forte”.
“Tom, está tão difícil permanecer ao seu lado”.
“Mas você sabe que é mais difícil não estar”.
“Eu sei. E apenas tenho tentado fugir do fogo que me queima, mas basta olhar ao redor para ver que o fogo continua lá”.
“Eu sei, Ginny”, sussurrou, aproximando-se e beijando seu pescoço. “Mas lembre-se de que as coisas funcionam como eu quero e, neste momento, acho apropriado que coma e se troque, para podermos ir à missa de Natal”.
“Por que faz isso comigo? O que ganha me tentando com suas palavras e beijos?”, perguntou mantendo o tom de voz baixo, mas acelerado.
“Sua devoção”, murmurou.
A porta se abriu com um estrondo. Ginny trouxe as cobertas para junto de si, escondendo-se até o pescoço. Tom apenas encarava os intrusos com curiosidade. As vozes sussurradas não eram reais, apenas uma confusão de pensamentos agressivos. Havia dois homens vestidos de negro e um terceiro, mais velho, usando uma batina roxa. Logo atrás estava Flamel, com olhar preocupado, aparentemente procurando entender o que estava se passando.
“Pedimos perdão ao senhor, mas recebemos uma denúncia”, anunciou o homem de roxo, em francês.
“Tom, o que ele disse?”, Ginny perguntou, mas Tom ignorou.
“Bispo Larocerie, o que está havendo? Que tipo de denúncia?”, Flamel questionou no mesmo idioma.
“Senhor Lecois, acreditamos em sua inocência, mas cremos que abriga em sua casa dois hereges”.
“Tom, o que eles estão dizendo?”, Ginny insistiu.
“Perdão, senhores, mas gostaria de pedir permissão para informar à minha esposa o que está acontecendo. Eva não entende francês”.
“De acordo com algumas linhas da denúncia, vocês não são casados”.
Flamel lançou um olhar de desconfiança a Tom, mas este logo desapareceu. Flamel parecia entender perfeitamente como era ser perseguido e acusado.
“Eva, esses senhores estão dizendo que não somos casados e nos acusam de heresia”, falou em latim, para que o bispo e os demais padres pudessem entender.
“E em que estamos enquadrados como hereges?”, Ginny perguntou.
“De acordo com a denúncia, há testemunhos de que a mulher, que usa ‘Eva’ como nome falso, tem poderes fornecidos pelo próprio demônio”, sibilou o Bispo, em latim. “Entregue-se, bruxa, e talvez Deus tenha misericórdia da sua alma”.
Ginny suspirou, fechando os olhos. Podia entender os pensamentos daqueles homens, podia vê-los com clareza, precisava se defender. Magia. Não o tipo de magia que aqueles homens acreditavam. Eles não sabiam de nada, não conheciam a essência da vida ou sequer poderiam imaginar que tudo, até os mais íntimos pensamentos de suas mentes, eram compostos por éter.
Concentração. Eles nunca iriam perceber a força do que os atingiria. Talvez Flamel percebesse o que estava acontecendo e os expulsasse, mas precisava salvar a si mesma e a Tom. Ela os encarou por dois segundos, concentrando-se nos pensamentos daqueles homens, e pode ver as cores. Muitas delas. Pensamentos agressivos que precisava colorir com cores suaves. Mudando, apagando, tornando seus os pensamentos deles.
“Senhores, deve haver algum engano”, Ginny falou baixinho, sem precisar se esforçar para parecer convincente. “Essa denúncia está equivocada, pois Tom e eu somos casados, católicos e jamais nos envolvemos com qualquer coisa distante do divino”.
“Bispo Larocerie, sei que o senhor é um homem justo. O quanto pode confiar nessa denúncia?”, perguntou Flamel em francês.
Enquanto Tom voltava a traduzir cada palavra para latim, para que Ginny entendesse, ela não desviou o seu olhar, transformando o último fio de pensamento agressivo que conseguiu ver no Bispo.
“Garanto que não é mais do que a confiança que tenho por você, Raphael”, falou sorrindo de forma amigável. “Sinto precisar fazer isso, mas entenda que é o meu trabalho investigar denúncias feitas à Inquisição. Não queremos aqui o mesmo cenário que é encontrado em Castela”.
“Certamente não”.
“De qualquer forma, peço os registros que comprovem o casamento. Assim não poderão contestar a veracidade e poderemos dar por encerrada essa investigação, de modo que a denúncia será dada como falsa, sem maiores perturbações”.
Tom se levantou e vasculhou um dos baús, perfeitamente organizados. De lá retirou dois pergaminhos que, observando de longe, Ginny não conseguia identificar, mas sabia que era algum documento falso que comprovava o casamento dos dois.
O Bispo e seus acompanhantes verificaram o documento com pouca atenção e se retiraram logo em seguida, guiados por Flamel. A porta se fechou e Ginny suspirou.
“Eles são rigorosos aqui. Em Castela, a Inquisição não costuma invadir a casa de nobres”, murmurou. “Essa necessidade de seguir as regras da igreja me preocupam, porque acho improvável que tratem os nobres daqui como iguais aos cidadãos comuns, restando apenas a conclusão de que a denúncia foi feita por um nobre também”.
“O que você fez?”, Tom perguntou, ignorando os pensamentos de Ginny. “O que fez para que eles desistissem tão rápido?”
“Não pensei que você perceberia. Pessoas normais não sentem quando manipulo o Éter, apenas sentem os efeitos...”
“Acredito que você já está ao meu lado há tempo suficiente para perceber que não sou uma pessoa comum, Ginny”.
“Sim, eu sei. Mas não fiz nada além de manipular os pensamentos deles através do Éter”.
“E como faz isso?”
“Quando entro em sintonia com a essência eu posso ver tudo em cores. É como leitura de pensamento, mas é diferente, porque eu os vejo. Coloridos, próximos, perfeitamente manipuláveis”.
“Você sabe quem fez a denúncia, não e mesmo?”
“Sim”.
“Está satisfeita por eu não tê-lo matado quando tive a oportunidade?”
“Sim, estou. Naquele momento ele não havia feito nada para merecer ser morto, Tom. Seria cruel”.
“Você é bondosa demais. Esse seu lado inocente me deixa curioso”.
Ginny podia ouvir claramente que algumas das conversas sussurradas na saída da igreja eram direcionadas a eles, o jovem casal que acompanhava os Lecois. Ela conhecia Tom, sabia que estava tenso, mas, aos olhos dos demais, tinha certeza de que ele parecia tranqüilo. Viu-se sorrindo sem vontade duas ou três vezes para desconhecidos que Flamel indicava de longe, mencionando nomes dos quais jamais iria se lembrar. Suspirou, apertando o braço de Tom com mais força. Estavam chamando atenção demais e o olhar que ele lhe lançou por apenas um segundo antes de voltar a sorrir confirmava isso. Saberiam essas pessoas que eles foram alvo de uma denúncia? Não quis se aprofundar nos pensamentos de ninguém para tentar descobrir.
“Meu caro Tom!”, Ginny ouviu Dominique cumprimentá-lo de braços abertos. Gestos que conseguia identificar claramente como falsos quando encarava o olhar malicioso do homem.
“Dominique”, cumprimentou com um aceno comedido. Tom tremia de raiva, mas ainda conseguia manter as aparências.
“Gostaria de apresentá-lo ao senhor e senhora Franiè”, acenou, indicando um casal que já se aproximava. “Ele também é médico, então acredito que terão muito sobre o que conversar”.
“Certamente”.
“Devo alertá-lo que eles não falam castelhano, então se desejar que eu traduza...”
“Não será necessário tradução alguma se a língua em nossa conversa for latim, francês ou italiano, Dominique”, respondeu com calma, em latim.
“Um mestre em línguas ao que vejo”, o senhor se aproximou, deixando a esposa para trás, junto a outro grupo de mulheres mais jovens.
“Carlo, este é Tom Riddle, o jovem rapaz de quem havia lhe falado antes da missa, e essa é a sua gentil esposa, Eva”, falou apontando para Ginny.
“Bondosas são as suas palavras”, Tom cumprimentou o médico.
“A sua esposa se recuperou bem do mal estar de ontem?”, perguntou Carlo.
“Por que o senhor se dirige a mim quando deveria questionar Eva sobre seu estado?”, Tom perguntou, parecendo achar graça. Ginny corou.
“Estou bem, senhor Freniè. Apenas um enjôo sem importância”.
“Caso precise de ajuda no diagnóstico, estarei à disposição”.
“O diagnóstico de minha amada esposa é o mais simples possível. Logo teremos o nosso primeiro herdeiro”.
Ginny apertou o braço de Tom, surpresa com a resposta inventada, mas ele ignorou. Dominique parecia ficar mais vermelho a cada segundo e Ginny se concentrou nos pensamentos dele. Medo, desejo de vingança, raiva. Eram tantos sentimentos e pensamentos juntos que o homem parecia uma bomba prestes a explodir. Estava extremamente irritado, sentia-se ameaçado desde o começo, durante o jantar. Acreditava que Tom ia matá-lo, por isso havia entregado os dois para a Inquisição, baseado no pouco que ouviu da conversa dos dois na floresta, durante a viagem. Planos. Mais planos para se livrar de Tom, ele queria...
“Não”, Ginny sussurrou, fechando os olhos. Sentindo-se tonta pela chuva de imagens que haviam passado diante dos seus olhos.
“Eva?”, Tom se mostrou preocupado diante dos demais, mas Ginny conhecia aquele olhar. Ele estava irritado.
“Estou bem. Só um pouco tonta”.
“Acredito que seja melhor levá-la de volta, Raphael”.
“Certamente. Chamarei Corinne para seguirmos juntos, sim?”.
Logo estavam no coche voltando para casa dos Flamel. Ginny sentiaque Tom estava diferente, parecendo ligeiramente inquieto, mas não ousou falar nada diante de Flamel, que também o observava com atenção.
“Algo errado, Tom?”, perguntou gentilmente.
“Apenas preocupado. Eva tem passado mal com mais freqüência do que acontece normalmente”.
“Talvez seja pela longa viagem”.
“Sim, também creio que a nossa cansativa viagem tenha colaborado, mas após o jantar certifiquei-me de que ela teria uma boa noite de sono”.
“Vocês passaram por perturbações nessa manhã, então não fico admirado que o susto tenha influenciado o estado da criança”.
“Não falem de mim como se eu não estivesse presente, por favor.
Flamel sorriu.
“Perdão. Acredito que me habituei aos maus costumes dessa cidade, às vezes Corinne precisa me lembrar de que as mulheres têm vontade e consciência própria, diferentemente de como os homens daqui pensam. Em Paris era diferente...”
“Eu gostaria de conhecer Paris”, Ginny sussurrou.
“Oh, mas pensei que Paris seria o próximo ponto da viagem”, Flamel falou sorridente.
“Um provável destino, Raphael. Tudo dependerá de como será o andamento de minhas pesquisas aqui”.
“Então torceremos para que dê tudo certo, assim Eva poderá conhecer minha terra natal. Uma cidade encantadora, minha querida, encantadora!”
“Sim, vamos torcer para que tudo dê certo”, Ginny murmurou, sentindo pena de Flamel.
Se tudo realmente desse certo ele provavelmente estaria morto, ao lado de sua esposa, aos pés de Tom. E ela seria cúmplice disso, mas não pensava em impedir, afinal, queria o Éden também. Desejava sentir em sua pele o que sua mente já tinha vislumbrado. O calor, o prazer, a sensação de liberdade e vida encher-lhe o corpo mais uma vez. Deixou um sorriso se formar no canto de seus lábios, naturalmente, como se aquele gesto fosse um hábito seu... Acreditava mesmo que valia a pena destruir mais vidas por um sonho que não era seu? Por um desejo? Suspirou. Não queria se questionar mais, pois tinha medo de descobrir que sua resposta seria sim.
“Tom”, Ginny sussurrou.
“Sim?”, respondeu no mesmo tom, para que Flamel não ouvisse.
“Eu gostaria de ter a sua permissão”, falou encarando-o, muito séria.
“Permissão? Para que você quer permissão?”
“Para resolver as coisas do meu jeito”.
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