Capítulo 1 – Quase Sem Querer
Gina andava a passos largos pelos corredores de Hogwarts. O mal-humor estampado na face branca, evitava olhar os companheiros que passavam, na esperança de que nenhum deles puxasse conversa. Não que alguém estivesse disposto a conversar com a garota, vendo o estado em que se encontrava, e sabendo tratar-se de Gina Weasley. Uma palavra, um toque e levaria toda a descarga de raiva da menina, então era melhor deixa-la quieta. Não havia motivo pra tanto nervosismo, só o simples fato de ter de acordar já implicava em uma manhã horrorosa. E ainda conseguia ser pior quando encontrava um Harry Potter sorridente e simpático logo cedo. “Oi, Gina. Dormiu bem?” vinha o garoto tentando puxar conversa. Gina por dentro revirava os olhos toda vez que escutava esse cumprimento inútil. Sorria de volta e respondia “Muito bem. E você?”, apesar de a noite ter sido um lixo de pensamentos e fantasias que não a deixavam dormir.
A falsidade reinava dentro de Gina. Guardava um rancor de Harry que não sabia explicar de onde, nem como surgira tanto desafeto. No fundo ela sabia que o desprezo do garoto por ela foi o maior motivo dessa mágoa secreta. Tanto tempo esperando que ele a notasse, e quando finalmente notou, já não se importava mais.
Pensando em qual tirada usaria em Harry assim que o encontrasse pela escola, Gina nem percebeu em que direção andava. Olhava para baixo com uma expressão de ódio profundo. As olheiras mostravam o problema com sono que a menina tinha desde os 12 anos, quando foi raptada por Tom Riddle e presa na Câmara Secreta. Olhou para cima, tentando se acalmar. Virando o corredor vinha uma segunda garota, aparentemente igual ou mais irritada que Gina se possível. Os dedos brancos seguravam os livros na mão como se fossem armas. Gina reparou na menina e por um momento ficou estupefata. Se deu conta que nunca havia reparado naquele ser á sua frente.
Sequer sabia ser nome. Reparou que era muito bonita, e tinha um ar triste e melancólico ao seu redor, os cabelos castanhos curtos esvoaçavam atrás na nuca enquanto ela andava, e misturado com os grandes olhos cor de mel davam um ar choroso á desconhecida, e a franja descia suavemente pelos olhos. Quando ela passou por Gina, seu perfume exalou por perto dela. Gina inalou aquele cheiro doce de flores, e se deixou envolver pela lavanda. Parou por um instante no meio do corredor e fechou os olhos. Era como se estivesse no céu, andando ao meio de flores no campo. Logo passou o cheiro e Gina voltou saiu de seu transe, com várias pessoas olhando-a parada no meio do corredor.
- O que? - sibilou irritada para o menino mais próximo, e saiu andando irritadamente de novo.
O cheiro...continuava em sua mente. Queria saber quem era a menina, de onde vinha, por que estava tão irritada e qual era o maldito perfume que ela usava. Quando a ruiva metia algo na cabeça, ninguém conseguia tirar.
Teria o 3º tempo livre, e agradecendo aos céus pela folga foi encontrar-se com a única pessoa que suportava-a na escola, Mandy. A expressão de raiva em seu rosto diminuíra, mas o resquício de estar sempre daquele jeito deixava-o com marcas de expressão na testa e em volta dos lábios, dando a impressão de estar sempre irritada.
Mandy veio junto a amiga, com uma cara infeliz que se aproximava ao nojo.
- Presenciei a coisa mais nojenta de toda a minha vida, ruiva! - a garota loira deu o braço para Gina e saíram andando – Pirraça parece que assaltou a gaveta de calcinhas das sonserinas e resolveu espalhar por Hogwarts inteira!
Gina não pôde continuar com a cara feia e teve que rir da situação.
- Que nojo! - concordou ela, rindo.
- Menina, tinha uma que acho que até vovó teria medo de usar. Amarela, um horror - continuou Mandy, se empolgando pela amiga estar dando atenção.
- Talvez você não tenha - riu Gina. Mandy fez uma careta e sorriu.
Foram descendo até os jardins, e tudo seria perfeito se o Saguão de Entrada não estivesse apinhado de alunos bagunceiros, parecendo que Hogwarts inteira havia recebido folga no mesmo horário. Era começo de ano, tudo meio desorganizado, depois resolveriam esse problema, pensou a ruiva. Lutando para passar por eles ilesa, Gina avistou pela segunda vez no dia a Desconhecida, que parecia estar um pouco menos irritada. A menina vinha distraída ao encontro de Gina, que sentiu uma enorme felicidade ao reconhecer o perfume. Quase ao lado de Gina, um bagunceiro do 2º ano tromba com a garota, empurrando-a em cima de Gina, que se esparrama pelo chão, com mochila, livros e Desconhecida por cima. Foi o bastante para ela voltar a se irritar.
- Não presta atenção, menina? - perguntou a menina caída ao seu lado, rudemente.
Mesmo tendo sentido algo diferente em relação à menina, seu instinto agressivo não deixava de aflorar, fosse com quem fosse, se ela achasse que tinha se saído mal na situação.
- Sinto muito - a garota de cabelos curtos respondeu, entediada, e com um leve traço de irritação continuou - se estão empurrando todo mundo.
- Não sinta, evite - Gina levantou-se e tirou a poeira das vestes - E corte a franja, quem sabe veja melhor por onde anda!
- Gina, deixe a menina - interveio Mandy, sem entender o porquê de tanta agressividade de sua amiga.
A Desconhecida ergueu os olhos, os quais se encherem de lágrima. Ela se virou para continuar seu caminho, quando respondeu:
- Você é realmente o que as pessoas falam, não é?
Essas palavras ecoaram na cabeça de Gina. Como assim? Ela me conhece? O que as pessoas falam de mim para ela, e o melhor, ela procura saber quem sou? O arrependimento tomou conta de Gina e ela corou ferozmente. Havia sido antipática até mesmo com a menina que a cativara só pelo perfume, o qual esqueceu de todo ao ver a menina espatifada ao seu lado.
- Parabéns, menina simpática! - disse a amiga, batendo palmas com escárnio.
As duas continuaram a descer para o jardim, mas Gina não estava ali na verdade. Os olhos brilhantes da outra, misturado a sua confissão de que a conhecia mexiam com seus pensamentos. Tentava esquecer tudo aquilo, nunca havia sentido tanta atração por alguém como por ela. Gina se assustou quando a palavra “atração” veio em sua cabeça para definir o que seria aquilo. Atração?
Impossível. Gina não costumava sentir-se assim quando achava alguém interessante, mas não era a realidade que a garota experimentava. Precisava descobrir mais sobre ela, e mais do que tudo, precisava se desculpar pela péssima conversa que teve minutos antes com a Desconhecida. Gina era assim, sempre brigando com todo mundo, e sempre com remorso depois, apesar de nunca pedir desculpas ou assumir isso. A dor de saber que feriu alguém somente com palavras sempre doía em Gina, todas as vezes em que parava para pensar no que havia feito, e não obstante, dessa vez ocorreu o mesmo. A única diferença, é que Gina sentiu que deveria ir atrás da Desconhecida e pedir desculpas por ser tão grossa com as pessoas, e além de tudo, precisava sentir o cheiro daquela menina novamente.