Capítulo 38
Estávamos no final de Dezembro, o natal havia passado e comemorávamos o ano novo. Ao contrário do que contavam as minhas expectativas, não o passei com meus amigos na casa de Nicolau e Perenelle. Os Black possuíam uma tradição de sediar festas monumentais nessas ocasiões e como eu já não havia passado o natal com eles, Sirius me fez comparecer.
Por mais que as nossas famílias não se dessem bem, o convite era estendido para os Preminger com sutil senso de dever. Esse, no entanto, parecia vir apenas de um lado familiar, visto que muitos dos meus parentes não se davam ao trabalho de comparecer. Tia Sarah, como representante dos meus pais, utilizava todo o seu senso diplomático para permanecer nas festas. Colin ia como seu braço direito. Enquanto vovô Archie ia apenas em consideração a mim.
Seria muito rancoroso da minha parte afirmar que dentro do clã Black não havia exceções de coração e comportamento. Ainda assim, não creio que três em duzentos deva ser uma porcentagem de muito valor. Em todo caso, nem mesmo estes deixavam de me tratar como se fosse uma intrusa. E nunca houve nada melhor do que uma reunião familiar para provar quando tia Sarah acertava. Não só me viam como uma intrusa, mas também como a mulher incapaz de lhes conceber um herdeiro, um fruto podre de sua tão aclamada árvore genealógica.
Eu sentia o olhar de minha tia me perfurando pelas costas sempre que alguma pessoa me indagava sobre a falta de filhos. E nada mais me cabia além de engolir o orgulho e responder pacientemente a cada uma delas. No final, após cumprir meu dever cívico e acompanhar Sirius para falar com todos presentes, me unia ao grupo Preminger.
— Uma nuvem de fumaça envolvendo todas as mentiras do mundo. - comentou Colin, enquanto observava alguns parentes mais velhos de Sirius fumando charutos.
— Eu sempre achei que os Black quisessem compensar alguma coisa com toda esta pompa. - adicionou meu avô com um sorriso malicioso.
— A incapacidade de fazerem metade das mulheres deste salão felizes. - concordei, adivinhando a ideia de vovô Archie. - Agora, me expliquem de novo, porque Cora não veio compartilhar da nossa insatisfação em estarmos aqui?
— Ela já está passando pela sua própria. - foi Colin quem respondeu. - Escreveu à mamãe se desculpando por sua ausência. Parece que está de cama com febre.
— E uma bem forte para fazê-la se desculpar com tia Sarah. - comentei mordazmente.
— Ela foi visitá-la quando recebeu a carta. - comentou Colin em visível defesa da mãe, a qual e não retruquei.
O amor que ele sentia por tia Sarah não o impedia de ser meu primo favorito. Contudo, evitávamos discuti-la ao máximo. Talvez porque os argumentos dele fossem melhores do que os meus.
Aquele ano novo, contudo, não ficaria marcado historicamente por aquela ter sido uma das mais glamourosas festas na casa de Fineus Black, mas sim pelos eventos que decorreram dali para frente. O relógio bateu as doze badaladas da meia noite quando a senhora Ursula anunciou o início da dança. Colin me olhou com um sorriso zombeteiro e ofereceu-se para ser meu primeiro parceiro, o que eu aceitei para evitar que Sirius se aproximasse querendo mostrar domínio perante a família. A dança exigia muitos giros e eu só me lembro de sentir a minha cabeça pesando enquanto desmaiava nos braços dele.
Depois de três abortos, eu já havia desenvolvido uma capacidade maior para determinar quando estava grávida. E, como eu imaginara, após a noite em que contei a Sirius sobre meu relacionamento com Alvo, suas investidas contra mim se tornaram muito raras. Enquanto as de Alvo cada vez mais frequentes. Uma poção anticoncepcional só seria inventada anos mais tarde… o que é engraçado quando se pensa que uma abortiva sempre existiu para salvar a honra de bruxinhas inconsequentes, como esta que aqui escreve… Enfim, fazia alguns dias que eu sentia os sintomas. Contudo, daquela vez nada fiz porque tinha certeza de que a criança não era de Sirius, mas de Alvo…
— Graças ao bom Merlin, você acordou! - ouvi a voz de vovô Archie exclamar quando recuperei os sentidos. - Colin, vá buscar sua mãe, ela acordou! - para o meu azar, meu primo já havia trago tia Sarah para o andar de cima.
— O que aconteceu? - perguntou ele, minha tia me fitava em silêncio.
— Acho que foram giros demais. - brinquei com a mão na cabeça.
— Vou descer e avisar a todos que está tudo bem. - avisou Colin depois de rir de mim. Éramos só eu, vovô Archie e tia Sarah agora.
— Pelas barbas de Merlin, Amélia, - começou meu avô assim que meu primo saiu. - eu já a vi rodando mais de dez vezes numa dança sem sinal de que iria desmaiar. Tem certeza de que está tudo bem? - perguntou ele visivelmente preocupado com sua netinha. Tia Sarah, porém, permanecia silenciosa e ao encontrar seu olhar, os olhos verde ácido, congelei.
— Papai, por favor, deixe-nos a sós. - ela pediu polidamente, mas séria.
— Sarah, a menina acabou de desmaiar, está abalada. Não é o momento para os seus sermões. - retrucou meu avô também sério.
— Acho que o senhor concordará comigo quando Amélia responder a sua pergunta. - ela insistiu cautelosamente. - Então, Amélia, tem certeza de que está tudo bem? - indagou tornando a me fitar.
Não queria falar na frente do vovô Archie porque tinha certeza de que tia Sarah não teria contado a ninguém sobre Alvo e eu. Contudo, a pressão daqueles olhos foram demais para eu suportar.
— Eu estou grávida… - disse quase com um sopro inaudível de voz.
— Ah, meus parabéns, minha querida! - exclamou vovô Archie correndo para segurar nas minhas mãos. Tia Sarah arqueou as sobrancelhas com um olhar significativo, como se dissesse “E…?”
— De um filho de Alvo Dumbledore. - acrescentei olhando apenas para ela. Meu avô soltou minhas mãos quase que instantâneamente e minha tia crispou os lábios, reprimindo qualquer reação.
— Minha criança… como pode ter sido tão…? - começou meu avô após alguns segundos de silêncio constrangedor.
— Inconsequente? Até parece que ela nunca foi assim. - desdenhou minha tia com um sorriso de raiva.
— Sarah. - advertiu meu avô e ela ficou sem expressão num piscar de olhos. - Bem, então, acho que é melhor descermos. Mais alguém sabe disso? - perguntou ele parado no vão da porta, se referindo a mim e Alvo.
— Sirius sabe. - revelou tia Sarah com um suspiro cansado. - E isso é o que deveria ter sido evitado, não é?
— Deveria, mas não foi. - concordou vovô Archie. - Bem, em todo caso acho que podemos fazer parecer que essa criança é filha dele. - ponderou olhando para a filha.
— Resolveremos isso depois, papai, agora é melhor descer. - interpôs ela fazendo sinal para que eu saísse. No alto da escada, contudo, ela me segurou pela mão, fazendo com que nossos olhos se encontrassem. - Nós duas sabemos que essa criança nunca se passará por uma Black. Não quando os pais biológicos possuem características físicas tão peculiares. E acho que também concordamos que o pai não deverá ficar sabendo disso. Um desastre poderia acontecer. - disse tia Sarah com um tom extremamente insinuante e mais assustador do que o usual para ela.
— Eu já avisei a Sirius que Alvo não é burro para cair em qualquer armadilha ridícula que ele arquitete. - comentei enquanto tornava a descer as escadas.
— Uma pessoa não precisa ser esperta para lançar um avada kedavra, Amélia. Ela só precisa de motivação, e isso é algo que você vem dando a Sirius por mais tempo do que podemos contar. - ponderou tia Sarah passando por mim com seu típico andar superior. E no fundo eu sabia que ela tinha razão.
De volta ao salão, evitei olhar para vovô Archie com medo do que mais ele teria a dizer sobre o meu caso. Tomei o caminho para os jardins a fim de tomar ar e pensar. Ao contrário do que tia Sarah afirmara, eu não estava pensando em esconder aquilo de Alvo. Eu sabia que ele me odiara por esconder algo tão grande e que o envolvia de todas as formas, mas as palavras dela me fizeram pensar. Se soubesse que eu estava esperando um bebê, não mediria esforços para me arrancar daquela casa e duelaria com Sirius se fosse preciso.
Não havia começado a duvidar das habilidades mágicas dele e muito menos acreditava que ele poderia perder um duelo para quem quer que fosse, contudo, naquele momento eu parei para pensar não em mim, mas na minha família. Ter uma pária como parenta era simplesmente inadmissível em qualquer cultura, não apenas na bruxa. E por mais que eu soubesse que Cora ou Edmundo não fossem virar as costas para a irmã mais velha, o resto do mundo se voltaria contra eles… que, humildemente digo, nunca foram tão fortes contra os olhares alheios quanto eu.
Pela primeira vez em anos, parei para odiar minha condição como uma senhora de puro sangue com todas as minhas forças. Comecei a sentir minha cabeça girando outra vez, mas não caí. Fui até o salão procurar por Sirius e dizer que precisava ir embora. Tia Sarah me observava de longe, obviamente com medo de que eu fizesse alguma besteira. Eu apenas acenei e o segui para que aparatássemos dali. Na manhã seguinte, recebi uma carta dela dizendo que iria almoçar conosco, o que pareceu surpreender Sirius tanto quanto a mim. Minha cabeça doía e mesmo assim eu tentava esconder o quanto estava exausta de tudo. Contudo, quando tia Sarah cruzou as portas da mansão, foi como se toda a força que meu avô uma vez disse que eu tinha, não existisse.
O almoço não chegou a acontecer. Mais uma vez eu me deixei levar pela pressão da situação e falei mais do que deveria. “Estou esperando uma criança, Sirius. Uma criança de Alvo Dumbledore.” Lembro-me de ter dito. Os olhos de tia Sarah voltaram-se para ele de soslaio. Posso estar velha, mas a minha memória daquele dia permanece intacta. Sirius se ergueu da cadeira e fez a mesa girar com um aceno da varinha. Esta permaneceu apontada para mim… para a minha barriga… e eu pude ouvir nitidamente o início da maldição da morte saindo de sua boca. O resto, no entanto, nunca chegaria a ser dito, pois minha tia já estava entre nós dois e acertara-o com um estupefaça.
— Saia, Amélia. - ordenou ela sem olhar para mim. Pela primeira vez eu o fiz sem questionar.
Quanto tempo se passou? Pareceram anos, mas foram nada mais do que duas horas. Duas horas sozinha dentro do meu quarto, ouvindo os gritos de Sirius vindos do andar de baixo. “Vadia!” ele gritava, “Sangue sujo!” e tantos outros nomes. Eu sabia que deveria estar agradecida a tia Sarah por ter estado lá, como se tivesse adivinhado o que viria a seguir, mas, no fundo, eu não conseguia me sentir assim. Odiava o fato de dever algo a ela… de dever a vida da minha criança a ela. Meu sangue começava a ferver quando ela finalmente entrou no quarto.
— Muito bem, o que vem a seguir? - perguntei me erguendo da cama. Ela carregava uma expressão diferente daquela com a qual sempre me olhava e até hoje não consegui me decidir entre a pena ou o remorso.
— A criança vai viver. - ela respondeu. - Mas certas condições deverão ser respeitadas para que isso ocorra. Algumas decididas por mim ontem à noite. - eu esperei que ela começasse a enumerá-las para mim, incapaz de falar. - Primeiro: você irá para o campo durante estes nove meses, para a nossa casa de campo em Dover. Diremos que está de férias para cuidar da sua saúde, depois do desmaio de ontem eles poderão acreditar. Segundo: a criança deverá ser dada a uma família trouxa que eu selecionarei enquanto…
— Não posso nem decidir com quem meu filho vai ficar? Tenho que aceitar entregá-lo a estranhos que poderão abandoná-lo assim que descobrirem que é um bruxo? - indaguei tentando manter a calma.
— Tenho conhecidos no alto escalão do Ministério que poderão me ajudar a encontrar uma família que entenda todos os fatos. - disse tia Sarah brandamente. - Existem muitos trouxas entre nós que não nos ignoram. Então, você concorda? - perguntou ela.
— E tenho escolha? - retruquei, recebendo um aceno de cabeça polido em troca.
— Ah, e terceiro: quando você voltar, não tentará entrar em contato com a família ou com a criança e vai agir…
— Como se nada tivesse acontecido. - conclui. - Já estou cansada disso. - confessei.
— Como você mesma disse, não tem escolha. - pontuou tia Sarah. - Diga a sua camareira para arrumar seus pertences, partimos em seguida. - acrescentou rapidamente.
— O que? - indaguei antes que ela saísse.
— Eu vou com você. - revelou minha tia. - Não pode ficar sozinha durante a sua primeira gravidez. - disse como se fosse óbvio.
— Não. - respondi simplesmente, fazendo com que ela voltasse a parar na porta, arqueando as sobrancelhas. - Eu posso não ter escolha quanto ao destino dessa criança, tia Sarah. Mas, com certeza eu tenho sobre quem vai ficar comigo e eu não quero a senhora. A culpada por tudo o que eu estou passando, que me vendeu para os Black… Quero minha irmã.
— Acha que sua irmã vai poder abandonar todo o trabalho em Beauxbaton para ficar com você? - inquiriu tia Sarah com uma pitada de desdém na voz.
— Ela vai se souber o que está acontecendo. - assegurei segurando as lágrimas. - Ela me ama…
— E eu não a amo. - completou ela com escárnio. - A verdade que você repete a si mesma todos os dias porque eu fui a única que não bateu palmas frente a sua irresponsabilidade.
— A senhora não sabe e nem se importa com o que eu passei! - exclamei batendo a porta com um gesto da minha varinha, sabendo que mesmo assim os criados ouviriam. - Ele me torturou e me estuprou sempre que podia, me fez de prisioneira durante meus primeiros meses de casada…
— Você é tão egoísta. - murmurou tia Sarah com um sorriso nervoso. - Será que presta atenção em si mesma enquanto fala? Acha que é a única mulher em todo o mundo mágico que foi maltratada durante o casamento? A única que tem o direito de reclamar? A única que se machucou com isso? Nem mesmo você pode ser tão mimada! - exclamou ela entrelaçando as mãos, mexendo-as compulsivamente.
— Eu sei que a senhora…
— Ah, sabe? - interrompeu minha tia com rancor nos olhos. - O que você sabe? O que Colin contou a você. Acha mesmo que eu seria tão impiedosa a ponto de dividir com um garotinho inocente todas as dores que eu passei? Fazê-lo odiar o pai que, podia me tratar como um cão, mas ainda assim o tratava bem?! Não seja tão pretenciosa, Amélia, você não sabe nada! Nada sobre a vida e muito menos sobre a minha! Apenas as ilusões que você pinta! Os sonhos que tem com aquele professorzinho de Hogwarts!
— Não se atreva a falar do Alvo! - adverti entre dentes.
— Me atrevo sim, talvez não seja tarde demais para fazer com que algum juízo entre na sua cabeça. - retrucou ela com a voz fria. - Já parou para pensar em quanto luxo você teve ao longo da sua vida? Em todas as portas que se abriram para você? Talvez não tenha percebido ainda, mas isso provém do seu nome e não de amor! Acha que foi sua inteligência que fez você ser aceita como inominável? Quantas mulheres você vê lá dentro e quantas mulheres inteligentes vivem no mundo bruxo? Você nunca para para pensar?! Sua capacidade pode até mantê-la lá dentro, mas foi o seu nome, o seu berço e a influência que temos no Ministério que fez você entrar! Consegue imaginar a sua vida sem isso? Imaginar portas batendo na sua cara, pessoas a olhando como se fosse uma pária? É claro, você é tão orgulhosa que vai dizer que sim, afinal, já aguentou pior com os Black, não é? Acontece, minha cara, que isso vai muito além dos Black. Isso engloba toda a sua família.
“Muito provavelmente isso é consequência da sua juventude, mas se até mesmo a sua mãe conseguiu respeitar tradições, você também deveria. Não vai conseguir lutar contra séculos de tradição, independente do que seus amigos revolucionários digam. E se continuar tentando vai acabar se perdendo. Tudo por um rapaz que não tem nada além do que seu cérebro para recomendá-lo.”
— Eu jamais concordarei com a senhora sobre qualquer opinião acerca de Alvo. E sei que jamais superaria o que sinto por ele. Contudo, talvez eu tivesse tentado se meu marido não fosse um desgraçado estuprador. Não poderia ter escolhido um Potter ou um Weasley…? - disse depois de alguns minutos me munindo de paciência, mas sem perder a frieza.
— Tudo o que eu fiz foi para proteger você. - retrucou minha tia pausamente, cansada. - Nenhuma dessas famílias poderia lhe oferecer poder suficiente para seguir o caminho que quisesse, Amélia. Sempre foi ambiciosa demais para ser uma Potter ou uma Weasley. Eu pretendia uní-la a um Malfoy, se ele não estivesse noivo. No final, os Black foram a única saída. - explicou ela tornando ao seu tom taciturno normal.
— Entendo. - assenti com desdém. - E o preço da minha ambição é o meu sofrimento. De fato, tia Sarah, se eu sou egoísta, a senhora é esnobe. - retruquei no mesmo tom frio. - Não vou conseguir lutar contra séculos de tradições, você diz. Ao que parece nós duas temos ilusões. As minhas dizem respeito ao amor e a um mundo que, segundo a senhora, nunca vai existir. As suas, ao contrário, estão ligadas a dever e estagnação. Teorias que vão contra tudo o que vem sendo construído até agora. Caso não tenha notado, o mundo mudou desde a sua época. Ele ainda está mudando. - sentenciei com um sorriso de escárnio.
Ela sorriu cética.
— Nem tanto. - disse num único sopro de descrença. - E não rápido o bastante para você. - acrescentou imperiosamente, saindo do quarto em seguida.