Capítulo 35
Eu estava mais do que convencida de que o motivo para Alvo ter se envergonhado pelo beijo era o fato de que ainda estava confuso sobre seus sentimentos entre mim e Gerardo Grindewald. Isso só me convenceu ainda mais de que suas palavras eram nada mais do que tentativas vãs de punir a si mesmo. Perguntava-me, contudo, porque ele iria agir daquela maneira… Fingindo que nunca houve sentimento nenhum entre ele e Grindewald. Talvez pensasse que negá-lo fosse fazer com que eu me sentisse menos traída. Eu não tocaria mais no assunto já que nos declaramos quites, mas suspeitava que a razão fosse essa.
Ele não voltou em nenhum outro dia antes da Sexta-feira, quando poderia realmente se ausentar de Hogwarts por um período mais longo. E até a Sexta-feira eu não fiz mais nada do que tentar abandonar os pensamentos voltados para Alvo Percival Wulfric Brian Dumbledore. Em vão, devo dizer, pois na primeira noite de um desses dias, eu já estava sonhando com aquele beijo repentino. Ele realmente me trouxe doces lembranças e abriu caminho para uma reconciliação. Afinal, àquela altura, nada era tão certo quanto à certeza de que voltaríamos a ser mais do que apenas bons amigos.
Contudo, não ouso afirmar que foi uma transição fácil. Seu amor por mim não alterou o seu interesse pelo mesmo sexo e os amigos mais íntimos como eu, Elifas, Linda, Nicolau e Perenelle reconheciam nisso a bissexualidade que ele tão primorosamente escondia das pessoas de Hogwarts e do resto da sociedade bruxa. Não é crime um homem viver sozinho pelo resto de sua vida. No entanto, nenhum deles o é por escolha e todos se perguntavam quem ou o que o teria levado àquela aparente solidão.
Tenho muito orgulho da pessoa que me tornei e de muitas escolhas que fiz. É claro que não me considero isenta de pecados ou de arrependimentos… o meu maior for ter nascido sangue-puro e disso nem tenho culpa. Entretanto, o maior orgulho de minha vida foi ter seguido com esse romance completamente longe dos holofotes. Por mais que tenham havido momentos em que meu maior desejo era jogar tudo para o alto e vivê-lo plenamente, sem medo, hoje, quando me ponho a pensar no assunto, percebo que foi o melhor para os dois… evitou que nossas vidas se perdessem antes da hora…
Alvo chegou numa Sexta-feira no final da tarde, enquanto eu terminava de cuidar das rosas de Perenelle. Estava me dedicando muito a jardinagem… um gosto que perdura até hoje… Ele, ao contrário do que eu esperava, não parecia nervoso com a memória do beijo. Já devia estar acostumado a esconder o quanto certas lembranças o assombravam. Ficou de pé, parado atrás de mim, observando enquanto eu terminava de cortar as rosas que levaria para dentro.
— Perenelle vai ficar muito feliz quando eu contar a ela que você está cuidando dos jardins pessoalmente. - Alvo comentou enquanto me ajudava a levantar.
— O que quer dizer com pessoalmente? - indaguei limpando as mãos sujas de terra no vestido.
— Perenelle não gosta de usar magia com suas rosas, nem mesmo para fazê-las durarem mais. Ela diz que devemos respeitar o tempo das coisas vivas. - explicou ele abrindo a porta para mim.
— Algo engraçado de se ouvir da esposa do criador do elixir da vida. - comentei arqueando as sobrancelhas. - Sem querer ofendê-la.
— Perenelle e Nicolau não são indiferentes às leis da vida, Mélia. Apenas acho que eles não estão prontos para partir, como se sua missão não estivesse completa. Quando chegar a hora eles partirão…
— Eu sinto muito… eles têm sido gentis com você há tanto tempo. E comigo, por terem me deixado ficar aqui. Estou sendo indelicada por pensar na morte deles, deveria querer que realmente vivessem para sempre. - disse me desculpando com Alvo.
— Está tudo bem, Mélia. Eu sei que você não quis ofender ninguém. - retrucou Alvo apertando minha mão. - Então como está passando nessa tarde? - perguntou ao se sentar no sofá.
— Muito bem, para falar a verdade. - respondi sendo sincera. - Como pode ver, encontrei uma nova distração. - disse enquanto arrumava as rosas num arranjo. - E parece que estou aqui há anos, como se nada disso - comentei mostrando a aliança - tivesse acontecido.
— Exatamente o que eu queria ouvir. - parabenizou Alvo sorrindo abertamente. - E devo dizer que você já está com aquele brilho antigo característico. O que quer dizer que nossos planos estão saindo exatamente como previstos. - acrescentou.
— Recuperar minha paz de espírito você quer dizer? - traduzi rindo.
— Exato! - respondeu ele. - Bem, qual será o menu desta noite?
— Nada de sanduíches. - respondi de pronto. - Mas, não tinha certeza de que viria hoje…
— Entendi. - murmurou ele. - Bem, então vamos dar um jeito nisso. Vamos cozinhar! - disse se levantando.
— Eu também? Pensei que seu lema fosse nunca me deixar na cozinha. - provoquei cruzando os braços.
— Ainda preciso de uma assistente, não preciso? - rebateu ele piscando para mim.
O que Alvo não sabia e eu não me senti convencida o bastante para dizer, era que eu tinha passado algum tempo na cozinha ajudando Livy e, portanto, tinha aprendido alguns truques culinários. Não era uma gourmet como a elfa de Perenelle, mas, já não ficava com medo de uma panela explodir caso fosse deixada sozinha. Em todo caso, deixei com que ele ainda pensasse que eu era um fracasso, tornava tudo mais divertido.
No final, optamos por fazer faisão como o nosso prato principal… depois de termos devidamente expulsado Livy do controle da despensa.
— Sempre achei aquele princípio de Gamp sobre “não poder criar comida do nada” muito frustrante. - comentei enquanto batia batatas para o purê. - Os trouxas acham que podemos fazer tudo e deveria ser assim, afinal, é de esperar que um bruxo consiga “criar” a sua própria comida. Mas não, tem sempre um engraçadinho metido a esperto para bagunçar tudo.
— Você quer discutir com o professor? - provocou Alvo com seu típico ar de intelectual ofendido.
— Desculpe se minhas denúncias ferem a sua crença de que tudo na Transfiguração é perfeito. - desdenhei dando de ombros. - Outra coisa, e agora estarei sendo um pouco egoísta, também acho péssimo não podermos conjurar vida…
— Você não quis dizer isso, Amélia. - interrompeu Alvo seriamente. - Imagine quantos bruxos terríveis do passado ainda estariam andando se a vida fosse um bem conjurável. Além disso, que graça teria viver se pudéssemos mudar esse destino sempre que quiséssemos?
— Vou deixar essa resposta por conta do seu amigo imortal. - respondi com um sorriso esperto. Ele riu um pouco e revirou os olhos. - Pensei que você seria o primeiro a defender minha ideia… por causa de seus pais…
— Amélia. - advertiu ele me olhando numa mistura de súplica e nervosismo.
— Você não é o único que passou por isso, ok? - disse quase gritando, parecendo uma adolescente mimada. - Desculpe, senhor gênio. É que… ultimamente eu daria tudo para poder deitar no colo da minha mãe outra vez.
— Eu também sinto falta deles. - ele disse por fim, depois de um longo silêncio. - Mas gosto de pensar que eles estão melhores do que nós, Mélia. Seria ótimo tê-los por perto, mas, se algo assim fosse possível, outros bruxos não usariam magia por questões tão nobres. Nesse caso, eu prefiro pagar pelos pecadores.
— É claro. - concordei. - Eu não sei porque disse isso, perdoe-me. Talvez seja a fome. - brinquei no final.
— Acalme seu estômago, Mélia. Já, já estará pronto. - disse ele me acalmando.
Jantamos normalmente, mas durante todo o tempo eu percebi que Alvo estava um pouco desconfortável e que aquele era o último lugar no mundo em que queria ficar.
— Amélia, - ele depois de quase cinco minutos em silêncio. - eu queria me desculpar pelo…
— Não precisa se desculpar, não fez nada errado. - interrompi alcançando a taça de vinho, bebendo um gole.
— Eu a beijei mesmo sabendo que não devia. - ele continuou sem dar atenção ao que eu disse. - Estamos tentando fazer com que você fique bem e não trazer mais complicações a sua vida…
— Não são complicações…
— Eu posso dizer o que for, mas, o fato é que eu o amava… eu amava Grindewald, ao menos sentia atração por ele… e isso fez com que eu pensasse que havia me fechado para amar uma mulher. Realmente, nunca mais olhei para uma garota… mas, por alguma razão você é diferente…
— Eu sou a única que ganha de você no xadrez. - comentei como se fosse óbvio o porquê. Ele riu.
— O que eu quero dizer é que… nos envolvermos agora só iria magoá-la já que eu não posso mudar quem eu sou…
— E quem é você? Alguém que precisa de todos os tipos de amor e não os encontrou no mesmo sexo? Eu conheci pessoas assim em Paris e não será algo tão banal que vai mudar o que eu sinto. Pelas barbas de Merlin, se fosse algo tão simples eu teria me deixado levar por Marius e não teria deixado você me sequestrar ou me beijar naquela noite. - disse calmamente posicionando minha mão sobre a dele.
— Amélia…
— Foi você quem disse que estamos aqui para trazer minha paz de espírito de volta. Pois bem, será que você não consegue entender? Logo o senhor gênio? Minha paz de espírito é você! - exclamei sorrindo. - E você não precisa me amar como eu o amo, Alvo. Apenas me ame. - conclui com tom decisivo, terminando de tomar o meu vinho.
Havíamos terminado de comer e beber o que queríamos, mas permanecíamos ali sentados, olhando um para o outro, como se a resposta das grandes perguntas da vida fosse aparecer do nada. E então, como se tivéssemos sido empurrados por mãos invisíveis, nos alcançamos e nos beijamos. Dali em seguida, foi tudo meio que previsível.
Eu não considerava mais o sexo uma forma de amor, já que fora usado durante meses como uma maneira de me submeter e torturar. Entretanto, a partir do momento em que Alvo me deitou e me olhou com aquela antiga aura de poder o envolvendo, foi como se a noite de núpcias com Sirius e todas as outras vezes em que ele me estuprara não tivessem acontecido. Tudo o que eu conseguia pensar era no que estivera perdendo durante aquele tempo separados por convenções da maldita sociedade bruxa.
Ninguém pensaria que ele tivesse se interessado por um homem no passado, pois ainda demonstrava decisão e perícia com a silhueta feminina. E eu me entreguei àquele prazer consciente de que era ele quem me manteria afastada dos fantasmas do passado. Depois daquela noite, foram outras em duas semanas apenas recuperando o tempo perdido. E eu sei que foi ali, entre os lençóis brancos do quarto de hóspedes de Perenelle e Nicolau, que eu recuperei o resto da força e da vontade de viver que me faltavam desde o meu casamento.
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Mais um capítulo fresquinho do forno da betagem, espero que gostem! Comentários sempre são bem vindos. Gostaria de agradecer à Dani_Ela e Janayna von Uckermann pelas doces palavras. Sério meninas, vocês fazem todo o trabalho valer a pena. Dani, fico feliz que goste da Mélia tanto quanto eu. Janayna... não posso dar spoilers, mas tentarei fazer o Sirius pagar o dobro do que fizer a Mélia. Bjoos e até o próximo!