Capítulo 28
Harry estava se sentindo um pouco desconfortável por ter sido flagrado pelo pai de sua namorada enquanto a beijava. Quer dizer, não que ele pensasse que o senhor Weasley era um daqueles pais que privam seus filhos de demonstrações românticas em público, como se Harry fosse um tarado que lhe estava tomando o controle sobre sua garotinha, mas, ainda assim era estranho. O galpão do pai de Gina era um dos lugares mais exóticos que o garoto visitara em toda a vida; cheio de badulaques dos trouxas, coisas triviais como tomadas e afins, mas que para o senhor Weasley representavam o maior divertimento.
— E então, tiveram mais sucesso com o diário de Amélia Preminger? - perguntou seu sogro.
— Na verdade, acho que estamos descobrindo mais sobre Amélia do que sobre o professor Dumbledore. Digo, ela tem passagens muito claras sobre suas suposições quanto ao caráter dele. Mas, ela por si só já é um achado… eu não imaginaria que teria passado por tanta coisa só com aquela foto no ministério. Ela parecia feliz lá… brincalhona. - explicou Harry sentando numa das cadeiras dispostas.
O senhor Weasley sorriu de maneira simpática.
— Você diria que imaginava o que Dumbledore teria passado? Ele também era divertido e teve suas perdas. - observou ele.
— Então está dizendo que no final das contas, Dumbledore e Amélia eram iguais. - sentenciou o garoto confuso.
— Só estou dizendo que talvez fosse o fato de serem tão parecidos, ambos com suas dores e perdas, que os tenha tornado tão próximos e tão certos um para o outro. Ao menos na cabeça dela, pelo que andei… como dizem os trouxas? Pescando das conversas de vocês. - respondeu o senhor Weasley dando de ombros enquanto mexia no fio de uma televisão.
— Não acho que Dumbledore a considerasse menos especial. Quer dizer, o que ele fez, mandá-la embora, não foi muito diferente do que eu fiz com Gina durante o funeral dele. Eu não estava mandando embora somente a garota mais incrível que eu conheço… se me permite dizer, senhor Weasley….
— Está tudo bem, Harry. - disse ele com um sorriso matreiro.
— Também senti que estava mandando embora a melhor coisa que aconteceu comigo em anos, além de conhecer todos vocês… Eu sabia que nada seria melhor do que a Gina. E deve ter sido isso o que fez Dumbledore ficar receoso de mandar Amélia nunca mais vê-lo. Afinal, eles eram, como ela mesma disse, amigos antes de tudo. E ele realmente a amou… não muito diferente do quanto eu amo a Gina. - concluiu Harry traçando a linha de seu raciocínio.
— Bem, - disse o senhor Weasley após um breve silêncio. - o reencontro deles não deve ter sido nada fácil. - comentou sombrio. - Se Amélia realmente for tão feroz e viva quanto são suas palavras, acho que o velho Dumbledore teve alguém a quem realmente temer em sua vida.
Harry assentiu, seguido do próprio aceno de cabeça do senhor Weasley. Eles arrumaram algumas prateleiras e em seguida voltaram para dentro da casa. A senhora Weasley terminava de arrumar a mesa com a comida recém retirada do forno enquanto os convidados encontravam-se na sala. Andrômeda observava com um sorriso delicado Hermione brincar com Teddy na cadeira ao lado da sua. Sua amiga era muito jeitosa com crianças, ele percebeu e Rony também parecia ter notado, pois estava vidrado na namorada. Gina devia ter subido para se trocar já que não se encontrava com eles. Ao vê-lo, Andrômeda abriu um pouco mais o sorriso. O contínuo luto por Tonks era evidente.
— Como vai, Harry? - disse ela cumprimentando-o.
— Um pouco cansado, mas ótimo. - ele respondeu apertando a mão dela.
— Os novos treinadores de aurores estão pegando muito no seu pé? - brincou ela. Foi nítido como seus olhos adquiriram um brilho semelhante ao de Bellatrix quando o fez, porém menos zombeteiro e louco. - Eu me lembro de como Dora reclamava… - parou de repente.
— Eu realmente sinto muito, senhora Tonks. - ele disse percebendo que ela estava prestes a chorar. - Deve ser horrível, principalmente porque são tão parecidos. - comentou mirando Teddy.
— Ao contrário, Harry… é quase reconfortante. Só agradeço por ter quem me ajude nas perguntas…
— Com isso não precisa se preocupar. - assegurou Gina por trás de Harry, chegara a tempo de ouvir a última parte da conversa. - Seremos os melhores padrinhos, não é, Harry?
— É claro, e onde está o meu afilhado? Mione! Para de monopolizar o garoto! - gracejou Harry vendo que ela tentava impedir Rony de segurá-lo. Por fim, deu-o a Harry.
Ele realmente se esforçaria para ser um bom padrinho, como Sirius não teve a oportunidade de ser como gostaria. Mesmo com tantos anos, ele ainda sentia sua morte… Contudo, seus devaneios infelizes não duraram muito. Logo a casa foi invadida por uma grande massa de ruivos e seus parceiros. Gui foi o primeiro a chegar com uma Fleur grávida e uma Victorie risonha nos braços da mãe. Carlinhos em seguida, seguido de Percy e sua namorada Audrey. George resolvera não convidar Angelina naquele ano, já que a namorada estivera ocupada com os preparativos da própria família, e ainda tinha certo gosto em atazanar Percy… embora não tivesse o mesmo sabor sem Fred. A festa estava incompleta, isso era fato, mas buscavam não tocar no assunto.
— E como vai a loja? - indagou Percy a George depois de rir um pouco de uma piada do irmão.
— Bem. Rony costumava me ajudar mais nos fins de semana, mas agora anda enfiado demais em “assuntos secretos” para contribuir, certo Roniquinho? - provocou George sentado de frente para o irmão.
— Eu já disse que é importante. - insistiu Rony tentando desviar do assunto Amélia Preminger. Embora tivessem tentado manter segredo, a falta de discrição durante o feriado de natal fez com que metade da família já soubesse.
— Assuntes secrretes?! - exclamou Fleur aflita enquanto alimentava Victorie. - Non vão me dizerr q’ stão metides em encrrencas…
— Nada disso, Fleur. - assegurou Harry. - São só umas pesquisas para o ministério. Estamos em treinamento…
— Pesquisas num livro só? E por que Hermione e Gina estão metidas nisso? - tornava a questionar George.
— Cara, fica na sua… - murmurou Rony desesperado.
— Nada de assuntos secretos à mesa! - zangou-se a senhor Weasley. - É véspera de natal!
— É claro, querida. Meninos… - interveio Arthur mirando os dois com um olhar de “mais tarde”.
A conversa tomou um rumo mais leve com perguntas acerca das crianças, Victorie e Teddy, sobre a gravidez de Fleur, Molly fazendo mil indicações baseadas em sua própria experiência tendo dado à luz a sete filhos, e em seguida histórias engraçadas com relação a infância de cada um. Harry ria muito toda vez que George contava como transformou o ursinho de Rony numa aranha, com a ajuda de Fred (um silêncio de meio segundo seguiu o comentário), e que por isso o garoto tinha tanto medo delas. Hermione tentava acalmar o namorado contando suas próprias experiências com uma bicicleta descontrolada. Harry foi o único a não ter grandes histórias para contar, o que enterneceu o coração de todos, mas continuou o bom humor contando como passou a enganar Duda com falsas palavras mágicas sempre que ele o chateava.
— Aquele garoto era mesmo um porre. - comentou George.
Harry não retrucou, mas manteve sempre limpa a memória de Duda dizendo a ele que não o considerava desperdício de espaço. Depois do jantar, a senhora weasley convocou um multirão para ajudá-la com a louça e com a sobremesa. Gina, contudo, conseguiu escapar e puxou Andrômeda com ela para junto de Harry.
— Precisamos te perguntar uma coisa. - disse a ruiva sem rodeios.
— Precisamos? - indagou Harry sem entender.
— Sim, precisamos. - insistiu Gina. - A senhora sabe alguma coisa sobre Amélia Preminger?
Os olhos de Andrômeda brilharam de surpresa, eles perceberam, e mesmo ela não conseguiu esconder.
— Por que esse nome interessa a vocês?
— É uma longa história, senhora Tonks. - Gina tornou a conduzir a conversa. - Mas, queremos muito saber porque tem um retrato dela no Largo Grimmauld sendo que até onde se sabe de Amélia, ela continuou usando seu sobrenome de solteira… Quer dizer, que ela foi casada com um Black é fato… mas as circunstâncias para conseguir seu sobrenome de volta… o divórcio não é muito aceito entre as famílias puro sangue. - continuou ela despejando as informações rapidamente, sabia que logo todos se reuniriam na sala e não teriam mais tempo a sós com Andrômeda.
— Ela se casou com o primeiro Sirius Black da família, sim, e seu retrato não foi removido para servir de exemplo… Digo, acho que era esse o motivo. Minha mãe costumava apontá-lo como um resquício do que acontece com bruxas que não se encaixam e que sonham alto demais. Mas, é claro que para minha mãe, na época dela, sonhar demais significava atravessar a rua sem companhia…
— Só isso? Mais nada? Alguma história de Amélia e Black ou sobre como ela conseguiu o divórcio?
— Nunca falamos sobre isso na família Black, Gina. Digo, meus pais não falavam disso para seus filhos…
— O quadro da mãe de Sirius…
— Não conseguirá nada dela. No que diz respeito a tia Walburga, sempre que mencionávamos um nome de algum traidor, ela começava a berrar… - sentenciou Andrômeda. - E vejo que vocês também não dirão porquê estão interessados em Amélia Preminger… então, sinto muito não poder ajudar mais.
Mais tarde, depois de todos desejarem feliz natal entre si. O quarteto se reuniu do lado de fora após se despedirem de Teddy e da avó. Não conseguiriam nada a respeito da vida de casada de Amélia a menos que lessem o diário, disso Hermione e Harry tinham absoluta certeza. Contudo, assim como a amiga, ele suspeitava que o pior da vida da senhorita Preminger estaria naquelas páginas… e não ansiava por lê-las. Voltaram, então, para os quartos e dormiram… ao menos no natal, os sonhos poderiam ser cheios de paz.