Porém, tudo que Blaise e Daphne encontraram quando chegaram a Comunal da Sonserina foi Lisieux brincando com a varinha, pensativa. Estava sentada numa poltrona velha com almofadas verde musgo e já usava o uniforme de Hogwarts.
- Liz! - exclamou Daphne, indo abraçar a garota. Eram velhas conhecidas, suas famílias eram amigas há séculos. O que não impedia as duas garotas de terem suas próprias brigas, como quando Daphne teve um casinho com Harper e Lisieux surtou já que se orgulhava de ser a musa do capitão do time de quadribol.
- Daph, quanto tempo! Como vão as coisas por aqui? Venha cá você também Blaise. Eu quero saber de tudo que aconteceu enquanto eu estava fora. Percebi que muita coisa mudou.
- Agora você me quer, né pretinha? - Blaise sorriu e sentou-se numa poltrona na frente da garota. Eles eram amigos, dizia-se Blaise toda vez. Ele conhecia Lisieux o suficiente para saber que ela estava mais interessada nos outros do que nele, mas ela nunca o deixara na mão. Tinham esse costume de se chamarem de "nego" e "pretinha" e quando ouviu - a chamando assim soube que nada havia mudado.
- Quero sim. Quero entender o que está acontecendo por Hogwarts. Eu passo dois anos fora e o mundo vira de ponta cabeça?
- Afinal - começou Daphne. -, por que você foi embora mesmo?
- Não vim falar de mim. Quero saber de Hogwarts! - mas o sorriso que abriu escondia tudo que sentia e o porquê fora embora. Muitos achavam que a morte de Cedrico Diggory, a quem namorara no ano anterior fora o motivo. Mas poucos sabiam que o coração de Lisieux nunca pertencera a ele. - Quero saber que merda de namoro é esse? Parkinson e Malfoy? Algo no mundo está muito fora do lugar...
- É - Blaise gargalhou. Aquela era realmente a Lisieux que ele conhecia. - Logo depois que você foi Draco ficou meio estranho. Meio agressivo e um pouco medroso. Aos poucos Pansy tentou domar a fera, mas você o conhece. Não deu muito certo. Tinham um caso as escondidas, Pansy achava o máximo. Mas ele... O caso só estava escondido porque ele jamais a assumiria. Era para ter acontecido, ele disse que a assumiria nessas férias. O que eu duvido que tenha acontecido, já que a primeira vez que se falaram desde o último dia de aula foi hoje. Uma semana depois das aulas recomeçarem. Ela não subiu no dormitório quando você estava lá?
- Draco foi embora antes que eu pudesse dizer "bom dia".
- O que rola entre vocês, hein pretinha? Eu me lembro de como eram as coisas antes de você ir embora. Vocês viviam grudados, tinham muitos segredos e brigavam pra caramba! Ele ficou todo estranho quando você foi, mudou muito. E então você volta e ele faz parecer que o mundo está caindo sobre os ombros dele.
- É... Complicado. Acho que Draco nunca soube muito bem o que fazer com o que sente pelas pessoas. Ele mal sabe quem é...
- E o que você acha dele e Pansy? - perguntou Daphne apreensiva. Sabia que Pansy o amava, mas sempre tivera dúvidas sobre ele.
- Eu acho que ele vai brincar com ela enquanto ela permitir. E só. Eu conheço o demônio.
- E quem é o seu tal namorado?
- Não vem ao caso.
- Draco por acaso sabe?
- Draco não sabe nada de que não deveria saber e isso é algo que ele jamais saberá. Não preciso dele e dos conselhos dele e das preocupações dele e de toda a merda que ele vai fazer - e dizendo isso levantou-se, Blaise pode perceber que ela estava quase chorando e sentiu-se muito mal por isso. Mas ele precisava saber. Jamais entendeu Lisieux e Draco.
Na manhã seguinte Lisieux levantou-se tarde. Como ainda não sabia em que aulas conseguiria se encaixar, teria cerca de uma semana livre. Desceu apenas para almoçar. Fazia um calor agradável em Hogwarts. Ela vestiu o primeiro shortinho de couro preto que encontrou e sua antiga camisa preferida: listradinha de cinza e branco com o emblema da Sonserina. Calçou sapatilhas pretas e desceu para o Salão Principal. Sentou-se sozinha no almoço, realmente não queria companhia e voltava calmamente para as masmorras quando ouviu a voz que esperava não ter que ouvir:
- Lisieux? Poderia, por favor, me acompanhar até meu escritório? - era Dumbledore, o que ela mais temia. Sabia que ele tinha ótimas fontes.
- Claro - respondeu de cabeça baixa e o acompanhou.
O escritório de Dumbledore continuava exatamente como ela lembrava. Cheio de objetos que ela não sabia para que serviam, barulhos e cheiros estranhos e seu favorito; Fawkes, a fênix.
- Fawkes! - exclamou, não conseguiu se conter. A ave cantou animada ao vê-la. As muitas visitas ao escritório de Dumbledore para resolver os muitos problemas em que se metia lhe renderam uma amizade com a ave, que ela achava magnífica. Ficou contemplando Fawkes até que Dumbledore a chamasse.
- Srta. Selwyn. Seja bem-vinda de volta a Hogwarts. Sente-se.
- Creio que não fui chamada para uma recepção calorosa - respondeu, sentando-se. - Ainda lembro-me dos problemas que causei e estou ciente de que o senhor tem fontes seguras sobre o que acontece entre famílias como a minha.
- Famílias como a sua? - Dumbledore a fitava por trás dos óculos de meia lua, sorria levemente.
- É. Tradicionalmente puras e voltadas para as artes das trevas. Em outras palavras, sonserinos. Porque todos os somos.
- Quer dizer que se eu vasculhasse sua família, descobriria algo que não devo?
- Já descobriu, tenho certeza. Foi por isso que me chamou.
- Chamei-a apenas para dar um conselho, srta. Selwyn. Um mero conselho de um velho que observa demais.
- Sou toda ouvidos.
- A senhorita está trilhando caminhos perigosos. Sabe, eu acredito na capacidade de meus alunos de lidarem com o pior. Os preparo muito bem. Mas os caminhos que a senhorita trilha só levam a sangue.
- Obrigada pelo conselho, professor. Mas realmente acredito que esteja errado.
- Voltaremos a conversar. Pois eu acredito que esteja corretíssimo. E não costumo falhar. Agora vá aproveitar o restinho de suas férias.
Com um leve aceno, Lisieux se retirou. Estava preocupada. O que será que Dumbledore sabia? Ou melhor, o quanto ele sabia? Lisieux não podia correr o risco de que descobrissem seus segredos. Dumbledore estava realmente certo. O caminho que Lisieux trilhava ultimamente só levava a sangue. Ficou muito assustada.
Ela não sabia a quem recorrer. Não podia mandar cartas por medo de ser descoberta e não tinha mais amigos de confiança em Hogwarts. Pensou em alguém, mas teve medo pela sua reação no dia anterior. Ainda assim, resolveu procurá-lo. Recorreu a um antigo hábito: deixou um bilhete embaixo do travesseiro de Draco.
Quando Draco chegou ao dormitório, pouco antes de jantar, deitou-se de bruços em sua cama. Tinha o hábito de deitar com as mãos embaixo do travesseiro e, assim, logo encontrou o bilhete de Lisieux.
“Sei que me odeia. Sei que não quer conversar. Tudo bem, você tem razão em me odiar. O que aconteceu... Realmente, não sei nem o que dizer. Mas preciso de você, do que éramos antes. Só disso. Se ainda puder ser o Malfoy que eu conheci, por favor, me procure no campo de quadribol. No horário de sempre.
Lisieux”
Draco não sabia o que fazer. Ela estava certa, a odiava. Não queria ver Lisieux, não queria ouvi-la nem ouvir falar sobre ela. Gostaria que Lisieux tivesse continuado enterrada em Beauxbatons. Ao mesmo tempo, queria muito gritar toda a raiva que sentia. Foi por isso que foi até o campo de quadribol exatamente às 9h.
Chegando lá a encontrou no lugar de sempre; embaixo da arquibancada da Sonserina. Soube que algo estava errado, mas sentia tanta raiva que simplesmente ficou olhando para Lisieux, sentindo seu corpo queimar de fúria.
- Achei que não viria – murmurou ela, sem olhá-lo.
A reação de Draco foi imediata.
- Cala a boca, ta bem? Eu sei o que você quer. Eu não quero saber a merda que te fez ir embora daqui, não quero desculpas. Não quero saber por que você voltou. Não quero saber de merda nenhuma, ta? Eu queria te enterrar! Eu tinha conseguido até você aparecer aqui em Hogwarts fazendo merda, sendo a Selwyn bonitinha do papai e tentando ser legal. Eu te conheço o suficiente pra saber quando que vem merda ou quando você está sendo só a Liz. Eu não quero te ouvir. E quer saber? Você estava certa. Eu te odeio! – gritou, sentindo o coração disparar de raiva e arfando. Jogou-se na grama, a certa distancia de Lisieux, tentando conter as lágrimas que conseguira guardar para si durante dois anos. – Eu não te entendo – murmurou de cabeça baixa, mais para si do que para a garota. – Eu nem sei se quero.
Lisieux assustou-se um pouco com aquele discurso inesperado. Draco nunca havia demonstrado nada. Sabia que podia contar com ele e só. Não sabia o que dizer. Por isso ficou em silêncio esperando que o garoto dissesse mais alguma coisa, só mais alguma palavra, algo que esclarecesse tudo aquilo. Porém, ele não disse nada. Ficaram em silêncio por mais algum tempo até que Lisieux tentou falar alguma coisa.
- Eu não te chamei aqui para me explicar. Aliás, eu nunca pensei em me explicar. A única coisa que eu sempre quis dizer, desde que fui embora, é que eu nunca deixei de ser a Liz que você conhecia.
- Minta para si mesma se puder. Mas não para mim – foi a resposta que Lisieux recebeu. – Olha, eu nem sei por que vim na verdade. Queria te dizer umas verdades e acho que foi um erro. Eu não quero realmente te ouvir.
- Eu me sinto inútil – disse ela. – Inútil perto de você. Mas é bom saber que você tem sentimentos.
- Eles sim são inúteis. – e dizendo isso, Draco levantou-se e foi embora. Lisieux o acompanhou com o olhar, sabendo que havia perdido tudo que tinha. E que se não podia contar com Draco, não podia contar com ninguém em Hogwarts. Perguntou-se se errara em voltar.