A janela aberta e sem cortinas, ao lado direito da cama, fez com que os primeiros raios de luz solar incidissem no quarto. Não sei exatamente se foi a leve quentura do sol nascente nas minhas costas nuas ou o som de risadas muitos andares abaixo que me fizeram despertar preguiçosamente de meu sono tranqüilo. Por um momento de distração, cheguei a imaginar que pudesse estar em meu antigo dormitório, mas eu já sabia que me encontrava em meu quarto de monitora-chefe. Suspirei de forma quase inaudível, pronta para me mover ou levantar num impulso, e foi nesse instante que senti um braço ao redor da minha cintura, que me apertou ainda mais forte. Inspirei profundamente, ainda de olhos fechados, e o meu cheiro preferido no momento invadiu minhas narinas. Fiquei zonza, mas não reprimi um sorriso ao me lembrar da noite anterior.
O sono dele era pesado, eu havia descoberto no decorrer desses quatro meses, então eu poderia muito bem dançar tango na cama que ele dificilmente acordaria. Ri da idéia do tango, e então me virei, devagar de qualquer maneira, já que meu corpo estava um pouco dolorido. Quando comecei a me virar, o braço dele instintivamente soltou-se de mim, o que facilitou o movimento. Fiquei então de bruços, apoiada nos cotovelos, e olhei ao redor. A bagunça habitual de meu quarto estava presente, tirando o fato de que roupas que foram tiradas apressadamente jaziam no chão, em diferentes cantos. O relógio digital em cima do criado mudo mostrava 10:28 AM, e eu já sentia um pânico se apoderar de mim quando lembrei que era sábado. Suspirei aliviada, e então cedi à vontade de apreciar meu amante. Meu Merlin, como essa palavra soava estranha, ainda mais quando enlouquecida eu o chamava dessa maneira.
Baixei os olhos e comecei a reparar nos traços perfeitos, como sempre fazia. Os lábios finos comprimidos de forma relaxada, uma covinha do lado esquerdo do rosto, a barba por fazer, o cabelo mais comprido do que o habitual, alguns fios platinados caindo-lhe sobre os olhos. Desci um pouco o olhar e reparei pela milésima vez no corpo magro, mas ainda assim atraente, com um tórax definido. “Santo Quadribol”, era o que eu dizia todas as vezes que tirava sua camisa. O lençol que cobria nossos corpos não era grande o suficiente, ou havia sido empurrado durante a noite, de modo que eu podia visualizar alguns pelos loiros na parte baixa de sua barriga. Achei melhor subir novamente meu olhar, antes que recaísse a algum tipo de tentação, e visei novamente seu rosto. Agora, havia algo diferente: suas sobrancelhas estavam um pouco comprimidas, como sempre ficam quando ele me parece confuso.
- Pare de me encarar. – A tão reconhecível voz arrastada soou rouca dessa vez, enquanto eu pulava de susto no mesmo lugar por ter sido pega em flagrante, e ele sorria ainda de olhos fechados por ter me assustado.
- Não estou te encarando. – Ainda tentei negar, agora rindo, enquanto ele me enlaçava pela cintura e me puxava até ele.
- Não, é? E qual a definição de ficar observando alguém enquanto dorme?
- Ah, eu não sei bem. Só gosto de ver o que é meu. – Respondi sutilmente, enquanto via-o abrir os olhos de forma preguiçosa, piscando varias vezes e tentando me focalizar.
- E quem disse que sou seu? – Um sorriso travesso brincava em seus lábios, enquanto eu tirava os cabelos dos olhos dele.
- Você pode até não ser, mas esse corpo me pertence há, deixe-me ver, quatro meses. – Sorri presunçosa, antes de ele roçar seus lábios nos meus, sorrindo comigo.
- Bom dia, pestinha. – Sussurrou contra meus lábios.
- Good morning, sweetheart. – Sussurrei de volta, durante um selinho.
Agora, se eu dissesse pra vocês que essa pessoa que estava deitada comigo em minha cama é Draco Malfoy, alguém acreditaria? Pois bem, acho que se há um ano alguém me dissesse que eu teria um caso com ele, eu provavelmente riria sarcasticamente na cara da pessoa. A surpresa foi geral.
- Preciso de um banho. – Eu disse, enquanto me separava dele e me soltava de seus braços ao meu redor.
- Eu também. – Ele disse, se espreguiçando enquanto eu puxava o lençol para mim e me enrolava no mesmo. – Não sei pra quê se enrolar num lençol, se eu já vi esse corpo um milhão de vezes.
Mesmo contra minha vontade, corei, e então ri enquanto me dirigia ao banheiro. Escovei meus dentes, me fitei no espelho e vi meus cabelos em estado terrível.
- Voltei ao primeiro ano e ninguém me avisou? – Gritei para fora do quarto, de modo que ele me ouvisse. – Olha só para o meu cabelo! – Escutei ele rir, e bufei contrariada.
Entrei no box e liguei o chuveiro. A água estava fria, e eu quase havia me esquecido de que era inverno. Qualquer um esqueceria, depois de um feitiço de temperatura ambiente em todos os cantos do quarto. Molhei meu cabelo e fechei os olhos, sentindo a água agora quente escorrer por meu corpo. Foi então que o ouvi.
- Chega pra lá, seu box não é tão grande assim, Srta. Granger. – Ele vinha me empurrando, também nu, para entrar embaixo d’água.
- Ele é ideal para uma única pessoa tomar banho, Sr. Malfoy. – Sorri, enquanto me virava e lhe encarava, seus cabelos loiros já pingando água.
Ele sorriu pra mim, antes de me beijar. Eu já devia ter me acostumado, mas em todas às vezes que ele me beijava assim, de surpresa, eu sentia como se uma descarga elétrica percorresse todo o meu corpo.
- Você vai se arrepiar com meus beijos até quando? – Ele perguntou rindo divertido em minha orelha, quando se separou o suficiente de nosso beijo.
- Sempre. Ainda acho que tem algum fio desencapado que sempre me eletrocuta quando nos beijamos. – Ele não resistiu e riu de meu estranho senso de humor, então eu o beijei novamente.
Estávamos só nos beijando, calmamente, mas estar nua debaixo de um chuveiro com a pessoa mais desejável de Hogwarts não facilita muito. Conclusão: em instantes estávamos incandescentes. Draco era realmente bom. E não era só porque ele era o único homem que eu tinha em mente em muito tempo. Mas sim porque ele se mostrou o melhor desde a primeira noite. Então ele me empurrou de encontro à parede enquanto beijava meu pescoço, e eu gemi em reprovação ao sentir minhas costas nuas contra os azulejos frios. Ele riu entre o beijo, e eu puxei seus lábios de volta para os meus. Estávamos ofegantes, a ponto de enlouquecermos, e Draco havia acabado de levantar meu quadril pela parede quando escutamos batidas na porta.
- Pelo amor de Merlin! – Draco disse, a voz incrivelmente rouca, enquanto me descia de volta ao chão e mudava a temperatura do chuveiro para frio. Eu quis rir de sua frustração, mas eu estava tão frustrada quanto.
Saí do box, me enrolei em uma toalha e sussurrei para ele “fique aqui” enquanto saía do banheiro. Ainda pingando, abri a porta e me deparei com Rony.
- Bom dia Mione, tava no banho? – Ele perguntou todo sorridente, sem ouvir o barulho da ducha ainda ligada, pois eu havia lançado um abaffiato antes de deixar o banheiro.
- Bom dia Ron, estava sim. – Sorri amarelo, mas me lembrei em seguida de que ele não tinha culpa alguma.
- Então, nós vamos à Hogsmeade hoje. – Disse simplesmente, deixando a frase no ar enquanto eu me contestava se aquilo era uma pergunta ou uma afirmação.
- Ah, legal. – Foi o máximo que consegui articular, antes de reparar que ele esperava alguma outra reação. – Nós quem?
- Eu, Lilá, Harry, Gina, Luna e Neville. – Contou nos dedos, enquanto eu podia imaginar minhas sobrancelhas franzidas numa indagação de “e eu com isso?”.
- Então, que legal, um programa de casais, não?
- Nós pensamos em te convidar. – Eu quase engasguei, mas me recompus e lhe lancei um sorriso amoroso.
- Awn, que fofos, muito obrigada, mas estou atarefada hoje.
- Hermione, é sábado, o que custa sair? Nós quase não andamos mais juntos!
Se eu parasse pra pensar, era verdade. Desde que comecei a me envolver com Draco, eu sumi do mapa. Literalmente, pois havia descoberto um feitiço muito útil que fazia com que meu quarto de monitora não fosse visível no Mapa do Maroto, evitando assim que Harry descobrisse que havia mais alguém dormindo em minha cama.
- Sinto muito, Ron, eu realmente sinto sua falta. Mas você sabe, é desconfortável sair em casais, quando eu não tenho um namorado. – Ele sorriu quase como se pedisse desculpas, e passou a mão pelo lado do meu rosto.
- As coisas ficaram estranhas, não? – Eu tentei pensar em outro tipo de definição para a palavra “estranha”, mas eu sabia exatamente do que ele se referia. – Antigamente, poderíamos jurar que ninguém jamais separaria o “trio de ouro”. Mas hoje em dia, eu nem sei mais se isso é um trio.
Não era natural de Rony, mas sua voz soou melancólica, quase nostálgica, enquanto ele me olhava com os olhos desfocados, provavelmente perdidos em lembranças. Naquele momento, cheguei a me esquecer de Draco no meu banheiro, ou o fato de eu ainda estar toda molhada e enrolada numa toalha, mas eu não reprimi o impulso de abraçá-lo.
- Nós sempre seremos aquele trio, Ron. Eu, você e Harry continuamos sendo os três que enfrentaram um trasgo montanhês num banheiro, os que encararam os desafios para chagar à Pedra Filosofal, os que temeram Sirius e no fim o ajudaram a fugir, os que invadiram o Ministério, os que passaram meses caçando Horcruxes, os que venceram todo o tipo de barreiras. – Os braços fortes de Rony pareciam me apertar cada vez mais forte, e eu mal reparei que estava a beira de lágrimas. Afastei-me o suficiente para encará-lo, e nós sorrimos cúmplices um para o outro.
- Acho que pra quem lutou contra bruxos das trevas, nós podemos enfrentar um pouco de distancia, não?
- Você sabia que seria assim. Todos sabiam. Chega uma hora em que tomamos decisões diferentes, rumos opostos, mas estamos sempre juntos. Quando concluirmos o sétimo ano, será ainda mais difícil. Mas continuamos juntos.
- Obrigado por tudo. – Ele me agradeceu enquanto me sufocava novamente em um abraço, e eu sorri aliviada por Draco não poder ver essa cena. – Você é a melhor.
- Obrigada, mas não deixe Lilá nem sonhar que você estava me abraçando só de toalha.
Nós rimos juntos e nos separamos. Logo após, convencido de que eu realmente não os acompanharia à Hogsmeade, Rony foi embora. Havia mais de um motivo para eu não ir passear com eles. Além do fato de que eu iria passar o dia com Draco, Lilá também não gostava de mim. Acho que o ódio dela se intensificou ainda mais depois de algumas calúnias publicadas no Profeta Diário, que diziam coisas como “Granger e Weasley pretendem se casar no próximo ano” e algo do gênero. Bem, todos sabem que logo após a guerra eu tive um rolo com Rony, mas nós acabamos percebendo que éramos só amigos ao fim das contas. Quando voltamos à Hogwarts, que foi reconstruída em poucos meses, para terminarmos o sétimo ano, vimos que muita coisa havia mudado. Harry voltou a namorar Gina, Neville e Luna estavam juntos, E Rony acabou reatando seu relacionamento (estranho) com Lilá. E cá estou eu, há quatro meses com Draco Malfoy. Talvez possam julgar como covardia o fato de que eu não consegui contar aos meus melhores amigos sobre isso, mas eles realmente não aceitariam o meu também estranho relacionamento. E, por enquanto, eu não estava afim de arriscar perder meus amigos ou o homem que não sai da minha cabeça. Realmente não sei o que seria viver sem ele.
Quando dei por mim, ainda estava recostada na porta pela qual Rony saíra há não sei quanto tempo. Estive perdida em devaneios, e finalmente lembrei de que Draco me esperava no banho. Respirei fundo, abri a porta do banheiro e antes que pudesse focalizá-lo por entre toda aquela fumaça de vapor, sua voz arrastada me contestou.
- Quem estava aí?
- Rony.
- E o que é que o Weasley queria com você? – O tom antes quase gentil se transformou em algo desdenhoso. O ciúme que Draco sentia de Rony era quase doentio.
- Me chamar pra sair. – Provoquei, sabendo que aquilo o faria queimar de raiva por dentro. Entrei no box e o empurrei para o lado, enquanto me molhava novamente.
- Como assim te chamar pra sair? – O tom de voz dele foi se elevando, enquanto meu sorriso presunçoso ficava cada vez mais visível.
- Ah, você sabe, ir a algum lugar com ele.
Uma das coisas engraçadas em Draco é que ele não conseguia notar o humor em minha voz quando estava possesso de raiva. Então, como já era de se imaginar, ele me empurrou contra a parede e colocou os braços um de cada lado da minha cabeça, olhando-me fixamente nos olhos.
- E você ficou todo esse tempo lá fora, só de toalha, sozinha com ele?
- Hm, é, fiquei sim. – Ele fechou os olhos, tentando controlar a raiva, mas seu semblante deixava isso exposto.
- E você aceitou sair com ele? – Ele disse em pouco mais de um sussurro, com a voz plausivelmente relaxada, e finalmente olhou pra mim.
- Mas é claro que... não. Draco, você sabe muito bem que seus ciúmes por mim não têm fundamentos. – Ele levantou uma sobrancelha em desafio, e eu suspirei. – Estava brincando com você. Rony veio me chamar para ir com ele e mais alguns diversos casais passear em Hogsmeade. Mas sabe como é, eu tinha um loiro nu à minha espera no chuveiro, e esse sim é um programa irrecusável.
Ele sorriu aquele sorriso que me fazia faltar o ar, antes de me beijar profundamente.
- Onde foi que nós paramos antes de o Weasley nos interromper? – Ele murmurou contra meus lábios, enquanto passeava com as mãos por minha silhueta.
Eu ri e enlacei meus braços ao redor de seu pescoço, puxando sua cabeça de encontro a mim, e ele começou a beijar meu ombro esquerdo. Ofeguei, louca por um contato maior, sentindo um calor se apossar de mim rapidamente. Ele voltou a minha boca, em um beijo devastador, enquanto eu lhe arranhava de forma quase gentil. Gentil ao ponto de fazê-lo se arrepiar, e eu ri com a voz rouca de desejo.
- Que tal terminarmos isso na minha cama? O banho pode esperar. – Ele riu rouco, e em um instante me pegou eu seu colo, de frente para mim, enquanto eu enlaçava as pernas em sua cintura.
- Maravilhosa idéia.