Capítulo 21
Paris... quantas lembranças possuo sobre esta cidade. Meus últimos meses de liberdade foram mais do que proveitosos ao lado de Cornélia e mais dois companheiros que me fizeram vive-la de uma forma completamente poética. De fato, foi a partir daquele dia (em que os conheci) que passei a acreditar no destino.
Nosso trem parou em Marselha e em seguida pegamos outro para a cidade luz. Passamos meia tarde na primeira, em respeito à nossa mãe, e chegamos a segunda quando caía a noite, de carro. O trabalho de inominável sempre me proporcionou conhecer novos lugares, novas paisagens, mas nenhuma delas jamais superou Paris. Muitos autores e também turistas que passaram por aqui perguntaram-se a mesma coisa: Se tal cidade é mais bela durante o dia ou durante a noite. Cornélia acreditava que pelos dias, o sol brilhava com mais afinco e que por isso a cidade era mais bela nesse período. Já eu pensei o contrário.
É claro, o sol pode brilhar com mais intensidade durante o dia, sim. Contudo, não é por ele que os artistas da Belle Époque erguiam suas taças e juntavam suas economias para viajar, mas sim pela lua. Naquela época, as ruas de Paris estavam impregnadas pela boêmia, pelo discurso de liberdade, beleza, verdade e amor. Os cafés com seus grandes luminosos, a música, as conversas, a vida que emanava da cidade durante a noite fazia com que o mais solitário dos homens se sentisse bem vindo em qualquer lugar que entrasse. Não havia mal que uma garrafa de Absinto não conseguisse curar.
Ficamos hospedadas no Ritz, antes apenas um hotel recém aberto e hoje já o mais lendário da França. Do nosso quarto dava para ver toda a Rua do Rivoli e grande parte da Champs – Élysées.
_ Nem acredito que estamos mesmo aqui! – disse depois de dar uma volta completa pelo quarto do hotel.
_ Eu também achei que tia Sarah fosse mudar de ideia no último minuto, mas para a nossa sorte estamos aqui. – concordou Cornélia se jogando contra a cama.
_ Vamos! Vamos sair!
_ Sair?! – exclamou minha irmã sentando-se. – Amélia, acabamos de chegar! Eu estou cansada...
_ Pois eu seria capaz de passar a noite inteira acordada! – retruquei dançando pelo quarto. – Estou me sentindo como se tivesse seis anos de novo! Um ano, Cora! Um ano sem tia Sarah, sem ter que pensar em como minhas atitudes vão refletir para a família...
_ Ei, não vá achando que vai poder fazer qualquer loucura. Você ainda é uma Preminger. – rebateu minha irmã me apontando o dedo de forma incisiva.
_ Ora, Cornélia Preminger, não comece a querer pregar para mim! Está certo que eu não vou virar uma dançarina ou algo parecido, mas nada me impede de falar com quem eu quiser...
_ Entendi o que quer dizer... Mas, bem, então vá! Vista-se! Mas, não me espere, estou realmente cansada! E lembre-se também, somos trouxas como eles, filhas de um Lord inglês... o que não deixa de ser verdade...
_ Não se preocupe, Cora... prometo não me divertir tanto sem você! – disse dando um último beijo na bochecha de minha irmã e saindo em seguida para me vestir.
Nunca se esquece a primeira vez que entra no Moulin Rouge. O lendário moinho vermelho que por muitas eras perverteu mentes e destruiu casamentos, foi o cenário do início de uma amizade que fez com que a falta de Elifas e Alvo não fosse tão sentida. Bem, vai ser divertido reviver aquela noite mesmo que apenas por meio de um lápis e um pedaço de papel. Estava usando um vestido vermelho de ombros nudos e o cabelo preso à moda, como todas as outras trouxas da cidade. Tomei um carro e me encaminhei a entrada do Moulin, as pessoas entravam aos montes e algumas me olhavam com desconfiança. Uma moça desacompanhada na porta de um clube noturno nunca seria bem visto, nem mesmo hoje.
_ Perdão, senhorita, mas não poderá entrar. – disse-me o homem parado ao portão, recepcionando os convidados, na maioria homens.
_ Ora, mas como? Tenho direitos de estar aqui tanto quanto qualquer um. – retruquei apoiando as mãos no casaco.
_ Mas... desacompanhada? Não fica bem...
_ Olhe aqui, não é a falta de um homem de braços dados a mim que vai me impedir de entrar...
_ Mon Dieu, como você é difícil de alcançar! – disse uma figura de terno e cartola, acompanhado por outro senhor vestido da mesma maneira. – Não se preocupe, Fabian, ela está conosco. Amiga da família, ingleses... sabe como é. – comentou passando a mão pelo pescoço.
_ Não sei, Marius. Ela não parecia estar esperando...
_ E por acaso devo satisfações ao senhor, senhor Fabian? Por Deus. – reclamei me virando para fitar o meu salvador. – Ainda bem que chegou, estava prestes a acertar este homem com a bolsa.
_ Isso não é necessário, vamos entrar. Venha Rudy! – chamou o cavalheiro.
Marius sempre foi uma figura icônica. Para mim, ele e Rudy representavam o que a boêmia tinha de melhor. A falta de preocupação em se apresentar a alguém antes de salvá-lo ou mesmo fazer dele seu mais novo amigo. Contudo, naquele momento eu estava assustada ao mesmo tempo em que permitia meu encantamento por seu gesto tomar forma. Eles me acompanharam para dentro do cabaré e quando já estávamos longe dos olhares dos responsáveis, começaram as perguntas e os agradecimentos.
_ Não imagina o quanto sou grata pela ajuda. – disse com um sorriso de gratidão.
_ A senhorita me parece ser bastante espirituosa ou muito tola, confiar em dois bastardos que conheceu na fila de um clube noturno. – comentou Rudy. – Se bem que eu jamais poderia me dar ao luxo de discordar de tão bela criatura. Rudolph Chevalier ao seu dispor, mademoiselle. – apresentou-se beijando-me a mão. – E este descarado que me acompanha é...
_ Deixe disso homem, eu sou bem grandinho para precisar que me apresentem a uma dama inglesa. Pois bem, eu, minha excelentíssima e bela senhorita, sou Marius Depardieu. Apreciador da bela arte e de tudo que compõe a bela vista de Paris... você, por exemplo, enche meus olhos e, portanto, como meu esperto amigo disse, estou ao seu dispor, mademoiselle. – disse fazendo uma grande reverência e beijando-me a mão.
_ E a dama inglesa excessivamente tola é Amélia Delacour. – respondi também com uma reverência, apoiando o dedo indicador no queixo. – Enchantée.
_ Ora, mas uma dama inglesa com sobrenome francês? Que tempos são esses meu caro Rudy? – comentou Marius fingindo perplexidade.
_ Logo os homens poderão andar nas ruas de saias. – concordou ele.
_ Ah, mas eles já fazem isso na Escócia, meu amigo, vejo que está desatualizado. – retrucou Marius com um leve desdém falso. – Ou talvez ela seja uma espiã.
_ Pareço uma espiã?! – exclamei entrando na brincadeira.
_ Não, a senhorita se parece com o tipo de mulher que desvirtua homens valorosos como meu amigo e eu, e tem prazer em dançar sobre as cinzas de seus corações como se fossem nada. – retrucou Marius me fitando com malícia.
_ Logo se nota que é um poeta, pois eu posso apostar que isso sequer passou pela minha cabeça. – afirmei devolvendo o olhar. – Contudo, espero que meu noivo pense assim e não se atreva a nada comigo. – comentei.
_ Oh! Ela é noiva! – chorou Marius afastando-se. – Como? Por que será que todas as belas já são comprometidas? Será essa a minha sina?
_ Não tem compaixão? – devolveu Rudy rindo. – Ora, vamos, meu amigo, tomemos uma taça de Absinto e esqueceremos o quanto essa mademoiselle nos decepcionou.
_ De forma alguma! Eu não perderei para um camarada inglês. Ouça, mademoiselle, espera alguém?
_ Não, estou realmente sozinha. Aproveitando meu último momento de liberdade antes de desposar o camarada inglês. Vim a Paris com minha irmã, mas ela estava cansada para me acompanhar até aqui. Não consegui esperar até amanhã para começar a visita. – respondi prontamente.
_ Pois então se sentará conosco. Nenhuma dama tão bela deve ficar sozinha e a mercê dos luxuriosos, nunca se sabe do que serão capazes...
_ E como posso saber que não é um deles, senhor Depardieu? – indaguei cruzando os braços.
_ Minha senhora, nunca encontrará na França um casal de homens mais honrados do que Rudy e eu. Pode confiar sua vida a nós. – ele disse de peito estufado. – Agora, vamos nos sentar. Já fiquei em pé o suficiente para que os artistas aqui presentes conseguissem captar minha silhueta marcante.
_ Sinto-me obrigado a indagar sobre seu sobrenome, mademoiselle Delacour. Como alguém com um sobrenome tão francês pode ter um inglês perfeito como o seu? – perguntou-me Rudy.
_ Rudy, Rudy, não sei como pode ter poemas tão elogiados se sequer consegue falar com uma dama sem ofender a sua inteligência. Ora, ela pode ter sido criada na Inglaterra, o vil país... e agora antes de ver-se presa a ele ainda mais pelas correntes sórdidas do casamento, resolveu viver um pouco de sua terra natal em todo o seu esplendor.
_ Na verdade, senhor Chevalier...
_ Apenas Rudy, mademoiselle. Apenas os cobradores que insistem em aparecer à minha porta me chamam assim. – interveio ele com um sorriso simpático.
_ Na verdade, Rudy, sou filha de pai inglês e mãe francesa. Contudo, eles faleceram quando eu ainda era muito jovem e minhas relações com a família inglesa não são as melhores possíveis. Achei que, estando eu num momento de liberdade dela, poderia usar um sobrenome que me não me acarretasse ter que ser olhada como se fosse a própria Delfina da França. – expliquei com humor.
_ E que sobrenome seria esse que a entristece tanto? – quis saber Marius.
_ Preminger. Amélia Preminger. – respondi.
_ Para sua sorte, mademoiselle, eu nunca ouvi falar dele e mesmo se tivesse, descobrirá que os sobrenomes são de pouca importância para mim ou para qualquer outro ser sentado neste bar. O que nos interessa é a beleza. “Beleza, bem, verdade, eis o que exprimo.” – enunciou com paixão.
_ Shakespeare ficaria honrado por ouvir seus versos serem declamados com tamanha fervura, senhor Depardieu. – comentei.
_ O mesmo que lhe foi dito por Rudy vale para mim, mademoiselle. Somente os cobradores e aqueles que me tem em baixa estima chamam-me assim. Para você, para as belas virgens que sonham comigo e para as experientes jovens que já gritaram meu nome, é apenas Marius. E se me permite a ousadia, chamá-la-ei de Mel, pois seus olhos me remetem a tão saboroso néctar e sua voz é tão doce quanto o mesmo, minha cara mademoiselle que, infelizmente, devo apenas observar, em respeito ao homem que já a tomou para si. – a forma como disse, tão sincero e sem um pingo de ironia, deveria mesmo funcionar com as mocinhas, mas, no meu caso, fez com que caísse na gargalhada.
_ Eu as invejo, por terem tão galante admirador. Então, acertei, é poeta. – retruquei com vívido interesse.
_ Todos nós temos algo de poeta, querida Mel. – disse Marius. – Veja Rudy, por exemplo, pode olhar para ele e verá nada mais do que um simples escravo da sociedade, é bem verdade que possui mais posses do que eu, pobre Rudy, no entanto, poucos são capazes de desconfiar que existe uma alma vívida como a chama acesa por detrás destes olhos verdes. Um homem que sofre, que ama, que sonha... isso o mundo não vê. O que ele quer são apenas os resultados do trabalho do meu amigo, sem se preocupar se isso o consome e o destrói a cada dia que passa. Pobre Rudy, o que pode fazer além de se recolher com uma garrafa de Absinto, algumas folhas de papel e permitir-se uma fuga passageira?
_ Deveria seguir a carreira política, Marius. Tem o dom da oratória. – observei maravilhada.
_ Longe de mim. A última coisa que quero é tornar-me um deles. – disse apontando para os homens aplaudindo as dançarinas de cancã. – Eles nadam em piscinas de dinheiro, casam-se por convenção e enchem suas senhoras de joias. Mas mesmo eles precisam da fantasia. A fantasia que somente nós, os criadores da boêmia podemos dar.
_ Não se preocupe, ele fica mais alegre depois de uma taça de Absinto. – brincou Rudy. – Bebe, Amélia?
_ Vinho, apenas. – respondi.
_ Então, em sua homenagem, querida Mel, hoje só beberemos vinho. Rudy que me desculpe, mas terá que se contentar com essa condição.
_ Eu sobrevivo a sobriedade melhor do que você diz. – retrucou o outro na defensiva. – Sua irmã também sofre dos males do casamento?
_ Ah, não. Eu sou a mais velha, tenho que dar o exemplo. – respondi com um sorriso amargo.
_ Tem as cores do mel, mas são tristes como a operária abelha que o faz. – comentou Marius. – Anime-se! Isso é Paris, minha doce Mel. Você mesma disse que é o seu último momento de liberdade, e não é esta uma causa pela qual vale a pena viver? A liberdade, a verdade...
_ E a beleza? – indaguei com meiguice.
_ Ah, a beleza também é importante, mas o que vem depois dela é ainda mais. O amor. O princípio de todo artista, independente de qual tipo seja.
_ E existem tantos tipos assim?
_ Ora, mas o que é isso. A mademoiselle está na França, onde inventaram o amor, onde é possível amar duas pessoas ao mesmo tempo. “Se há tantas cabeças quantas são as maneiras de pensar, há de haver tantos tipos de amor quantos são os corações.” – lembrou Marius dando um tapinha amigável no ombro de Rudy.
_ Tolstoi?
_ Vejo que é bastante culta. – comentou Rudy sorrindo. – Isso é bom, distrairá sua mente quando estiver casada.
Não se o seu marido for um bruxo que detesta trouxas e qualquer objeto produzido por eles.
_ Veja! Toulouse! – chamou Marius erguendo-se da mesa, quase derrubando o garçom que trazia a garrafa de vinho. – Cuidado, amigo.
_ Marius! – cumprimentou o famoso desenhista com um francês fluente.
_ Vocês conhecem muitas personalidades. – comentei bebericando o primeiro gole de vinho.
_ Apenas damos sorte de frequentar os mesmos lugares que elas. – retrucou Rudy piscando para mim. – Mas, Marius está certo, Amélia. Se é o seu último momento de liberdade, não gaste-o pensando naquilo que a entristece. Como a lâmina afiada, absorva apenas aquilo que a fortalece. – ponderou fazendo-me lembrar extremamente de Alvo.
_ Engraçado... você me fez lembrar um amigo meu agora.
_ Você o deixou por Paris?
_ Precisei... ele está cuidando da família agora, depois da morte dos pais.
_ Entendo. Bem, se ele concorda comigo e parece ser tão íntimo, deveria fazer o que nós dois estamos sugerindo. – brincou erguendo a taça para que brindássemos. – À liberdade e À beleza!
_ À verdade e o amor! – interveio Marius rapidamente alcançando uma taça cheia para ele e juntando-se a nós no brinde. – Acharam que iriam brindar sem mim? Rufiões. Ah, Mel, falei de você para Toulouse, vai haver um baile de máscaras no Jardim das Tulheiras e ele queria saber se não poderia desenhá-la nessa ocasião.
_ Ah, será um prazer. – concordei.
_ C’est la perfection. – disse ele num francês carregado de sentimento. – Bem, agora que fizemos uma nova amiga, Rudy, acho que deveríamos nos responsabilizar por ela e sua irmã enquanto estiverem aqui em Paris. Mostrá-las as belezas da cidade. – acrescentou meu novo amigo com alegria.
_ Não consigo pensar em outra coisa. – concordou Rudy. – Então amanhã, a mademoiselle nos esperará com sua irmã... onde está hospedada?
_ No Ritz. – respondi risonha.
_ Ritz! Brilhante, peça ao Jean para levá-la até a Place des Vogues, vamos introduzi-las a uma das visões mais belas de toda a França.
_ Vai ser ótimo! Tenho certeza de que minha irmã vai adorar. – comentei batendo palmas.
_ Ela é tão bela quanto você? – interveio Marius.
_ É mais. – respondi com um risinho pela reação dele.
_ Rudy, estou correndo o risco de me apaixonar aqui. – brincou batendo no ombro de seu amigo. – Uma pena que prometi nunca me casar com uma inglesa.
_ Que pena que eu estou noiva. – respondi sem pensar.
_ Ah! Ela é mesmo espirituosa. – decidiu-se Rudy. – Agora, vamos virar essa garrafa antes que os camaradas expropriadores cheguem. – observou.
Retornei ao hotel às duas da manhã, escoltada por meus dois novos amigos que me fizeram prometer que estaria mesmo na Place des Vogues às exatas três horas do outro dia. Dando minha palavra, deixei-os para voltar à minha irmã, que já estava dormindo quando entrei no quarto. Enquanto tirava os grampos do meu cabelo e desabotoava o vestido, me peguei admirando o céu noturno de Paris. A lua estava cheia e um grupo de músicos passava sob a janela dedilhando canções em seus alaúdes, como num sonho. Na verdade, tudo naquela cidade me fazia pensar que estava vivendo um sonho.
Pensei em escrever para Elifas e Alvo contando sobre o meu primeiro dia, mas o sono chegou rapidamente, assim que terminei de soltar meus cabelos e vestir minha camisola. Teria muito tempo, pensei na época, para escrever no dia seguinte... bobagem. Foi como se de repente, eu tivesse me esquecido completamente de que era bruxa e me fantasiava como uma noiva infeliz, ancorada em Paris.