Era tarde da noite. Somente pessoas vestidas com roupas pesadas caminhavam pelas ruas em direção de suas residências a passos largos. No sentido contrario, seguindo em direção às vielas londrinas, o som de um salto fino ecoava. A mulher estava lindamente vestida com roupas sensuais, um tanto curtas para o frio que fazia naquela noite, mas ela não parecia se importar.
Não havia como não notar aquela pessoa com aquele vestido branco, jaqueta de couro preta e scarpin também preto. Não havia como não fechar os olhos e se deixar levar pelo cheiro que ela deixava por onde passava. Todos os homens, até os acompanhados, a seguiam com os olhos até ela sumir do campo de visão e assim foi até ela entrar no Caldeirão Furado. Cumprimentando o dono do bar com um sorriso e atraindo mais olhares masculinos ainda, a bruxa seguiu em direção aos fundos do estabelecimento onde abriu a passagem para o Beco Diagonal e continuou seu passeio noturno que, desde que Voldemort tomara de fato o controle ministerial, já haviam se tornado rotina.
O caso não era que ela não se importasse com o domínio das trevas, tampouco compactuasse com ele. Ela era apenas uma mulher jovem e atraente e queria curtir sua vida, principalmente agora que seu convívio com o luto e o pesar tinha se tornado tão comum. Logicamente, ninguém sabia desse lado dela, por isso, ela usava um feitiço de desilusão que a deixava levemente diferente, o suficiente para não ser reconhecida por algum partidário de Voldemort e principalmente alguém de sua própria “equipe”.
Como era de se esperar, qualquer espécie de movimento naquele lugar só podia vir da Travessa do Tranco, onde boates foram abertas por comensais mais próximos do Lorde. Os tempos sombrios eram melhores para os negócios, pois qualquer pessoa louca o suficiente para sair para se divertir pagaria muito bem para isso, fora os que realmente estavam gostando das mudanças que viam nessas festas uma forma de mostrar ainda mais de que lado estavam. A bruxa entrou numa boate chamada Imperius, onde dois bruxos musculosos controlavam a entrada das pessoas. Ignorando a fila, a mulher dirigiu-se diretamente para a passagem V.I.P., onde, sem dizer uma palavra sequer, depositou uma bolsinha com algumas moedas de ouro e piscou para um dos seguranças:
- Seja bem-vinda, madame Watson. – cumprimentou o segurança, levemente envergonhado.
As luzes piscando, a batida envolvente, os drinques que flutuavam na sessão mais reservada da boate, tudo aquilo inflamava os sentidos e atordoavam de uma maneira viciante qualquer um que ali entrasse. A mulher que os bruxos chamavam de madame Watson simplesmente pegou um dos copos, tomou um gole, e começou a dançar. Logo, um rapaz aproximou-se dela, sussurrando em seu ouvido:
- Watson.
- Malfoy. – cumprimentou a mulher, sorrindo – Você por aqui de novo?
- Como posso não vir quando tenho certeza que vou te encontrar novamente? – ele argumentou, prendendo-a entre a parede e ele – Você me deixou louco da última vez. – disse, tentando beija-la.
- Foi só uma dança, meu caro. – ela limitou-se a dizer, virando o rosto.
- Não mesmo. – ele sorriu sedutoramente, lambendo o lábio – Sei que eu quero outro beijo daqueles. Watson riu, o que não deixou Draco muito feliz – Está brincando comigo, garota? – perguntou ele, irritado.
- Calminha aí, rapazinho. – Watson disse, séria – Não ache que eu saio de casa sem saber como me defender nesses tempos.
- Eu sou um dos comensais do Lorde das Trevas. – ele ameaçou, pressionando-a mais ainda.
- E eu sou uma pessoa que você não faz ideia de onde veio. – ela rebateu, deixando-o sem argumentos por alguns instantes.
- Quem é você? – ele perguntou a milímetros da boca dela.
- Madame Watson. – ela respondeu, beijando-o em seguida.
Ambos começaram uma espécie de dança enquanto se beijavam. Seus corpos pareciam que iriam se fundir do modo como eles eram pressionados um contra o outro. O atrito entre eles provocava uma sensação de calor que ambos sentiram necessidade de despir-se das jaquetas para continuar naquilo:
- Quem é você de verdade? – Draco perguntou, ofegante, beijando-a entre uma palavra e outra – Por que eu tenho a impressão que eu te conheço?
- Mistérios... – ela respondeu, sorrindo.
E que sorriso lindo ela tinha...
Lindamente familiar...
**
Era quase nove horas da manha quando ela acordou. Draco ainda dormia completamente nu, enrolado parcialmente no cobertor. Com cuidado, Watson recolheu suas roupas e as vestiu, saindo pela Rede de Flú deixando para trás apenas um bilhetinho em cima da mesa do abajur. Draco remexeu-se contragosto acordando por volta do meio-dia com os raios de sol iluminando seu rosto. Ele tateou sua cama procurando a misteriosa madame Watson, mas não a encontrou. Com um misto de raiva e excitação, ele sentou-se na cama passando as mãos nos cabelos e gargalhando sozinho, notando, assim, o papel com seu nome escrito sobre o móvel:
- Agora eu descubro quem é você, Watson. – ele comentou, avulso, levantando-se rapidamente, vestindo-se e pegando a Rede de Flú para a Mansão de Voldemort – Frederic! – chamou, autoritário.
- Sim, senhor. – respondeu Frederic, quase tropeçando nos próprios pés para atender seu superior.
- Quero que faça a analise dessa letra e descubra qual o nome verdadeiro da pessoa que escreveu.
- O senhor sabe que eu precisarei ler o conteúdo para isso, não é? – advertiu o rapaz, nervoso.
- Lógico que eu sei, seu imbecil! – gritou Draco, irritado – Ande logo e não repita nada do que ler aí.
Apavorado, Frederic saiu correndo com o bilhete nas mãos. Draco aproveitou o momento de espera para colocar o Lorde das Trevas a par dos seus atos. Mesmo que não fizesse parte da elite dos comensais, ele ainda tinha algum poder e isso só foi conquistado por ele mostrar serviço dessa forma. Durante a reunião de prestação de contas, todos os comensais de todas as posições de comando relataram o que estava acontecendo, de como o domínio da ordem de Voldemort crescia e as tentativas de ataques da Ordem da Fênix estavam cada vez mais fracassadas. Draco conseguiu depois de muito esforço comentar sobre uma captura de alguns rebeldes nos arredores de Gales que tentavam repassar as noticias do Reino Unido para o resto do mundo, o que deixou o Lorde das Trevas muito satisfeito.
E era quase oito da noite quando Frederic retornou com o resultado dos testes:
- Quase não consigo quebrar a proteção da caligrafia. Essa bruxa é muito talentosa. – ele comentou, ofegante.
- Não tão boa quanto você, para sua sorte. – comentou Draco, tomando o bilhete das mãos dele.
- Senhor, o Lorde das Trevas precisa saber desse bilhete. – Frederic disse, com medo de sua “insubordinação” ser sua ruína.
- Do que está falando? – Draco perguntou, interessado.
- Eu sei quem é ela. Sei do que ela fez para o Lorde e de como ele a odeia.
Draco ficou pálido. Rapidamente, ele abriu o bilhete e leu a assinatura, agora com o nome real de madame Watson:
- Hermione Granger?! – ele admirou-se, quase caindo para trás.
- Eu preciso reportar ao Lorde. – disse Frederic, pronto para dar meia volta.
- Obliviate! – conjurou Draco, atingindo o rapaz e o fazendo cair.
**
As luzes da noite pareciam ainda mais intensas nesse dia. Draco já bebia o quinto drinque enquanto olhava fixamente para a entrada V.I.P. esperando sua não-tão-mais-misteriosa companhia de algumas noites. Demorou mais do que nos outros dias, mas ela finalmente apareceu com aquele sorriso sedutor e seu salto fino, agora vermelho, caminhando em sua direção:
- Malfoy. – ela disse, sentando-se bem próximo a ele – Já começou cedo a encher a cara.
- Pois é, Granger. – ele respondeu, sério, segurando-a com força.
Hermione estremeceu no mesmo instante e tentou se desvencilhar:
- Se fizer alarde será pior para você. – disse Draco, ríspido, apertando ainda mais o braço dela.
- Anda logo, me mata de uma vez. – disse Hermione, desistindo de se soltar.
- Quero entender o que você tinha na cabeça para fazer isso. – ele disse, olhando-a nos olhos.
- Queria me divertir. – ela respondeu vagamente, mantendo o contato visual.
- Com comensais? – ele insistiu.
- Não estava nos meus planos iniciais. – ela respondeu, zombeteira.
- Você sabia quem eu era e, ainda assim, flertou comigo, me beijou... fez sexo comigo. – ele frisou bem a ultima frase, procurando na expressão dela compreender aquilo tudo – Se era um joguinho de diversão, porque comigo?
- Não estava nos meus planos, eu já disse. – ela repetiu, irritada – Você que não resiste a uma fêmea e veio me secando. Simplesmente vi aí uma oportunidade de me divertir ainda mais.
- Ah, claro. Nem o Potter e o Weasley eram capazes de fazer o que eu fiz com você, não é? – ele provocou, jogando-a para trás no sofá e colocando-se sobre ela.
- Respondidas suas perguntas? Vamos duelar ou você vai me matar covardemente? – ela perguntou, curiosa.
- Você mexeu demais comigo, Granger. – ele confessou, aos sussurros, rente ao ouvido dela – Mexeu mais do que eu gostaria de admitir... não, não vou te matar.
- E então?
- Não vou te matar com uma condição: continue sendo minha. – ele disse, esperando ansiosamente pela resposta. Hermione hesitou alguns instantes, ela olhava incrédula para o loiro, sem saber o que esperar dessa proposta.
- Acho que pode ser interessante. – ela respondeu, sorrindo sedutoramente – Confesso que gostei muito da noite passada.
Draco também não conseguiu conter o sorriso. Beijando-a calorosamente, ele levantou-se e estendeu a mão para que ela se apoiasse, conduzindo-a para a pista de dança onde eles dançaram como se nada tivesse acontecendo. Os corpos se encontravam, friccionavam, separavam-se, juntavam-se novamente. Era mais do que uma dança, era um jogo que ambos estavam adorando jogar.
**
- Olha onde estamos de novo. – Draco disse, beijando-a com fervor – Quero ver sua aparência real.
- Vai mesmo fazer sexo com uma sangue-ruim? – ela disse, beijando-o no pescoço.
- Já estamos aqui, não estamos? – disse ele, abrindo o zíper do vestido dela. Hermione separou-se dele e, girando sua varinha, desfez a desilusão:
- E então? – ela perguntou, deixando o vestido cair por suas pernas revelando, assim, seu lingerie.
Nada precisava ser dito naquele momento. O desejo era tão aparente que Draco simplesmente a tomou nos braços num único movimento, girando com ela e a jogando em cima da cama. Suas mãos percorriam o corpo daquela que sempre fora sua inimiga. Ela gemia com o toque, puxando-o pelos cabelos, arranhando as costas dele. Eles se desejavam acima de qualquer preconceito ou lado da guerra e não sairiam dali até que consumassem seus mais ardentes pensamentos.
Quando amanheceu, diferente da noite anterior, Draco foi o primeiro a acordar. Ele revirou-se na cama e chocou-se contra Hermione, que ainda dormia tranquilamente. Um vento gelado entrava pela janela do apartamento onde eles estavam, com isso, o rapaz cobriu a castanha com um cobertor que estava enrolado nos pés dela. Ela aninhou-se com aquele gesto, o que o fez sorrir involuntariamente, causando espanto nele mesmo.
Naquele momento ele não sabia muito bem o que fazer. Ele levantou-se, vestiu uma roupa mais confortável do que a que usara à noite (ele estava em seu próprio apartamento) e ficou observando a paisagem. Os trouxas do lado de fora não sabiam que uma guerra estourava não muito longe dali e atribuíam qualquer tipo de ataque que Voldemort fizesse a algum fenômeno natural ou algo do gênero. Pela primeira vez em anos ele começou a pensar se as suas decisões realmente foram tomadas por ele mesmo.
Desde que se lembrava sua vida era voltada aos desejos de seu pai. Quando ele se tornou um comensal de fato foi um momento de festa, inclusive. A Mansão Malfoy estava em festa, Pansy Parkinson e Astoria Greengrass quase duelaram para ver quem ficaria com Draco naquela noite, o que acabou resultando em derrota para ambas. Sempre que uma lembrança vinha em sua mente, ele lembrava-se também o quão vazio tinha se sentido durante todo esse tempo.
Olhou novamente para dentro do apartamento, mais precisamente para Hermione. Ela tinha uma expressão tão tranqüila. Ela rolou um pouco na cama antes de acordar de fato, deixando o lençol escorregar pelo seu corpo quando ela espreguiçou-se e, passando as mãos no cabelo, sorriu para ele e perguntou:
- Caiu da cama?
- Não tinha mais para que continuar dormindo. – ele respondeu, sério.
- Aconteceu alguma coisa? Está arrependido do acordo? – ela questionou, intrigada.
- Você conjura Patrono? – ele perguntou, ainda com a mesma expressão.
- Sim. Por quê? – ela estava ainda mais curiosa.
- Poderia me mostrar? – ele pediu quase em tom de súplica.
Mais confusa ainda, Hermione recolheu suas roupas e, após se vestir rapidamente, conjurou seu Patrono. Draco ficou maravilhado com a energia que tomou forma diante dele e, quando tentou tocá-la, ela se dissipou:
- Me mostre o seu. – ela pediu, aproximando-se dele.
- Não. – respondeu ele, ríspido, saindo da frente dela.
- Bem, eu tenho que ir. – respondeu Hermione, dando de ombros – Missão da Ordem da Fênix.
- Coloca no seu relatório que você dormiu comigo. – ele disse, rindo.
- Um dia quem sabe. – ela entrou na brincadeira, entrando no banheiro para fazer sua higiene matinal – Posso usar a Rede de Flú?
- E seus amiguinhos encontrarem o único lugar de paz que eu tenho? Nem pensar!
Hermione sorriu e dirigiu-se para a porta:
- Até a próxima, Malfoy. – ela despediu-se, dando uma piscadela.
Tomando uma distancia segura, Hermione certificou-se que não havia ninguém por perto e desaparatou num campo nos arredores da Toca. Somente os membros da Ordem da Fênix sabiam dessas coordenadas e, assim, nemem sonho Voldemortpoderia descobrir onde os rebeldes se reuniam. Mal chegou na porta da residência dos Weasleys e já foi recebida com um olhar desaprovador de Harry, que estava escorado na parede com os braços cruzados:
- Isso são horas, senhorita Granger? – ele perguntou, tentando disfarçar sua irritação com um tom meio irônico.
- Desculpe-me, papai. – ela respondeu, sorrindo de maneira debochada para ele – Estava dormindo.
- Sabe que eu me preocupo com sua segurança, não é? – ele disse, abraçando-a.
- Harry... eu sei me cuidar. – ela respondeu, cansada de sempre passar por aquilo.
- E como minha noiva linda está depois desse sono pesado? – ele disse, beijando-a levemente nos lábios.
- Revigorada. – ela sorriu, abraçando-o e caminhando para dentro da casa com ele.