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15. Quinze


Fic: A Garota das Poções


Fonte: 10 12 14 16 18 20
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O Grande Prêmio reunia todos os anos um número surpreendente de pessoas no Ministério. Uma hora antes daquele que seria o páreo mais importante do dia, as arquibancadas já estavam lotadas.


A multidão estava agitada e aguardava, ansiosa, o momento em que os hipogrifos concorrentes desfilariam na pista. Havia dez puros-sangues inscritos e os favoritos eram Tridescence e King‘s Ransom. Os comentaristas de todos os jornais diziam que o vencedor daquela prova estaria habilitado a vencer também o Grande Prêmio da Britânia, ficando assim a um passo de conquistar a Tríplice Coroa, mas mesmo os veteranos não podiam prever qual animal cruzaria em primeiro lugar a linha de chegada. O Daily Racing Form colocava Tridescence e King‘s Ransom em igualdade de condições para vencer o Grande Prêmio.


Hermione sabia que Tridescence seria um concorrente muito difícil. Por mais que antipatizasse com Draco, era obrigada a reconhecer que ele treinara multo bem o hipogrifo. Vira Tridescence naquela manhã e ele parecia cheio de si, como diziam os freqüentadores. O hipogrifo parecia adivinhar que aquele era o seu grande dia.


Hermione sabia que em outras circunstâncias o puro-sangue de Viktor bateria com facilidade o seu mais terrível oponente. Ele era filho de Fortune in Gold e nascera para ser um campeão, mas as qualidades que herdara da mãe e a vontade de vencer seriam o bastante depois de tudo o que King‘s Ransom havia passado nos dois últimos dias?


Ela e Ben haviam feito o possível naquela manhã para deixá-lo em boas condições. Quando terminaram, fizeram o hipogrifo trotar em círculos na cocheira. Tudo parecia em ordem, mas Hermione ainda estava preocupada. Procurava descobrir se havia alguma coisa que não tentara e que poderia fazer King‘s Ransom sentir-se mais confortável, mas agora era tarde. Só podia desejar que ele tivesse sorte na corrida, mais do que ela havia tido em sua própria vida, pensou, amargurada.


Durante toda a manhã esforçara-se para concentrar-se apenas em King‘s Ransom, mas agora que não tinha mais nada a fazer, Viktor voltou a ocupar seus pensamentos. Hermione não pretendia assistir à corrida, pois estava nervosa demais. Queria ficar sozinha para pensar se ainda havia alguma chance para ela e Viktor. Talvez se o procurasse... Não, seu orgulho nunca permitiria que desse tal passo. Estremeceu ao se lembrar da forma como ele a olhara depois daquela cena com Dimitrov. Naquele momento, Hermione havia tido a sensação de que ele a odiava tanto quanto ao treinador. Não o encontrara mais depois daquilo e talvez fosse melhor assim. Não se sentia em condições de enfrentar novamente a acusação que havia visto naqueles olhos castanhos. Ainda custava a acreditar que ele a censurasse pelo que acontecera. Afinal ela não tinha culpa de nada.


Apesar de estar tão deprimida, decidiu ir para o lugar de onde costumava acompanhar as corridas. Ficaria mais nervosa ainda se ficasse do lado de fora, sem saber o que estava acontecendo.


Quando se aproximou da grade, seus olhos estavam cheios de lágrimas. Nem a presença de outras pessoas conseguia fazer com que ela se controlasse. “Por que tudo acabou desse jeito?”, perguntou-se entre um soluço e outro. Nunca se sentira tão sozinha em toda a sua vida.


Fez um esforço e ergueu a cabeça para acompanhar o habitual desfile dos hipogrifos antes da prova. Enxugou os olhos e procurou localizar King‘s Ransom entre os outros concorrentes. Quando o avistou, seu coração bateu mais rápido. O hipogrifo nunca lhe parecera tão magnífico antes: seu pêlo brilhava ao sol e ele caminhava pela pista com elegância. De quando em quando, agitava a cabeça, como se estivesse impaciente pelo momento em que poderia correr livremente.


King‘s Ransom parecia em plena forma, mas Hermione ainda não estava totalmente convencida das chances dele. Uma coisa era participar do desfile; outra bem diferente era estar em condições de atingir o maior pique de velocidade para vencer a prova.


As pessoas se acotovelavam à sua volta e Hermione pensou em Harry e Gina, que estavam confortavelmente instalados numa cabine reservada. Os dois haviam insistido para que ela também ficasse lá, mas Hermione não quis correr o risco de se encontrar com Viktor. Só agora compreendia o seu erro. Com certeza ele acompanharia a corrida do Turf Club e daquele lugar privilegiado poderia localizá-la facilmente com o binóculo, mas agora não havia mais tempo para se juntar aos amigos.


A voz do locutor ergueu-se acima do ruído da multidão.


— A bandeira está erguida — anunciou ele com entusiasmo. — E foi dada a largada!


Os partidores se abriram e os hipogrifos precipitaram-se para a pista. De onde estava, Hermione podia ouvir os ruídos dos cascos e os gritos dos jóqueis estimulando seus animais. Ficou nas pontas dos pés, tentando acompanhar aquele espetáculo magnífico esquecida de seus próprios problemas.


O hipogrifo de Draco liderava a prova, seguido de perto por King‘s Ransom, que corria facilmente. Neville ainda não havia instigado o animal para dar tudo de si e esperava o momento ideal para ultrapassar Tridescence. Com um suspiro de alívio, Hermione percebeu que King‘s Ransom tinha ótimas chances de vencer, mas ainda era cedo para cantar vitória.


Quando alcançaram a reta, Neville liberou o hipogrifo e em poucos segundos Tridescence e King‘s Ransom estavam emparelhados, disputando a liderança palmo a palmo. A trezentos metros da linha de chegada, King‘s Ransom assumiu a ponta, mantendo um corpo e meio de vantagem sobre Tridescence. As cores de Gauntlet West brilhavam ao sol e a vitória de King‘s Ransom parecia certa, mas Tridescence ainda não estava fora do páreo. O jóquei incitou-o com o chicote e o animal diminuiu a distância que o separava do líder da prova. Emparelhados novamente, os dois hipogrifos davam tudo de si naquele ponto da corrida que exigia o máximo de vigor e velocidade.


A multidão delirava. Hermione uniu seus gritos aos das pessoas à sua volta, como se dependesse de seu estímulo a vitória do hipogrifo de Viktor.


Foi então que King‘s Ransom mostrou que nascera para ser um campeão. A poucos metros do final, disparou, atingindo uma velocidade inacreditável e cruzou a linha de chegada com meio corpo de vantagem sobre Tridescence.


— Ele conseguiu! — gritou Hermione erguendo os braços. — Ele conseguiu!


— E alguma vez você duvidou disso? — perguntaram logo atrás dela.


Viktor estava lá, as mãos nos bolsos, uma expressão estranha no olhar.


— O que você está fazendo aqui? — perguntou Hermione.


— Eu estava à sua procura.


— Mas... — Olhou para a pista, repleta de fotógrafos, jornalistas e de pessoas ligadas aos haras participantes. O locutor confirmou a vitória de King‘s Ransom e convidou o proprietário a comparecer à pista para receber o troféu. — Eles o estão chamando para...


— Ainda há tempo — falou ele, tranqüilamente, tirando as mãos dos bolsos. Sem hesitar, deu um passo na direção dela.


— Mas seu pai... ele...


— Eu sei que ele está aqui. — E deu outro passo.


A cada passo de Viktor, Hermione dava um para trás, até que sentiu as costas tocarem a cerca. Não tinha mais para onde recuar. Viktor estava bem próximo agora e Hermione olhava-o fascinada, como se estivesse hipnotizada por aqueles olhos castanhos. Seu coração batia acelerado e ela mal conseguia articular as palavras.


— Você não deveria estar aqui — murmurou. — Você venceu, Viktor. O seu lugar é ao lado de King‘s Ransom.


— Eu sei, mas quero dividir a vitória com você.


— O que você...


Antes que terminasse a frase, Viktor segurou-a pelo braço e a conduziu na direção da pista.


— Solte-me — sussurrou Hermione, tentando libertar-se.


— De jeito nenhum — replicou, apertando-lhe o braço com mais força ainda e sorrindo para as pessoas que o cumprimentavam.


— Eu não vou com você — falou Hermione em voz baixa, constrangida com a presença de tantas pessoas.


— Vai sim.


Hermione tentou libertar-se outra vez enquanto se aproximavam do grupo que rodeava King‘s Ransom, mas Viktor não lhe deu chance.


— Sorria — falou com o canto da boca. — Eles vão começar a tirar fotos a qualquer momento.


— Eu não vou ficar aqui.


— Vai, sim. — Passou o braço pelos ombros dela e puxou-a para perto.


Hermione compreendeu que seria inútil continuar resistindo. O locutor dizia qualquer coisa sobre o hipogrifo vencedor e o proprietário de Gauntlet West, mas Hermione não o ouvia. Estava irritada com a atitude de Viktor e embaraçada com a presença dos repórteres e fotógrafos.


Neville desmontou e aproximou-se deles. Parecia tão feliz que Hermione foi obrigada a sorrir para ele.


— Bela corrida, Neville. Parabéns — cumprimentou-o Viktor.


— O mérito é apenas de King‘s Ransom, Sr. Krum. Ele fez tudo sozinho.


— Pois eu não acredito nisso. King‘s Ransom não teria conseguido sem você... ou sem a srta. Granger. Ela tem uma grande participação nessa vitória, concorda Neville?


— É claro. — Estendeu a mão para Hermione com um sorriso. — A senhorita é uma excelente tratadora, srta. Granger.


— Você fez um ótimo trabalho, Neville — disse Hermione, tentando ignorar as sensações que o corpo de Viktor, próximo como estava, provocava nela. Depois que o jóquei se afastou ela ergueu os olhos para Viktor. — Eu já fiz o que você queria. Será que posso ir embora agora?


— Nós temos algumas coisas para acertar, não concorda?


— Que coisas? Nós já dissemos tudo o que havia para ser dito um ao outro.


— Eu errei, Hermione. Deixei que tudo isso... — Olhou em volta e depois para ela outra vez. — Deixei que tudo isso subisse à minha cabeça. Queria vencer de qualquer jeito. Precisava vencer. Pensei que a minha vida e a minha felicidade dependessem disso, mas eu estava enganado.


— E por quê? — perguntou Hermione, com voz trêmula.


— Agora eu sei que a minha vida é você — explicou emocionado. — Você é tudo o que eu sempre sonhei.


Hermione queria acreditar nele, beijá-lo, abraçá-lo e dizer que sem ele nada lhe importava, mas não podia.


— Não vai dar certo, Viktor. Nós temos estilos de vida muito diferentes...


— Vai dar certo — insistiu ele.


— Você diz isso agora, mas e no futuro? Não se esqueça das emergências no meio da noite, das longas horas de trabalho...


Viktor rodeou-lhe a cintura com os braços.


— Eu sei como o trabalho é importante para você. E, apesar da forma como me comportei ontem, acho que você é uma excelente tratadora. Eu tenho orgulho de você, Hermione e não vou pedir que desista da sua carreira.


— Mas naquela noite...


— Naquela noite eu pretendia pedi-la em casamento, mas então apareceu aquela emergência e percebi como aquelas pessoas dependiam de você. E depois da forma eficiente como você cuidou daquela fêmea eu achei que a sua vida era a carreira que você havia escolhido e que não haveria lugar para mim. — Abraçou-a com mais força e beijou-lhe os cabelos. — Eu preciso de você, Hermione e estou disposto a fazer o que você quiser.


— Tem certeza disso. Viktor? Talvez eu não seja o tipo de mulher ideal para você.


— Eu preciso de você, Hermione! — insistiu, com veemência.


— Aquela oferta de trabalho ainda está de pé? — perguntou Hermione, com um sorriso.


— Oferta de trabalho? O que...


— Você disse que precisaria de um tratador para trabalhar em Gauntlet West. — Sorriu, ao ver o brilho de esperança nos olhos de Viktor. — E eu estou me oferecendo para o cargo.


— Só para o cargo de tratador? — perguntou Viktor, com um sorriso malicioso.


— Não. Para o de esposa também. Isto é, desde que você ache que eu possa dar conta das duas coisas.


— Mas e o Ministério? Você desistiria disso tudo por mim? Eu tenho medo de que você se arrependa mais tarde.


— Nunca. Sei muito bem o que eu quero. — Encostou a cabeça no peito dele. — E eu quero você — falou com ternura.


— Eu te amo, srta. Granger.


— Eu também te amo. Viktor Krum.


Seus lábios se encontraram e os braços de Viktor pressionaram-na de encontro ao corpo. As pessoas ao redor aplaudiram e os dois se afastaram, surpresos, rindo um para o outro. Neville aproximou-se, trazendo King‘s Ransom e os fotógrafos pediram que Viktor e Hermione ficassem ao lado do hipogrifo.


Hermione acariciou o pêlo do animal e sorriu. King‘s Ransom não sabia, mas ele não era o único vitorioso daquela tarde.

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