Quando Hermione voltou para casa naquela noite encontrou Gina à sua espera, sentada no degrau da entrada.
— Eu esperava encontrá-la mais animada — falou Gina, observando atentamente a fisionomia da amiga. — Mas, pelo jeito, você está tão deprimida quanto eu.
— Acho que este foi o pior dia da minha vida — murmurou Hermione enquanto abria a porta. Ainda estava intrigada com o fato de Ben não ter aparecido. Ele havia concordado em encontrá-la no final da tarde, mas simplesmente a deixara esperando.
— Meu dia não foi dos melhores também — confessou Gina, sentando-se no sofá. — Eu pedi demissão do meu cargo na empresa.
— Você o quê? — perguntou Hermione, atônita.
— Pedi demissão — repetiu Gina, como se também precisasse ouvir isso muitas vezes para acreditar.
— Mas por quê? Eu sempre pensei que você adorasse o seu emprego.
— E adorava, mas a situação por lá se tornou insustentável — afirmou, brincando distraidamente com uma das almofadas. — Hackett foi promovido hoje.
— Hackett... — Lembrava-se desse nome, mas ainda não conseguia entender direito a relação entre ele e o pedido de demissão de Gina. — Não é aquele que...
— Esse mesmo. Ele entrou para a empresa no ano passado. Eu estou lá há quatro anos e, nesse meio tempo, o meu setor foi um dos que mais se expandiram, mas foi Hackett quem ganhou a promoção. Dá para acreditar nisso? Estou tão furiosa que seria capaz de gritar.
— E então você decidiu sair da empresa?
— O que mais eu poderia ter feito?
Hermione entendia a posição da amiga. Afinal, também havia passado por uma experiência semelhante naquela manhã.
— E o que você pretende fazer agora?
Gina colocou a almofada de lado.
— Eu não sei. Talvez fosse uma boa idéia arranjar um marido rico e desistir de trabalhar.
— Ora, Gina! Você nunca seria feliz num esquema desses. Uma mulher com a sua inteligência e capacidade não pode se limitar a viver em função de um marido.
— Eu sei que sou inteligente e muito capaz — concordou Gina. — Mas de que isso me adiantou?
— A sua empresa não soube valorizá-la, mas você pode arranjar outro emprego facilmente.
— Eu sei, Hermione, mas o que me aborrece é a injustiça, você entende?
— Que tal um pouco de vinho? — sugeriu Hermione. — Tenho certeza de que isso a ajudaria a reanimar-se um pouco.
— Você não tem nada mais forte? Acho que estou precisando de uma dose dupla de uísque.
— Uísque? — estranhou Hermione. — Mas você só bebe vinho.
— Mas hoje é uma exceção. Você não me parece muito animada. Acho que também está precisando de uma dose dupla.
— Talvez...
— Vamos lá, Hermione. Agora é a sua vez de dar as más notícias. O que aconteceu?
Em poucas palavras, Hermione relatou a cena que se passara entre ela e Viktor naquela manhã. Quando terminou, Gina olhou-a pensativa e depois foi servir-se de uma dose de brandy.
— Mas que sujeito ordinário — falou entregando a bebida para Hermione.
— Quem? Viktor?
— Não, Draco Malfoy. Ele é o único culpado do que aconteceu.
— Mas Viktor acreditou nele.
— Ele estava apenas com ciúme, Hermione.
— Por que você está do lado dele? — perguntou, irritada.
— Porque ele te ama, sua tola.
Hermione deu uma risada nervosa.
— Ele me ama! Se isso fosse verdade, não teria feito acusações tão terríveis.
— Mas você mesma me contou que ele jogou todas as esperanças naquele hipogrifo. Não é natural que esse problema bem na véspera do grande prêmio o tenha deixado transtornado? Na minha opinião...
— Fale, Gina.
— Você tem que dar um jeito de curar aquele hipogrifo. Você tem que voltar lá.
— Voltar lá? — repetiu, incrédula. — Você está louca! Como eu posso simplesmente aparecer na cocheira depois do que aconteceu? Além disso, nem sei se quero.
— É claro que quer.
— Por que você tem tanta certeza?
— Simples: você também está apaixonada por ele.
— Depois da forma como ele me tratou? Nunca!
— A sua atitude também não foi das mais elogiáveis.
— Como assim?
— Você devia ter contado a ele que o imbecil do Malfoy estava mentindo — explicou Gina, tranqüilamente. — Por que não procurou Viktor?
— Porque ele não merecia nenhuma explicação.
— E o que você esperava então?
— Eu esperava que... — começou Hermione exaltada. — Ora, que diferença isso faz agora? Ele me acusou injustamente e eu nunca vou perdoá-lo por isso.
— Mas você pode provar que ele está errado. Tudo o que você tem a fazer é voltar lá e deixar o hipogrifo em condições de correr.
Hermione levantou-se, torcendo as mãos num gesto nervoso.
— Do jeito que você fala, até parece fácil.
— Calma, Hermione. Eu só quis dizer que...
— Eu sei o que você quis dizer — interrompeu-a Hermione. — Mas eu simplesmente não encontrei nada de anormal em King‘s Ransom. Ele está mancando, mas, por mais que me esforce, não consigo encontrar a razão.
— Vamos, tome outro drinque — sugeriu Gina, preocupada com a exaltação da amiga.
— Eu não preciso de outro drinque.
— Então sente-se. Como nós podemos encontrar uma solução se você não pára de andar de um lado para outro?
— Eu estou nervosa demais para ficar sentada. E o que você quer dizer com "nós"? Você é uma especialista em casos medi-bruxos e não entende droga nenhuma de hipogrifos.
— Você tem razão — concordou Gina, servindo-se de mais um pouco de brandy. — Mas ainda assim acho que posso ajudá-la.
— E como? Você está fora do seu juízo.
— O que eu quero dizer é que posso raciocinar com você, analisar as evidências e chegar a uma conclusão lógica.
— Até parece que é tão simples — ironizou Hermione.
— Deixe-me ao menos tentar — insistiu Gina. — Em primeiro lugar o que há de errado com aquele hipogrifo estúpido?
Hermione fechou os olhos, tentando manter a calma. Normalmente, apreciava a ajuda de Gina, mas dessa vez ela só estava conseguindo piorar as coisas.
— Vamos, responda — insistiu Gina.
— Ele está mancando — explicou Hermione, sentindo que sua paciência estava prestes a se esgotar.
— Isto quer dizer que ele não pode andar direito, certo?
— Certo.
— E você não consegue encontrar a causa?
— Não.
Gina pensou durante alguns segundos.
— Será que o problema não está nas ferraduras? Será que elas não estão muito apertadas ou justas... Não sei o termo certo que se aplica a este caso, mas acho que você entendeu o que eu quero dizer. Eu também não consigo andar quando os sapatos apertam os meus pés.
Desta vez Hermione olhou-a com mais interesse.
— O que foi que você disse? — perguntou, sentando-se ao lado da amiga.
— Eu disse que não consigo andar quando os meus sapatos estão apertados.
— É isso! — exclamou Hermione exultante. — Você é um gênio, Gina. Como eu não pensei nisso antes? É tão óbvio!
Abraçou a amiga, que a olhou um tanto confusa.
— Então eu acertei? Consegui mesmo resolver o problema?
Hermione não a ouvia mais. Andava de um lado para outro novamente, imersa em seus próprios pensamentos.
— Hermione? Ei, Hermione! Aonde você vai?
Ela havia desaparecido pela. Gina foi atrás da amiga e encontrou-a remexendo nas gavetas.
— O que você está procurando?
— O meu caderno de endereços e telefones. — Fechou uma gaveta e abriu outra. — Tem que estar aqui. Será que Wilma o guardou em outro lugar?
Gina levantou uma pilha de revistas que estava sobre a escrivaninha e encontrou um pequeno livro de capa vermelha.
— Por acaso é este aqui?
Hermione nem respondeu. Tomou o livrinho das mãos da amiga e começou a virar as páginas freneticamente. Quando encontrou o que queria, foi até o telefone e discou um número.
— Vamos, atenda — murmurou. — Atenda, por favor!
Finalmente, depois do décimo toque, uma voz familiar e sonolenta respondeu do outro lado da linha.
— Dr. Childress? Aqui é Hermione. Sinto muito incomodá-lo tão tarde, mas é que estou com um problema. — A tensão voltou a dominá-la e ela suplicou: — Oh, Dr. Childress! Eu preciso muito da sua ajuda!
Em poucas palavras explicou o que estava acontecendo. Quando terminou de falar, a voz de Harry Childress havia perdido qualquer sinal de sonolência, ao dizer:
— Você não precisa da minha ajuda, Hermione. Tenho a impressão de que já resolveu o problema. Vá em frente.
— Mas eu preciso do apoio de um tratador conceituado como o senhor — insistiu.
— Bom, acho que um pouco de agitação não me fará mal. Eu já estou mesmo cansado dessa rotina de aposentado.
— Quer dizer que o senhor vem?
— A que horas você quer que eu esteja lá?
— O mais cedo possível.
— Que tal às cinco horas da manhã? — sugeriu.
Hermione estava impaciente para colocar seu plano em ação. Não queria esperar até a manhã seguinte; preferia ir imediatamente. Childress percebeu a impaciência dela e procurou tranqüilizá-la.
— Não é preciso tanta pressa agora que você encontrou a solução. Algumas horas não farão diferença, Hermione.
— Mas o hipogrifo...
— Não se preocupe. Vai dar tudo certo — garantiu ele. — Mas acho que seria uma boa idéia entrar em contato com o seu pessoal. Se as coisas se desenvolverem como estamos imaginando, você vai precisar de testemunhas.
— Está certo — concordou Hermione, relutante. — Então até amanhã às cinco. E... obrigada.
Quando desligou, sentia-se capaz de pular de tanta satisfação, mas, de repente, ficou séria outra vez e voltou para o telefone.
— Para quem você está ligando agora? — Quis saber Gina.
— Viktor — explicou. — Eu preciso descobrir se...
Ele atendeu ao terceiro toque, interrompendo o que Hermione dizia.
— Viktor, aqui é Hermione — falou rapidamente antes que perdesse a coragem. — Desculpe ligar tão tarde...
— O que aconteceu? — perguntou, ignorando as desculpas dela.
— Viktor, por acaso Ben foi trocar as ferraduras de King‘s Ransom hoje à tarde? — Mal podia respirar enquanto aguardava a resposta.
— Não. Nós não conseguimos encontrá-lo. Dimitrov chegou mesmo a deixar vários recados no portão. Ele quer que Ben troque as ferraduras, mas se nós não o encontrarmos até amanhã de manhã...
— Foi justamente por isso que eu lhe telefonei. Viktor, você pode se encontrar comigo na cocheira logo cedo, às cinco horas?
— Encontrar você? — Ele parecia surpreso e Hermione não o censurou. Depois das palavras ásperas que haviam trocado, provavelmente a última coisa que passaria pela cabeça dele seria tornar a vê-la. — Por quê? — perguntou com frieza.
— Porque nós vamos ter um pequeno seminário sobre a melhor forma de se colocar ferraduras num hipogrifo. Isto é, se você permitir — acrescentou com uma ponta de ironia —Childress está vindo de Big Bear especialmente para isso.
— O Dr. Childress? — surpreendeu-se Viktor.
— Ele mesmo. Eu acabei de conversar com ele pelo telefone. O Dr. Childress concordou em examinar King‘s Ransom.
Viktor ficou em silêncio durante alguns instantes.
— Por que você está fazendo isso? — perguntou, finalmente.
— Porque King‘s Ransom merece o melhor — afirmou. — E apesar de tudo o que aconteceu eu quero fazer o possível para que ele corra amanhã.
Viktor não disse uma palavra e Hermione chegou a pensar que a ligação houvesse caído.
— Hermione...
Ela percebeu a hesitação na voz dele e não conteve a irritação.
— Sim ou não, Viktor? Eu sei que você não confia em mim, mas se também duvida de um homem como o Dr. Childress, então você merece um tratador como Martin Desmond. Como é? A decisão é sua.
— Eu estarei lá — respondeu, no mesmo tom irritado de Hermione.
— Ótimo. Só mais uma coisa, Viktor.
— O que é?
— O ideal seria que isso não se espalhasse...
— Ora, Hermione. Por acaso me toma por algum fofoqueiro? Vejo você às cinco.
Hermione desligou e olhou para Gina.
— Já está tudo preparado. Se eu estiver errada, vou parecer uma completa idiota.
— Você não está errada, Childress acabou de lhe dizer isso. — Sorriu e deu um tapinha no ombro da amiga. — Você aceita uma acompanhante? Eu não quero perder a cena de amanhã por nada deste mundo.
* * *
Às quatro e meia da manhã, Hermione e Gina cruzaram os portões.
— Ontem à noite eu estava mais segura — confessou Hermione..
— Coragem, Hermione. Pense como Viktor vai ficar agradecido.
Hermione não queria pensar nele. Precisava concentrar-se em King‘s Ransom, um puro-sangue magnífico como ele merecia uma chance. Seria uma injustiça se, por alguma fatalidade, a carreira dele fosse interrompida. Quanto a Viktor... Ela queria provar que ele estava errado, mas não para humilhá-lo. Tudo o que desejava era que as coisas voltassem a ser como antes. E estava disposta a fazer qualquer coisa para conseguir isso.
Viktor já estava na cocheira quando elas entraram. Conversava com Dimitrov e os dois tomavam café. Hermione aproximou-se, relutante. Ainda não sabia como faria para enfrentar Dimitrov, mas com o jeito extrovertido de sempre, Gina quebrou a tensão. Cumprimentou Viktor, apresentou-se a Dimitrov e perguntou se havia mais café.
Com um olhar furtivo na direção de Hermione, o treinador foi até a mesinha onde ficava a garrafa térmica e encheu dois copos descartáveis.
— Eu nunca estive numa cocheira antes, Sr. Dimitrov — afirmou Gina com um olhar ingênuo. — O senhor se incomodaria de me mostrar os hipogrifos?
Hermione compreendeu na hora a intenção da amiga. Gina queria dar um jeito para que ela ficasse a sós com Viktor, mas essa perspectiva deixou Hermione aterrorizada.
— Gina! — cochichou, tentando fazê-la ficar.
— Eu não pretendo ir muito longe, Hermione — afirmou, fazendo-se de desentendida. E, antes que a amiga pudesse impedi-la, conduziu Dimitrov para onde ficavam as baias.
— Ela não é muito sutil — comentou Viktor.
— Nem um pouco — concordou. — A sutileza nunca foi uma das virtudes de Gina.
— Eu gostaria de saber o motivo disso tudo — pediu, mudando bruscamente de assunto.
— Gostaria de esperar que o Dr. Childress chegasse, se você não se importa — respondeu evitando olhar para ele.
— Hermione...
— Por favor, Viktor.
Felizmente, a chegada providencial do Dr. Childress tirou-a daquele embaraço. Assim que o viu, Hermione sentiu-se tensa novamente. O que aconteceria se ela estivesse enganada? Mas, ao avistar a fisionomia simpática do Dr. Childress, sua segurança voltou. O tratador garantira que ela estava certa. Por que duvidar dele?
O bom doutor abraçou-a carinhosamente.
— Obrigada por ter vindo — falou Hermione.
— Não me agradeça. Eu não perderia isso por nada deste mundo — afirmou, dando-lhe um tapinha no ombro. Só então voltou-se para Viktor. — Bom dia, meu jovem. Vamos ter uma corrida e tanto hoje, hein?
— Desde que o meu hipogrifo possa participar — replicou Viktor estendendo-lhe a mão. — Como vai, Childress?
— Entediado até o pescoço, para dizer a verdade. Hermione me contou como as coisas andam agitadas por aqui nos últimos dias e eu vim me divertir um pouco também.
Dimitrov e Gina já estavam de volta e Hermione percebeu que o treinador empalideceu ao avistar o Dr. Childress.
— Como vai, Dimitrov? Ainda firme no trabalho, hein? Siga o meu conselho e não se aposente nunca. É uma chateação não ter nada para fazer o dia inteiro. E essa mocinha, quem é?
Gina adiantou-se e estendeu a mão para o tratador.
— Gina Weasley — apresentou-se. — Sou amiga de Hermione. Ela sempre fala muito do senhor.
— Bem eu espero — brincou.
— Digamos que quase sempre — replicou Gina, no mesmo tom e o Dr. Childress caiu na risada.
— Você tem senso de humor, Gina. É um prazer conhecê-la. Bom, acho que já é hora de tratarmos do assunto que me trouxe aqui. Onde está o hipogrifo?
A jovialidade do Dr. Childress deu lugar a um ar sério e profissional quando Dimitrov trouxe King‘s Ransom de sua baia. O hipogrifo continuava mancando e Hermione consultou o tratador com o olhar.
— Quem colocou esta coisa ridícula nele? — perguntou, apontando para as bandagens que chegavam até o joelho do hipogrifo.
— Foi uma determinação do Dr. Desmond — explicou Dimitrov.
— Desmond, hein? — O Dr. Childress olhou para Hermione. — Eu pensei que você fosse a tratadora por aqui.
— Bom, é uma história um pouco complicada. — Afirmou Hermione, olhando de relance para Viktor.
— Entendo... — murmurou ele, percebendo o embaraço de Viktor. — Mas isso não importa: tire essa coisa dele, Dimitrov, para que eu possa examiná-lo.
Depois que o treinador cumpriu a ordem, o Dr. Childress ficou ainda mais irritado.
— E agora alguém pode me explicar por que Desmond colocou bandagens numa perna que está em perfeito estado? Vamos lá, Dimitrov. Faça-o andar.
O treinador obedeceu, fazendo King‘s Ransom caminhar em círculos.
— É o bastante, Dimitrov. Quando essas ferraduras foram colocadas no hipogrifo?
— Há dois dias — murmurou Dimitrov, mais pálido ainda.
— Foi Ben Gillian quem fez o trabalho?
Dimitrov balançou a cabeça, confirmando.
— Ele é um bom profissional — comentou Harry, aproximando-se de Hermione. — É difícil de acreditar que...
Hermione entendeu onde ele queria chegar.
— Eu sei. Foi por isso que afastei essa possibilidade no começo — explicou. — Mas as radiografias não acusaram nada e...
— Nem poderia ser de outra forma — falou o doutor. — Se você estiver certa, tudo foi feito com o propósito de incapacitar o hipogrifo. É natural que você não tenha notado logo. Eu também não teria.
Hermione duvidava, mas ainda assim sentiu-se grata por aquela afirmação. O Dr. Childress foi até a sala e voltou em poucos minutos com algumas ferramentas.
— Hermione... — Viktor segurou-a pelo braço e puxou-a para um canto. — Eu não entendo. Vocês dizem que o problema é um, mas Martin...
— Olhe, Viktor, se você não confia no Dr. Childress também...
— Eu não disse isso. Só gostaria de saber por que Martin...
— Nós podemos interromper o exame agora mesmo, se você prefere seguir as orientações de Martin.
— Hermione — chamou-a o Dr. Childress. — Venha cá.
— Eu não quero discutir com você, Hermione — murmurou Viktor, segurando-a pelo braço quando ela fez menção de se afastar.
— É um pouco tarde para dizer isso, não acha?
— Mas é inacreditável! — exclamou Childress quando os dois se aproximaram. — Olhem só isso — falou, mostrando-lhes a ferradura que acabara de retirar.
Hermione esperava por aquilo, mas ainda assim custava a acreditar no que via.
— Não pode ter sido um engano, Dr. Childress? — perguntou.
— De jeito nenhum — afirmou o tratador com convicção. Todos rodeavam o Dr. Childress e olhavam para a ferradura em sua mão. Dimitrov tinha uma expressão estranha; Viktor estava prestes a explodir de raiva e Gina parecia confusa. Foi ela quem rompeu o silêncio:
— Qual é o problema com a ferradura?
— Uma ferradura normal é plana e se você observar bem vai verificar que o ferreiro deixou as bordas desta aqui ligeiramente retorcidas. O hipogrifo pode não sentir dor ao caminhar, mas durante um galope...
Gina balançou a cabeça entendendo aonde ele queria chegar.
— Isto quer dizer que se as ferraduras forem trocadas, King‘s Ransom poderá participar do grande prêmio? — quis saber a moça.
— É evidente que sim — afirmou Harry. — Este hipogrifo está ótimo.
Enquanto o tratador continuava as explicações, Hermione saiu da cocheira sem ser notada. Levava consigo a ferradura que o Dr. Childress acabara de retirar e apertava-a com força na mão.
Aquele caso ainda não estava terminado, pelo menos não enquanto não ouvisse as explicações de Ben Gillian. Depois disso, falaria com o homem que estava por trás de tudo.
Estacionou a caminhonete diante do lugar onde o ferreiro tinha sua oficina. Hermione sabia exatamente como abordá-lo e sabia que, diante das evidências, ele não teria outra saída a não ser confessar tudo.
Quando se aproximou da porta, ouviu vozes e percebeu que ele não estava só. Então o outro também estava lá. Melhor assim, pensou.
— Eu não posso fazer isso. — Ben parecia desesperado. — Agora ela já sabe de tudo.
— Você tem que dizer que cometeu um erro — afirmou o outro homem. — Diga que não foi proposital.
— Mas ninguém vai acreditar em mim.
— Olhe, Ben, Desmond está do nosso lado. Ele vai afirmar até o fim que o problema de King‘s Ransom estava na perna. Quem pode provar o contrário? Uma moça inexperiente e um velho senil? Por que você acha que eu escolhi aquela garota? A palavra dela não terá o menor peso contra a de Martin Desmond.
— Eu não posso — balbuciou Ben. — É melhor admitir que fracassamos. Prefiro confessar tudo.
— Você está louco? Nem pense nisso. Você vai voltar comigo e colocar a ferradura exatamente como antes. King‘s Ransom não pode correr hoje. Eu esperei muito tempo por este momento e não vou desistir agora.
Hermione já havia escutado o suficiente. Empurrou a porta e os dois homens voltaram-se para ela. Ben ficou lívido, mas Dimitrov não se deixou abalar pela acusação que havia nos olhos de Hermione.
— Talvez eu seja inexperiente, Dimitrov — falou, tentando manter a calma. — Mas o Dr. Childress está longe de ser considerado um velho senil. Desista. Você não tem a menor chance. É melhor começar a explicar tudo.
— É isso mesmo — falou alguém por trás dela.
Hermione virou-se e viu Viktor. Estremeceu ao ver a expressão dele, mas Viktor passou direto por ela, sem dizer nada.
— Por quê, Dimitrov? — foi tudo o que ele perguntou.
— Você quer saber? Pois eu vou dizer — afirmou o treinador, desafiador. — Eu nunca esqueci o que aconteceu em Angel’s Flight e esperei pacientemente durante todos estes anos pelo momento de me vingar.
Por um instante, Hermione teve medo de que Viktor partisse para cima de Dimitrov. A expressão do rosto dele era terrível e as mãos estavam crispadas.
— Vingança? — repetiu Viktor. — Mas o que...
— Vingança, sim. Eu não esqueci o que seu pai fez comigo. Foi ele quem matou Ludigo Bay e, sem pensar duas vezes, jogou a culpa em mim.
— É mentira! — reagiu Viktor.
— Eu sei que é difícil de acreditar. Ele representou muito bem o papel do grande proprietário enfurecido com a morte do seu melhor hipogrifo. — A revolta que Dimitrov sufocara durante tantos anos explodia finalmente. — Eu estava bêbado naquela noite, mas vi muito bem tudo o que aconteceu. Tentei impedir seu pai de cometer aquela atrocidade, mas ele estava decidido a acabar com o hipogrifo.
— Eu não acredito. Ele nunca teria...
— Não? Seu pai tinha medo de Ludigo Bay. Todos nós tínhamos, mas ele não admitia que existisse um hipogrifo que ele não conseguisse dominar. Então o surrou até a morte e depois jogou a culpa em mim. Em mim, Viktor — repetiu exaltado. — E eu jamais maltratei um hipogrifo em toda a minha vida.
— Por que você não disse nada naquela época? — perguntou Viktor esforçando-se para entender as razões de Dimitrov.
— Você está, brincando! — ironizou. — Quem acreditaria em mim? Que chance eu teria contra o grande homem? Eu preferi esperar o momento adequado para a minha vingança.
Viktor fazia um esforço terrível para se controlar.
— E o que eu tenho com tudo isso, Dimitrov? Você ia se vingar da pessoa errada. King‘s Ransom é meu hipogrifo.
— Você pode estar de relações cortadas com seu pai, mas ainda é filho dele. E ele não é homem de admitir que um dos seus fracasse. — Os lábios de Dimitrov curvaram-se num sorriso malévolo. — Eu mandei um convite para ele em seu nome. Ele estará aqui hoje à tarde, para ver o hipogrifo do filho dar o primeiro passo para conquistar a Tríplice Coroa. Mal posso esperar para vê-lo humilhado com o fracasso do filho.
— Dimitrov! — Havia uma nota de dor na voz de Viktor. — Eu confiei em você. Eu lhe dei um emprego quando ninguém mais estava disposto a fazê-lo. E é assim que você retribui? Não posso acreditar nisso.
— Eu sinto muito, Viktor. Sei que você não tem culpa do que aconteceu em Angel’s Flight, mas esta era a única forma de atingir aquele homem. Hoje à tarde ele não vai assistir à vitória do filho. O vencedor será Tridescence, o hipogrifo de Draco. E como fui eu que ensinei a ele tudo o que sabe, a vitória será minha também.
Viktor ficou lívido e deu um passo para trás. Hermione segurou-o pelo braço, tentando mostrar que entendia o que ele estava sentindo. Sabia que Viktor estava arrasado com a traição de Dimitrov, mas ele puxou o braço e, sem dizer nada, voltou para para trás e saiu a toda velocidade.
Hermione ficou imóvel, acompanhando com o olhar até perdê-lo de vista. Agora estava mesmo tudo acabado entre eles. Viktor jamais se esqueceria de que ela havia testemunhado a humilhação dele diante do homem que sempre considerara um amigo. No breve instante em que seus olhares se cruzaram, havia notado a expressão de ódio de Viktor. Embora não tivesse culpa de nada, sua presença sempre o lembraria do que havia acontecido. Não, não havia mesmo a menor chance para eles.
Dimitrov também saiu, não sem antes lançar um olhar ressentido na direção dela e Hermione ficou a sós com Bem. No primeiro instante ele não disse nada. Hermione também ficou em silêncio, tentando controlar o desespero que a perspectiva de perder Viktor para sempre provocava nela.
— Que confusão — murmurou Ben, finalmente.
Hermione procurou coordenar as idéias. Por mais infeliz que se sentisse, não podia abandonar aquele caso pelo meio. Ainda precisava saber por que Ben Gillian, que lutara tanto para consolidar a sua reputação como ferreiro, agira com tanta leviandade.
— Por que você fez isso, Ben?
Ele se deixou cair numa cadeira e mergulhou o rosto nas mãos.
— Estava num beco sem saída — falou erguendo a cabeça. — Dimitrov descobriu que eu estava devendo dinheiro a várias pessoas e prometeu falar com alguns amigos se eu... se eu...
— Oh, Ben!
— Sei que fiz uma coisa horrível, mas... — passou as mãos pelos cabelos. — Os credores estavam me cobrando e eu não sabia mais o que fazer. Meu Deus, será que nunca vou conseguir parar de jogar? Isso é como uma febre. Minha vida já está quase destruída por causa disso.
Hermione não sabia o que dizer. Percebeu o desespero na voz dele e achou que Ben estava sendo sincero. Já havia visto tantas pessoas na mesma situação. Homens para quem jogar era uma compulsão, que sempre esperavam recuperar no páreo seguinte o que haviam perdido no anterior.
— Eu disse a Dimitrov que não daria certo — continuou Ben. — Mas ele me garantiu que você era jovem e inexperiente demais para descobrir o que estava errado. Ele fez um teste com aqueles dois hipogrifos e, como você não chegou a um diagnóstico, achou que estava seguro. — Olhou para Hermione, que se espantou ao ver as lágrimas que corriam pelo rosto do ferreiro. — Eu não queria fazer aquilo. Sempre fui um homem direito, srta. Granger. O jogo foi a minha perdição. Em trinta anos de profissão, nunca prejudiquei um hipogrifo.
— Você quase comprometeu a carreira de King‘s Ransom.
— Sei que a senhorita não vai acreditar, mas hoje eu pretendia colocar as ferraduras certas nele. Minha consciência estava me atormentando e eu não tinha coragem de levar essa história adiante.
Hermione pensou por um momento antes de tomar uma decisão.
— Mas você ainda pode remediar as coisas, Ben.
— O que eu posso fazer?
— King‘s Ransom pode correr hoje desde que você faça um bom trabalho com as ferraduras.
— A senhorita... a senhorita está disposta a confiar em mim depois de tudo? — perguntou, incrédulo.
— Estou. Você sabe que eu serei obrigada a comunicar o que houve às autoridades, mas prometo interceder a seu favor, se você fizer um bom trabalho dessa vez.
Ele ficou em silêncio por alguns instantes, como se tentasse controlar as emoções.
— Não sei como lhe agradecer, srta. Granger. Prometo que não vai se arrepender por confiar em mim.