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8. Oito


Fic: A Garota das Poções


Fonte: 10 12 14 16 18 20
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Na manhã seguinte, logo cedo, Hermione foi ver King‘s Ransom. Assim que Dimitrov ouviu o ruído dos passos, saiu da cocheira para cumprimentá-la. Hermione ficou aliviada ao ver a fisionomia sorridente do treinador.


— King‘s Ransom está melhor? — perguntou enquanto se aproximava. No dia anterior, após deixar o Turf Club, havia passado na cocheira, para verificar se Dimitrov seguira suas instruções. Ben também já havia passado por lá e substituíra as ferraduras do hipogrifo por um tipo especial com enchimento de borracha, como ela havia sugerido, mas ainda era muito cedo para notar qualquer sinal de melhora. Hermione dormira mal à noite, tão ansiosa estava por saber do resultado.


— Acho melhor a senhorita ver com os seus próprios olhos — sugeriu o treinador, fazendo sinal para um de seus ajudantes.


O rapaz foi tirar King‘s Ransom de sua baía e, poucos instantes depois, o hipogrifo trotava em círculos diante de Hermione. Ela respirou aliviada ao notar que ele não mancava mais. Não queria nem pensar no que teria acontecido à carreira daquele magnífico puro-sangue se estivesse com algum problema mais sério que uma contusão.


— Deve ter sido mesmo uma contusão, srta. Granger — comentou Dimitrov. — Graças a Merlin! Eu até cheguei a pensar que...


Não terminou a frase. Para que falar naquilo? O medo que haviam sentido pertencia ao passado; o que interessava agora era que King‘s Ransom estava bem outra vez.


— Ele parece curado — observou Hermione.


— Graças à senhorita.


— Ora, Dimitrov eu apenas fiz o meu trabalho — replicou com um sorriso, mas, no fundo, sentia-se gratificada por aquela vitória e feliz com o reconhecimento de Dimitrov.


No entanto, a alegria de Hermione teve curta duração. No dia seguinte, pela manhã, aparatou diante das cocheiras de Viktor. Pretendia ver outros clientes primeiro, mas mudou de idéia ao reparar na fisionomia preocupada de Dimitrov. Ao vê-la, o treinador correu ao seu encontro.


— Outros dois hipogrifos estão mancando, srta. Granger — falou esbaforido, antes mesmo de cumprimentá-la.


— Mais dois? — O espanto de Hermione era justificável. Não era comum que três hipogrifos aparecessem mancando de um dia para outro. No primeiro instante, não soube o que dizer.


— Eles estão com os mesmos sintomas de King‘s Ransom — explicou Dimitrov. — Os dois estão inscritos para as corridas do final da semana, mas agora... — Fez uma pausa e, num gesto nervoso, passou a mão pelos cabelos. — Se a senhorita não descobrir o que há de errado com eles bem rápido, srta. Granger eu vou ser obrigado a suspender a participação dos dois. Do jeito que eles estão, não têm a menor condição de correr.


A notícia pegara Hermione tão desprevenida que ela nem conseguiu disfarçar a preocupação.


— Vamos dar uma olhada neles. — A tensão era sua voz igualava-se à de Dimitrov.


Não demorou mais do que alguns minutos para descobrir que ele estava certo. Os dois hipogrifos exibiam os mesmos sintomas que King‘s Ransom. Ambos mancavam sem uma causa aparente.


Depois de um exame longo e detalhado ela não conseguiu chegar a nenhuma conclusão. Nunca enfrentara uma situação tão frustrante antes. A única coisa que podia afirmar com segurança era que os hipogrifos mancavam, mas não queria que Dimitrov percebesse que ela estava encontrando dificuldade para diagnosticar o problema. Numa última tentativa, tirou algumas radiografias com a ajuda do treinador. Não que esperasse ter mais sucesso com elas do que no caso de King‘s Ransom, mas não podia simplesmente descartar aquela alternativa.


A preocupação de Hermione com os hipogrifos era sincera, mas, ao mesmo tempo ela pensava em sua própria carreira, Se não conseguisse diagnosticar o problema, a notícia se espalharia rapidamente. Dimitrov era um homem correto; confiava em Hermione e procurava dar-lhe toda a ajuda possível, mas o treinador tinha os seus próprios interesses para defender e ela não podia esperar que ele se calasse quando os melhores hipogrifos de Gauntlet West não podiam correr porque a veterinária responsável não conseguia descobrir a origem de seus males. Perder um cliente como Viktor naquelas circunstâncias seria o mesmo que admitir publicamente que fracassara.


Com movimentos lentos, Hermione juntou o material de exame e guardou-o na maleta. Relutava em encarar Dimitrov, mas sabia que não poderia adiar aquele momento indefinidamente. Mesmo sem olhar para ele, podia adivinhar como estava ansioso. O treinador continuava em silêncio, dando-lhe o tempo necessário para refletir após o exame. Não seria justo deixá-lo mais tempo naquele suspense. Ele tinha o direito de saber a que conclusão ela chegara, ou melhor, que ela não chegara a nenhuma conclusão, pensou com amargura.


— Por enquanto, é melhor chamar Ben e dar-lhe as mesmas instruções que no caso de King‘s Ransom — falou, finalmente. — É só o que podemos fazer até que eu tenha o resultado das radiografias nas minhas mãos.


Dimitrov não era estúpido. Olhou-a por um longo momento e então arriscou;


— A senhorita não espera encontrar muita coisa nas radiografias, não é?


Hermione hesitou. Uma coisa era tentar dar esperanças a um cliente; outra, bem diferente era mentir deliberadamente. Olhou para Dimitrov e não teve dúvidas de como deveria agir.


— Eu fiz um exame bem detalhado, Dimitrov, mas não pude descobrir nada — admitiu estremecendo diante da súbita expressão de desânimo do treinador. — Mas não devemos perder as esperanças. Nós tivemos bons resultados com King‘s Ransom e espero que o mesmo aconteça no caso destes hipogrifos.


Dimitrov não ousou perguntar o que ela faria se o tratamento não surtisse efeito. Passou a mão pelos cabelos outra vez e olhou para os dois hipogrifos em suas baias.


— Droga! — murmurou. — Que inferno!


Hermione não o censurou por praguejar daquele jeito. Ela também gostaria de poder desabafar de alguma forma.


— Eu vou apressar o resultado das radiografias. Talvez então...


O barulho de uma aparatação chamou-lhe a atenção e, para seu desgosto, Hermione viu Martin Desmond aproximar-se. Rezou para que ele não parasse ali, mas suas preces não foram ouvidas e o tratador pousou diante das cocheiras dos hipogrifos de Viktor.


Hermione foi até a sua sala guardar o aparelho de raios X. Procurava agir com naturalidade, para não tornar óbvio que estava louca para ir embora antes que ele chegasse ali. Olhou para Dimitrov, apreensiva, imaginando como ele enfrentaria aquela situação. Ela mesma não tinha idéia do que diria. Tudo o que poderia fazer seria tentar manter a calma. Pela expressão de Martin Desmond, percebeu que o tratador estava a fim de criar caso. Desmond desceu do carro e, ignorando totalmente a presença de Hermione, dirigiu-se a Dimitrov:


— Bom dia, Dimitrov. Ouvi dizer que King‘s Ransom está com problemas.


— Ele já está bem — afirmou Dimitrov, casualmente. — Não foi nada sério.


— Verdade? — O tratador continuava a ignorar Hermione, que estava a poucos metros dele. — Engraçado... Segundo me contaram ele estava mancando e eu achei melhor passar por aqui para ver se posso ajudar.


Hermione sentiu o sangue latejar-lhe nas têmporas. Só Martin Desmond teria a cara de pau de se oferecer daquele jeito, ainda mais na presença do profissional encarregado do caso. Já estava a ponto de dizer-lhe umas verdades, quando ouviu a voz de Viktor:


— Obrigado, Martin, mas nós não estamos precisando de nada. A srta. Granger está cuidando de tudo e eu confio inteiramente nela.


Desmond recobrou-se da surpresa com mais rapidez do que Hermione.


— Fico contente em ouvir isso, Sr. Krum — falou, naquele tom de falsa cordialidade que inspirava tanto desprezo nela. — King‘s Ransom é um belo animal. Seria uma pena se lhe acontecesse alguma coisa por causa da... inexperiência de algum principiante.


Aquilo já era demais. A insinuação maldosa de Desmond tirou Hermione do sério. Já ia replicar, mas Viktor antecipou-se mais uma vez;


— Você está preocupado sem razão, Martin. — Sua voz estava calma, mas firme e deixava bem claro que ele não admitiria intromissões. — A srta. Granger é muito competente e nós estamos satisfeitos com o trabalho dela. Não vai acontecer nada com King‘s Ransom que ela não possa resolver.


Mas Martin Desmond não era homem de desistir facilmente.


— Assim eu espero. Você já tem problemas o suficiente com os outros dois hipogrifos que estão mancando.


— Essas coisas acontecem, Martin; você sabe disso, mas a srta. Granger já tomou todas as providências.


— Espero que saiba o que está fazendo, Sr. Krum — afirmou em tom sinistro.


— Eu sei, sim, Martin.


Era óbvio que Viktor decretara encerrada a conversa. Martin Desmond lançou um olhar cheio de ameaças na direção de Hermione e voltou para o ponto de aparatação.


Hermione observou-o afastar-se, apreensiva. Sabia que Viktor havia agido com a melhor das intenções, mas só conseguira piorar as coisas. Se antes Martin Desmond não a suportava, agora faria o possível e o impossível para prejudicá-la. Se não conseguisse curar os dois hipogrifos ele não perderia tempo em espalhar que ela não passava de uma idiota incompetente.


Ainda nervosa por causa daquela cena desagradável, Hermione continuou a arrumar suas coisas na sala. Com o canto dos olhos, viu que Viktor se aproximava. Dimitrov voltara para a cocheira e os dois estavam sozinhos.


— Obrigada — disse, quando ele parou ao seu lado. Sua voz tremia e as mãos também não estavam firmes.


— Desmond é um completo imbecil, o sujeito mais cheio de si que já conheci. E eu não gostei da forma como ele ignorou a sua presença, mas ele disse uma coisa que me surpreendeu.


— O quê?


— Que história é essa de mais dois hipogrifos mancando?


Se a situação não fosse grave, Hermione teria caído na risada.


— Você quer dizer que me defendeu diante de Martin, mas nem sabia do que ele estava falando? — perguntou, incrédula.


— Eu acabei de chegar e ainda nem conversei com Dimitrov. É verdade o que ele disse?


Agora Hermione não sentia a menor vontade de rir.


— É. Dois hipogrifos estão mancando. — Respirou fundo antes de acrescentar: — E eu ainda não descobri a causa.


— Droga! — Passou a mão pela nuca, parecendo tão desanimado quanto Dimitrov havia ficado.


— Eu tirei algumas radiografias, mas...


— Mas talvez elas não ajudem muito, não é isso?


Era mais uma afirmação do que propriamente uma pergunta. Hermione abaixou a cabeça, sentindo-se mais abatida do que nunca.


— Olhe, Viktor, se você quiser a opinião de outro tratador...


— Quem falou em chamar outro tratador? — interrompeu-a com vivacidade.


— Mas...


— Você está cuidando dos meus hipogrifos, Hermione. Eu confio em você e quero ver aqueles hipogrifos em ótima forma outra vez. Entendido?


O tom autoritário dele deixou-a contrariada, mas não era hora de discussões. Com receio de que a voz traísse seu ressentimento ela apenas balançou a cabeça e entrou no ponto de aparatação. Quando deu a partida, Viktor já estava a caminho da cocheira. Sem poder conter-se mais, Hermione bateu com o punho cerrado contra si mesma.


A caminho de casa, no final da tarde, ainda pensava em King‘s Ransom e nos outros hipogrifos. Quanto mais analisava o problema, mais aumentava sua frustração por não conseguir chegar a uma conclusão. O que estava acontecendo, afinal? Três hipogrifos começavam a mancar praticamente ao mesmo tempo sem que houvesse uma causa aparente. Tinha que haver uma explicação lógica.


Hermione passou a noite toda buscando uma informação, um esclarecimento, qualquer coisa que jogasse um pouco de luz sobre aquele caso. Quando amanheceu, ainda estava sentada no tapete da sala, rodeada de livros e revistas especializadas, mas estava tão distante de uma solução quanto no começo da noite. Apoiou a cabeça nas almofadas do sofá e cobriu o rosto com as mãos. Estava exausta e desanimada.


Quando o relógio da sala bateu sete horas, Hermione ainda estava na mesma posição. Com um suspiro, levantou-se e foi para o banheiro. Diante do espelho, passou a mão pelo rosto, que a noite em claro deixara marcado por olheiras profundas. Pela primeira vez não sentia vontade de ir para o trabalho. O caso dos hipogrifos de Viktor representava um verdadeiro teste e se ela fracassasse... O futuro nunca lhe parecera tão cheio de sombras como naquele dia.


Como Hermione temia, as radiografias não revelaram nada. Já esperava por isso, mas ainda assim ficou desapontada. Reuniu a sua força de vontade para ir até o Ministério. Como seria horrível aparecer diante de Viktor sem ter encontrado uma resposta. Precisava ser forte e enfrentar a situação, mesmo no estado de depressão em que se encontrava, não podia fugir do dever. Viktor dependia dela; não iria abandoná-lo, decidiu.


Só então conscientizou-se de que nos últimos dias não se permitira pensar uma única vez na noite que havia passado no apartamento de Viktor. Com tantos problemas, não tivera chance de analisar melhor o seu relacionamento com ele, mas depois dos últimos acontecimentos, haveria ainda alguma ligação mais forte entre eles? Não tinha certeza de mais nada.


A possibilidade de ficar sem Viktor doeu-lhe mais do que gostaria de admitir. Estaria apaixonada por ele? Não, que absurdo! Ela o conhecia há pouco tempo e não sabia quase nada sobre ele. E, se não descobrisse o que havia de errado com aqueles hipogrifos, não teria chance de conhecê-lo melhor, pensou, amargurada. Ainda havia um outro obstáculo: Lilá Brown. Hermione não conseguia acreditar que entre eles houvesse apenas uma ligação comercial. Como poderia, depois daquela tarde no Turf Club? A atitude de Lilá sugeria um grau de intimidade muito maior entre os dois.


Viktor e Lilá tinham muito em comum, pensou, deprimida. Era óbvio que ambos haviam nascido em berço de ouro e levavam o mesmo estilo de vida. Hermione sabia que nunca poderia competir com ela nesse nível e nem queria. Lilá era uma mulher insolente e fútil. Hermione, por sua vez, não podia admitir uma existência estéril, improdutiva. Aprendera com os pais a satisfação e o orgulho que o trabalho podia significar e, desde pequena, decidira seguir-lhes o exemplo.


Hermione sabia que sua opção de vida a levaria por um caminho muito mais difícil. Mulheres como Lilá não precisavam provar nada a si mesmas; contentavam-se em viver como um ornamento de luxo, de preferência nos braços de um homem muito rico. E agora que estava divorciada, Lilá pelo jeito havia escolhido Viktor para ocupar o lugar que o marido deixara vago. Ele reunia tudo o que Lilá mais valorizava num homem; era rico, bonito, bem-sucedido e vinha de uma família tradicional. E ela seria a mulher ideal para Viktor. Nunca se sentiria pouco à vontade entre os amigos dele e seria aceita por todos com naturalidade, pois não haveria desnível entre eles.


Quando o fluxo de seu pensamento atingiu esse ponto, Hermione reagiu. Ora eles que fossem muito felizes. Por que se torturar tanto? Seria muito mais sensato concentrar-se no trabalho, antes que acabasse perdendo tudo o que conquistara com tanto sacrifício.


Precisava parar de pensar em Viktor. Desde que o conhecera, sua vida parecia girar em torno dele. Estava sempre tentando Imaginar o que ele diria, como reagiria, o que estaria fazendo... Estava agindo como uma adolescente diante do primeiro amor e precisava colocar um ponto final naquilo. Ela não era uma profissional? Pois então, já era tempo de começar a se comportar como uma. Era melhor esquecer Viktor e concentrar-se apenas nos hipogrifos dele.


— A senhorita conseguiu outra vez, srta. Granger. — Foi a primeira coisa que Dimitrov lhe disse. — O tratamento deu resultado e os hipogrifos estão em condições de correr.


Hermione não conteve um suspiro de alívio. Fizera todo o percurso até as cocheiras com o coração na mão, tentando imaginar o que iria encontrar.


— Nenhum deles está mancando? — Ainda custava a acreditar. Era bom demais para ser verdade.


Dimitrov confirmou, sorrindo satisfeito.


— Eles não deixaram as baias ontem; passaram o dia descansando e hoje estão em perfeitas condições. Graças à você, srta. Granger.


Hermione sorriu, mas no íntimo ainda estava confusa. Havia alguma coisa errada naquilo tudo. Era como um quebra-cabeças onde as peças não se encaixavam.


— E King‘s Ransom? — perguntou Hermione.


— Veja a senhorita mesma.


Ergueu o braço e Hermione olhou para a direção que ele apontava. O treinador que estava escalado para montar King‘s Ransom no Grande Prêmio estava justamente trazendo o potro de volta para a cocheira.


O treinamento, pelo jeito, havia sido bem puxado. O pêlo do hipogrifo estava coberto de suor, mas ele ainda encontrava energia para empinar-se de quando em quando. Lembrava um menino cheio de vida, pronto para mais uma travessura, ao aproximar-se sacudindo a cabeça e quase jogando o cavaleiro para fora de si, mas Hermione ficou aliviada quando viu que ele não mancava. Pelo contrário. Movia-se como se tivesse apenas flutuando sobre as asas.


— King‘s Ransom está cheio de si hoje, Sr. Dimitrov — brincou Neville Longbottom, o jóquei, depois de desmontar. Um dos empregados aproximou-se e levou o hipogrifo para dentro. — Disparou na reta como se estivesse num páreo. Eu tive um trabalhão para contê-lo. Ele não perde uma oportunidade de se exibir.


— Ele parece mesmo muito bem — comentou Dimitrov.


— King‘s Ransom está ótimo — garantiu o jóquei. — Ninguém conseguirá batê-lo no Grande Prêmio. Pode escrever o que eu digo.


Hermione conhecia a reputação de Neville. Ele montava há anos e uma de suas principais qualidades era a habilidade para "ajustar" um hipogrifo. O jóquei sempre conseguia que o animal que montava rendesse o máximo em cada prova. O talento de um jóquei como ele representava um trunfo a mais para o treinador. Neville Longbottom era considerado um dos melhores e era, com certeza, o mais popular, mas a fama e o sucesso não haviam mudado o seu jeito de ser: ele continuava uma das pessoas mais acessíveis e agradáveis que Hermione conhecia.


— E então, Neville? — perguntou Hermione. — Você notou alguma coisa anormal?


Neville ergueu o rosto e olhou para ela. Hermione era alta para uma mulher e sempre se sentia estranha ao lado de homens tão baixos como costumavam ser os jóqueis. Neville não devia ter mais do que um metro e cinqüenta e cinco, mas há muito tempo ele havia deixado de se incomodar com sua estatura.


— King‘s Ransom voou pela pista, srta. Granger — respondeu o jóquei exultante, como se não tivessem sido colegas em Hogwarts. — Se ele não estivesse bem eu teria percebido, com toda certeza.


— Obrigado, Neville — falou Hermione, com um sorriso. Havia uma sintonia tão perfeita entre Neville e os hipogrifos que ele teria notado o mais leve problema. Hermione confiava nele totalmente e, se o jóquei dizia que o hipogrifo estava apto a participar do grande prêmio, ela não tinha motivos para duvidar.


— Nós não sabemos o que King‘s Ransom teve, mas o que importa é que a senhorita o curou, srta. Granger — disse Dimitrov. — E eu lhe sou muito grato.


Hermione apertou a mão que o treinador lhe estendia. Claro que ela havia ficado feliz ao ver que tudo terminara bem, mas ainda havia um pequeno senão a incomodá-la: não descobrira a causa do problema.


Tentando não deixar transparecer a preocupação, Hermione se despediu de todos e foi para sua sala. Tinha várias cocheiras para visitar e um bom número de clientes à sua espera fora do Ministério. O dia seria bem atarefado e ela se sentia grata por isso. Nos últimos dias, andara tão preocupada com a situação de King‘s Ransom que praticamente não havia pensado em mais nada. Seria bom desviar a atenção para outras coisas. Talvez então, conseguisse encontrar uma resposta para as suas dúvidas. Não queria que uma repetição daqueles fatos estranhos a pegasse desprevenida.


Passou por Ben Gillian e acenou-lhe cordialmente. Durante alguns segundos, considerou, indecisa, a possibilidade de ter uma inversa com ele, mas Wilma chamou-a pela varinha, comunicando uma emergência. O assunto com Ben teria que ficar para outra ocasião. Queria saber a opinião do ferreiro sobre King‘s Ransom e os outros hipogrifos, mas isso podia esperar. Afinal, Ben Gillian estava há tantos anos no ramo que não iria desaparecer de um dia para outro.


No final do dia, Hermione nem se lembrava mais de que precisava conversar com Ben. Ao chegar à fazenda para atender a emergência deparara-se com um caso muito grave, um verdadeiro horror. Um hipogrifo assustara-se e atravessara uma cerca de arame farpado. Quando Hermione chegou, o animal estava coberto de sangue e começava a entrar em choque. Hermione desistiu de contar quantos pontos precisou dar para fechar todos os cortes. Um deles, que atravessava todo o peito do animal, levou duas horas para ser suturado.


Hermione fez o que pôde e depois aguardou que o estado dele se estabilizasse, antes de voltar ao Ministério e continuar suas visitas de rotina. Depois de deixar a última cocheira, não teve coragem de ir para casa sem dar mais uma olhada no hipogrifo acidentado. A fazenda ficava bem distante, mas, no final ela se sentiu recompensada pelo esforço; o hipogrifo já estava se alimentando e seus donos estavam radiantes com os sinais de melhora. Hermione despediu-se com um sorriso cansado e prometeu voltar no dia seguinte.


Quando parou diante de sua casa, já passava das dez horas. Estava exausta. Tudo o que desejava era um bom banho é depois desabar sobre os lençóis macios de sua cama. Só esperava não adormecer debaixo do chuveiro. Mal abriu a porta e o telefone começou a tocar. Não, não era possível, pensou, desesperada. Ela simplesmente não estava em condições de sair de novo.


Parou ao lado do aparelho, que continuava a tocar insistentemente. O que faria? Cansada como estava, não poderia trabalhar antes de algumas horas de sono. Mal conseguia se manter de olhos abertos! Mas e se fosse um caso grave? A lembrança da emergência daquela tarde acabou com sua indecisão. Aquele hipogrifo teria morrido se não houvesse sido socorrido a tempo. Com um suspiro resignado estendeu a mão para o telefone.


— Como é difícil encontrar você — falou Viktor do outro lado da linha. — Eu estou tentando localizá-la desde o começo da tarde.


— Aconteceu alguma coisa com um dos hipogrifos? — perguntou, nervosa. Não pensava mais no banho, nas horas de sono em nada. Não podia ter acontecido de novo, pensou em pânico. Preferia atender dez chamados a ter que enfrentar mais um caso misterioso como o de King’s Ransom.


— Não, não. Está tudo bem por lá — tranqüilizou-a Viktor. — Dimitrov passou o dia espalhando aos quatro ventos que mulher fantástica você é. Ele está encantado com a sua eficiência.


Hermione deixou-se cair no braço do sofá e deu um suspiro de alívio.


— Graças a Merlin — murmurou.


— O quê?


— Nada. Eu estava só pensando que... — Calou-se de repente. Não pretendia admitir que embora houvesse curado os hipogrifos, não tinha a menor idéia da causa do problema.


— Você está bem? Parece tão... distante.


— Não, estou ótima. Só um pouco cansada.


— Tem certeza de que não estou interrompendo nada?


— Nada que vinte e quatro horas de sono não possam curar.


— Sinto muito, Hermione. Acho que não devia ter ligado tão tarde. Eu só queria convidá-la para...


— Fale, Viktor.


— Bom, você tem trabalhado tanto que deve estar precisando de um pouco de descanso. — Fez uma pequena pausa. — Que tal passarmos o fim de semana em Gauntlet West? Seria uma boa oportunidade para você conhecer a fazenda.


Aquele convite era a última coisa que ela esperava. No mesmo instante, voltou-lhe à mente a cena no Turf Club. Parecia até que podia ouvir Lilá dizer, naquele tom afetado, como fora maravilhoso o fim de semana em Gauntlet West. Hermione podia imaginar os dois na fazenda, preocupados com outras coisas mais interessantes do que hipogrifos.


— Hermione?


Era absurdo, irracional, mas ela estava tão zangada e enciumada quanto naquela tarde. Com certeza. Viktor queria que ela fosse até a fazenda para examinar o hipogrifo que Lilá pretendia comprar. Se ele pensava que ela estaria disposta a percorrer toda aquela distância só para fazer um favor à sua mais recente namorada estava muito enganado.


— Sinto muito, Viktor — falou em tom formal. — Mas eu já...


— Eu sei que está um pouco em cima da hora — interrompeu-a. — Mas tentei falar com você mais cedo. — Hesitou antes de prosseguir. — Eu gostaria muito que você fosse.


— Para examinar o hipogrifo de Lilá? — perguntou friamente. — Acho que você vai ter que chamar outro tratador, Viktor eu...


— Quem falou em Lilá? — replicou Viktor, um tanto impaciente.


— Eu pensei que...Você sabe ela quer comprar um hipogrifo e...


— O meu convite não tem nada a ver com ela — assegurou Viktor, irritado.


— Mas como eu podia adivinhar? Afinal...


— Ora, Hermione! Eu lhe disse que... — Calou-se de repente e ela o ouviu bufar do outro lado da linha. — Olhe — falou, finalmente —, só achei que seria uma boa idéia um fim de semana na fazenda.


A raiva de Hermione evaporou-se como por encanto. Contrariada consigo mesma, percebeu que a idéia de passar um fim de semana a sós com ele era o suficiente para deixá-la trêmula de ansiedade, mas em seguida, procurou reagir. Não devia aceitar. Conhecia-se muito bem e sabia que, após aqueles dois dias estaria irremediavelmente envolvida com Viktor. Ele era atraente demais envolvente demais... Ela sabia que não resistiria e acabaria... Não, precisava encontrar uma desculpa aceitável. Não permitiria que Viktor soubesse quantas e quantas vezes ela sonhara acordada com aquela noite na cobertura dele.


Mas como poderia negar a si mesma o prazer de sentir aquele corpo forte contra o seu? Bastava um olhar, um toque, uma palavra de Viktor para deixá-la ardendo de desejo. Fechou os olhos e as imagens daquela noite no apartamento dele tornaram-se quase reais.


— Preciso ir ver um hipogrifo amanhã. — Foi a única coisa que conseguiu dizer.


— Não faz mal. Nós podemos sair depois disso.


— Mas eu tenho uma correspondência enorme para colocar em dia e...


— Você não tem uma secretária? Deixe que ela cuide disso.


— Mas e os hipogrifos no Ministério? — insistiu, numa última tentativa.


— Você tem a varinha para comunicá-la, se isso a deixa mais tranqüila. Se for necessário eu posso trazê-la de volta em uma hora e meia.


Hermione esgotara todos os argumentos. Fechou os olhos, recriminando-se por ser tão fraca.


— Você pode me apanhar às dez horas — falou num sussurro. Sabia que estava perdida.

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