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1. Um


Fic: A Garota das Poções


Fonte: 10 12 14 16 18 20
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Hermione Granger sentia-se com mais do que os seus vinte anos quando entrou no ponto de aparatação. Como tantos outros, aquele fora um dia longo e infrutífero. Ela já estava começando a desanimar. De que adiantavam, afinal, o diploma de poções e os cursos de especialização que havia feito ao sair de Hogwarts? Pelo jeito, ninguém, a não ser ela mesma, acreditava na sua capacidade. Durante todo o dia, apenas observara utensílios; ninguém lhe confiara qualquer outra tarefa de maior responsabilidade.


Mas não podia se queixar de que não a haviam prevenido, concluiu com amargura. Ainda se lembrava do espanto dos colegas da turma quando decidira especializar-se em poções curativas. E, ao declarar que pretendia trabalhar em St. Mungus, todos riram da sua ingenuidade.


— Uma mulher como responsável em poções de St. Mungus? — espantou-se um de seus colegas grifinórios. — Você não vai conseguir, Hermione. É um mundo dominado pelos homens. Sempre foi e sempre será. Por que não tenta um outro campo?


As palavras do colega apenas conseguiram deixá-la ainda mais determinada. Mundo dos homens? Pois ela quebraria aquele monopólio, decidira naquele dia. Hermione amava os caldeirões fumegantes; admirava-lhes a estrutura, os movimentos elegantes, e queria contribuir para que continuassem a ser incríveis, surpreendentes e capazes de nutrir maravilhas.


Apenas Harry acreditava em Hermione. Harry Potter havia confiado nela e indicara-lhe um emprego dentro das dependências ao seu redor quando ninguém mais parecia disposto a isso. Trabalhava como auror no Ministério da Magia há alguns anos e, antes de se entregar aos perigos do serviço, queria transmitir a alguém os conhecimentos que adquirira sobre a vida naquele período. Para ele, não fazia a menor diferença que sua indicada fosse uma mulher. Tudo o que exigia era competência.


E ela era competente, pensou Hermione com segurança. Até o mais cético de seus professores, Severus Snape, admitira que ela possuía um jeito especial para lidar com caldeirões. Hermione não tinha medo deles, nem mesmo da complexidade por detrás deles. Seus diagnósticos eram precisos e ela aprendera a controlar as próprias emoções diante do sofrimento de um ser ferido que necessitasse de uma poção curativa. Jamais permitia que sua sensibilidade interferisse no seu trabalho. Mas, apesar de todas as suas qualidades profissionais, ninguém lhe dava uma chance de provar que era capaz. Seria demais pedir ao menos uma oportunidade?


Pelo jeito, sim. Quando Harry se afastara, há dois meses, confiara-lhe o posto, e aquele começo parecera muito promissor a Hermione. Esperava que, ao substituir um antigo funcionário, automaticamente herdaria a clientela do velho mestre de poções do Ministério, que preparava tudo que fosse necessário para a utilização nos feitos dos outros cargos. Mas seu otimismo não havia durado muito tempo; bastaram poucos dias para perceber que os clientes, mesmo os mais antigos, não estavam dispostos a entregar suas necessidades aos cuidados de uma mulher.


Deprimida por esses pensamentos, Hermione estava prestes a tocar a chave de portal e já ia partir quando um ruído de vozes alteradas chegou-lhe aos ouvidos. Parecia vir de uma das salas à sua direita. Ficou imóvel, atenta, procurando perceber se algo de anormal estava acontecendo. Com tantos bruxos que apareciam ali, na sede do Ministério da Magia em Londres, agitação e barulho eram quase uma rotina. Muitas vezes não passava de uma manifestação entusiástica das pessoas que freqüentavam o lugar, diante do desempenho perfeito de algum serviço ou causa.


Mas o sexto sentido de Hermione parecia avisá-la de que, daquela vez, o caso era outro. Ela se afastou de onde estava e foi na direção de uma das salas. A cada passo, percebia que alguma coisa muito grave estava acontecendo. Podia identificar claramente o ruído de punhos contra as paredes. Sons de raiva e pânico misturavam-se, demonstrando a gravidade da situação. Alguém corria perigo. Um grande perigo!


Um grupo de pessoas aglomerava-se à entrada da sala e, pela expressão delas, Hermione percebeu que o caso era bem mais grave do que havia imaginado. Lá estavam todos os que trabalhavam no Ministério: aurores, ministros, secretários. E, se eles relutavam em entrar, só Merlin podia saber o que estava acontecendo lá dentro.


Mal se aproximara da porta, quando esta se abriu com violência e um homem praticamente voou para fora, caindo no chão. Seu rosto estava pálido e contraído de dor. Gemendo, ele se arqueou sobre uma das pernas, que sangrava.


— Fique deitado — ordenou Hermione, abaixando-se para examinar o ferimento. — Eu vou...


— Não... eu estou bem... — murmurou ele, ofegante, um brilho de terror nos olhos. — Alguém precisa ajudá-lo... Aquilo está... louco! Vai matá-lo...


Hermione seguiu a direção do olhar dele e empalideceu. Podia ver o interior da sala agora. Havia outro homem lá dentro. Tentava inutilmente agarrar os arreios do hipogrifo que jazia ali, ao mesmo tempo em que procurava desviar-se dos cascos que se erguiam ameaçadores.


Nos instantes seguintes, petrificada pelo horror, Hermione viu o animal empinar-se outra vez e arremessar-se contra a parede com tanta violência que pedaços de reboque caíram, espatifando-se no chão.


Ela sabia que não podia perder um só segundo. Percebeu que não deveria esperar ajuda de nenhum daqueles homens: todos pareciam paralisados pelo medo. Caberia a ela tomar alguma atitude. E rápido, antes que fosse tarde demais. Pegou um chaveiro no bolso do casaco e entregou-o a um menino.


— Eu sou a Hermione Granger, mestre de poções. A minha sala está no fim deste corredor, à direita. Traga a maleta que está dentro dela. Depressa! E alguém chame socorro para este homem.


Já estava de pé antes de acabar de falar, e abriu caminho entre as pessoas que, a uma distância segura, observavam o interior da sala. Deu alguns passos para dentro, o olhar experiente fixo no hipogrifo enfurecido. Por mais que tivesse optado por poções, adquirira grande paixão pela área de trato de criaturas mágicas quando Hagrid se tornara professor daquela matéria na época de Hogwarts. Procurou logo refrescar a mente sobre as tantas lições que ele havia passado sobre aquele animal tão particular. O que haveria de errado com aquele hipogrifo?


O homem percebeu a presença dela. Do canto onde estava confinado, fez um gesto desesperado com a mão.


— Saia daqui! — gritou, sem desviar o olhar das patas que se erguiam acima de sua cabeça. — Sua louca! Você vai se machucar!


Hermione nem tentou replicar. Não havia tempo para discussões. Com cautela, deu alguns passos, procurando uma posição de onde pudesse observar melhor o animal.


O animal estava sobre as quatro patas outra vez, a cabeça baixa; era como se estivesse reunindo forças para uma nova investida.


Hermione não notou nada de mais grave além de algumas escoriações pelo corpo e um ferimento um pouco mais profundo na cabeça, mas tinha experiência suficiente para saber que aquele animal estava em pânico. Hipogrifos eram animais que prezavam por sua dignidade e ali estava um obviamente maltratado. O que haveria acontecido com ele? Talvez uma contusão na espinha, ou um tumor no cérebro. Não podia arriscar um diagnóstico antes de um exame mais detalhado. Mas onde estava aquele menino? Precisava pegar uma poção tranqüilizante na maleta. Se não acalmasse o animal imediatamente, aquele homem corria o risco de ser ferido com gravidade.


— A maleta está aqui! — gritou uma voz do lado de fora. "Graças a Melin!", pensou Hermione, aliviada. Deu alguns passos para trás vagarosamente e saiu da sala. Com movimentos rápidos e precisos, abriu a maleta e preparou uma injeção de poção tranqüilizante. Já estava na porta, a seringa pronta em uma das mãos, quando alguém segurou-a pelo braço.


— Eu vou cuidar deste caso. — falou um homem.


O Dr. Martin Desmond era um dos responsáveis pelo trato de criaturas mágicas residentes, por qualquer motivo que fosse, nas dependências do Ministério. Devia andar pelos cinqüenta anos; seus cabelos tinham uma tonalidade prateada e os olhos azuis possuíam uma expressão fria e arrogante, tal como um Malfoy. Hermione não gostava dele e questionava os seus métodos, embora o Dr. Desmond fosse um profissional muito conceituado. Já haviam entrado em atrito várias vezes no passado, e, em mais de uma oportunidade, ele deixara bem claro que não aprovava mulheres na profissão dela, principalmente aquelas que se aventuravam a trabalhar no Ministério da Magia, que ele considerava seu território, mesmo que suas áreas fossem diferentes.


Desmond nem lhe deu tempo de reagir. Estalou os dedos para o assistente, um homem corpulento e desengonçado chamado Roger.


— Succinylcholine. — pediu e o assistente foi até a sala do veterinário preparar a injeção na dosagem que ele determinara.


Hermione mal podia acreditar no que ouvira. Conhecia os métodos drásticos do outro, mas agora ele estava indo longe demais. Sabia o que Desmond pretendia, e tentaria impedi-lo a todo custo.


— Você não pode fazer isso! — protestou. — Nós ainda não sabemos qual é o problema daquele animal.


O olhar frio e arrogante de Desmond fixou-se nela durante um longo momento. As pessoas ao redor observavam, atentas, conscientes da tensão entre os dois. Com certeza, todos reprovavam aquela principiante que tinha a ousadia de contestar um dos veterinários mais experientes do Ministério.


Mas Hermione não estava disposta a se deixar intimidar. Olhou para o interior da sala e percebeu que o animal já não parecia tão enfurecido. O homem conseguira laçá-lo, e o hipogrifo andava em círculos, agitado, tentando inutilmente libertar-se. Se ela conseguisse aproveitar aquele momento de relativa calma e aplicar a injeção tranqüilizante, poderia chegar a um diagnóstico, e talvez houvesse uma chance de salvá-lo.


Mas se Desmond usasse a succinylcholine associada a uma dose letal de pentobarbital de sódio, como ela calculava que ele pretendesse fazer, qualquer diagnóstico seria inútil: o animal estaria morto em questão de segundos.


— Eu não me lembro de ter pedido a sua opinião... doutora. — afirmou Desmond com frieza. Utilizara o termo simplesmente para lembrá-la de que ela era uma mestre de poções e deveria manter-se longe.


Hermione estremeceu diante daquelas palavras. Mas, ainda assim, ela não recuou.


— Acontece que eu acho que o hipogrifo merece uma...


Não teve tempo de terminar a frase. O animal rugiu ao seu modo e, erguendo-se sobre as patas traseiras, arrancou a corda das mãos do homem. Livre, parecia mais enfurecido do que nunca, e o homem mal teve tempo de saltar para o lado, enquanto o hipogrifo chocava-se com violência contra a parede. Dessa vez, a estrutura não resistiu, e o animal caiu, quase soterrado por uma avalanche de telhas, tijolos e reboque. Incapaz de se erguer, contorcia-se desesperadamente, agitando a cabeça de um lado para outro. Hermione não hesitou um segundo. Seringa na mão, correu para dentro e aproximou-se do homem que estava caído. Felizmente, ele não havia sido atingido pelos destroços.


— Você está machucado? — perguntou, ansiosa.


Ele estava ofegante e um tanto atordoado, mas conseguiu responder que não. Hermione voltou-se então para o hipogrifo, mas estacou, horrorizada com o que viu: Desmond já estava abaixado ao lado dele, segurando uma seringa. Logo atrás do veterinário, Roger esperava pelo momento de lhe entregar a outra.


Ignorando Hermione, Desmond consultou o homem com o olhar, e este balançou a cabeça, dando ao veterinário liberdade para fazer o que achasse melhor.


— Não! — gritou Hermione com veemência quando o ‘veterinário’ se inclinou sobre o hipogrifo.


Mas era tarde demais. O animal ainda agitou a cabeça e as patas dianteiras mais uma vez, mas logo a succinylcholine começou a agir, deixando os músculos paralisados. Roger estendeu a outra seringa e Desmond injetou a dose mortal de pentobarbital de sódio.


Em poucos segundos estava tudo acabado. Com os olhos cheios de lágrimas, Hermione viu o hipogrifo estrebuchar em agonia para em seguida ficar imóvel no meio da sala. Estava morto.


Desmond ergueu-se com um sorriso satisfeito. Passou por Hermione como se ela não estivesse ali e apoiou a mão no ombro do homem, que, de pé, olhava para o animal com uma expressão indescritível.


— Eu sinto muito, Sr. Krum. — falou Desmond, naquele tom meloso que reservava aos clientes. — Não havia mais nada a fazer.


Então aquele era Viktor Krum? Hermione já ouvira falar nele, o maior apanhador de Quadribol das últimas décadas. E o hipogrifo sacrificado devia ser o animal que ele escolhera como companheiro acerca do qual todos os jornais comentavam há algum tempo, um soberbo animal em início de vida.


Hermione sentiu o sangue latejar nas têmporas. Como Viktor Krum permitira que Desmond sacrificasse o hipogrifo? Se houvessem aplicado a injeção de tranqüilizante, poderiam ter feito um exame detalhado, e determinado o que havia de errado com o animal. Mas de que adiantava pensar naquilo agora?


— Eu sei — concordou Krum em voz baixa.


Hermione mordeu o lábio, tentando controlar a raiva. Se abrisse a boca, não seria capaz de conter uma torrente de acusações contra o veterinário. Mas, por mais que discordasse dos métodos dele, sabia que não podia contrariar a ética, questionando, em público, o parecer de outro profissional. Teria que esperar por um momento em que estivessem a sós.


Mas o que a deixava mais irritada ainda era a certeza de que não diria nada em qualquer circunstância. E a ética não era o principal motivo que a faria calar-se. Desmond tinha poder para destruir a carreira de Hermione sem o menor esforço. Era muito conhecido e respeitado entre os bruxos; bastaria uma única palavra do ‘veterinário’ para que ela perdesse os poucos clientes que havia conseguido no ramo de poções. Impotente, Hermione deu as costas aos dois homens e deixou a sala sem dizer nada. Envergonhava-se de seu silêncio. Não era uma forma de ser conivente?


Agora que tudo terminara, as pessoas começavam a se dispersar. Outros animais precisavam ser alimentados e tratados apesar da tragédia que acabara de acontecer. Hermione sabia que, embora todos houvessem lamentado sinceramente a morte de um animal tão lindo, no íntimo estavam felizes por aquilo não ter acontecido com os que eram responsáveis.


Hermione não os censurava; provavelmente ela sentiria a mesma coisa no lugar deles.


Mas para ela não era tão fácil esquecer tudo e voltar à rotina do trabalho. Não era a primeira vez que assistia a um hipogrifo ser sacrificado; ela mesma já fora obrigada a fazer isso algumas vezes. Mas aquela era uma atitude extrema, a que um profissional consciente só recorria em último caso. Mas Martin Desmond, era óbvio, não compartilhava dessa opinião.


Colocou sua valise dentro da sala e fechou a porta com raiva. Só então reparou no reflexo de um homem no vidro e, voltando-se, deu de cara com Viktor Krum. Durante a confusão na sala, não havia reparado como ele era alto perto dela. Mais de um metro e setenta com certeza, ombros largos e um tórax de atleta. O cabelo era preto e brilhante, penteado com uma displicência que contribuía para tornar-lhe o rosto ainda mais atraente. Uma mecha estava caída sobre a testa e Hermione teve um desejo quase irrefreável de recolocá-la no lugar. Como para controlar o impulso, enfiou as mãos nos bolsos do casaco.


— Sinto muito sobre o seu hipogrifo, Sr. Krum. — falou.


— Eu também. — Sua voz possuía um timbre rouco e envolvente. — Eu tinha muitos planos para ele, mas agora...


A voz falhou, e Hermione percebeu que ele fazia um grande esforço para se controlar.


As mãos dele eram fortes, de dedos largos, e tremiam de uma forma quase imperceptível. Hermione observava-o em silêncio. Tinha olhos castanhos e penetrantes; as sobrancelhas eram escuras, bem desenhadas e contribuíam para lhe dar um ar ligeiramente arrogante; o rosto possuía traços fortes, bem masculinos. Não havia dúvidas de que Viktor Krum era um homem muito atraente.


Agora era ele que a observava, como se também a houvesse notado pela primeira vez. Hermione sentiu as faces arderem sob a intensidade daquele olhar. Com um gesto nervoso, passou a mão pelos cabelos e jogou-os para trás. Intimamente, desejou ter seguido a sugestão de sua amiga Gina. Quantas vezes ela a aconselhara a usá-los bem curtos? Hermione jamais tivera coragem de permitir que um cabeleireiro passasse a tesoura naqueles cabelos castanhos, que caíam cacheados e abundantes, até a altura dos ombros. Era a única concessão que fazia à feminilidade naquele mundo dominado pelos homens.


— Eu quero agradecer a sua tentativa de me ajudar. — afirmou Krum, — Você foi muito corajosa. E louca também. — acrescentou, sorrindo. — Foi uma sorte Martin estar passando por lá. — falou, apontando na direção da sala.


Hermione encarou-o, e toda a revolta que sentira voltou com a mesma intensidade de antes.


— Sorte? Pois eu não concordo com o seu ponto de vista — replicou, sem refletir.


Krum olhou-a, surpreso.


— Como assim? Onde você quer chegar?


Agora teria que explicar as suas palavras. A ética que fosse para o inferno! Deixaria Viktor Krum ciente de que o sacrifício do hipogrifo fora uma atitude precipitada e, talvez, desnecessária.


— O que eu quero dizer é que havia outras alternativas. Não era preciso matar o animal. — afirmou num tom desafiante.


Os olhos de Viktor Krum estreitaram-se.


— Suponho que você tenha algum conhecimento do assunto para falar com tanta convicção.


— Acontece que tenho mesmo, Sr. Krum — assentiu Hermione, triunfante. — Eu sou mestre de poções, mas tive muita experiência com trato de criaturas mágicas em Hogwarts. A propósito, sou Hermione Granger.


Ficou satisfeita e ao mesmo tempo irritada com a expressão de espanto dele. Por que as pessoas, homens principalmente, partiam sempre do pressuposto de que a mulher era a enfermeira e não o médico, a secretária e não o patrão?


— Granger? — repetiu ele, como se não pudesse acreditar. — Então você é a...


— A responsável pelas poções de uso no Ministério de Londres, com um vasto histórico em Hogwarts impecável. — completou, sarcástica.


— Então por que você não fez alguma coisa? — perguntou ele.


Foi a vez de Hermione encará-lo boquiaberta. Antes que pudesse coordenar as idéias e responder, ele continuou, irritado:


— Quer dizer que havia outras alternativas? E por que você não sugeriu uma? Por que deixou que Martin matasse o meu hipogrifo?


— Eu não deixei coisa alguma. Martin não permitiu que eu interferisse — defendeu-se. — E por que você, que era o dono do animal, não fez qualquer objeção?


— Mas como eu podia adivinhar? Sou um leigo no assunto, lembra-se? E eu não sabia que você fosse alguém tão capacitada na área. Pensei que fosse uma... uma...


— Uma o quê?


— Bem, eu... Droga! Sei lá o que eu pensei! Você não parece uma especialista em poções. É bonita demais.


Hermione estava muito irritada para se envaidecer com o elogio. Os homens eram todos iguais. Para eles, uma mulher não podia ser bonita e inteligente ao mesmo tempo. Já perdera a conta das vezes em que precisara provar que era tão competente quanto qualquer profissional dentuça e de óculos.


— Obrigada pelo voto de confiança — comentou ela, com amargura.


— Eu só quis dizer que...


— Eu sei muito bem o que você quis dizer. Mas de que adianta tudo isso agora? O hipogrifo já está morto.


Encaravam-se com igual fúria, conscientes de que se um deles houvesse agido de forma diferente, aquele lindo puro-sangue ainda estaria vivo.


Hermione não queria prolongar a discussão. Deixara que a raiva a levasse longe demais, e estava um pouco envergonhada por ter perdido o controle. Deu as costas a Krum e aproximou-se da chave de portal. Levou os dedos adiante, e, por alguma razão absurda, sentiu que estava à beira das lágrimas. Justamente ela, que dificilmente chorava, muito menos no trabalho. Colocou os óculos escuros e transportou-se sem olhar para trás. Sabia que Viktor Krum devia estar parado no mesmo lugar, olhando-a sumir. Ora, ele que fosse para o inferno. Seus olhos encheram-se de lágrimas outra vez e um soluço escapou-lhe dos lábios.


Havia um parque não muito distante dali, onde Hermione costumava refugiar-se quando se sentia deprimida. Àquela hora, o lugar estaria praticamente deserto, e ela teria sossego para colocar as idéias em ordem.


Logo estava ali e caminhou entre as árvores até chegar às margens de um pequeno lago. Sentou-se na grama e encostou-se no tronco de um velho carvalho. Novamente as lágrimas deslizaram por suas faces, mas, dessa vez, ela não se importou. Há quanto tempo não se permitia chorar daquela forma!


Também, nunca se sentira tão cansada e desanimada antes, pensou com amargura. Aqueles dois meses de lutas infrutíferas para se firmar na profissão que escolhera estavam conseguindo minar, dia a dia, a confiança em si mesma. O sacrifício desnecessário daquele belo animal fora a gota d‘água. Ela sabia que poderia ter feito alguma coisa por ele, mas o preconceito das pessoas, sua relutância em confiar numa principiante impedira-a de agir.


Mas, talvez, todos estivessem certos e ela, errada. Talvez fosse melhor desistir das poções no Ministério e tentar a sorte em outro lugar. Já conseguira alguns clientes fora daquele lugar. Podia concentrar-se neles e tentar firmar sua reputação como mestre de poções ou professora. O que ela estava fazendo ali, afinal? Talvez estivesse apenas batendo a cabeça contra um muro intransponível. Mesmo que insistisse durante anos, as portas nunca se abririam para ela. Talvez fosse mesmo hora de desistir.


Talvez, talvez, talvez. Ela simplesmente não sabia o que fazer.


Um ruído de passos chamou-lhe a atenção, e, virando a cabeça, Hermione teve a desagradável surpresa de ver Viktor Krum caminhando em sua direção. Subitamente consciente das lágrimas em seu rosto, Hermione apressou-se em enxugá-las com as mãos, mas não tão rápido que Viktor não as notasse.


— Desculpe a intromissão, mas eu queria falar com você. Isto é, se você estiver disposta a me ouvir...


Hermione não queria falar com ele. Já havia feito papel de tola o bastante por um dia.


Além disso, estava constrangida porque ele a surpreendera chorando. Ergueu-se e deu alguns passos na direção do lago, tentando readquirir o controle de suas emoções.


— O que você quer? — perguntou quando sentiu que a voz soaria calma e segura.


— Eu quero pedir desculpas — explicou Viktor, aproximando-se.


— Desculpas? — estava surpresa com aquela atitude.


— É o mínimo que posso fazer depois da forma como censurei você. O que aconteceu não foi sua culpa — admitiu ele com sinceridade. — Mas é que, de repente, percebi que tudo aquilo foi uma insensatez, o sacrifício desnecessário de um lindo animal...


— Eu sei — concordou Hermione. — Senti a mesma coisa.


— Será que pode me perdoar, Srta. Granger? — perguntou, estendendo-lhe a mão. Sorria, mas em seu olhar ainda havia um traço de melancolia.


Durante uma fração de segundo, Hermione hesitou em apertar aquela mão. Mas, finalmente, estendeu a sua, e um inexplicável arrepio percorreu-lhe o corpo àquele contato. Ao encontrar os olhos castanhos e penetrantes à sua frente, surpreendeu-se dizendo:


— Pode me chamar de Hermione.


— Se você prometer me chamar de Viktor — afirmou, soltando a mão dela com alguma relutância. — Mas eu gostaria que tirasse esses óculos. Quero ver nos seus olhos se você me perdoou de verdade.


As mãos de Hermione ergueram-se lentamente, e ela atendeu ao pedido dele, colocando os óculos no alto da cabeça.


— Seus olhos são incríveis — disse Viktor, sorridente. — Tão amendoados e expressivos! — Riu com jovialidade, atirando a cabeça para trás. — Você nunca vai poder jogar pôquer.


— Não? E por quê?


— Porque os seus olhos revelam exatamente o que você está pensando.


"Espero que não", pensou Hermione. Um segundo antes, ela estava imaginando como ele seria na cama. Sempre fora muito cautelosa nesse assunto. Havia decidido não permitir que sua vida profissional e afetiva se misturassem. No Ministério, como em qualquer outro lugar, as fofocas se espalhavam rapidamente, como fogo em lenha seca. E ela não queria ver-se envolvida em especulações sobre a sua vida amorosa. Uma reputação de mulher fácil só conseguiria trazer-lhe mais problemas ainda.


Mas havia alguma coisa em Viktor Krum que a atraía mais do que gostaria de admitir. O que o tornava tão fascinante, tão perigosamente irresistível?


Há muito tempo Hermione não sentia aquela chama de desejo arder dentro de si.


— Quer uma prova? — insistiu Viktor. — Eu sei exatamente o que você está pensando agora.


— Tem certeza? — Embora seu rosto estivesse quente, Hermione estava decidida a levar aquele jogo adiante. — E o que é?


— Você está imaginando se eu vou convidá-la para jantar.


— Não diga! — exclamou, divertindo-se com a brincadeira.


— É sério! E você espera que seja ainda esta noite.


— Verdade?


— Você é uma mulher de sorte — continuou Viktor. — Consegue tudo o que quer.


Sorriu, deixando à mostra os dentes brancos e regulares que contrastavam com sua pele bronzeada. Fascinada, Hermione constatou que era um lindo sorriso. Mais ainda, porque ele possuía aquela boca tão sensual: lábios bem feitos, o inferior um pouco mais cheio. Imaginou o que sentiria se ele a beijasse, e, novamente, um calor subiu-lhe às faces.


— Você quer jantar comigo esta noite?


Hermione estava tentada a aceitar. Parecia hipnotizada por aqueles olhos, que possuíam uma tonalidade tão peculiar. Mas esforçou-se para desviar os seus. Não podia sair com clientes, nem mesmo um cliente em potencial. Não seria prudente. Sua vida já estava bastante complicada, e ela não queria piorar as coisas.


— Infelizmente, eu não posso...


— Eu vou buscá-la às oito — falou e, inclinando-se, beijou-a de leve na boca.


— Um momento, eu...


Mas Viktor já se afastava, caminhando na direção oposta.


— Vejo você às oito — gritou, antes de aparatar. Sua ausência abafou os protestos de Hermione. Levou a mão aos lábios. Ainda podia sentir o calor do beijo de Viktor.

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