Capítulo 20
Hermione achara a ideia de Harry uma completa perda de tempo, mas ainda sim consentira em pensar a respeito enquanto estivesse em Hogwarts. Contudo, o garoto não seria capaz de esperar por muito tempo. Algo daquela magnitude deveria ser resolvido naquele momento, enquanto ainda não estivessem tão tentados a continuar a ler os relatos de Amélia pelo diário. Sua amiga tinha um ponto, é claro, as chances de todas as peças se encaixarem era nula, mas ele precisava tentar.
_ Concordo com a Hermione dessa vez, cara. – disse Rony enquanto tomavam o elevador para o Departamento de Mistérios. – Essa ideia é absurda! Falar com Colin Preminger? Ele já deve estar morto!
_ Rony, eu me lembro bem. – insistiu Harry tentando manter a calma. – Ela disse ao Dumbledore que estava voltando da casa do primo, Colin, e que ele era o único que a recebia nos últimos tempos, isso foi no nosso quarto ano!
_ É e já se passaram quatro anos desde o nosso quarto ano. Sabe quanta coisa pode acontecer em quatro anos? Bem, você deve se lembrar. Voldemort pode voltar, as pessoas podem morrer em massa, pode-se arrumar uma namorada nova... enfim, muitas coisas! – disse Rony na defensiva. – É bem provável que ele tenha morrido nesse meio tempo. Amélia disse no diário que era terrível viver mais do que a sua família. Ela deveria estar se referindo a sua geração.
_ Ainda assim, é claro que os Preminger que ainda existem sabem a respeito dela. Só precisamos...
_ O que? Sair por aí entrevistando todos os Preminger do mundo?
_ Basta ir até o registro do mundo bruxo. Eles têm todas as informações das famílias puro sangue... Amélia deve ter contado para alguém da família, Rony. Ela deve ter contado para alguém onde está...
_ Cornélia também deve estar morta... e quem sabe Amélia também não se foi? Se era tão velha quanto Dumbledore...
_ Ela está viva! – exclamou Harry chamando atenção dos funcionários para si.
_ Cuidado, ou vão tornar a achar que você é maluco. – advertiu Rony com tom piadista, empurrando o amigo para dentro da sala deles.
_ Rita Skeeter se aposentou no que tange minha reputação.
_ Podemos simplesmente ir até a Mansão Preminger. Sabemos que fica em Bath. – comentou Rony ao ouvir seu amigo bufar pelo cansaço. – Olha, mesmo que achássemos esse cara, o tal Colin, não é garantido que ele saiba alguma coisa. Perderíamos a viagem e possivelmente ele instauraria um inquérito se soubesse que estamos investigando. Não, é melhor continuarmos na surdina. Ninguém precisa saber que estamos interessados em Amélia Preminger. Prometemos ao senhor Doge que isso não viraria um livro.
_ É... tem razão.
O que talvez custasse a Harry admitir era que estava não só interessado em descobrir a localização de Amélia Preminger, mas também descobrir tudo o que pudesse sobre aquela família. A jovem deixara passar sua ligação com os Potter e que sua irmã mais velha se casara com um, portanto, era como se fossem da mesma família. Amélia era sua parenta e ele queria se envolver em sua vida. Rony não falara por mal, mas foi a possibilidade de suas palavras que o perturbara. E se ela estivesse mesmo morta e tudo aquilo não fosse em vão? Contudo, ele se recusava a acreditar nisso. Uma mulher forte que aguentara todo aquele sofrimento não poderia ter morrido ainda. Ele achava que mesmo Dumbledore teria vivido mais se não fosse a maldição... não... Amélia estava viva e ele a encontraria.
_ Então? – cortou Rony com cautela. – Quando vamos até a mansão?
_ Não sei... mas não vão liberar a gente... quer dizer, não hoje.
_ Por quê? Não estamos fazendo nada... – comentou Rony rindo. – Mas é melhor esperar pela Mione mesmo. Ela nunca nos perdoaria se fôssemos sem ela.
_ A casa deve ficar aberta para visitação aos fins de semana. Não poderemos bisbilhotar no meio de turistas.
_ Deixe comigo, então. – cortou o ruivo pegando um pedaço de pergaminho para escrever apressadamente um recado para Gina. – Gillian!
_ Sim, senhor Weasley!
_ O de sempre. – respondeu ele entregando o pedaço para ela.
_ O que você está tramando?
_ Qual é, eu sou irmão de Fred e Jorge Weasley. Observe! – disse dando uma piscadela marota. – Senhor Trawley! Senhor Trawley!
_ O que houve, Weasley?
_ O senhor precisa nos liberar! A minha tia avó está passando muito mal e precisamos ir até sua casa para cuidar dela!
_ Que conversa fiada é essa, Weasley? – indagou Trawley.
_ Não é conversa, senhor. Minha tia avó Callidora, senhor, ela não é adepta aos métodos do St.Mungus... sempre foi muito difícil para nossa família, mas, tem uma saúde de ferro. Contudo, recebi uma mensagem da minha irmã dizendo que ela está passando mal e precisa de cuidados. Minha mãe pediu para que fôssemos... Oh, como ela ficará chateada se algo acontecer...
_ Eu...
_ Ah, aí está você, Ronald Weasley! Ainda não está pronto? Já deveríamos estar lá... Ah, pobrezinha. – disse Gina aparecendo de repente ao lado de Rony, mirou Harry com um sorriso escondido e em seguida para Trawley. – Sabe como é, senhor. Quando a idade vai chegando... e ela nunca gostou de Hospitais... pobre, titia...
_ Está bem, Weasley, pode ir.
_ Harry também, senhor.
_ Potter?! – Trawley exclamou. Já não engolira completamente a estória, e agora ficara realmente desconfiado. – Isso é um assunto de família, por que Potter tem que ir?
_ Harry é da família, senhor. – interveio Gina. – Ele é meu namorado... Não seria capaz de negar-me auxílio emocional caso... caso titia...
_ Está bem, está bem... mas vão logo!
_ Obrigado, senhor. – agradeceu Gina abraçando-o.
_ Como chegou tão rápido? – indagou Harry a ruiva quando já estavam fora do alcance dos ouvidos de Trawley.
_ O de sempre significa o expresso. – respondeu Rony.
_ Rony me pediu para chegar depressa até vocês. Só tive que perguntar ao carinha das informações onde ficava o seu escritório, o resto foi moleza. Mas, afinal, que assunto urgente é esse? – perguntou para o irmão.
_ Vamos até Bath, até a Mansão Preminger.
_ Entendi. – assentiu Gina. – Sem Hermione? Ah irmãozinho... ela vai ficar uma fera com o senhor.
_ Eu corro o risco.
_ E mais... vocês têm uma tia avó Callidora?
_ Temos. – respondeu Gina. – Ela é do lado Black, mas nem me pergunte como ela é.
_ Nunca a vimos, mas é irmã da nossa avó. Papai disse que ela é mesmo o demônio.
_ Cara, eu nunca imaginei que mentiria para fugir do trabalho. – comentou Harry sorrindo.
_ E eu nunca pensei que me preocuparia com a saúde de uma tia avó que nem conheço. – brincou Rony fazendo a irmã e o amigo rirem.
†††
Bath era uma cidade encantadora e todas as construções da era Georgiana faziam com que Harry conseguisse imaginar a jovem Preminger vivendo ali. Amélia deixara escapar que sua casa ficava nos arredores da cidade, próxima mas não dentro, então, o grupo tomou um táxi que os levaria até os arredores da cidade.
_ Conhece a Mansão Preminger, senhor? – indagou Harry de pronto para o motorista.
_ O que? Aquele casarão abandonado? Existem lugares melhores para se conhecer em Bath. – respondeu com uma pitada de desdém ao se referir a casa.
_ Ninguém vive na casa? – inquiriu Gina curiosa.
_ Até pouco tempo sim, mas resolveram deixá-la. Esse pessoal rico tem mais casas do que parentes para ocupar os quartos que têm nelas. Desde então, está vazia. Anualmente é aberta para visitação, mas hoje está trancada. – explicou o motorista. – Vejam só!
E lá estava a mansão. Imponente, exatamente como Amélia dissera, mas já sem um pouco do brilho desde a época em que fora construída para cá. A falta de quem cuidasse de seus jardins, no entanto, não parecia ser visível, visto que as folhagens estavam muito verdes. Provavelmente um feitiço. Os portões, outrora azuis, estavam gastos e ganhando ferrugem. Mas isso não diminuiria o interesse do garoto por ela. O motorista deixou-nos num pub próximo da casa e logo que acabaram de beber alguma coisa, desceram em direção a construção.
_ Como vamos entrar? – perguntou Gina e magicamente os portões se abriram. – Foi mais fácil o do que pensei.
_ Tudo aqui é enfeitiçado. – observou Rony. – Os jardins foram plantados com algum tipo de mágica que os preservasse para sempre, e os portões foram enfeitiçados para que se abrissem para qualquer bruxo. Parece que os Preminger dessa geração não ligam para receber visitas. – comentou.
_ Vamos entrar. – disse Harry apressando-se.
Bem como os portões, as portas da mansão também se abriram magicamente para que o trio pudesse adentrar a casa. O ruído das dobradiças enferrujadas repercutiu por todo o salão principal. Estava deserto e todos os móveis cobertos por lençóis brancos. As palavras de Amélia repercutiram na cabeça do garoto “Um lar... do qual sinto saudade. Embora saiba que não é o mesmo sem Cornélia tocando o piano, Edmundo correndo pelos corredores, Colin contando piada com os empregados e mesmo com os passos rápidos de tia Sarah pelo corredor... É duro viver mais do que a sua família.”. Dificilmente ele seria capaz de imaginar, nas condições que tinha agora, os irmãos Preminger correndo por aquela escadaria ou mesmo pelos corredores que levavam aos outros cômodos.
Fazendo sinal para que o amigo e a namorada o seguissem, os guiou por onde achava que levaria até a sala de Cornélia. Outra porta que rangia, mais móveis cobertos por lençóis. Aquela visão era potencialmente cinza, mas Harry foi capaz de ver Dumbledore e Amélia sentados na banqueta conversando sobre a lembrança mais feliz da moça, mas isso não fez com que a frustração diminuísse. De fato, ele estava esperando por um lugar completamente diferente e não algo morto.
_ Ei, venham aqui. – chamou Gina. Harry mirou Rony, que sorriu com caridade, e então saiu atrás da namorada, fechando a porta atrás de si. – Olhem só!
Eram quadros apoiados em cavaletes. Deveriam estar tampados também, pensou Harry, mas sua namorada era mais ousada que ele quando o assunto era xeretar. Contudo, o que impressionou o garoto quanto aquela sala não foi a quantidade de pinturas e desenhos, mas o fato de que elas pareciam conter somente um tema. Amélia. Visões dela com pessoas nos bares de Paris, acompanhada de um cavaleiro num grande vestido rosa num desenho a lápis que, segundo a legenda, mostrava a chegada dela num baile de máscaras... O autor era... Toulouse-Lautrec? Harry ouvira aquele nome antes, um artista trouxa francês. Outros eram apenas desenhos de um rapaz chamado Marius e ao final do corredor deles, uma aquarela de Amélia pintada por Cornélia.
Ocupava um dos cavaletes grandes e mostrava sua irmã mais velha sentada sobre uma pedra usando um vestido branco longo, ao fundo um coreto e vegetações espessas. O jardim de alguma casa talvez? Pensava o garoto. Os detalhes em seu rosto eram amenos, o que o fez lamentar. Nenhuma daquelas representações davam grandes detalhes da aparência de Amélia, que continuava a ser um mistério para o garoto, mesmo com a lembrança de Dumbledore e a foto do ministério...
_ Acho que encontrei o que você quer. – disse Rony tocando-o no ombro.
Lá estava um desenho assinado pelo tal Marius e continha todos os traços de Amélia. O garoto já a considerara bonita com cem anos, na lembrança de Dumbledore, mas vendo-a tão jovem pode ter certeza. Os traços da jovem Preminger eram delicados, bem como o sorriso que carregava no desenho, com as sobrancelhas cheias e os cabelos castanhos cacheados. Contudo, o traço mais ressaltado eram seus olhos. O tom amendoado acastanhado mais belo que já vira... parecia que havia mágica dentro deles, como o senhor Weasley dissera.
_ Devemos deixar vocês dois sozinhos por quanto tempo? – indagou Gina zangada.
_ O que...? Ah, perdão, Gina... é que...
_ Sim, ela é bonita e daí? Vocês Potter sempre preferiram as ruivas! Pensei que fosse o meu irmão a preferir as morenas. – retrucou com ainda mais impaciência.
_ Não me metam nisso. – interrompeu Rony enquanto analisava um retrato de Cornélia. A irmã mais nova também era bela, tanto quanto a mais velha descrevera, e de fato, lembrava um pouco a própria Fleur com seus traços de Veela. Possuía os mesmos traços delicados de Amélia e o sorriso meigo e usava o que parecia ser um ursinho na cabeça. – O que é isso na cabeça dela?
_ Uma touca de pele, era moda. – respondeu Gina.
_ Vamos subir para o quarto da Amélia. – sugeriu Harry olhando uma última vez para o desenho de Marius antes de sair.
O quarto da jovem Preminger também estava coberto com branco, como se alguém tivesse morrido ali. A penteadeira estava vazia e não havia flores novas na mesa perto da janela, nem caldeirões de chocolate sobre o travesseiro. Gina sentou-se na cama e levantou os lençóis sobre o criado mudo, abrindo as gavetas para ver se encontrava alguma coisa, enquanto Rony ia em direção ao guarda roupa e o abria.
_ Achei! – disseram em uniosso. A ruiva erguera um exemplar de Transfiguração Hoje assinado por Dumbledore e com uma nota de Amélia: tenho um amigo famoso. E Rony apontava para o que deveria estar na penteadeira: o perfume da garota, sua maquiagem, um retrato da família Preminger. Também estavam lá suas roupas e o malão de Hogwarts. Enquanto Gina se concentrava no bom gosto da jovem Preminger, os dois amigos remexiam seus pertences da escola.
_ Está tudo aqui! – surpreendeu-se Harry. – Os livros e os cartões de Dumbledore... Olha esse, “perguntar ao senhor gênio”... – e mais. O cachecol da Grifinória, penas e o tinteiro com a tinta já seca, sua grade horária (não muito diferente da dele durante sua época.), figurinhas dos Sapos de Chocolate, um baralho de Snap Explosivo. – Pensei que ela só jogasse xadrez com o Dumbledore.
_ A vida deles não se resumia somente ao que está no Diário. – retrucou Gina alcançando uma latinha retangular. – Ei, fotos!
O trio se aconchegou na cama para observar Amélia, Elifas e Alvo sentados na arquibancada dos jogos de quadribol, parados frente à cerca que barrava a entrada para a casa dos gritos, fingindo estar assustados (essa os fez rir), agora com Linda na torre de astronomia sorrindo animadamente para quem quer que estivesse com a câmera. Observaram Amélia dormindo nos braços de Dumbledore, que também cochilava numa das poltronas do dormitório, provavelmente vítimas de uma piada de Elifas, os mesmos jogando uma partida acirrada de xadrez. Preminger e Doge dançando em frente ao lago negro segurando seus N.O.M.s enquanto Dumbledore os aplaudia. Entre várias outras.
Ficaram encantados por poder observar o jovem diretor curtindo com seus amigos. Já estava começando a deixar o cabelo crescer no que seria o sexto ano e Elifas ainda o usava curto. Amélia, no entanto, trazia sempre o mesmo penteado. Um coque mal terminado que a fazia se parecer muito com uma versão sinistra de Minerva McGonagall. Por fim, Gina tornou a retirar alguma coisa do malão. Dessa vez, uma caixinha de madeira envolta por um laço cor de rosa.
Cartas de anos de amizade, desde o primeiro ano, estavam lá dentro, envoltas por um véu azul. Harry apanhou a primeira com a caligrafia de Dumbledore datada do sexto ano.
“Amada Amélia,
Sei que lhe escrevi há poucos dias e que me pediu para retrair-me na forma como a chamo. Contudo, não deve esperar que eu deixe de chamá-la de minha ou de meu amor, porque é isso o que é. Que felicidade finalmente poder dizê-lo em alto e bom tom depois de cinco anos fingindo que só estava interessado nas nossas partidas de xadrez. Enfim, apenas respondendo ao primeiro assunto levantado por sua carta, querida.
Há poucos dias, Abeforth deixou passar que eu arranjara uma namorada. Não me mate, eu sei que era segredo, mas meu irmão estuda conosco e é impossível manter o segredo nessas condições. Espero que tenha mais sorte. De qualquer forma, minha mãe ficou encantada e ao mesmo tempo magoada por eu não ter contado antes. Mostrei a foto que tiramos em Hogsmeade e ela vibrou por você ser tão bonita, foi a minha vez de ficar ofendido. Ora, minha própria mãe achando que eu me interessaria pela lula gigante... Mas eu a perdoei por isso.
Se bem que beleza é relativo. Sua tia não consegue admitir que você é tão bela quanto sua irmã e minha mãe disse que sua nora é a mulher mais bela do mundo mágico. Aproveite a informação para se gabar interiormente enquanto estiver discutindo com Sarah, se ousar.
Seu,
Alvo.”
Ainda analisando a correspondência, ele encontrou algumas com selos franceses e abriu-as imediatamente. Se estavam prestes a saber o que se passara na França, aquelas cartas seriam uma bela forma de começar.
“Amélia,
Fico contente que sua estadia em Paris esteja sendo proveitosa e que esteja conseguindo alcançar seus objetivos acadêmicos, bem como auxiliar nas habilidades artísticas de sua irmã. Contudo, não estaria sendo sincero se afirmasse que fiquei plenamente feliz ao receber sua última carta.
De que me acusa? De buscar me distrair enquanto você e Elifas vivem suas vidas no estrangeiro? Sou culpado por minha inveja de sua condição, embora tenha prometido a mim mesmo tentar evitá-la desde sua partida no enterro de minha mãe. Não pense, minha querida, que me esqueci de meus sentimentos... esses que me impedem de ter noites completas de sono... ainda consigo sonhar com aquela noite no Caldeirão Furado e das palavras que dissemos... Porém, ao mesmo tempo com Gerardo...
Queria que o ouvisse falando sobre seus planos para a sociedade bruxa. Sua razão sobre como os trouxas precisam de nós para ordená-los é irrefutável. Não considero dúbia e questionável como você afirmou, afinal, se parar para pensar, se estivéssemos no controle dos trouxas, Ariana não precisaria permanecer escondida. A ideia de Gerardo garante que esse novo mundo será capaz de nos libertar, enquanto agora permanecemos presos.
Um dia, minha querida, você irá entender e sei que irá se desculpar por ter julgado Gerardo erroneamente. Falei de você uma vez para ele, tenho certeza de que seriam muito bons amigos. Mais uma vez peço para que não passe isso ao Elifas, os detalhes são somente seus.
Com a certeza de que a verei em breve e poderei beijá-la,
Lvo”
A carta deu a Harry a mesma sensação de quando lera “A vida e as Mentiras de Alvo Dumbledore”, e ele esperava um dia poder ver a reação de Amélia. Contudo, muito surpreendentemente, a resposta dela estava no mesmo envelope que aquela carta. Possivelmente não tivera coragem para enviar.
“Alvo,
Eu sei que muitas vezes Elifas e eu podemos agir de forma egoísta ao narrar nossas aventuras durante nossas viagens, mas assim como você vive a rotina de sua casa, isso que com tanta inveja você lê é a nossa rotina. Não é nossa intenção prejudicá-lo; de fato, sabe o quanto gostaria que estivesse aqui comigo. Contudo, ninguém conseguiria prever a morte de sua mãe.
Entendo que esteja animado com seu novo amigo, que se diz tão brilhante quanto você, mas eu apenas imploro que não se cegue... Elifas esteve aqui ontem. Conversamos e chegamos a uma conclusão que pode não agradá-lo. Na verdade, ele insistiu no meu silêncio, mas não poderia me calar frente a um assunto que me diz respeito e que com tamanha força me entristeceu.
Irei direto ao ponto, portanto... Você está amando esse homem. Não se choque, não refute, sabe que é verdade. E ele está usando seu amor contra você para manipulá-lo. Imploro para que não se cegue diante disso... sempre foi tão inteligente. O fato de estar apaixonado por um homem não é o que me ofende, já estou convivendo com tantas variedades de pessoas diferentes que esse tipo de sentimento não mais me assusta... talvez Gerardo tenha algo que eu não ofereceria, mas é o homem por trás de tudo que me assusta.
O que sabemos sobre Gerardo Grindewald além do afirmado pela senhora Bagshot? Parentes sempre exageram nas qualidades de outros parentes e abstém-se da verdade quanto aos seus defeitos, eu bem sei. Refutará afirmando que ele não mentiria para você e eu direi que está sendo ingênuo. Quantas vezes não mentimos um para o outro quando em Hogwarts? Claro, por razões nobres, mas nos conhecemos desde crianças. Como pode ousar acreditar em quem conhece há meses?
Conheci um professor de Durmstrang que se recusou a falar sobre o que acontecera na expulsão de seu amigo. O que podemos concluir sobre isso, além de que Gerardo não é flor que se cheire? Quanto a Ariana, nossas opiniões divergem. Não será pela sua dominação frente a um povo que a aceitação dela será mais fácil, os trouxas sempre falharam em aceitar o diferente. Ela sentiu medo de mim que, até onde sei, não aparento ser má, pense numa rua cheia de pessoas novas.
Pense Alvo, talvez nunca mais venha a falar comigo após essa dura leitura, mas tenha em mente que desejo apenas sua felicidade e seu progresso, e não vejo nada disso enquanto estiver aliado a esse homem.
Eu o amo.
Eu o amo.
Eu o amo.
Sua de corpo e alma,
Amélia.”
Harry fechou o envelope com as duas cartas dentro, incapaz de continuar.
_ Eu não acredito que ela não enviou. – disse Gina tirando as palavras da boca do namorado.
_ Talvez tenha enviado e ele tenha mandado de volta, incapaz de responder. – sugeriu Rony. – Vamos descobrir no diário... E o que faremos com isso? – disse se referindo ao malão.
_ Vamos levar... quer dizer, Hermione pode querer dar uma olhada também. – disse Harry ao passo que os outros dois confirmaram.
_ Muito bem, agora já chega! Exijo saber quem está falando! – urrou uma voz completamente desconhecida.
Os três saltaram da cama e miraram os vários móveis embrulhados em lençóis. Quem teria falado? Gina, no entanto, foi mais rápida. Com aceno forte da varinha, conjurou o “Revelium” e quando viram, um enorme quadro de moldura dourada estava no chão.
_ Ergam-me! Agora! – tornou a gritar a voz de uma mulher, embaçada pelo chão. Assim que devidamente erguida e posicionada em apoio à mesa, o trio pôde analisar sobre quem se tratava. Era o quadro de uma mulher de meia idade bonita, tinha os cabelos castanhos como os de Amélia e...
_ Sarah Preminger? – adiantou-se Harry.
_ Sim. – respondeu a figura com impaciência. – E quem são vocês? O que fazem aqui?
_ Sou Harry Potter e...
_ Um Potter?! – exclamou Sarah Preminger. – Bem, é certo que temos parentesco, mas você não vê gente da minha família invadindo as casas da sua gente.
_ Não teríamos uma casa como essa para ser invadida...
_ Eu sei. Apenas os Malfoy têm uma residência tão protuberante. – disse Sarah enchendo-se de orgulho. – Ainda não me disseram o que estão fazendo aqui.
Harry parou para analisar os olhos da mulher. Amélia mencionara que eram de um verde ácido muito marcante, mas em nenhum momento deixara escapar o quanto seria impossível mentir diante deles. Perfuravam e machucavam quase sem querer, como se fosse algo inerente. Também reparou na voz da matriarca. Gutural como se estivesse narrando um mistério a cada linha ou tentando seduzir alguém, imponente para lembrar a quem estivesse ouvindo que ela estava no comando e melodiosa, pois um dia talvez tivesse sido uma adolescente rebelde e feliz.
_ Estamos...
_ Harry. – advertiu Rony.
_ Ah, qual é! Ela é um quadro numa casa abandonada, não vai processar a gente. – retrucou o garoto com impaciência, voltando a mirar Sarah que o encarava com desconfiança... não seria capaz de mentir para aqueles olhos. – Estamos procurando por sua sobrinha Amélia.
Sarah Selwyn Preminger engoliu em seco e assumiu uma postura diferente, mais régia do que antes, parecia que estava tentando esconder as lágrimas que Harry e seus amigos viram formar-se no canto de seus olhos. Amélia falara tão mal sobre aquela mulher, que para eles, ela era incapaz de demonstrar sentimentos humanos. Contudo, aquilo só aumentou a curiosidade deles. Sarah percebeu e tratou de limpar a garganta para disfarçar.
_ Não vão encontrá-la aqui. – respondeu prontamente. – Ninguém sabe aonde aquela criaturinha ingrata se meteu... sumiu no mundo... Nenhum de seus sobrinhos netos sabe onde pode estar, muito menos eu.
_ É, eu sei que ela não teria revelado nada a senhora. – comentou Harry com um tom mais desdenhoso do que pretendia. A expressão da figura se tornou amena.
_ E eu sei o que ela pensava de mim. – retrucou com uma pitada de falsa indiferença na voz. – Minha sobrinha sempre deixou muito claro os seus sentimentos. Era raro não discutirmos... sangue da mãe. Achava-se a dona da razão, como se eu não fosse humana, não me importasse... eu dediquei a minha vida aos quatro... meus sobrinhos e meu filho... Como ela ousava afirmar que eu não me importava? Mas, claro, a mocinha queria agir conforme seus interesses. Isso não é possível para um sangue puro...
_ Ela se casou mesmo com Black. – disse Gina guiando a afirmação para a linha da dúvida.
Os olhos verde-ácido tornaram-se quase gentis de repente e mais lágrimas se uniram, mas nenhuma caiu.
_ Amélia nunca me perdoou... ela nunca perdoou ninguém por todos aqueles anos. Eu nunca quis que... Quando me casei, passei por provações e também não amava meu marido, mas ao menos nos respeitávamos... um casamento não pode ocorrer se o respeito não existir, não quando é arranjado. Contudo, eu ignorei o asco que eles sentiam um pelo outro, era tão comum na família Black que pensei que seria mais uma versão de Arcturus Black e Lysandra Yaxley, jamais preveria...
_ O que? – inquiriu o rapaz.
Ela emudeceu e foi desaparecendo da moldura aos poucos. Harry tentou chamá-la para que voltasse, mas em vão. Tia Sarah não mais falaria. Já estava ficando tarde e Trawley não acreditaria que era uma visita médica por muito mais tempo, eles precisavam ir embora. Juntaram tudo no malão e o diminuíram ao tamanho certo para que entrasse num de seus bolsos. Rearrumaram os lençóis no lugar e desceram as escadas para a saída. Antes de fechar os portais de madeira uma última vez, Harry pôde ter certeza de ter ouvido a voz de Sarah do saguão.
_ Encontre-a e peça perdão por mim.
Contudo, não a viu. Dessa vez sem o táxi, pois não havia trouxas à vista, aparataram para o ministério. Hermione teria muitas novidades para ouvir quando voltasse de Hogwarts no fim de semana.