Capítulo 14
_ Certo, Hermione, é a sua vez. – disse Rony após um longo período de silêncio, jogando o diário no colo dela.
_ Ai! Cuidado, Rony. – ralhou segurando-o no ar. – E porque a minha vez?! Eu já li bastante. Acho que é a vez da Gina. – sugeriu a morne, entregando o diário para a amiga.
_ Harry? – sugeriu a ruiva, sorrindo sugestivamente.
_ Está bem. – concordou ele reabrindo o livro. – Mas, se eu sofrer danos psíquicos depois disso, eu vou reclamar com você, ruivinha.
Infelizmente, aquela felicidade por ter sido amada a primeira vez não durou muito.
Na manhã seguinte, toda a sensação de culpa pela noite anterior caiu sobre mim com a força de um Avada Kedavra. De verdade, eu não me arrependera por aquela noite, mas, chegaria o dia em que teria que comprovar para meu marido que seria somente dele, e isso incluía manchar meus lençóis com sangue. O que não aconteceria visto que meu lacre já havia sido rompido.
Aquela vibração de culpa me impediu de sair da cama pela manhã e muitos começaram a perguntar sobre a minha saúde quando minha presença foi sentida nas aulas. Tanto que Alvo aparecera para me checar uma ou duas vezes, sendo repelido por mim. Não conseguiria olhar nos olhos dele e dizer que precisava arrumar uma maneira de voltar a ser virgem, como se de repente tivesse me arrependido de me entregar a ele. Seria demais ver a decepção nos olhos dele.
Consciente de que não poderia ficar no dormitório para sempre, acabei descendo para o almoço, evitando os olhares de meus colegas. Elifas tentou falar, bem como Alvo, mas eu os ignorei completamente e isso pareceu constranger Alvo ainda mais. A refeição foi singela e me deu tempo suficiente para correr atrás da única pessoa que me ouviria aquela altura. Linda.
Ela estava sentada na biblioteca com uma garota do primeiro ano da Corvinal, parecia estar ensinando alguma matéria a ela, isso não veio ao caso naquele momento.
_ Linda, preciso falar com você. – disse ofegante, fazendo-a me olhar desconfiada.
_ Ah... tudo bem. Wendy, nós continuamos amanhã. – desculpou-se Linda dispensando a menina. – O que aconteceu? – indagou preocupada quando alcançamos um local mais quieto para conversar.
_ Eu preciso da sua ajuda. – implorei.
_ Primeiro vai ter que me contar o que aconteceu, Amélia Preminger.
Céus, como falar aquilo para ela? Quer dizer, ela era uma pessoa confiável, sempre foi, mas, só por um momento eu queria que ela tivesse um super cérebro de Corvinal para entender o que havia se passado sem que eu precisasse explicar, e me desse mais confiança de que tudo ficaria bem no final. Contudo, não foi o que aconteceu e eu tive que relatar a Linda que na noite anterior, quando saímos da festa, Alvo e eu fomos até o banheiro dos monitores e fizemos amor dentro da banheira. Primeiro, ela me fitou como se eu estivesse mentindo, mas a minha expressão denunciou o contrário. Então, ela se segurou para não gritar.
_ Eu não acredito... Amélia! Você... Alvo... Você... Ah! – ela exclamou dando soquinhos no meu ombro. – E depois vem falar para mim que Elifas e eu somos safados... Vocês praticamente violaram a castidade da banheira do banheiro dos monitores. – ralhou. – Se bem que eu duvido que nunca tenha acontecido antes. – acrescentou pensativa.
_ Certo, eu cometi um erro. Por mais que eu não ache que tenha sido um erro tão ruim...
_ Doeu, Amélia? – ela inquiriu toda maliciosa, e por um momento me perguntei se aquela era a Linda de Elifas Doge.
_ Eu não... ele estava tão confiante que nem reparei se...
_ Então ele soube o que fazer com você... terei que fazer inveja no Eli caso ele não consiga me satisfazer, o que duvido muito... – comentou ela mais para si do que para mim.
_ Linda! – exclamei nervosa. – Foco, eu não estou te contando isso para me gabar por ter tido um orgasmo, eu preciso da sua ajuda!
_ No que exatamente? – devolveu ela cruzando os braços.
_ Bem, eu tive uma noite de amor com alguém que não é meu marido e que, segundo as leis pelas quais nossas famílias foram regidas, nunca poderá ser. Contudo, isso não elimina o fato de que eu vou ter que me casar um dia e quando isso acontecer vou ter que sujar um lençol de sangue e isso não vai acontecer se eu não for virgem. Entendeu o problema? – joguei com a voz esganiçada.
Linda abriu a boca para falar e tornou a fechá-la logo em seguida. Ela sabia que eu estava certa e que toda aquela paixão traria apenas lágrimas no futuro... Enfim, finalmente, quando ela conseguiu pensar em algo para falar, tomou meus braços nos dela e continuou a caminhar comigo.
_ Não se preocupe, você não é a primeira a passar por isso. – contou com a voz mais calma. – Sabe, tenho uma prima que também perdeu a virgindade com alguém que não era seu marido e ficou muito preocupada com isso. O casamento dela estava marcado para um mês depois, precisava agir rápido. Então, ela foi aconselhada a visitar um boticário da vila que sabia fazer uma poção forte o bastante para devolver a virgindade dela.
_ E?
_ Ela falou com o homem e bebeu a poção. Na noite do casamento, ela sangrou. – explicou Linda.
_ Mas onde esse homem vive? E como eu faço para conseguir essa poção? Não tem chance de eu ir até a vila da sua prima e consegui-la. – lembrei-a.
_ Não precisa ir até lá. Pelo que sei, essa poção faz parte do livro Poções Mui Potentes que temos na biblioteca. Só precisamos pegá-lo e arrumar uma forma de prepará-la. – ela tornou a explicar.
_ Brilhante! – disse feliz.
_ Só tem um problema. Ele está na sessão reservada... e somente um professor pode retirá-lo para nós. – acrescentou Linda e meu sorriso desapareceu.
_ E como vamos explicar para um professor que precisamos desse livro? Olá, eu fiz sexo com meu namorado na noite passada, mas sou de família puro sangue e preciso garantir minha virgindade para me casar, caso contrário, serei deserdada. Ah, você já conheceu minha tia Sarah? Ela é capaz de esfolar uma pessoa só por usar o garfo errado, quem dirá por ter tocado em sua sobrinha. Pode, por favor, salvar a mim e ao meu namorado? – ironizei gesticulando.
_ Você andou aprendendo a ser dramática com a Mary Loyal? – brincou Linda reprimindo o riso.
_ Linda! Eu vou pedir mais uma vez, Foco!
_ E como você quer que eu mantenha o foco com você gesticulando desse jeito? Eu não consigo acompanhar seus braços assim. – zangou-se ela com uma imitação perfeita dos meus gestos. – E está fazendo tempestade no copo d’água. Seu namorado é monitor, fale com Alvo e peça a ele para inventar uma desculpa, os professores o idolatram. Fariam qualquer coisa que ele pedisse. – acrescentou.
_ Haha, e como eu vou falar para o Alvo que preciso cancelar o que fizemos na noite passada, partiria o coração dele. Eu não quero magoá-lo. – disse com a voz trêmula.
_ Quem você não quer magoar? – o ouvir dizer atrás de mim.
Eu me virei num salto digno de uma lebre assustada e o encarei nervosa. Ele, no entanto, mirava meus olhos com uma expressão branda e por um segundo eu me senti mais calma, mas não por muito tempo.
_ Alvo. – disse simplesmente.
_ Eu vou procurar a Carol, combinamos de estudar poções juntas. – interveio minha companheira me olhando com significado ao mencionar a palavra poções, saindo em seguida.
_ E então, Amélia? Quem você não quer magoar? O motivo de ter matado aula quase o dia todo? – ele continuou a indagar.
_ Eu... estava me sentindo mal. Precisava descansar. – menti me aproximando dele
_ Ora, então por que não foi para a enfermaria ao invés de morrer sozinha no dormitório? – retrucou Alvo com os olhos brilhando, espertos.
_ Eu...
_ Diga-me a verdade, Mélia. Se está envergonhada pelo que fizemos ontem, você não precisa... foi perfeita. Eu que deveria estar assim por ter me aproveitado de você, mas, estava tão bonita...
Como eu poderia dizer algo quando ele falava daquela maneira? Alvo sempre teve jeito com as palavras e eu odiava quando conseguia usá-las contra mim, me desarmando e deixando sem opções. Não conseguiria falar.
_ Arrependida? Como poderia ficar arrependida por ter feito algo que desejava há muito tempo? Eu jamais poderia me arrepender, eu o amo, Alvo. – disse tomando o rosto dele entre as mãos, beijando-o.
_ Então porque não foi até a aula hoje de manhã? Não pode achar que pode negligenciar Transfiguração só porque seu namorado é bom nessa matéria. – comentou ele.
_ Não foi nada, sério, só precisei de mais um tempo para pensar em ontem. Mas, agora eu estou ótima e prontinha para uma segunda vez se você quisesse. – brinquei com um sorriso malicioso.
_ Vamos com calma, senhorita Preminger, ou essa escola vai acabar virando um bordel. – brincou ele me fazendo gargalhar.
_ Senhor Dumbledore, senhorita Preminger! – ralhou a professora Hadassa, convenientemente aparecendo atrás de nós. – Venham comigo.
À medida que nos aproximávamos do escritório da professora eu sentia que estávamos cada vez mais próximos do inferno. Quando finalmente chegamos e ela disse que queria falar comigo primeiro, eu realmente soube que havia chegado ao inferno.
_ Então, senhorita Preminger, pode me explicar por que você e o senhor Dumbledore transformariam essa escola em um bordel? – lançou diretamente a professora.
_ Ah, não é nada professora, apenas brincadeiras comuns entre um casal. – apressei-me em responder. Contudo, Elinora Hadasssa era irascível
_ Não foi o que me pareceu. – disse com as mãos entrelaçadas sobre a mesa. – Eu pensei ter visto à senhorita e ele voltando para o dormitório ontem à noite, do quinto andar?
_ Eu...não sei o que a senhora quer dizer. – engoli em seco.
_ Ora, já sou professora há tempo suficiente para reconhecer um feitiço de desilusão quando vejo um. – comentou com um sorriso seco.
Linda mencionara que deveria pedir ajuda a um professor. Talvez fosse sensato falar com a chefe da minha casa.
_ Professora se eu lhe contar a verdade, prometeria que ninguém ficaria sabendo... nem mesmo Alvo? – perguntei cautelosamente.
_ Eu não sei por que ele deveria ser excluído, pelo que percebo teve grande participação no que estou prestes a ouvir. – enalteceu ela com ironia.
_ Por favor, professora...
_ Está bem, senhorita Preminger eu...
_ Jure!
_ Senhorita Preminger, ousa desconfiar da minha palavra?
_ Com todo o respeito professora, mas nas atuais circunstâncias, sim. – rebati séria.
_ A senhorita tem a minha palavra... e a minha atenção. – assegurou Hadassa.
_ Ontem à noite, Alvo e eu fomos até o banheiro dos monitores e... fizemos amor. E, talvez, a senhora pense agora que fui muito irresponsável, mas, acredite, eu pensei no que estava fazendo. Mas estava tão embalada pela situação que... apenas permiti que acontecesse. E, agora...
_ Agora a senhorita não é mais um bom prêmio para qualquer bruxo e isso dificultará sua vida. – concluiu Elinora. – Eu cursei essa escola com sua tia, senhorita, sei como são as regras.
_ Bem, eu não sou muito fã delas. Contudo, a ideia de nunca mais poder ver meus irmãos ou meu primo me desagrada em demasiado. – disse sem conseguir reprimir as lágrimas. – Eu os amo, professora, não quero...
_ Recomponha-se, senhorita. – ralhou ela e agradeço hoje por ter sido imparcial, eu precisava de alguém forte naquele momento. – Eu reconheço que é uma situação crítica, mas não tem como eu ajudá-la.
_ Uma amiga me contou sobre uma poção que poderia restaurar minha... pureza... Está em um livro chamado Poções Mui Potentes e a senhora poderia pegá-lo para mim, por favor. – apressei-me em explicitar.
_ E eu faria a poção, suponho...
_ Não, professora. – disse Alvo entrando de repente. – Eu farei.
_ Alvo...
_ Deixe-me falar, Amélia. – interveio ele de forma incisiva. – Professora, a senhora sabe que eu tenho aptidão suficiente para preparar a poção para Amélia...
Uma ruga saltou no pescoço de Elinora Hadassa e eu nunca a esqueci.
_ Senhor Dumbledore, eu sei que é um dos nossos alunos mais brilhantes. Contudo, nem mesmo eu posso dar esse tipo de liberdade a vocês após uma atitude tão imprudente. Eu receio que terão que pagar por seus atos...
_ Perdão, professora, mas a senhora seria capaz de dormir a noite sabendo que foi a culpada pela minha ruína?! – exclamei voltando ao pranto.
_ Silêncio, senhorita Preminger! E menos dez pontos por essa tentativa de manipulação. Eu conheci Sarah Preminger e sei que ela jamais...
_ Tia Sarah não é a única que poderia me mandar embora. Talvez possa ter um coração mais volúvel, mas possuo outros parentes que não são. Eu não vou aceitar ficar longe dos meus irmãos!
_ Por favor, Professora, sei que erramos, mas...
_ Minha decisão é final, senhor Dumbledore. E fico chocada por ter participado disso. Como primeiro delito serei mais conivente. Mas a senhorita Preminger, parece que tem vindo mais a minha sala do que a qualquer outra dessa escola. Acho que dei regalias demais a senhorita, e chances para que isso acontecesse... De hoje em diante, suas detenções serão assistidas por Michael Dorny, um lufano é sempre leal ao seu trabalho. – declarou ela em sinal de conclusão.
_ Professora...
_ Isso é tudo, senhores.
Saímos daquela sala a passos largos, Alvo em silêncio mortal e eu aos soluços.
_ Eu sei que deve estar magoado...
_ Não, não estou. – disse ele brandamente. – Mas, lamento por não poder ajudar e por ter estragado a sua vida...
Eu o calei com um beijo... um tanto molhado pelas lágrimas.
_ Estragado? Se tudo caminhar para a minha saída da família, você será a única alegria que terei em meu futuro. Eu o amo e nada no mundo mudará essa opinião, fui clara? Jamais seria capaz de odiar o homem que me fez a garota mais feliz e amada do mundo.
Caminhamos de mãos dadas até o dormitório, e tê-lo perto de mim naquele momento foi o que fez aquele dia menos cinza. Sempre que Alvo estava perto, o mundo ficava menos cinza.