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4. Capitulo 3


Fic: A Vidente


Fonte: 10 12 14 16 18 20
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— MALDITOS — RONALD MURMUROU ENQUANTO DEIXAVA CAIR SOBRE O COLO o último dos documentos que Lupin tinha lhe dado. Depois afundou sobre a pilha de travesseiros. Depois de uma boa noite de sono ele imaginara que estivesse forte o suficiente para encarar um pouco mais da dura verdade, mas, agora, já não tinha mais tanta certeza disso. —Você acha que tudo foi planejado desde o princípio? E que desde o começo eu não representei nada além de um peão?


— Isso é possível — respondeu Lupin enquanto se ajeitava na cadeira que tinha colocado ao lado da cama de Ronald. — Peço desculpas pela pergunta pessoal, mas a sua esposa era virgem?


— Acho que não. — Ronald sentiu o rosto corando levemente. — Eu não era muito experiente quando nos casamos e nunca tinha me deitado com uma virgem. Nunca o teria feito mesmo que tivesse tido a oportunidade. Não vejo glória alguma em desonrar uma jovem inocente e ingênua. Quanto à Romilda, depois de tudo que descobri a seu respeito acredito que ela fingiu toda a sua inocência. Uma mulher, que conheci em um bordel, me contou como ela conseguiu ganhar uma pequena fortuna fingindo ser uma virgem até passar da idade para continuar com a farsa. A história de como ela encenou repetidas vezes a mesma mentira me lembrou muito a noite de núpcias com Romilda. Fiquei tentado a perguntar à mulher se ela nunca tinha ensinado seus truques para uma lady, para a minha esposa mais especificamente, mas não pude. Foi duro, mas eu realmente não queria ouvir a resposta — ele adicionou baixinho.


— É claro que você não queria. Totalmente compreensível.


— Totalmente covarde seria mais exato.


— Talvez, mas a maioria dos homens seria covarde. A traição já tinha o levado a rastejar pelos bordéis. Você não precisava ouvir a confirmação de mais uma. No seu lugar, eu também não ia querer ouvir. No entanto, isso só me leva a pensar que as minhas suspeitas estão corretas, de que o seu tio escolheu Romilda porque queria uma aliada muito próxima a você. E quem melhor do que uma amante ou uma esposa?


— Quem melhor? Os documentos mostram também que eles tentaram me colocar na prisão por dívidas.


— O que responde à minha pergunta com clareza, concorda? — Lupin disse ao se levantar para esticar as pernas antes de sair caminhando pelo quarto.


— Creio que sim.


— Pelo que vi e descobri durante a investigação, a maioria das suas terras e investimentos permanece intacta e bem cuidada. Pelo visto a dupla percebeu que isso seria o mínimo a fazer para continuar com os bolsos cheios. Já outras terras que você possui não estão indo tão bem assim. — Lupin encolheu os ombros. — Eles não estão interessados nelas e por isso estão apenas sugando até a última gota, sem investir absolutamente nada. Uma vez que os rumores sobre a sua morte estão se espalhando rapidamente, já correm boatos de que algumas propriedades que não são atreladas ao título de nobreza logo estarão à venda no mercado.


Lupin esperou pacientemente enquanto Ronald declamava uma lista de blasfêmias, para só depois dizer:


— Não há provas de que você está morto, Ronald, portanto, será muito difícil para eles se desfazerem das suas propriedades.


— E Bill é meu herdeiro, não o meu tio. Eu também mudei meu testamento, deixando para a minha esposa uma pequena anuidade. Cheguei a pensar em não deixar nada para ela, mas imaginei que poderia levar a muitas perguntas, cujas respostas seriam embaraçosas para a minha família.


— Antes da mudança do testamento, suponho que ela tivesse direito a uma bela retirada, caso ficasse viúva.


— Ela tinha e isso incluía algumas propriedades, mas que não poderiam ser vendidas sem a aprovação do meu herdeiro.


— Que está no Canadá. Portanto, se o seu tio pudesse provar que você lhe deu o direito de agir em seu nome ou fez dele o executor do seu testamento...


— Nunca fiz tal coisa, nunca dei a ele nenhum direito ou poder. E claro que isso não significa que ele não poderia forjar algum documento que lhe desse tais direitos. — Ronald sorriu. — O que seria uma pequena falsificação para um homem como ele?


— É verdade. Assim como também poderia contestar a mudança no seu testamento, afirmando que foi feita no calor da emoção... ou qualquer outra desculpa que ele pudesse inventar. Portanto, precisamos descobrir um modo de colocar obstáculos no caminho dele.


— Tais como? — Ronald estava começando a achar que Lupin Wherlocke tinha uma mente muito ardilosa.


—Tais como as dívidas acumuladas ao longo do ano em que você estava, digamos, fora de si.


—Você quer dizer que enquanto eu agia como um beberrão devasso — Ronald soltou, com uma ponta de vergonha e embaraço pelo seu comportamento no último ano. — Infelizmente, creio que eu não esteja devendo tanto assim, com certeza não uma quantia cujo valor equivalha a qualquer uma das minhas propriedades.


Lupin sentou-se aos pés da cama e recostou-se contra a coluna de madeira maciça.


— De fato você não acumulou tantas dívidas assim, mas isso não significa que não possamos produzir algumas. Você acha que seu tio e sua esposa sabem de cada detalhe do que você fez ao longo do último ano?


Ronald pensou sobre a possibilidade durante alguns minutos e, então, balançou a cabeça.


— Não creio. Obviamente eles ficaram de olho no que eu estava fazendo e aonde fui, ou contrataram alguém para fazê-lo. Assim teriam tempo de planejar suas tentativas de me matar. Lembro-me de várias ocasiões em que eles poderiam ter tido sucesso, mas nada aconteceu. De fato, joguei e perdi algumas vezes, mas não foram grandes quantias.


— Então creio que pode ser uma boa idéia forjarmos algumas dívidas consideráveis, algumas que poderiam ser produzidas com rapidez, caso a venda de determinadas propriedades se mostre iminente. Pense em quais propriedades você realmente não gostaria de perder e escreva uma nota promissória em meu nome ou no de Neville ou em nome de nós dois.


— Você tem uma mente assustadoramente ardilosa — Ronald disse, sem conseguir conter por mais tempo o comentário.


— Obrigado.


— Vou pensar bem sobre quais propriedades eu realmente não gostaria de perder e então cuidarei para que você e Neville tenham os documentos para impedir qualquer tentativa de venda por um longo período.


— Vamos rezar para que não precisemos de muito tempo para limpar toda a sujeira. E quanto ao testamento?


— Como eu disse, fiz um novo testamento quando descobri que Romilda tinha me traído, mas não tenho certeza se ele ainda existe. Em torno de seis meses atrás, em um dos meus dias sóbrios, encontrei-me com meu advogado e fiquei com a nítida sensação de que ele tinha se corrompido. Acabei dizendo para mim mesmo que a traição de Romilda só estava me tornando uma pessoa desconfiada.


Lupin assentiu.


— E bem possível, mas creio que no caso você estava certo. Existe alguma cópia do testamento?


—Tem uma na casa de Weasley, mas se o meu advogado estiver envolvido nisso, o testamento pode não valer muito. Nele deixo a maioria das minhas propriedades que não estão ligadas ao título para Neville, minhas irmãs e minha mãe. —Ronald sorriu. — Mesmo que a cópia seja encontrada, Percy poderia tentar fazer como você disse; me declarar incapaz na época em que o testamento foi redigido.


— Mesmo assim o testamento poderia servir para conter quaisquer vendas ou roubos grotescos. Poderia atar as mãos deles com todos os tipos de complicações legais. Na verdade, poderia atar as mãos deles como nunca.


— Claro. Já ouvi vários homens se lamentando sobre tais embaraços legais. Mesmo assim, ainda imagino que meu tio deve ter sido esperto o bastante para prever tudo isso. E Romilda não pode estar imaginando que será a condessa do meu tio agora que estou morto. Bill é meu herdeiro, e, de qualquer maneira, Percy e Romilda não podem se casar. Mesmo que o meu tio já não fosse casado, nosso parentesco é muito próximo para que ele possa se casar com a minha viúva, não é? — Lupin encolheu os ombros.


— E se ele provar que o seu casamento não é válido? A maioria das mulheres iria morrer de vergonha do escândalo que tal declaração causaria, mas acho que não a sua esposa.


— Infelizmente, é verdade. Tampouco ela ou meu tio iriam se importar que tal coisa pudesse marcar meu filho como um bastardo.


— Se lembrarmos que eles desejaram a morte da criança, creio que não. E não se esqueça de que eles pensam que o garoto está morto há muito tempo.


Ronald ficou tenso.


— Se Percy planeja se casar com Romilda, então a minha tia Penélope pode estar correndo perigo.


— E bem possível — Lupin concordou —, mas não precisamos nos preocupar com isso. Tenho alguém de olho nela e nas suas priminhas.


Fitando Lupin, com uma dúvida crescente, Ronald perguntou:


— Alguém parecido com o seu parente que está de olho no meu irmão, no Canadá?


— Quase, mas muito melhor e mais adequado à situação. Trata-se de uma mulher de meia-idade que atualmente trabalha como dama de companhia de sua tia e como professora das crianças.


— E qual é o tipo de proteção que uma mulher de meia-idade pode oferecer?


— Ela e seus dois filhos grandalhões que estão sempre por perto. — Lupin sorriu. — A sua tia precisou de novos criados, entendeu?


— E todos eles possuem... dons?


Lupin soltou um leve sorriso. — Sei que você tem dificuldade em acreditar nisso, mas, sim, todos possuem dons que tornarão quase impossível que o seu tio consiga ferir a sua tia.


— Não era a minha intenção insultá-lo ao duvidar de sua palavra — Ronald disse e então sorriu, ciente de que as suas dúvidas de fato representavam um insulto, pois a dúvida implicava que Lupin era um mentiroso.


— Dúvidas não me afetam. Se eu não tivesse crescido com tais dons, se eles não tivessem infectado toda a minha família como se fosse alguma peste estranha, não tenho certeza se acreditaria tão facilmente em tais coisas.


— Você também tem visões?


— Não como Luna. Nem sei ao certo se você chamaria o meu dom de visão. — Lupin encolheu os ombros novamente. — Eu simplesmente, e sempre do nada, sei de coisas. Triste dizer, mas costumo prever coisas sombrias, perigosas. Mas sou bom mesmo em saber quando alguém está mentindo; por meio de palavras, atos, ou fisionomia.


— Que maravilha, isso deve ajudar. — A tristeza repentina que perpassou a fisionomia de Lupin atiçou a curiosidade de Ronald.


— Sim, ajuda, mas ao mesmo tempo é uma maldição. Todos nós mentimos, não é mesmo? Acabei aceitando isso; posso até entender que às vezes é necessário. Devido ao tipo de trabalho que presto para o nosso governo, para o rei e o país, acabei me tornando um perito na arte de mentir. Mas já como a criança estranha, doente e franzina que fui...


— Você nunca me pareceu estranho. Lupin agradeceu o elogio com um menear de cabeça, e continuou: — Fui sim, não apenas porque fui muito doente, todos sabemos que nem sempre carregamos para a vida adulta os males da infância. Além da doença, tive uma mãe que encarava tais dons com certo alarme; digamos que foi uma infância difícil. Por outro lado, posso saber quando a beleza de uma mulher é de fato verdadeira mais artificial — Lupin falou de modo sarcástico e sorriu. — É um dom que muitos homens gostariam de ter. — Ronald suspirou, pensando em toda a dor que tais dons poderiam ter lhe poupado.


— A menos, é claro, que a mulher que esteja lhe dizendo que você é um ótimo amante esteja mentindo entre seus belos dentes.


— Deus me livre. Isso... Não, esqueça o que eu ia perguntar.


— Esquecerei. De volta ao assunto principal. Acredito que não precisamos nos preocupar com sua tia e suas primas. Se o seu tio planeja se livrar da esposa depois que conseguir se tornar conde, então ela estará em segurança enquanto Bill estiver vivo. O título e as propriedades não iriam para os filhos das suas irmãs?


Ronald meneou a cabeça lentamente. — Não, somente descendentes homens têm direito ao título. Uma vez que o meu pai já morreu, se Neville e eu morrermos sem deixar herdeiro significará que não restará nenhum herdeiro na linha de sucessão do meu pai. Desse modo o título passa para o meu tio e a sua linhagem. Além do meu tio, só existem alguns primos muito distantes. Percival é o primeiro Weasley que consta nos registros escritos que não tem um filho varão, somente filhas.


— O que significa que o homem iria querer arrumar uma nova esposa.


— Só se ele se importar em passar a herança para um filho. Os documentos indicam que ele só está interessado nos lucros das propriedades e nos direitos de posse. —Ronald esfregou a mão na nuca. — Pelo que está escrito aqui, depois que Bill e eu tivermos morrido, Percy  tentará com ainda mais vigor arrancar cada centavo que puder das propriedades. O que significa que não restará muito para quem quer que venha depois dele.


— E é por isso que agora estamos fazendo planos para tentar detê-lo.


— Isso podemos fazer, e acho que até já sei como. O que não vai ser muito fácil é conseguirmos provar que Romilda tentou matar a mim e ao meu filho. Você tem poucas provas aqui e nada vai funcionar contra a capacidade do meu tio de usar as palavras e enganar, nem contra as conexões que ele fez ao longo dos anos. Não estou me referindo a amigos, mas a aliados, e alguns não muito queridos.


— Ah, chantagem. — Lupin assentiu. — Eu soube que ele é muito hábil em descobrir e manejar aqueles segredos que as pessoas preferiam que ficassem bem enterrados. Consegui tirar algumas vítimas das mãos dele, mas o tipo de ameaça que ele mantém contra alguns homens e mulheres não é muito fácil de ser desfeita ou encoberta.


Ronald encarou Lupin surpreso.


— Como você sabe que ele possui segredos que pode usar?


— Eu trabalho para o Ministério dos Negócios Interiores, lembra-se? — Lupin sorriu. — Os homens para quem eu trabalho são muito bons em descobrir segredos e não gostam que ninguém assuma o controle das pessoas que usam. A maioria das informações que consegui sobre seu tio foi por intermédio deles. Nem todos os ganhos dele são provenientes dos seus bolsos.


Desconfiamos que ele tenha vendido informações para os americanos e que agora esteja oferecendo seus serviços aos franceses.


Por um momento Ronald sentiu uma tremenda vontade de sucumbir novamente, mas conseguiu espantar a terrível sensação causada pelo choque ao ficar sabendo que um traidor tinha manchado o sangue dos Weasley. A sua linha sucessória estava salpicada de embusteiros, sedutores, piratas e um bando de outros que não eram motivo de orgulho, mas nunca um traidor. Os Weasley sempre foram leais à Inglaterra. Podiam até ter lutado por lados opostos em guerras pelo direito de governar a Inglaterra, podiam ter trapaceado, roubado e criticado, mas nenhum nunca tinha traído a própria pátria em favor de um inimigo. Desde os primórdios da linhagem Weasley sempre houve uma barreira intransponível de lealdade para com o país. Ronald nem queria pensar que o seu tio tinha cruzado essa barreira, quebrado-a, e trazido tanta desonra para o nome da família.


— Você tem certeza? — ele perguntou a Lupin.


— Tão certo quanto podemos estar sem as provas concretas que poderiam levar um homem para a forca — respondeu Lupin. — O Ministério dos Negócios Interiores sente que, se pudéssemos enforcá-lo por outros crimes, tais como por ter matado você...


— Mas, no fim do jogo, se vencermos, eu não estarei morto.


— Não, mas outros estão. Os vários atentados contra a sua vida já servem como motivo suficiente para levar um homem à forca ou ser exilado. No entanto, os homens para quem eu trabalho preferem um final mais definitivo para a história.


— Assim como eu. Se Percy ainda estiver vivo no final de tudo, sempre terei a sensação de que estou com uma faca apontada para as minhas costas.


— Eu também. —Você acha que o meu tio contribuiu muito para a perda das colônias?


— Não. Nós nunca teríamos vencido aquela guerra. Muitos de nós sabíamos disso desde os primeiros indícios. Tudo trabalhou contra: desde a complicada logística de enviar suplementos para nossos homens, ou mesmo levar o nosso exército para lá, a vastidão do território, a tenacidade do povo... Alguns preferem culpar os franceses pela nossa derrota, mas a ajuda que eles deram aos rebeldes não foi o bastante para dar-lhes o crédito da vitória. Pessoalmente, acredito que essa noção rebaixa todos os colonos que lutaram e morreram pelo que acreditavam. Repito, nós teríamos perdido a batalha de qualquer maneira. Desde o começo achei que aquilo foi um erro.


— Na verdade, eu também. Mas isso não atenua a vergonha de saber que o meu tio foi um traidor.


— Não imaginei que pudesse. Só queria colocar a minha posição. — Lupin compartilhou um breve sorriso com Ronald, mas rapidamente retomou a seriedade. — A traição do seu tio contra a Inglaterra não precisa ser de conhecimentos de todos.


— Isto me consola. Quantos sabem que Percy pode ser um traidor?


— Bem poucos, e todos são de extrema confiança. Se o problema for resolvido de outro modo, eles podem destruir todas as provas sobre as atividades de traição do seu tio. Eles não querem manchar o bom nome Weasley. Seu pai foi um homem querido e muito respeitado, assim como seu avô. Ronald assentiu e se largou sobre os travesseiros. Estava exausto e sabia que muito era devido ao choque que tinha sofrido com a notícia de que o tio era um traidor. Lupin podia até ter dito que não havia provas suficientes para que Percy fosse enforcado pelo crime, mas os homens do Ministério dos Negócios Interiores não teriam sugerido se não tivessem certeza. Eles estavam apenas esperando para encontrar o bastante para convencer os tribunais, uma vez que sabiam que iam precisar de muitas provas para condenar um Weasley por traição.


— Se Percy for apontado como traidor, isto irá destruir a minha tia. Não apenas porque ela descende de uma longa linhagem de militares honrados, mas porque ela irá perder tudo. A mácula disso irá pesar sobre suas filhas muito mais do que a qualquer outro membro da família.


— É exatamente por isso que o Ministério dos Negócios Interiores espera que o crime do seu tio contra o país nunca venha à tona. A sua tia é muito querida e os serviços que a família dela prestou para o país são altamente respeitados. Na verdade, ela é amiga das esposas de vários superiores meus. — Lupin soltou um sorrisinho. — Um ou dois dos meus superiores contaram às esposas sobre a descoberta, respeitando a inteligência e a integridade delas, e ficou muito claro que sua tia e as filhas não merecem sofrer pelos crimes que Percy cometeu. Confie em mim, apesar dos esforços que têm sido feitos para descobrir toda a verdade sobre as atividades dele como traidor, a maior parte tem se concentrado na missão de cortar os contatos que ele tem e assim incapacitá-lo de continuar traindo o país. Temos esperanças de descobrir outro modo de nos livrarmos do homem, e logo.


— Seus superiores sabem que estou vivo?


— Meu supervisor direto e os superiores dele são os únicos que sabem. Triste dizer, mas acreditamos que o seu tio tenha alguns de nossos homens em suas mãos. Estamos trabalhando duro para descobrir quem são. Afinal, mesmo que a única coisa que estejam fazendo seja esconder a verdade sobre Percy, eles são um elo fraco e o Ministério dos Negócios Interiores não pode se dar ao luxo de possuir elos fracos. Correm boatos sombrios pela França. Quem sabe aonde eles podem nos levar?


— E uma pena que meu tio não tenha usado seu talento nato para descobrir segredos pelo bem da Inglaterra.


— Creio que trabalhar para o rei e para o país não costuma tornar um homem rico.


— E a riqueza é a deusa do meu tio. — Ronald suspirou. — Temo ser forçado a derramar o sangue do meu próprio tio antes que o julgamento termine.


— Vamos esperar que outro tome conta disso. Será uma solução bem melhor do que as mortes sua, de Bill e Anthony. E, talvez, da sua tia. É melhor ter suas mãos sujas de sangue por um motivo justo do que ver o nome dos Weasley manchado.


—É verdade. Vou me agarrar a essa verdade com afinco, pois ela não me deixará hesitar se eu tiver de encarar a escolha.


Uma forte batida à porta pôs um fim à conversa, para alívio de Ronald. A conversa em si e a novidade de que Percy era um traidor tinha minado as suas forças. Ele sabia que era covardia, mas queria que a conversa terminasse antes que tivesse de ouvir mais notícias ruins.


O relógio sobre a porta disse a ele quem estava chegando. Estava na hora de receber outra visita do seu filho. Ronald ficou um pouco perturbado ao descobrir que também ansiava por outra visita de Luna. Esse interesse precisava ser enterrado profundamente. Ele podia até ter cortado todos os laços com sua esposa, mas, de acordo com a lei, ainda era um homem casado. Seu instinto dizia que Luna não era uma mulher qualquer, disposta a ter uma aventura passageira. Ela era do tipo que acabaria se envolvendo emocionalmente, e ele estava cansado de romance.


Lupin abriu a porta e Ronald sentiu o coração abatido acelerar quando Luna surgiu. Ela estava de mãos dadas com Anthony e o conduziu até a cama. A visão do seu filho e Luna juntos pareceu perfeita. Muito perfeita. Enquanto os dois estavam parados ao lado da cama sorrindo para ele as palavras “minha família” martelou na sua cabeça. Ele as silenciou com firmeza. Família implicava casamento e, depois que conseguisse se livrar de Romilda, ele não tinha a menor intenção de se casar novamente. Já tinha seu herdeiro. Não precisava de uma esposa. Uma parte dele zombou daquilo e a outra se inquietou. Estava mais do que claro que ia ter de trabalhar duro para fortalecer suas convicções.


— O senhor está sentindo dor? — perguntou Luna, tentando adivinhar a causa da fisionomia séria que de repente obscureceu o semblante de Ronald. — Posso providenciar um chá para aliviar a sua dor.


Ronald forçou um sorriso.


— Não. Estou muito bem. Só fui apanhado de surpresa pelas más notícias que acabei de receber.


— Ah. — Ela olhou para Lupin. — Você deveria ir contando tudo aos poucos, meu primo, pelo menos por enquanto.


— Não — Ronald disse antes que Lupin pudesse responder. — De acordo com o que todos você me disseram, não temos tempo a perder. E, quanto ao chá de ervas, eu aceitaria um pouco após o jantar. Ele tem me ajudado a dormir sem ser perturbado por dores e angústias e o sono é o melhor remédio, não é mesmo? — Ele sorriu para Anthony. — Como você está?


Anthony subiu na cama, sentou ao lado do pai e começou a contar a Ronald sobre cada feito que tinha realizado desde que abrira os olhos naquela manhã. Luna adicionou algumas palavras aqui e ali para ajudar a esclarecer. Ronald sentiu que a dor pela traição do tio desapareceu sob o bálsamo que era a conversa alegre do filho. Lutou para ignorar aquela parte que também encontrou paz e contentamento na presença de Luna. Pois, além de todos os outros motivos que já tinha, ele não queria demonstrar nenhum tipo de interesse por Luna na presença do primo, muito astuto e observador.


—Você teve um dia muito agitado — ele disse para Anthony, tentando inutilmente domar com os dedos os cachos rebeldes da criança.


— Sim, eu tive. — Anthony agitou a cabeça com vigor. Seus cachos balançaram. — Eu tinha muitas coisas para fazer ainda.


— Eu tenho — Luna corrigiu —, e você pode fazer tudo depois da soneca. Uma expressão de teimosia se instalou no rostinho angelical da criança.


— Não estou cansado.


Apesar de estar se divertindo muito com o sotaque interiorano do filho,


Ronald ocultou sua alegria e empurrou levemente o filho na direção de Luna.


— Então descanse um pouco apenas e aproveite para pensar. Anthony soltou um longo suspiro e desceu da cama.


— Se eu preciso...


Foi difícil conter o riso diante do tom de martírio da criança. O modo severo como Luna revirou os olhos também testaram o controle de Ronald.


Assim que eles se foram, no entanto, ele se largou de volta sobre os travesseiros.


Uma raiva renovada pelo modo como Romilda e Percy tinham tentando matar seu filho transbordou. Ele fechou os olhos e praguejou. Ia levar muito tempo para se esquecer de que ele poderia nunca ter conhecido o filho. Tudo por causa da ganância do tio. Quando finalmente abriu os olhos outra vez, foi para encontrar Lupin espalhado sobre a cadeira ao lado da cama, estudando-o.


— Sim, é difícil pensar que o garoto chegou tão perto de morrer antes mesmo de começar a viver — disse Lupin.


— Muito difícil. — Ronald alcançou a caneca de cidra que estava sobre o criado-mudo e tomou um grande gole numa tentativa de desfazer um nó que de repente tinha se formado na sua garganta. — A verdade é que a cada vez que me lembro disso, acho que eu seria capaz de matar minha esposa com as próprias mãos se ela estivesse ao meu alcance. Meu tio também. A fúria que o pensamento move dentro de mim é ardente, quase me deixa cego.


— Então apague esse fogo. O que precisa ser feito agora deve ser realizado de um modo lógico, meticuloso e com frieza.


Ronald assentiu lentamente.


— Concordo. — Ele podia ver o sorriso de Anthony na sua mente tão claro como se o garoto ainda estivesse sentado ao seu lado. — Há muitas coisas em jogo para corrermos o risco de fracassarmos.

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