— Vocês acham que o trabalho será muito difícil? — Betty perguntou às duas irmãs.
— Bem, a responsabilidade é enorme — Muriel res¬pondeu em tom solene.
— Meu chapéu combina com o vestido? — Hattie in¬quiriu, ajeitando o pequeno pássaro azul que enfeitava a aba, antes de passar os dedos pelos cachos prateados. — Acho que deveria ter escolhido o vestido lilás. Este tom de azul é apropriado a um batizado?
— Vamos concentrar a atenção em nosso problema mais urgente, está bem? — Betty falou com ar de reprovação.
Hattie, a eterna preocupada, inclinou-se sobre a galeria superior da igreja.
— Tem certeza de que ninguém poderá nos ver aqui? — indagou.
— É claro que tenho! — Betty replicou com irritação, enquanto afastava a franja dos olhos. — Somos fadas-madrinhas e faz parte de nosso trabalho sermos invisíveis.
— E, também, faz parte de nosso trabalho cuidarmos de todos os trigêmeos nascidos em nosso território — Mu¬riel acrescentou. — Ora, vejam! Os trigêmeos da família Potter estão chorando. Pobrezinhos!
— Como berram! — Betty exclamou e, ao tentar tampar os ouvidos com as mãos, quase enfiou sua varinha mágica no olho. — Vamos fazer logo nosso trabalho e sair daqui.
— Não seja tão apressada! — Muriel repreendeu-a. — Temos de trabalhar direito, ou então...
— Ou então, seremos expulsas da ordem das fadas-madrinhas — Betty completou. — Sei disso muito bem. Não me deixe mais nervosa do que já estou!
— Estamos nervosas porque hoje é nosso primeiro dia nesse novo trabalho — Hattie lembrou, alisando as pregas do vestido azul. — Concordo que nossas antecessoras tinham o direito de se aposentar, depois de duzentos e cinqüenta anos de trabalho... Ah, meu Deus, essa história de voar é muito complicada! — acrescentou, ao dar de encontro com um anjinho dourado, preso à parede da igreja.
Agarrou a figura antes que ela caísse na cabeça das pessoas que assistiam ao batizado. Batendo as asas, voltou a prender o anjo em seu lugar e, então, olhou para baixo.
— Espero que os cavalheiros não espiem debaixo de minha saia! — exclamou.
— Já disse que ninguém pode nos ver!
A fim de provar sua afirmação, Betty deu um vôo rasante em torno da cabeça do padre, antes de voltar para junto das irmãs.
— Exibida! — Muriel reprovou.
— Implicante! — Betty retrucou. — Pare de me recri¬minar e vamos cumprir nosso dever de uma vez por todas.
Sendo a mais velha das três, Betty estava acostumada a dar ordens e, mais ainda, a ser obedecida.
Beliscando o lóbulo da orelha esquerda com uma das mãos, ela se concentrou em materializar o importantíssimo pó mágico na palma da outra mão. Com uma pequena explosão colorida, um pequeno vidro apareceu bem no alvo. Com ar de triunfo, ela abriu o recipiente.
— Você guarda seu pó mágico em um vidro de geléia? — Muriel perguntou incrédula.
— Isso não importa — Hattie falou com voz trêmula de emoção. — Este é o momento mais importante de nossas vidas!
Porém, naquele momento, Betty precisou espirrar... As minúsculas partículas de cor púrpura e prata caíram sobre um dos bebês embrulhados em cobertores azuis.
— Veja o que você fez! — Hattie choramingou. — Sujou meu vestido com seu pó mágico!
— Esqueça o vestido e pense no bebê! — Muriel quei¬xou-se, apreensiva. — Esse pó é muito poderoso e afeta todo o futuro dos bebês, regulando suas características pessoais. Fomos advertidas inúmeras vezes sobre a im¬portância de usarmos o pó mágico na proporção correta!
Betty deu de ombros.
— Bem, o bebê Harry Potter apenas recebeu uma dose um pouco maior de prata e púrpura. A propósito, que características essas cores controlam?
— Seriedade e sensualidade — Muriel respondeu.
— Nada mau — Betty concluiu com simplicidade.
Muriel ficou furiosa.
— Como vamos cumprir nossa tarefa, se você nem se¬ quer é capaz de derramar seu pó mágico em pequenas quantidades? O problema é que não está levando nosso
trabalho a sério — resmungou e sacudiu a cabeça, fazendo os cabelos brancos eriçarem. Então, enfiou a mão em um dos muitos bolsos de seu colete predileto e retirou um recipiente parecido àqueles usados em laboratórios de au¬las de química. — Ao contrário de você, costumo guardar minhas ferramentas de trabalho da maneira adequada.
Tudo o que tenho de fazer é abrir a tampa e...
Parou de falar, pois a tampa emperrou.
— Você ia dizendo... — Betty zombou.
— Tudo o que tenho de fazer é abrir esta maldita coisa... — zangada, Muriel prendeu o frasco contra o peito e usou toda sua força para soltar a tampa emperrada. — Ahá! — exclamou, quando finalmente conseguiu.
Infelizmente, a tampa se soltou com tamanha violência, que uma grande quantidade de pó dourado e verde espa¬lhou-se no ar.
— Belo trabalho — Betty continuou a zombar. — Acer¬tou em cheio no bebê número dois, Rony, o que berra mais alto. Que pulmões! Afinal, do que foi a dose reforçada que ele acabou de receber?
— Humor e teimosia — Hattie esclareceu, sacudindo a cabeça em um gesto que demonstrava inconformismo. — Francamente, garotas, mal posso acreditar em quanto vo¬cês duas são desastradas. Vou lhes mostrar como se faz.
— Muito bem, espertinha — Muriel falou —, vamos ver como se faz.
— Bem, para começar, a apresentação é tudo — Hattie declarou, agitando a varinha mágica que, como sempre, combinava com seu vestido.
No mesmo instante, uma almofada de veludo escarlate, com franjas douradas, materializou-se no ar. No centro, envolto por camadas de tecido transparente, encontrava-se um frasco dourado.
— Essa é a maneira correta de se armazenar pó mágico — Hattie afirmou, desviando o olhar de sua criação pelo tempo necessário para fazer uma careta para as irmãs.
O pequeno lapso em sua concentração foi suficiente para perturbar o equilíbrio precário da almofada e, conseqüen¬temente, do frasco contendo o pó mágico.
Alarmada, Hattie tentou apanhar o frasco, e acabou fazendo uma pirueta de causar inveja nos melhores gi¬nastas. A bainha de seu vestido rodado enroscou na aba do chapéu, imobilizando-a. Indefesa, só lhe restou observar a grande quantidade de pó azul e vermelho cair sobre o terceiro bebê, Ginny.
— Ah, meu Deus! — Hattie exclamou quando finalmente conseguiu ajeitar o vestido e o chapéu, espiando a garotinha que chorava. — Qual será o resultado de excesso de inteligência e de firmeza de opinião em uma menina?
Desconsertadas, as três fadas-madrinhas limitaram-se a observar a confusão que haviam causado sem querer.
Diante dos olhares atônitos dos pais, Ginny chorou mais alto e agitou as mãozinhas, acertando em cheio o nariz do padre que se inclinava sobre ela. Aconchegado no braço do pai, o pequeno Rony parou de chorar para rir de alguma piada particular. Harry, apertado contra o peito da mãe aflita, exibiu expressão de reprovação e, enchendo os pulmões, demonstrou com berros o desagrado causado pela confusão.
— Vou dizer uma coisa — Betty falou, voltando a ajeitar a franja prateada de seus cabelos, com um profundo suspiro. — Acho que vamos ter muito trabalho com esses três! Isso, se não ficarmos surdas, antes!
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