Esperanças e Sofrimentos
- Gina? Bob? Vocês chegaram? Gritou Marta lá do quarto. Eram mais de dez horas. Eles estavam chegando do restaurante onde haviam jantado, depois de deixarem Alissa no aeroporto.
- Sim, querida, respondeu Bob.
Marta desceu a escada saltitando, vestindo um macaquinho amarelo-ovo.
- Gina, tenho ótimas notícias para você! Seu namorado veio aqui enquanto você estava fora e perguntou por que não foi à praia.
Ela se acomodou no sofá e continuou, gesticulando muito.
- Eu disse a ele que você estava de papo pro ar lá na Cho. Gina girou os olhos.
- Não estávamos bem de papo pro ar.
- Não importa, continuou Marta. Nós conversamos um pouco, e ele disse que ligaria para você hoje à noite. O coitado já ligou duas vezes, mas acho que acabou desistindo porque, na última ligação, disse que falaria com você amanhã. Ele é um encanto de rapaz, Gina!
- Seria tão bom se ele também me achasse um encanto de garota...
-
Ah! Já ia me esquecendo! Você precisava ver que gracinha! Ele estava com o moletom que compramos em San Francisco. Ficou tão bem nele!
- Verdade? Não acredito!
- É um rapaz legal! Exclamou Bob, com um brilho de satisfação nos olhos. Dê tempo a ele. Você ainda vai fisgá-lo.
- Você é um bobo! exclamou Gina com ar de riso, jogando uma almofada do sofá na cabeça do tio. Em seguida foi para o quarto, onde resolveu escrever para Paula antes de dormir, mas estava caindo de sono. Finalmente cedeu ao cansaço e, bocejando, entrou debaixo das cobertas.
Na manhã seguinte, ficou mais de uma hora na cama, escrevendo uma carta para Paula e outra para seus pais. Provavelmente teria ficado ainda mais, não fosse a ansiedade de ver Harry.
Será que devo ir à praia ou ficar esperando em casa? Acho que vou esperar, pelo menos até o meio-dia; depois, se ele não telefonar, vou para a praia.
Depois, com um cuidado todo especial, fez escova no cabelo e maquiou-se.
Como será que está a Cho na casa da avó? Espero que as coisas melhorem para ela. Não dá para acreditar que o Erik a tenha largado daquele jeito. Pensei que ele gostasse dela. Pensei que a vida dela fosse tão legal...
Gina resolveu parar de pensar em Cho e foi dar uma olhada no guarda-roupa. Ainda havia roupas novas que não tinha vestido. Mas quanto mais olhava, mais desanimada ficava.
- Não tenho nada pra vestir! reclamou alto, jogando-se na cama. Acho que vou usar o maiô e uma camiseta de novo. Estou cansada de usar a mesma coisa de sempre.
- Gina?
A batidinha de unhas postiças na porta já era conhecida.
- Gina, querida?
- Entre, tia Marta.
- Com quem você estava conversando, meu bem?
- Comigo mesma.
- Você ainda está de camisola?
- É. Não consigo achar nada para vestir.
- Talvez estejamos precisando fazer mais compras. Mas não agora. Tenho uma reunião. Que tal a gente ir ao shopping do South Coast Plaza hoje à tarde? Bob poderia nos encontrar lá para jantarmos juntos. Além do mais, eu queria comprar algo para você usar no seu passeio de aniversário.
-
O que você está tentando me dizer, tia Marta?
- Nada, absolutamente nada, respondeu com uma risadinha forçada. Simplesmente achei que seria bom fazer algumas compras para seu aniversário.
Marta olhou para o relógio cravejado de brilhantes.
- Céus! Preciso ir! Estarei de volta lá pelas duas e meia, poderemos sair logo depois.
Olhou novamente para Gina e disse:
- Você deveria se aprontar depressa. Não é educado deixá-lo esperando.
- Deixar quem esperando?
Marta olhou-a com uma expressão de interrogação.
- Quer dizer que eu não lhe disse?! Jogou a cabeça um pouquinho para trás e riu de uma piada que só ela estava entendendo. Céus, querida! Onde estou com a cabeça? Subi para lhe dizer que o Harry está esperando você na sala de televisão.
- É mesmo? disse Gina abafando um grito. Por que você não falou antes? O que é que vou vestir?
- Preciso ir, meu bem. Divirta-se. Vejo você lá pelas duas e meia.
Saiu abanando a cabeça e rindo consigo mesma.
- Diga a ele que já vou descer, gritou Gina.
Correu para vestir um short e uma camiseta e se olhou rapidamente no espelho. Pelo menos arrumei o cabelo e me maquiei, pensou, procurando animar-se antes de descer a escada.
- Oi, Harry; me desculpe! Deixei você esperando! Minha tia não me disse que você estava aqui. Isto é, só disse agora há pouco. Senão eu não teria deixado você sozinho aqui tanto tempo.
- Não tem importância. Você gostaria de ir à Disneylândia? Harry não era mesmo de fazer rodeios.
- Agora? perguntou Gina com um salto.
- Não, no dia do seu aniversário.
- Sério?! Claro que sim! Será divertido. Adoraria!
De repente Gina parou um pouco e, diminuindo visivelmente o entusiasmo, indagou:
- Quem mais vai?
- Só você e eu, disse o rapaz. A não ser que queira levar mais alguém. É seu aniversário.
Gina ruborizou, envergonhada por haver pensado que ele estivesse planejando levar outra "Kombi Nada" repleta de gente para a Disneylândia. Claro que não; era uma ocasião especial: o aniversário dela. Ele deve ter pensado nisso.
- Não, respondeu ela delicadamente. Não quero convidar mais ninguém. A menos que você queira.
- Não. Poderemos comemorar juntos o nosso aniversário. Você faz quinze anos e eu completo um ano no Senhor.
- O quê?
- Lembra daquela noite na praia, depois da festa do Cedrico? Eu lhe disse que havia-me tornado cristão no ano passado, no dia 27 de julho, e foi aí que você me contou que era o dia do seu aniversário. Você faz quinze anos e eu faço um!
Harry ergueu o queixo quadrado e cruzou os braços. Gina achou-o um pouco parecido com o tio Bob quando queria brincar com ela.
- Está com fome? Quer comer alguma coisa? perguntou. Ainda não tomei café, e acho que meu tio está na cozinha. Quem sabe a gente descola um "rango"?
Encontraram Bob na cadeira de sempre, à mesa da cozinha, molhando um donut* numa xícara de café fresquinho.
*Rosquinha frita, de massa semelhante à do sonho. (N.E.)
- Bom dia! cumprimentou ele. Vocês querem uns donuts?
- De onde vieram estes? perguntou Gina.
- Quando sua tia saiu hoje de manhã, disse que eu precisava de exercício. Então andei a passos rápidos até a confeitaria, disse ele, dando uma piscadela para a sobrinha.
Preciso de ajuda para destruir a "prova do crime", entendeu?
Harry e Gina riram e sentaram-se à mesa.
- Quais os planos para hoje? perguntou Bob.
- Eu e Marta devemos ir ao South Coast Plaza por volta das duas e meia. Você deverá encontrar-nos lá pra jantarmos juntos.
- Ainda bem que perguntei. Minha diretora social não tinha me revelado seus planos para o fim da tarde. Deve ter sido uma daquelas coisas que ela esquece de falar, disse com amabilidade.
- É, concordou Gina, lembrando do incidente no quarto, no começo da manhã. Ela anda um pouco esquecida ultimamente.
- Sabe, são apenas onze horas. O que vocês acham da idéia de dar um passeio em nossa bicicleta de dois lugares? Nós a compramos o ano passado, pensando em fazer exercício, mas só usamos duas vezes.
- Legal! Você quer, Harry?
- Claro, vamos até a ilha Balboa.
Bob ajudou-os a tirar a geringonça da garagem e deu-lhes um empurrão para a rua. Gina acenou rapidamente e colocou a mão de volta no guidão, para ajudar a firmar o monstrengo capenga.
- Ainda bem que você está indo na frente, disse ela a Harry. Não tenho muita coordenação em coisas desse tipo.
Harry dirigiu até o cruzamento. Gina tentava manter o equilíbrio, evitando olhar para os carros velozes à sua volta. Pedalaram até a balsa da ilha Balboa. Ela levava apenas alguns carros de cada vez, mas, como eles eram os únicos de bicicleta dupla, logo chegou a vez deles.
Harry tirou umas moedas e pagou a taxa. O barco partiu com um movimento brusco, fazendo muito barulho durante a rápida travessia até a ilha Balboa.
- Olha quanto barco à vela! exclamou Gina, achegando-se mais a Harry.
- Aquele é um catamarã* legal, disse Harry.
* Embarcação de esporte ou de recreio, de pequeno porte. (N.E.)
- Onde?
- Está vendo, lá adiante? apontou Harry. Gina aproximou-se, roçando o ombro no dele. Não sabia o que era um catamarã, e não queria perguntar para não parecer boba. De qualquer forma, estava achando ótimo ter uma desculpa para ficar mais juntinho do rapaz.
Seria tão bom se ele me abraçasse! pensava.
Mas antes que Harry pudesse se mexer, a balsa já estava ancorando no cais, e eles desceram com a bicicleta. Subiram as ruas estreitas, repletas de chalés. Gina gostou das janelas com vitrais coloridos e das flores de cor viva nos jardins.
- Quer um "esquimó" Balboa? perguntou Harry, virando um pouco a cabeça.
- Nunca comi, nem sei o que é, admitiu Gina. Pararam numa barraca de sorvetes e Harry disse:
- Não se pode vir a Balboa sem tomar um "esquimó" Balboa. O que você quer no seu? Confeitos? Castanhas? Chocolate granulado?
Gina olhou as gravuras dos diversos tipos de "esquimó" no cardápio. A fila atrás dela estava longa e a balconista parecia impaciente.
- Não sei.
Ela detestava quando se sentia assim, perdida, insegura. Devolveu a decisão para Harry
- Eu aceito o que você escolher.
Harry pediu dois "esquimós" com castanhas na cobertura de chocolate. Gina não gostava de castanhas, mas não disse nada. Andaram pelas butiques da rua principal, curtindo o "esquimó".
Gina tomava o "esquimó" sem prestar muita atenção ao que viam nas vitrines. Sentia-se abatida pela frustração que experimentara alguns momentos antes.
Por que tenho tanta dificuldade para tomar decisões simples? Por que sempre perco a confiança em momentos-chave e ajo como uma completa idiota? Será que o Ted percebe a minha insegurança? Será que ele gosta de mim? E a Hermione? Por que a Hernione é tão mais auto-confiante e alegre do que eu? Por que não consigo ser como ela?
Veio-lhe então um pensamento estranho.
Como posso ser fiel a mim mesma como o tio Bob falou, se não gosto de mim do jeito que sou?
Gina reconheceu que sempre queria ser igual a outra pessoa. Primeiro Cho, agora Hermione. E em casa sempre tinha imitado a Paula.
Paula! pensou. Se a Paula me visse agora! Ainda bem que ainda não mandei aquela carta. Tenho tanta coisa pra contar!
-Que tal? Gostou? perguntou Harry, apontando para o "esquimó".
- Gostei.
Na verdade, ela havia comido quase tudo e nem notara o sabor. O sol estava derretendo o chocolate, e ela tentou lamber os pingos antes que caíssem em sua roupa.
Como estou sendo chata, pensou Gina. Quase não conversei com ele. Espero que o Harry não fique pensando que não gosto dele!
- Então, falou ela, percebendo que já estavam voltando para pegar a bicicleta. O que você conta de novo?
- Não há muito, disse ele, montando a geringonça e dando um empurrão para começar a pedalar. E você? Dizendo isso ele sorriu e, do ângulo em que estava, Gina via pequenas covinhas na pele bronzeada do seu rosto. Não as havia notado antes.
- Isso é divertido! Obrigada por ter vindo comigo aqui, disse Gina, aproximando o rosto dos seus ombros largos, para que ele pudesse ouvi-la melhor.
- De nada, respondeu ele, virando-se novamente. Vamos voltar pedalando, passando pela ponte em vez de pegar a balsa, tudo bem?
- Claro!
Gina inclinou-se para a frente para ver melhor suas covinhas. Imaginou como seria sentir o rosto dele encostadinho no seu, e um beijo dele em seus lábios, como aquele que Cedrico dera em Cho.
Sua imaginação voou um pouco mais. E se o Harry realmente começar a gostar de mim, e começarmos a namorar? Será que ele vai agir comigo como o Erik agiu com a Cho? O que vai acontecer nesses próximos dias, antes de eu voltar para casa? Será que vou quebrar minha promessa a meus pais e acabar fazendo algo de que me arrependa mais tarde?
Harry disse alguma coisa, mas ela só ouviu o nome "Mione". Cris cerrou os dentes e disse:
- O quê? Não ouvi o que disse!
- Perguntei se você sabe as horas? Prometi buscar a Mione no trabalho às duas.
Hermione! Por que ele tinha de falar nela?
Sentiu-se tola por pensar em ficar mais próxima de Harry quando, na verdade, ele nem estava pensando nela. Ficou emburrada o resto do caminho pra casa. Harry pareceu não se importar com seu silêncio.
Quando chegaram em casa, ele ajudou a colocar a bicicleta de volta na garagem. Sorriu como se fosse dizer algo engraçado, mas acabou dizendo somente "até mais tarde", e correu para a "Kombi Nada".
Gina ficou olhando a "Kombi Nada" descer a rua. Quando a traseira bege desbotada desapareceu no trânsito, ela murmurou: "Até mais".
Entrando pela porta dos fundos, chamou os tios, mas não havia ninguém em casa. Procurou na geladeira algo pra comer e decidiu-se por um pedaço de frango grelhado e um copo de leite.
Então sentou-se, firmou o cotovelo na mesa da cozinha, apoiou o queixo na palma da mão e ficou ali parada um tempão. A onda de depressão - que já conhecia bem - começou a envolvê-la. Uma hora lá em cima, outra hora lá em baixo. Sua vida parecia feita de ondas, sempre indo e voltando. Como seria bom se pudesse nivelar tudo, deixar tudo igual... encontrar uma base estável em que pudesse se firmar.
Tendo passado as duas últimas horas com Harry, deveria estar feliz. Além do mais, ia com ele à Disneylândia no seu aniversário, na semana seguinte.
Mas estava na pior. Desde o início das férias tinha conseguido tudo que queria e mais um pouco. Havia comprado muita roupa nova e agora ainda ia fazer mais compras! Nunca tivera antes tantas oportunidades de passear e fazer coisas tão interessantes. Vinha sendo super paparicada pelos tios havia semanas, mas simplesmente não se sentia feliz e não entendia por quê.
Olhou o relógio. Quinze para as três, e Marta ainda não estava em casa. Típico.
Vagou um pouco pela casa, olhando os enfeites caros. As compras nunca acabam para minha tia, pensou. De repente lembrou-se da letra da música de Debbie Stevens:
"Você não o encontra em lojas".
"Ummm." De repente Gina começou a compreender algo: Talvez a Debbie esteja certa. Talvez eu esteja mesmo precisando de Jesus. Entretanto não queria pensar sobre aquele assunto naquele momento. Precisava sair daquela depressão. Ficar pensando na morte de Jesus na cruz, e no fato de ser pecadora, certamente não iria ajudá-la a melhorar seu estado de espírito.
Estava subindo a escada, tentando resolver que roupa iria vestir, quando a porta da frente abriu-se de repente.
- Gina, querida, você está pronta?
Gina voltou do seu marasmo e gritou de cima da escada:
- Já vou descer!
Correu para o quarto e, em tempo recorde, vestiu uma saia jeans e uma das blusas que ainda não havia usado. Nem se olhou no espelho; desceu as escadas correndo e disse:
- Estou pronta!
Marta estava ao lado da porta com um maço de cartas na mão. Olhou para Gina e franziu a testa em desaprovação.
- O que é que você fez com seu rosto, menina?!
- Meu rosto? Não sei.
Gina correu para o espelho do lavabo e Marta a seguiu. Tinha sujado o rosto com o chocolate do "esquimó" que deixara nele uma mancha que ia desde o lábio superior quase até a orelha!
Gina caiu no choro.
- Não! Não! Não! Não! Por que sou tão boba assim? Certamente o Harry me viu deste jeito. Por que não disse nada?
Marta, achando aquela explosão exagerada, repreendeu-a:
- Vê se isso é modo de uma mocinha agir? Acalme-se. Vamos sair para fazer compras, e você tem de subir e arrumar a maquiagem. A propósito, essa camisa não combina bem com a saia.
Gina subiu para recompor o rosto conforme as instruções da tia, murmurando e fungando.
Apesar da confusão, chegaram ao shopping do South Coast Plaza antes das quatro. Mas Gina, depois da repreensão da tia, não estava conseguindo animar-se com as compras.
- Gina, você não acha esta saia uma gracinha? disse Marta, mostrando uma saia preta de brim.
- Não. Você se lembra de que preto não é uma de minhas cores? Mas gosto desta, disse, erguendo uma saia de listas vermelhas e brancas. Não é linda?
Não era tão bonita assim, além de ser algo que Marta jamais teria escolhido. Depois de várias provas, Marta sentou-se numa cadeira e declarou resignada:
- Depende de você, Gina. Escolha o que você quiser, o que você gostar.
Então Gina fez algo que nunca fizera antes: correu a mão pelas roupas expostas e pegou tudo que lhe chamava a atenção, levando em seguida para provar. Se ficava bem, pedia a tia para comprar. Não olhou nenhuma etiqueta de preço. Talvez a pilha de roupas somasse mais de quinhentos dólares. Gina sabia que o que estava fazendo era uma bobagem, mas era o único jeito de se vingar da tia.
O total foi mais de setecentos dólares, mas Marta já ia pagar tudo com o cartão de crédito, sem pestanejar. De repente Gina sentiu um mal-estar tremendo. Setecentos dólares! Não tinha coragem. Além do mais, quem realmente pagava as contas era o tio Bob.
- Espere, disse à vendedora. Eu... bem... acho que eu peguei algumas peças no número errado. Você pode cancelar essa conta? Seria horrível chegar em casa e descobrir que algumas coisas não me servem.
Marta parecia muito irritada.
- Bem, ande depressa querida. Precisamos encontrar com seu tio daqui a meia hora.
Gina entrou no provador, e a vendedora acompanhou-a, carregando aquele montão de roupas. Fechou a porta e escolheu apenas cinco peças, todas combinando entre si. Eram as que ela tinha gostado mais. Uma camiseta estava até em liquidação.
- Aqui, disse Gina, entregando à vendedora uma pilha bem menor de roupas. Só vou levar isso.
- Tem certeza?
- Sim.
Marta não abriu o bico. Ficou em silêncio até encontrarem com Bob no restaurante.
- Muito bem! exclamou ele, olhando as sacolas. Parece que vocês tiveram um bom começo!
Marta concordou friamente.
- Sim. Se o gosto de sua sobrinha por roupas fosse tão forte quanto a sua impulsividade, estaríamos muito bem!
O comentário atingiu Gina como um vento gelado. Era isso! Algo deu um dique. Na mente de Gina, a tia Marta transformou-se de uma ricaça sofisticada num pavão altivo e egocêntrico. E daí, se ela podia comprar tudo que queria? Ela não tinha coração. Havia demonstrado repetidas vezes que não tinha a menor consideração pelas pessoas. Vivia abusando do tempo, e dos sentimentos daqueles com quem se relacionava.
Gina queria retrucar: " Estou cansada de ver você tentando fazer de mim a filhinha perfeita que você nunca teve. Não preciso mais do seu dinheiro e dos seus sermões. Quero ser apenas Ginevra Molly Weasley , de Wisconsin. E se isso não bastar pra você, então, sinto muito!"
Entretanto disse apenas:
- Vou querer um filé. Pode ser, tio Bob?
- Claro, querida. O que você quiser.
Marta dirigiu-lhe um olhar de desprezo e pediu uma mini-salada da casa.
Embora Gina não estivesse com muita fome, comeu tudo, inclusive uma batata assada com montes de manteiga e creme de leite. Depois ainda pediu um sundae de caramelo só para provar à tia que ela era dona do próprio nariz.
À noite, porém, não conseguia dormir, sentindo dor de barriga, e ficou se perguntando se havia realmente conseguido provar alguma coisa.
*****
Nos dias que se seguiram, continuou aproveitando todas as oportunidades de rebelar-se, em silêncio, contra as tentativas de manipulação da tia. Eram coisinhas sutis e mínimas, que no começo Marta nem notou. Mas, para Gina, cada insolência sua intensificava o desprezo que sentia pela tia.
Uma tarde, quando voltou da praia, atendeu o telefone e anotou um recado para Marta, sobre uma reunião especial no centro cívico, naquela noite às sete. Deixou o recado escondido, de propósito, até às seis e meia. Então colocou-o em cima da escrivaninha e perguntou:
- Você pegou o recado ao lado do telefone, não pegou?
Não era de seu feitio ser vingativa daquele jeito, mas quanto mais tentava segurar as frustrações, mais sua amargura se manifestava. Havia convivido com Marta tempo suficiente para saber o que a incomodava, e procurava fazer tudo que podia para aumentar sua irritação. Comia na frente da televisão, deixava a toalha de praia cheia de areia no chão do quarto e colocava o telefone no suporte com o fio do lado errado, cruzando Sobre os botões da frente. Além disso procurava, sempre que possível, fazer duas coisas que a irritavam mais: ficar encurvada, com a coluna torta, e roer as unhas.
Como uma fera ferida, Marta recuou. Parou de tratar a sobrinha de maneira agressiva, passando a fazer-lhe apenas alguns lembretes gentis.
Quando voltava da praia uma tarde, Gina encontrou a tia na cozinha.
- Chegou uma carta para você. Está na sua cama, disse Marta.
- Ótimo.
Gina encheu a mão de biscoitos com "gotas" de chocolate, uma receita secreta de seu tio, e foi para o quarto.
- Ó Gina, gritou Marta. Por que não deixa sua toalha aqui? Eu jogo na máquina de lavar para você. E talvez seja bom você levar um guardanapo de papel, acrescentou timidamente.
Gina enfiou um biscoito inteiro na boca, ignorando as sugestões da tia e procurando sufocar o sentimento de culpa que lhe sobrevinha por estar agindo de modo tão insuportável. Não gostava de agir daquela maneira, mas como já havia começado era mais fácil continuar do que parar. Nunca fora boa em pedir desculpas. Especialmente se a outra pessoa estava recebendo o que merecia.
Seu quarto, claro e refrescante, estava tão convidativo aquela tarde... Encontrou a carta na cama, como a tia dissera. Para sua surpresa, era de Cho. Leu e releu a carta, percebendo como sua vida era boa. A vida de Cho parecia tão triste e sem esperança!
Querida Gina,
Cheguei à casa de minha avó sem maiores dificuldades.
Quero agradecer a você e a seu tio por terem me levado ao aeroporto e pela sua ajuda na arrumação das malas.
Minha mãe está firme no programa de controle do alcoolismo, e o diretor da clínica telefonou ontem para dizer que, se ela continuar a melhorar, terá alta dentro de poucas semanas.
Vou ficar com minha avó até o começo das aulas, e depois ela vai me mandar para um internato. Meu endereço está no envelope. Se você puder, escreva-me. Seria tão bom receber uma carta sua...
Tenho pensado muito em você, no Harry, no Cedrico e no Erik. Estou sentida pelo modo como agi em Nevvport, especialmente porque foi tão pouco tempo... Sei que lhe disse umas coisas horríveis sobre o Cedrico, na praia aquele dia. Só posso dizer que não sei por que as pessoas morrem, e não sei como encarar isso. Queria encontrar um pouco de paz, em vez de toda essa dor que existe em minha vida. Minha avó arranjou um psiquiatra pra mim. Tenho consulta três vezes por semana para tratar dessas coisas. Ela me proíbe de sair sozinha.
Bem, não era minha intenção narrar a "triste história da minha vida". Só queria lhe dizer o quanto apreciei seu apoio. Gostaria de me corresponder com você.
Queria que minha vida fosse como a sua: doce, inocente e livre, com uma família de verdade, numa fazenda do Wisconsin. Parece um sonho.
Por favor, diga ao Ted que mando um abraço pra ele. Você tem sorte de tê-lo!
Sua amiga,
Cho.
Gina chorou várias vezes enquanto lia a carta. Como estava tão longe de Cho, a única coisa que podia fazer era escrever. Mas acabava jogando fora toda carta que começava. Queria de alguma maneira animar a amiga, dar-lhe alguma esperança, mas não encontrava palavras. Tudo que tentava dizer parecia tão artificial.
Além disso, cada vez que lia aquela parte que dizia que tinha sorte por ter o Harry, sentia-se perturbada. Ela não "tinha o Harry". Ninguém tinha o Harry. As coisas com ele continuavam no mesmo vaivém de sempre. Eles se viam na praia todo dia, mas quando parecia que a situação ia melhorar, Hermione aparecia, e ela acabava ficando em segundo plano.
Além do mais, o Harry tinha uma porção de amigos surfistas, com os quais Gina não conseguia se entrosar. Alguns eram super esquisitos. Parecia até que haviam levado um bocado de pancadas na cabeça com a prancha, ou coisa parecida.
Naquela manhã um dos caras, quando saía da água, disse:
- Passei batido!
Sacudiu a cabeça de cachos loiros, respingando água em Gina, continuou:
- Tá doido, cara! Só tem caixote!
Daí ele colocou a prancha debaixo do braço e foi embora murmurando:
- Tá um lixo!
Gina virou-se para Mione e perguntou:
- Ele estava falando comigo? Acho que preciso de um intérprete!
- As ondas não estão boas. Ele vai para casa, interpretou Mione.
- Ah! Ainda bem que o Harry não fala assim, disse Gina, olhando para o mar, observando Harry surfar com sua prancha alaranjada.
- O Harry fala a língua de todo mundo. Ele tem seus amigos surfistas, mas anda com a turma mais "certinha" também.
- Você o conhece bem, não é? começou Gina.
- Acho que sim.
Parecia estranho que Mione fosse sempre tão amigável. Gina tinha de esforçar-se para manter a calma e tratá-la bem. Ela era tão amável e autêntica... Por que será que ela não lutava para conquistar a atenção do Harry? Finalmente, Gina ousou perguntar:
- Mione, você gosta do Harry?
- Sim. Gosto muito.
- Então por que não fica com ciúme quando ele sai com outras garotas? perguntou.
Aproveitando a oportunidade, acrescentou: Amanhã, por exemplo, ele vai me levar à Disneylândia para comemorarmos juntos meu aniversário.
- É mesmo? perguntou Mione, sem um pingo de inveja. Espero que vocês se divirtam bastante! E se eu não te encontrar amanhã, feliz aniversário.
- Obrigada, murmurou Gina, chateada por ver sua pergunta ficar sem resposta. E isso não perturba você? concluiu.
- Não, nem um pouquinho. Eu e Harry somos amigos desde o ano passado. O mesmo cara nos conduziu a Cristo aqui na praia.
- O que você quer dizer com "conduziu a Cristo"?
- Que ele nos explicou como nos tornarmos cristãos.
- Você quer dizer que ele explicou que a gente deve pedir perdão pelos pecados e pedir que Jesus entre em nosso coração indagou Gina.
- É! Você também já fez isso?
- Não, não exatamente, mas sou cristã mesmo assim, replicou ela, caindo na defensiva.
- Bem, sei que pode parecer duro, disse Mione com meiguice mas ninguém pode tornar-se cristão simplesmente por ser bom É por isso que Cristo morreu por...
- Eu sei de tudo isso! interrompeu Gina, mas não entendo por que vocês ficam falando tanto em pecado.
- Porque é ele que nos separa de Deus. Enquanto estivermos separados dele, nunca poderemos ser como ele quer que sejamos.
- Não estou entendendo o que você quer dizer.
- Você nunca sentiu culpa por alguma coisa que fez e depois desejou apagar tudo e começar do zero?
Gina relembrou a semana que passara e o sentimento de culpa que tivera por causa de seu comportamento para com a tia.
- Já.
- Você não precisa viver com esse sentimento de culpa. Pode livrar-se de todo esse incomodo; basta confessar a Deus seu pecado e pedir que Jesus entre na sua vida e seja seu Senhor.
Gina sentia-se meio sem jeito. Invejava o jeito tão livre de Hermione e a maneira como ela falava sobre Deus. Era como se ele fosse para ela um amigo chegado, não uma força distante e poderosa, pronto para castigar qualquer um que fizesse alguma coisa errada.
- Você dá a impressão de que você e Deus são tão amigos, disse Gina, começando a abaixar as defesas.
- E nós somos. Grandes amigos.
- Sei não. Sempre pensei que Deus estivesse lá em cima, e eu aqui embaixo, e que era minha obrigação ser uma pessoa boa. Enquanto conversavam, Harry chegou do surfe todo molhado e sacudiu-se espirrando água nas garotas. Elas começaram a gritar e a rir.
- Cuidado! Está molhando minhas pernas! protestou Gina. Agora vou ter de passar mais loção de bronzear.
- Ah, não quer se molhar, hein? disse Harry com um olhar maroto.
Gina viu de relance Hermione acenando um rápido "sim" para ele. Antes que pudesse se dar conta do que estava acontecendo, Harry agarrou-a pelos punhos, puxou-a para cima e começou a levá-la na direção da água.
- Não! Não! gritou ela. Eu entro sozinha!
Assim que ele soltou seus pulsos, ela correu na direção contrária, rindo e olhando para trás para ver se ele a seguia. Rony estava vendo tudo e agarrou-a pelo braço, impedindo-a de fugir.
- Segura ela! gritou Harry. Gina esperneava:
- Não! Me solte!
- Pronta para um caldo? perguntou Harry, agarrando seus tornozelos.
- Parem!
Gina tentou soltar-se, mas com Rony segurando as mãos e Harry segurando os pés, não dava para escapar. Eles a levaram até a beira d'água.
- Um, dois, três!
Jogaram-na sobre uma onda espumante. Ensopada, ela levantou-se e gritou:
- Ainda pego vocês! Vocês me pagam! Rony tinha corrido para a areia, mas Harry permaneceu na beira da água.
- Olha gente, ela tá querendo surfar! brincou Harry.
Levantando bem os joelhos, foi caminhando até onde Gina o esperava com as mãos na cintura.
- Vamos! Mergulhe! gritou Harry.
Então eles furaram a onda que se aproximava. Nadaram até o ponto em que as ondas começavam a formar-se, e, por mais de uma hora, brincaram juntos na água.
Queria que esse dia não acabasse nunca! pensava Gina, enquanto outra onda a levantava e carregava, enchendo-a de prazer. Queria ficar com essa sensação pra sempre.
Gina estava no quarto, deitada na cama, com a carta de Cho ainda na mão. Via a luz do dia diminuir pouco a pouco e ainda' sentia no corpo o movimento do mar. Também ainda sentia alegria não só de surfar, mas de estar com o Harry.
Isso foi hoje. E amanhã, quem sabia como seria amanhã com o Harry? Um dia na Disneylândia com ele. Seria ruim como o show da Debbie Stevens, ou maravilhoso como quando brincavam juntos no mar? Seus pensamentos foram interrompidos por um, batida na porta.
- Gina? Era a voz de seu tio.
- Telefone, querida. São seus pais.
- Obrigada, tio Bob. Vou atender no seu quarto, tá?!
Os pais de Gina conversaram com ela como sempre costumavam fazer. Sua mãe fez rodeios para chegar ao ponto que realmente lhe interessava, mas seu pai interrompeu-a com palavras ríspidas:
- Você vai voltar para casa domingo, Gina.
- Domingo? Quer dizer, neste domingo?
- É isso mesmo. Este domingo.
- Mas isso é daqui a três dias! Eu ia ficar até o final de agosto!
- Não discuta comigo, menina! As férias acabaram. Vê se não se atrasa para pegar o avião.
- Mas pai... começou ela, ouvindo em seguida o clique do outro lado da linha, indicando que ele desligara. Sua mãe ainda estava na outra extensão.
- Dei ao Bob as informações de vôo, querida. Ele disse que você tem se divertido muito.
- Mãe, por que eu tenho de voltar pra casa? Gina lutava com todas as forças para não chorar.
- Simplesmente tem de voltar. Não torne as coisas ainda mais difíceis para todos nós.
- O que está acontecendo, mãe? Houve uma pausa.
- Nós explicaremos tudo no domingo, quando você chegar.
Gina voltou para o quarto arrastando os pés e deitou-se na cama. Queria chorar, mas as lágrimas não vinham. Tudo parecia tão sem sentido. Teria de ir embora, e não sabia por quê. Será que era a fazenda do pai? Será que as coisas haviam piorado financeiramente para eles?
Ou era ela? Será que eles a estavam castigando por alguma coisa que tinha feito? Mas ela havia cumprido sua promessa; não fizera nada de que pudesse se arrepender. (Ou melhor, ainda não). Pelo menos ainda tinha três dias pra aproveitar, a começar por amanhã, quando iria comemorar seu aniversário com o Harry.
Seu aniversário. Nem seu pai nem sua mãe lhe desejaram "feliz aniversário". Quando se deu conta disso, as lágrimas brotaram. Lágrimas de amargura e de raiva.
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