- NÃO – Hermione gritou quando soube.
Depois se sentiu culpada por isso, mas naquele momento ela não pensou em mais nada. Não pensou em como a perda de Alvo Dumbledore significava a maior baixa que poderia ter ocorrido – talvez com a exceção da morte de Harrry – para o movimento anti-Voldemort. Não pensou em seu melhor amigo, Harry Potter, e sua desolação ao perder o única figura paterna que lhe restara depois de tantas outras perdas. Não pensou no que seria da Ordem da Fênix. Não pensou no que seria de Hogwarts. Seu pensamento voou para Severo Snape.
Todos discutiam na enfermaria. Ela ouvia as palavras de condenação dos professores, de seus amigos, de toda a Ordem da Fênix. “Por que Dumbledore confiara em Snape?” eles questionavam. “Maldito comensal da morte” eles bradavam.
Hermione queria correr dali. Levantou-se com pressa alegando que precisava ir ao seu quarto ver se bichento estava bem. Mas ela não caminhou até o Salão Comunal da Grifinória. Ela foi até o corredor do sétimo andar, onde ficava a sala precisa e pediu um refúgio para pensar. A sala se abriu para a menina como um quarto aconchegante. Ela entrou rapidamente, deitou-se na grande cama e deixou as lágrimas rolarem por seu rosto lembrando dos acontecimentos durante aquele ano.
Vários mais de um ano antes, naquele natal que o Sr. Weasley fora atacado da cobra de Voldemort no Departamento de Mistérios:
Era reunião da Ordem da Fênix e, preocupada com o marido, a Sr. Weasley se esquecera de realizar um feitiço de proteção contra as orelhas extensíveis. Diante disso, Harry, Hermione e todos os Weasleys em idade escolar ouviam a reunião naquela noite.
- O Lorde das Trevas planeja mais um massacre trouxa. Será um estupro coletivo de moças trouxas seguido de morte. – Snape pontuou, durante a reunião da Ordem da Fênix. – Veja bem, para ele e para os comensais da morte será somente uma grande festa. Ele não visa um grande impacto nem para o mundo trouxa nem para o mundo bruxo.
- Isso é horrível. – Lupin comentou. – Você não pode impedir?
- Receio que não. – Snape se limitou a dizer.
- Claro que não. – Sirius comentou. – São apenas moças trouxas, afinal.
- Como eu ia dizendo, antes do cachorro latir. – Snape continuou. – Como se trata de algo supérfluo ele me permitiu que contasse a Dumbledore, para que eu ganhe a confiança do diretor. Isto significa que a Ordem pode tentar impedir.
- Excelente. – Artur Weasley comentou. – Quando começamos a planejar a missão?
- Espero que você esteja pensando somente na parte do planejamento mesmo, Artur Weasley. – Molly ralhou com ele. – Porque não existe a possibilidade de você participar dessa missão.
O resto da reunião decorreu em torno do planejamento para salvar a maior parte de jovens trouxas possíveis. Mas Hermione sabia, assim como Snape sabia que algumas ainda seriam capturadas. Algumas não seriam salvas. Tudo o que a Ordem podia fazer era tentar evitar um massacre de maiores proporções.
Nenhum dos seus amigos, aliás, nem mesmo os membros da Ordem, pareciam se dar conta do que significava para Severo Snape ser espião. Até aquele momento, nem ela tinha pensado muito sobre isso. Mas ela percebeu uma coisa que os outros, ou não se deram conta ou não deram importância: Snape dissera que o estupro das trouxas seria uma festa dos comensais, isso significava que ele estava incluso, ele precisaria fazer parte disso, precisaria estuprar, torturar e matar.
Certamente não era a primeira vez que ele era obrigado a fazer essas coisas para não perder a confiança de Voldemort. E Hermione se chocou com o modo que isto era horrível. Ele, Severo Snape, sofria mais nesta guerra do que qualquer outro. Mais do que Sirius trancado na casa dos pais que odeia. Mais do que Lupin condenado a vida inteira a condição de mestiço, de lobisomem. Mais do que Harry, que já sofrera tanto. Porque Sirius, Lupin e Harry sempre puderam agir conforme o seu senso de moral, não tinham fantasmas, remorsos. Não viam todas as noites durante o sono os rostos dos homens e mulheres que eles mataram. Severo Snape com certeza via.
A admiração que ela sentiu naquele momento a tomou por completo, tudo que ela queria era encontrar um jeito de fazer com que ele se sentisse melhor. Era esta admiração profunda que a movia, muito mais do que a compaixão e a bondade próprias da menina. Ela queria, naquele momento ela desejou mais do que tudo, poder dizer a Snape que ela o valorizava. E sentiu raiva dos membros da Ordem, de seus amigos, sentiu raiva de Sirius; todos desconsideravam a dor daquele homem que sofria diariamente para protege-los.
Durante a refeição que seguiu a reunião da Ordem, Hermione comeu pouco. Severo Snape não tinha ficado para jantar. A maioria nem sequer acabara de comer o primeiro prato quando Hermione se levantou, disse estar indisposta e caminhou para fora da sala. Andou em silencio pela casa sem querer voltar pro quarto que dividia com Gina, procurava fazer o menor barulho possível para que os quadros da casa não começassem a gritar: “VÁ EMBORA, SANGUE RUIM”.
De repente uma ponto de luz rosada apareceu em sua frente. Ela se sentiu incrivelmente atraída por aquela cor. Uma paz atingiu Hermione, por completo. A luz a levou pelos corredores até que ela se viu diante de uma porta. Régulo Arturo Black, estava gravado. Era o quarto do irmão mais novo de Sirius, que havia se tornado um comensal da morte. Ela não queria entrar naquele cômodo, mas a luz a instigava de tal maneira que ela o fez. Abriu em seguida um guarda roupa, também movida pelo ponto rosado. Abriu uma gaveta, dentro dela uma caixinha, em seu interior encontrou um único pergaminho. Quando o segurou nas mãos, a luz rosada brilhou muito intensa preenchendo todo cômodo.
Abriu o pergaminho, estava escrito em letras douradas:
“Se você está lendo isso é porque há um comensal da morte que precisa proteger. Uma luz terá te trazido até o lugar onde o pergaminho foi deixado pela última vez. Meu nome é Julie Tikcry e eu levei anos preparando esse pergaminho. Infelizmente, já é tarde demais para mim e para meu amor, mas outras pessoas podem ser ajudadas. A magia aqui impregnada poderá agir de duas maneiras. 1- Sobre a marca negra; beijos ternos e sinceros sobre a marca do comensal protegido o deixará imune em relação a dor da marca negra. Se o comensal pensar nos mesmos beijos durante um chamado do Lorde das Trevas, a dor sempre cessará. 2 – Se você der seu coração e se colocar nas mãos deste comensal, para um verdadeiro amor que o tire dos caminhos das trevas, é só dar esse pergaminho a ele. Enquanto o portar, o homem será o mais forte do que antes”.
Hermione estava incrédula. Desejara tanto proteger Snape aquela noite que esse sentimento despertou a magia impregnada no pergaminho. Após ler aquelas palavras, Hermione teve certeza de 3 coisas:
1- Julie amara intensamente Régulo Arturo Black e tentou lhe dar o pergaminho, mas foi tarde demais pra ela.
2- Hermione com certeza não sentia algo tão intenso por Severo Snape, para que ela pudesse lhe dar o pergaminho. O que a deixou com um pouco de raiva, pensando que o artefato não lhe era útil. Por que não um pergaminho para admiração e preocupação, simplesmente? Ela não poderia dar seu coração a Severo Snape! Até porque ele, provavelmente, pisaria em cima como quem esmaga uma formiga.
3- Sobre a marca negra, ela até poderia ajudar; mas ela poderia apostar seu braço esquerdo que Severo Snape nunca lhe mostraria sua marca, nunca ficaria tão vulnerável diante dela.
A mente de Hermione voltou para o presente e ela se permitiu um pequeno sorriso. Ainda bem que não fizera uma aposta mágica, ela gostava muito de seu braço esquerdo. Naquele ano, graças as bolinhas weasley, Hermione conseguira dar a Snape a proteção sobre a marca negra. Aquela noite tinha sido muito especial, ela conversara com ele até tarde da noite e conheceu um novo Severo Snape. Um que não se mostrava na sala de aula, ou na Ordem da Fênix. Um que ela não queria esquecer. Um que certamente não era partidário de Voldemort e que não mataria de boa vontade Dumbledore.
Refletindo sobre o acontecido, Hermione duvidava que o diretor tenha se deixado enganar por Severo Snape. Ela mesma não poderia ter se enganado tanto com alguém. Diante disso, pensou que poderia haver alguma explicação. Hermione esperaria por ela.