Capítulo 2
Na manhã de Segunda-feira, os dois amigos aparataram para o Ministério, cheios de expectativas. Esperando que o nome Amélia Preminger começasse a saltar sobre os olhos deles. Contudo, tudo corria normalmente e as mesmas pessoas os cumprimentaram e a mesma rotina foi tomada. Fergus Trawley, o novo chefe da sessão dos aurores já aguardava a chegada deles para comentar o resultado de seus testes. Para a surpresa de ambos, haviam superado as expectativas e isso os deixara livres para se instalarem em suas novas salas, enquanto ele discutia com Quinn sobre a promoção deles.
_ Poderíamos falar com ele, nós mesmos. – sugeriu Harry.
_ Absolutamente, senhor Potter. – respondeu Fergus. – Esse é o meu trabalho.
Harry lançou um rápido olhar para Rony que compreendeu imediatamente.
_ Sabemos disso, senhor Trawley, mas, está tão ocupado, poderíamos...
_ Deixe disso,Weasley, agora saiam da minha frente. – zangou-se o homem empurrando os dois, deixando a sala pela rede de flu.
_ Ótimo... tínhamos que falar com Quinn. – disse Rony chateado.
_ Ele disse para irmos até nossas salas. Podemos descer até a sessão dos Inomináveis. – sugeriu Harry.
_ Qual desculpa daremos quando nos pegarem lá?
_ Pensamos na hora. – respondeu Harry. – Agora rápido, precisamos descer.
Saíram da sala tentando parecer naturais, passando por um grupo de bruxos de capas negras que conversava tão assiduamente, que sequer pareceram notar a presença dos garotos. O lugar se chamava Departamento de Mistérios por uma razão. Com os corredores idênticos, seria fácil se perder e não conheciam a entrada para a sessão dos inomináveis para aparatarem diretamente para lá. Usar rede de flu, arriscado. Quinn estaria monitorando e como não falaram com ele, poderia ter conclusões erradas. Por fim pararam diante de um corredor que possuía algumas fotos exibidas.
_ Ei Harry! – chamou Rony. – É o Moody. – disse apontando para um retrato do falecido professor apoiado em seu cajado, com seu olho se mexendo freneticamente.
_ Emília Bagnold. – reconheceu Harry. – Mas ela foi ministra, por que estaria aqui?
_ Talvez seja a parede da fama do ministério. – sugeriu Rony em tom de brincadeira. – Espere, olha aqui! – exclamou puxando o ombro do amigo que mirava a foto de Scrimgeour.
Ao lado da imagem de um par de bruxos desconhecidos pelos dois, se encontrava o retrato de uma mulher esguia e imponente, apoiada em uma mesa. As fotos estavam envelhecidas, e não conseguiam ter uma ideia detalhada de como ela era, ainda assim, ela sorria de lado numa malícia inocente e os traços de seu rosto eram delicados. Logo abaixo, o nome gravado em uma placa cor de prata: Amélia Preminger – chefe da subsessão dos Inomináveis. Pesquisas com o Véu Negro.
_ Como é?! – exclamou Harry. – Então foi ela quem trouxe aquela coisa para cá?
_ Ao que parece...
_ Ei! O que estão fazendo aqui? – indagou um bruxo que se aproximava.
Rony lançou um olhar rápido para Harry.
_ Estávamos procurando pelo ministro. – mentiu ele.
_ No Departamento de Mistérios? – devolveu o homem descrente. – Eu pensava que conheceria o ministério melhor, senhor Potter.
Rony não conteve um sorriso, foi sim uma péssima mentira.
_ Nos conhecemos? – perguntou Harry para o homem.
_ Não me reconhece, Harry? Dédalo! – disse ele surpreso.
_ Ah, claro! – lembrou-se Harry. – Sem a capa e o chapéu extravagantes fica difícil, confesso.
_ Querem falar com Quinn? – perguntou Diggle.
_ Sim. – respondeu Rony. – Você trabalha aqui há tempos, não é Dédalo?
_ Desde antes de vocês nascerem.
_ A conheceu? – indagou Rony apontando para o retrato de Amélia.
_ Eu a vi, certa vez. – disse Dédalo pensativo. – Era uma mulher muito bonita, mesmo em seus anos mais avançados, mas reservada. Moody gostava muito dela, se conheceram antes que ela fosse promovida a chefia. Sempre a achei uma pessoa intrigante... ela se meteu em várias brigas com Bartô Crounch, na época em que ele mandou o filho para a prisão.
_ Ainda está viva?
_ Penso que sim. – ponderou ele. – Ela conheceu seus pais, Harry. Digo, na Ordem original ela costumava aparecer em algumas reuniões. Estudou com Dumbledore e Doge. Lembra-se dele? Elifas?
_ Sim. – falou Harry. – Ela já se aposentou, alguém sabe dizer onde ela vive?
_ Não. – garantiu ele. – Nunca mais ouvimos sobre ela após a aposentadoria. Contudo, como disse, ela era muito próxima de Dumbledore e Doge, talvez eles saibam de alguma coisa. – ressalvou. – Por que o repentino interesse?
_ Ah... estávamos olhando e ficamos impressionados com as pesquisas sobre o Véu Negro. – disse Rony antes que Harry falasse.
_ Entendo. – murmurou Diggle. – Bem, é melhor vocês irem.
_ Temos que falar com a Hermione. – disse Rony quando voltaram para suas salas.
_ Como? Vamos mandar um memorando para ela? – indagou Harry.
_ Espera. – disse Rony se sentando para escrever rapidamente uma carta para Hermione numa folha. – Gillian! – chamou se referindo a uma das garotas que passava. – Consegue arrumar quem mande isso para Hogwarts para mim? É urgente!
_ Claro Rony. – garantiu Gillian dando meia volta.
_ Viu?
_ De onde conheceu ela?
_ Ela conhece o Gui. – explicou ele. – E se você conhece um Weasley, conhece todos.
Harry acenou positivamente rindo da enunciação do amigo. Mais tarde, receberam a resposta de Hermione. Uma única linha, bem direta: “O que estão esperando para escrever ao senhor Doge?”
_ Sua namorada é bem gentil. – comentou Harry.
_ Sua melhor amiga. – retrucou Rony. – E é isso o que mais amamos nela. Escrevemos para ele?
_ Acho que se não escrevermos a Mione pode mandar matar a gente.
_ Bem lembrado. – concordou Rony. – Você falou com ele no casamento da Fleur e do Gui, você escreve.
_ Justo. – desdenhou Harry rindo.
“Caro senhor Doge,
Pode-se afirmar que faz um bom tempo que não nos falamos, mas eu gostaria de saber se poderia ir visitá-lo. Há um assunto especial que gostaria de poder tratar com o senhor, sobre Dumbledore.
Atenciosamente,
Harry Potter”
Rony pediu a Gillian que mandasse mais uma e eles aguardaram a resposta, enquanto continuavam as suas tarefas habituais. Para sua sorte, Quinn não perguntara o porquê de terem descido até lá. Quando a resposta de Doge chegou, Harry já estava ficando nervoso. O dia estava terminando e eles tiveram que lê-la na Toca.
_ Boa noite meninos. – cumprimentou a senhora Weasley.
_ Agora não. – retrucou Rony correndo com Harry para seu quarto.
_ Isso é jeito de falar com sua mãe? – ralhou Arthur.
_ Desculpe, mãe! – gritou do andar de cima.
“Caro senhor Potter,
Fiquei muito feliz por receber sua carta e confesso ter ficado bastante surpreso também. No que tange meu amigo Alvo, não sei no que posso ajudar além do que já deve ter visto no livro de Rita Skeeter e o que lhe contei há dois anos no casamento Weasley. Mas, ficarei feliz por responder quaisquer outras perguntas que tenha para me fazer. Está convidado para vir me visitar em minha casa, em Somerset, chalé de número 8, nessa Sexta-feira à tarde para o chá.
Até lá,
Elifas Doge”
_ O que está acontecendo aqui? – perguntou a senhora Weasley entrando de supetão no quarto.
_ Fomos convidados para visitar Elifas Doge na Sexta-feira. – explicou Rony.
_ E o que Elifas poderia querer com vocês? – inquiriu Molly desconfiada.
_ Não fazemos ideia. – disseram juntos.
_ Sei... – murmurou ela. – Desçam, está na hora do jantar.
†††
Na manhã seguinte, eles avisaram Hermione do encontro na Sexta-feira e ela os respondera confirmando sua presença, visto que teria um período livre durante o resto da tarde. Quando a determinada Sexta chegou, os amigos se explicaram para Quinn, dizendo que era um assunto particular, o que não preocupou o novo ministro. Ele ficou surpreso, sim, mas não levantou mais questões. Aparataram para Hogsmeade, onde se encontraram com Hermione e daí aparataram para Somerset. Um condado muito famoso na Inglaterra, nas proximidades de Londres.
As casas eram muito parecidas entre si, o que dificultaria encontrar a morada de Elifas, caso não tivessem o número. O chalé oito era uma construção maciça de tijolos pintados de branco, com as janelas e porta gastas. Harry bateu à porta, ouvindo a voz asmática de Elifas Doge respondendo que já estava indo do lado de dentro. Estava mais velho do que o garoto se lembrava e sorriu abertamente para eles vê-los ali.
_ Como vão, meus caros? Entrem, entrem. – convidou gentilmente. – Eu achei que seríamos apenas nós, senhor Potter.
_ Espero que não tenha problema.
_ Oh, não, é claro que não. – assegurou ele. – Na minha idade, receber visitas é uma alegria. Sentem-se, estava terminando de preparar o chá.
A casa de Doge era cheia de personalidade. As prateleiras estavam recheadas com retratos antigos de velhos amigos e conhecidos. Harry imediatamente reconheceu-o com Dumbledore no que deveria ser seu sexto ano em Hogwarts, mas apenas os dois, nenhuma mulher. Chegou a duvidar se estaria no lugar certo. Eles se sentaram onde ele indicara, uma mesa com cadeiras já bem gastas, mas que poderiam suportar mais alguns anos. Minutos depois, o velho senhor estava de volta com uma bandeja com as xícaras e um prato amplo de sanduíches e bolinhos, flutuando atrás de si.
_ Sirvam-se, senhores. – disse ele ao se sentar de frente para eles, servindo o chá para todos. – Então, senhor Potter, no que posso ajudá-lo? – perguntou Doge após um minuto de silêncio.
Harry mirou Rony e Hermione retirou o envelope de Amélia de dentro do bolso do casaco, estendendo-o a ele. Elifas lançou um olhar curioso para os garotos após checar o nome de Dumbledore escrito naquela conhecida caligrafia.
_ Onde conseguiram isso? – falou ele.
_ Estava sob o apoio de escrever de Dumbledore. – contou Harry. – A ponta estava aparecendo e eu... fiquei curioso e peguei. – acrescentou sentindo-se corar.
_ Entendo. – respondeu Doge com um suspiro cansado. – Os mistérios realmente o perseguem, não é? – indagou fazendo-os sorrir.
Retirou o pergaminho de dentro do envelope e leu-o mentalmente, uma expressão de pura tristeza se apoderando de seu rosto. Os três amigos se olharam consternados.
_ Sabemos que o nome dela é Amélia Preminger, só, gostaríamos de saber mais sobre... bem, o que está escrito aí. – disse Harry.
_ Amélia... – murmurou com pesar. – Uma boa pessoa, boa amiga... mas, pobrezinha, como sofreu por isso.
_ O senhor era amigo dela? – indagou Hermione.
_ Alvo e eu. – respondeu solenemente. – Desde o nosso primeiro dia na escola. No começo se mostrou ser uma pessoa bem tímida, mas todos somos em nosso primeiro dia. Alvo e ela sempre foram grandes companheiros, me custa a acreditar que... tenham deixado de se corresponder.
_ Como ela era? – quis saber Rony. – Digo, vimos uma fotografia no Ministério...
_ Amélia era muito bonita, com certeza. Teve namorados antes de se apaixonar por Alvo, mas, muitos sabiam que eles já se gostavam mesmo antes do meio do quinto ano. Em meio ao N.O.M.s, ela estava tão nervosa...
_ Pior que a Hermione não pode ter sido. – comentou Rony e Hermione bateu no braço dele, fazendo Harry e Elifas rirem. De repente, o segundo se levantou e trouxe um pequeno porta retrato redondo nas mãos.
_ Aqui. – disse entregando a foto para eles. – Ela passou quase dois anos na França, fez amizade com uma jovem trouxa e mandou essa fotografia, tirada com a máquina dessa amiga. Ela deveria estar com seus dezenove anos, aí.
A foto mostrava uma mulher vestida com um belo vestido longo e os cabelos meio presos meio soltos para trás, ao lado de uma casa. Mandava um beijo para quem estivesse vendo-a. Atrás, uma dedicatória: “Eli querido, queria que estivesse aqui para ver! Eu realmente comi as pernas de rã, confesso são deliciosas.” Rony riu.
_ Alvo recebeu uma igual. – disse Elifas. – A dedicatória era diferente, é claro. Não me lembro bem o que dizia, mas era o mesmo tamanho. Ela não gostava de deixar com que pensássemos que a amizade de um era mais importante do que a do outro, mas, de qualquer forma era.
_ O senhor sabia do relacionamento deles? – perguntou Hermione.
_ Era um dos poucos que sabia. – disse. – Abeforth, Nicolau e Perenelle, Moody e eu. – enumerou. – Pessoas muito discretas, eles foram. Quando estavam na frente de muitas pessoas, conseguiam se passar por nada mais que melhores amigos. Os sinais vinham implicitamente.
_ Eles deveriam se encontrar escondidos. – deduziu Harry.
_ Não duvido. – concordou Elifas. – Senhor Potter, devo concluir que isso não passa de mera curiosidade e nada disso seria divulgado.
_ Não, claro que não. – garantiu Harry. – Só gostaria de saber de mais, por uma visão diferente...
Elifas mirou-os por alguns minutos, refletindo consigo mesmo. Em seguida, saiu em direção a uma sala ao lado da cozinha. Possivelmente a biblioteca, de onde voltou com um livro bem grosso.
_ A última vez que veio me visitar, Amélia trouxe isso. – disse estendendo o livro para eles. – O diário dela. Escrito quando já estava mais velha e, segundo ela, decidiu que deixaria tudo para trás. Confiou-o a mim para guardá-lo. Não sei onde ela está, senhor Potter, mas sei que ainda vive. Falhei com Alvo, deixando que toda aquela sujeira de Skeeter fosse publicada, mas não cometerei o mesmo erro com Amélia. Não estou ficando mais jovem e não sei o que vai acontecer com tudo isso. – falou apontando para suas coisas. – Mas posso garantir que isso ficará a salvo?
_ Ninguém jamais vai transformar isso num livro, eu garanto. – prometeu Harry.
_ Ótimo. – respondeu Elifas em paz. – Então fique com ele. Acho que Amélia não se oporia a mostrá-lo para o filho de Tiago e Lílian.
_ Sabe se Dumbledore respondeu a essa carta? – indagou Hermione erguendo o pergaminho no ar.
_ Eu me lembro desse dia. O funeral de Nicolau e Perenelle. Fazia muito tempo que eles não se viam... em público pelo menos, não sei se os encontros as escuras continuaram. Mas sei que pareciam mais distantes do que o habitual um com o outro. Estava mais disposta a lembrar-se dos velhos tempos comigo, do que com ele. Deixei-os sozinhos, então. Não sei o que houve depois. – respondeu Doge. – Talvez Alvo quisesse responder a carta, mas achou que isso daria maiores esperanças a ela. Seria o natural dele e me dá tristeza saber que... tenham tido que acabar assim.
Hermione assentiu erguendo o diário com as páginas amareladas, apertando-o contra o corpo.
Terminaram o chá falando de assuntos menos fúnebres, mas a foto de Amélia continuava na mesa e Harry lançava olhares rápidos para ela sempre que podia. O que os separara? E onde essa mulher estava? Pensava ao fitar Amélia Preminger mandar um beijo para ele e piscar de forma infantil.