O dia amanheceu chuvoso e fresco, mas infelizmente a chuva não levou os meus problemas embora. Levantei, me troquei e desci para tomar café. O Salão Principal estava vazio. Devia ser bem cedo ainda, então fui até a cozinha buscar comida para os dois marotos.
Cheguei na Sala Precisa e os dois ainda estavam dormindo. Deixei a comida em cima da mesinha de centro que tinha lá e fui embora. Nesse meio tempo, quando voltei para o Salão Principal, já havia chegado algumas pessoas. Rose era uma delas, estava sentada na mesa da Grifinória lendo um livro e comendo ovos mexidos, ela sorria.
- Bom-dia. – falei me sentando de frente pra ela.
- Bom-dia – ela falou levantando os olhos dos livros e olhando para mim, sorriu e depois voltou a se concentrar na sua leitura.
- Onde estão os outros? – perguntei me servindo de ovos e bacon.
- Devem estar descendo – falou sem tirar os olhos do livro.
- Eu tenho que falar com você, Ro. – falei um pouco séria, ela baixou o livro, o fechou e colocou sobre a mesa me olhando preocupada.
- O que houve? – perguntou.
- Bom-dia – falaram Alvo, Hugo e Roxanne chegando de repente e se sentando conosco. Fiz um sinal para Rose, avisando que conversaríamos depois e respondemos o bom-dia deles.
Percebi que Alvo também estava um pouco sorridente demais para o normal e, estranhamente, quando se sentou ao lado de Rose ficou vermelho da cor do meu cabelo, ele evitava olhar muito para ela. O salão foi se enchendo de estudantes de todas as casas e os professores foram chegando também, inclusive Severo Snape.
- Aquele ali na mesa dos professores não é... – começou Alvo meio assustado apontando para onde Severo se sentava.
- É, sim, ele mesmo. Severo Snape – respondi mordendo o canto dos lábios.
- E você poderia me dizer o que raios Severo Snape está fazendo aqui?! – perguntou Rose indignada se segurando para não surtar. – E por que ninguém, além da gente, parece achar isso estranho?
- Ele não estava, meio que tipo assim... MORTO?! – questionou Roxanne.
- Era sobre isso também que eu queria falar com vocês – falei apontando para Rose que estava na minha frente e para Roxanne que estava do meu lado.
- E a gente não pode saber? – perguntou Hugo, referindo-se a ele e a Alvo.
- Tem uma coisa que não... – falei.
- Você vai me explicar isso agora! – falou Rose se levantando e indo para a porta. Eu, Roxanne, Hugo e Alvo nos levantamos também para irmos atrás dela. – Vocês dois ficam – falou parando subitamente e apontando para Alvo e Hugo.
Me virei para eles.
- Eu explico depois a parte do Severo.
Eles assentiram meio decepcionados.
- Até mais.
Fomos andando e entramos em uma sala de aula que estava vazia. Fechamos a porta para ninguém escutar nossa conversa.
- Sou toda ouvidos. – falou Rose se sentando em uma mesa, Roxanne também se sentou.
Então comecei falando sobre a detenção, sobre Severo ter aparecido lá e como achei que aquilo tinha uma ligação com a perda de memória de Tiago. Falei sobre Sirius, sobre eu estar apaixonada por ele e que tinha sido por isso que terminara com Scórpius.
Quando acabei, elas ficaram um tempo em silêncio.
- Deixa eu ver se eu entendi. – falou Roxanne – você está apaixonada pela “versão mais nova” do padrinho do seu pai?
- É – confirmei – é isso ai.
- Lili, - começou Rose – você já parou para pensar que esse seu “romance” pode estar ajudando a mudar as coisas do passado também?
Não, eu não tinha pensado nisso.
- Mas eu não consigo parar de pensar nele... Sei lá, eu sei que é errado. Mas ele me faz sentir melhor, gosto de estar com ele.
- Mas ele é o padrinho do seu pai! – falou Rox – ele é, tipo, uns cinquenta anos mais velho que você!
- Eu sei... – me sentei em uma cadeira que achei atrás de mim – vocês não sabem como é estar apaixonada pela pessoa mais errada possível.
- Eu beijei o Alvo. – confessou Rose de repente.
- Oi?! – falei confusa. Por que raios ela estava falando isso naquele exato momento?
- Eu sei que não tem nada a ver com o assunto, mas eu precisava contar isso pra vocês.
- Como assim, Rose? – perguntou Roxanne.
- Eu estava na biblioteca com ele ontem á noite, fazendo o dever de Poções, quando nós nos beijamos. Foi muito de repente. – ficamos em silêncio, não tinha muita coisa para se dizer sobre aquilo – Desculpa por mudar de assunto assim, gente, pode continuar, Lili.
- Você gosta do Alvo, Rose? – perguntei, ela pensou por um tempo.
- Não sei – ela deu de ombros, parou um pouco – mas esquece isso agora, o fato é que você tem que acabar com esse seu relacionamento com o Sirius, Lili. Pode não resolver cem por cento as coisas, mas já vai ajudar um pouco.
Pov’s Hermione Wesley.
Fazia anos que eu não usava meu vira-tempo, mas quando se tem dois compromissos praticamente no mesmo horário, é preciso. No entanto, mesmo eu não usando-o eu o carrego sempre comigo, seja no bolso do meu casaco, ou na minha bolsa. Só que, por motivos desconhecidos, ele não estava em lugar algum e isso estava começando a me preocupar.
- Rony, querido, você viu meu vira-tempo? – perguntei entrando na cozinha, onde Rony estava sentado tomando uma xícara de café.
- Não está no seu casaco? – perguntou.
- Não, já revirei quase todos os lugares possíveis, mas não estou achando nenhum sinal dele. – falei me sentando na frente dele.
- Pode estar na casa da minha mãe, mande uma carta para ela. – ele falou, coloquei um pouco de café para mim em outra xícara.
- Acho que vou precisar aparatar até lá, porque preciso dele para usar hoje.
- O que achar melhor, amor. – falou. Ficamos em silencio por um pequeno tempo.
- E se as crianças tiverem pegado? – perguntei preocupada.
- Então daremos uns bons tapas neles.
- RONY WESLEY! Sabe que não sou a favor da agressão!
- Então conversaremos com eles até aprenderem a lição. – falou com uma voz polida.
- Que engraçado, Rony – falei revirando os olhos – Você não muda mesmo. Isso é sério!
- Calma, Mione, eles não pegaram seu vira-tempo. Eles nem devem saber que você tem um, nem devem saber o que é um ou muito menos que existe uma coisa dessas!
Então alguém bateu na porta, era uma batida desesperada. Fui até lá e a abri, me deparando com Harry e Gina, ambos com um olhar preocupado e desesperado. Gina segurava um exemplar do Profeta Diário.
- Olá, aconteceu alguma coisa? – perguntei abrindo espaço para eles entrarem. Fechei a porta atrás de nós e os acompanhei até a cozinha, os dois ainda não haviam dito uma palavra sequer.
- Gina? Harry? – Rony se levantou da mesa – o-oi... aconteceu alguma coisa?
Gina colocou o jornal na mesa, vimos uma manchete impossível.
“Entrevista exclusiva com o famoso ex-jogador de quadribol, Sirius Black.
Ontem, o incrível e lendário artilheiro Sirius, dos Montrose Magpies nos cedeu uma entrevista exclusivíssima.
- Por: Lilá Brown”
Isso era impossível, Sirius está morto há mais ou menos vinte e seis anos. Nenhum de nós conseguia acreditar no que estava lendo, estávamos todos em choque, ninguém falou nada... Como tudo aquilo podia acontecer? A não ser que alguém voltasse para o passado e impedisse Sirius de morrer, não era... Espera.
- O vira-tempo. – pensei alto.
- O que? – perguntou Harry.
- Meu vira-tempo – falei e todos tiraram os olhos do jornal e olharam para mim – Ele sumiu, alguém deve ter pegado e voltado para o passado, mudando alguma coisa que fez Sirius “reviver”.
- Mas quem será que pegria seu vira-tempo assim do nada, Mione? – perguntou Rony.
- Pode ter sido alguma das crianças. – falei – vamos ir até Hogwarts falar com eles.
- Se bem que eu já tenho uma suspeita de quem pode ter sido – falou Gina cruzando os braços.
- Eu também – falou Harry.
Na verdade, parecia que nós quatro já tínhamos uma suspeita, a mesma suspeita.
- Tiago – falamos em coro.
Pov’s Lilian Luna.
Já era hora do almoço e eu e Scórpius ainda não tínhamos nos falado. Estava indo para o Salão Principal almoçar. Depois que terminasse ia levar comida para os garotos, que já deviam ter acordado e acabado com a que eu levara de manhã. Não tinha visto Tiago o dia inteiro, nem mesmo na aula de Defesa contra as Artes das Trevas. Mas então ele apareceu andando pelos corredores, parecendo meio perdido. Ficava olhando e andando para todos os lados como se procurasse alguma coisa, mas sem saber o que.
- Tiago? – chamei, ele se virou pra mim me olhando como se tentasse me reconhecer.
- Te conheço? – perguntou se aproximando um pouco de mim.
- Sou Lilian, sua irmã. – falei, ele ficou pensativo por um tempo, mas depois sorriu.
- Claro! Lilian! Desculpe, tive um lapso de memória. – ele olhou em volta – Onde é que estamos mesmo?
- Em Hogwarts, nossa escola. – falei preocupada, ele estava perdendo mais memória. Estava sumindo.
- Claro, claro. – eu o abracei o mais forte que consegui, não queria perder o meu irmão. Ele retribuiu o abraço. Talvez ainda desse tempo de salvar as coisas.
- Senhores. – a voz de Filch falou atrás de mim, soltei Tiago e me virei para ele. – poderiam me acompanhar? A Diretora quer vê-los. – Eu assenti, Tiago o olhava como se tentasse reconhece-lo também.
- Quem é você? – perguntou Tiago. Filch bufou e revirou os olhos sem paciência.
- Só pode estar de brincadeira. – falou irritado – Vamos logo!
Começamos a acompanha-lo, mas percebi que ele não nos levava para a sala da Diretora, ele nos levava direto para a sala de Poções.
- O que fazemos aqui? – perguntei – Não ia nos levar para a Diretora?
- Ela me pediu que os trouxesse aqui – ele abriu a porta.
Entramos e lá estava a diretora McGonagall, só que não sozinha. Ela estava acompanhada da tia Mione, do tio Rony, da mamãe e do papai. Eles estavam de costas para nós olhando para Alvo, Rose, Roxanne e Hugo, que estavam sentados um do lado do outro com cara de culpado.
- Podem entrar queridos – falou mamãe olhando para nós – e sentem-se, por favor.
Eu e Tiago nos sentamos ao lado de Hugo.
- O que aconteceu? – perguntei – e por que estamos na sala de Poções?
- É que aqui é melhor do que a minha sala para conversarmos. Não tinha espaço para todos. – falou McGonagall.
- E acontece que o vira tempo da tia Hermione sumiu. – falou papai, eu gelei na hora. – E hoje, pela manhã, quando fomos olhar o jornal havia uma entrevista com um jogador de Quadribol chamado Sirius Black – tudo bem, essa eu não sabia.
- Não acha estranho, Tiago? – falou mamãe – coincidência, não?
- Eu? – perguntou Tiago – Por que tudo tem que ser sempre minha culpa? – acho que por um momento ele recuperou a memória.
- Porque você herdou “o espírito maroto” de seu avô – falou papai.
- Mas eu nem toquei no vira-tempo da tia Mione. Pergunta pra Lili o que foi que aconteceu! – ele falou apontando pra mim. Ele só recupera a memória pra me ferrar, né?
- Lili? – questionou tia Mione surpresa.
- É, a própria. – falou Tiago e todos olharam para mim.
- É, fui eu quem pegou o vira-tempo. – falei – Mas não foi de propósito! Ele deve ter caído no meu malão de Hogwarts, não sei como. Fui ver o que era e acabei indo para o passado... Mas agora eu já estou de volta e estou cuidando para consertar tudo o que aconteceu! – falei quase chorando.
- Mas o que exatamente aconteceu, querida? – perguntou tia Mione com a maior calma possível.
Abri a boca para responder, pronta para contar tudo o que tinha acontecido, ou quase tudo, mas a porta se abriu de repente e Pontas, Almofadinhas e Pirraça entraram rindo. Mamãe, papaim tia Mione e tio Rony se viraram para ver quem era. Eu apenas fechei os olhos desejando para que eles fossem embora antes dos quatro se tocarem quem eram. Primeiro veio o silêncio.
- É... Eu acho que não foi uma boa virmos zoar com o Ranhoso... – ouvi Sirius falar. Tiago ao meu lado prendeu a respiração. Todos nós já sabíamos quem era.
- Pa-pa-pai? – gaguejou meu pai. E eles tinham descoberto também.