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7. Cap Sete


Fic: GINA WEASLEY:DELÍRIOS DE CONSUMO NA QUINTA AVENIDA


Fonte: 10 12 14 16 18 20
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SETE

Nova York! Eu vou para Nova York! Nova York!

Tudo se transformou. Tudo se encaixou. Era por isso que Harry estava tão cheio de segredos. Nós tivemos um papo maravilhoso e logo no casamento, e Harry explicou tudo, e de repente tudo fez sentido. Acontece que ele vai abrir um novo escritória da Potter Comunications em Nova York, em sociedade com um publicitário de Washington. E vai para lá comandar o escritório. Disse que estava esperando a semana inteira para me pedir que fosse junto - mas sabia que eu não queria abrir mão da carreira, só para acompanhá-lo. Assim - esta é a melhor parte -, andou falando com alguns contatos na televisão, e acha que eu posso conseguir trabalho como especialista financeira num programa de Tv americano! Dr foto, ele diz que eu vou ser "contratada no ato"porque os americanos adoram o sotaque inglês. Parece que um produtor já praticamente me ofereceu trabalho só vendo uma fita que Harry mostrou. Não é fantástico?

O motivo de não ter dito nada antes dói porque não queria alimentar minhas esperanças antes que as coisas começassem a ser definidas. Mas agora parece que todos os investidores estão no barco, e todo mundo está muito positivo, e espera finalizar o acordo o mais cedo possível. Já há um monte de clientes potenciais por lá, segundo ele, e isso antes mesmo de ter começado.

E adivinha só! Nós vamos para lá daqui há três dias! Harry vai se encontrar com alguns de seus parceiros - e vou ter entrevistas com o pessoal da TV e explorar a cidade. Meu Deus, isso é tão empolgante. Dentro de apenas setenta e duas horas estarei lá. Na Big Apple. A cidade que nunca dorme. A...

- Gina?

Ah, merda. Volto a mim e rapidamente dou um sorriso luminoso. Estou sentada no cenário do Morning Coffee, atendendo ao telefonema usual, e Jane, de Linconln, esteve explicando que quer comprar um imóvel, mas não sabe que tipo de hipoteca deve fazer.

Ah, pelo amor de Deus. Quantas vezes eu expliquei a diferença entre os planos de
reembolso e as políticas de dotação? Você sabe, algumas vezes esse trabalho pode ser muito interessante, ouvir as pessoas e seus problemas e tentar ajudá-las. Mas outras vezes é tão tedioso quanto era escrever para Succeful Saving. Puxa, hipotecas, de novo?

Sinto vontade de gritar: "Você não assistiu ao programa da semana passada?"

- Bom, Jane - digo, contendo um bocejo. A questão das hipotecas é bem complicada.

Enquanto falo, minha mente começa a vaguear de novo para Nova York. Pense só. Vamos ter um apartamento em Manhattan. Em algum espantoso condomínio do Upper East Side - ou talvez num lugar bem bacana em Greenwich Village. Meu 4Deus, sim! Vai ser simplesmente perfeito.

Para ser honesta, eu não tinha pensado em morar com Harry nem daqui a... bem, séculos. Admito que se tivéssemos ficado em Londres, talvez isso nunca acontecesse. Quero dizer, é um passo bem grande, não é? Mas o fato é que isto é diferente. Como disse Harry, essa é a chance de nossa vida. É todo um novo começo. São táxis amarelos e arranha-céus e Wooddy Alen e bancar a Bonequinha de luxo na Tiffany's.

O negócio realmente estranho é que, mesmo nunca tendo estado em Nova York, já sinto uma afinidade com o lugar. Tipo, por exemplo, eu adoro sushi - e o sushi foi inventado em Nova York, não foi? E sempre assisto a Friends a não ser que vá sair à noite. E Cheers. (Só que, pensando bem, esse aí é em Boston, não é? Ainda assim é a mesma coisa.)

- Então, Jane, independentemente do que você esteja comprando - digo em tom sonhador - seja... um dúplex da Quinta Avenida ou um apartamento sem elevador no East Village... você deve maximizar o potencial de seus dólares. O que significa...

Paro ao ver Emma e Rory me encarando estranhamente.

- Gina, Jane está planejando comprar uma casa em Skegness.

- E certamente é com libras, não é? - diz Rory, olhando em volta, como se pedisse apoio. - Não é?

- É, bem - digo às pressas. Obviamente eu estava apenas usando isso como exemplo. O princípio se aplica a qualquer lugar onde você esteja comprando. Londres, Nova York, Skegness...

- E, com esse tom internacional, acho que teremos de terminar - diz Emma. - Espero que isso tenha ajudado, Jane, e obrigada de novo à nossa especialista em finanças Gina Weasley... você tem uma última palavra, Gina?

- A mesma mensagem de sempre - digo, com um sorriso caloroso para a câmera. - Cuide do seu dinheiro...

- E seu dinheiro cuidará de você - diz todo mundo em coro, obedientemente.

- E estamos chegando ao fim do programa - diz Emma. - Junte-se a nós amanhã, quando reuniremos um trio de professores de Teddington...

- ... falaremos com o homem que se tornou artista de circo aos sessenta e cinco anos... -diz Rory.

- ... e estaremos entregando cinco mil libras no quadro "Adivinhe"! Até lá!

Há uma pausa congelada - e todo mundo relaxa quando a música tema começa a tocar nos autos-falantes.

- Então Gina, você está indo para Nova York ou algo assim? - pergunta Rory.

- Estou - digo sorrindo de orelha a orelha para ele. - Por duas semanas!

- Que legal - diz Emma. Por quê?

- Ah, não sei... - dou de ombros vagamente. - Só um capricho.

Ainda não falei com ninguém do programa sobre a mudança para Nova York. Na verdade, foi conselho de Harry. Só por precaução.

- Gina, eu queria dar uma palavrinha rápida diz Zelda, assistente de produção, entrando no cenário com alguns papéis. - Seu novo contrato está pronto para ser assinado, mas eu preciso ler com você. Há um nova cláusula sobre representa a imagem da estação. – Ela baixa voz. - Depois de todo aquele problema com o professor Jamie.

- Ah, sei - digo, e faço uma cara simpática. - O professor Jamie é o especialista em educação do Morning Coffee. Ou pelo menos era, até que o Daily World fez uma matéria sobre ele em sua série "Eles São Mesmo O Que Parecem?" revelando que Jamie não era professor de verdade e coisa e tal. De fato, ele nem tinha diploma, só o falso que comprou na "Universidade de Oxbridge". Todos os tablóides publicaram a história fotos dele com o chapéu de burro que usou na maratona televisiva do ano passado. Senti pena de verdade, porque ele queria dar conselhos bons.

E fiquei um pouco surpresa por o Daily World ser tão maldoso. Eu já escrevi para o Daily World, uma ou duas vezes, e sempre pensei que tivessem bom senso, para um tablóide.

- Não vou demorar cinco minutos - diz Zelda. - Nós poderíamos ir à minha sala...

- Bom... - digo, e hesito. Porque não quero assinar nada no momento, quero? Se estou planejando mudar de emprego. - Eu estou meio com pressa. - O que verdade, porque tenho de chegar ao escritório de Harry ao meio-dia, e depois preparar minhas coisas para Nova York (Ha! Haha!) - Isso não pode esperar até eu voltar?

- Tudo bem - diz Zelda. - Sem problema. - Ela recoloca o contrato no envelope pardo e ri para mim. - Divirta-se. Ei, sabe, você deveria fazer umas compras enquanto estiver lá.

- Compras? - digo, como se isso não tivesse me passado pela cabeça. - É, acho que sim

- Ahh, sim - diz Emma. - Não se pode ir à Nova York sem fazer compras! Se bem que eu acho que a Gina diria que deveríamos pôr nosso dinheiro na caderneta de poupança.

Ela ri toda alegre e Zelda participa. De algum modo, todo o pessoal do programa acha que eu sou incrivelmente organizada com o meu dinheiro - e, sem querer, eu não neguei. Mas não acho que isso tenha importância.

- Uma caderneta de poupança é boa idéia, claro... - ouço-me dizendo. - Mas, como sempre digo, não há problema em fazer compras de vez em quando, desde que você se mantenha no orçamento.

- É isso que você vai fazer, então? - pergunta Emma, interessada. - Organizar um orçamento?

- Ah, sem dúvida - digo cheia de sensatez. - É o único modo.

O que é totalmente verdade. Quero dizer, obviamente eu estou planejando fazer um orçamento de compras em Nova York. Vou estabelecer limites realistas e ficar firme neles. É muito simples.

Se bem que o que eu provavelmente farei é tornar os limites bastante amplos e flexíveis. Porque é sempre uma boa idéia deixar uma folga extra para as emergências e saídas inesperadas.

- Você é tão virtuosa! - diz Emma, balançando a cabeça. Mas é por isso que você é a especialista em finanças e eu não. - Ela olha quando o homem dos sanduíches se aproxima com um bandeja. - Ahh, que delícia, estou morrendo de fome! Vou querer...bacon com abacate.

- E eu quero atum com milho - diz Zelda. - O que você quer, Gina?

- Pastrami no centeio. - digo casualmente - Sem maionese.

- Acho que ele não tem isso - diz Zelda, piscando com a sobrancelha. - Tem salada de presunto...

- Então um bagel. Queijo cremoso e lox. E eu refrigerante.

- Uma água gasosa, é o que você quer dizer, não é? - pergunta Zelda.

- O que é lox? - pergunta Emma, perplexa, e eu finjo que não ouvi. Na verdade, não sei bem o que é lox, mas sei que é comido em Nova York, portanto deve ser delicioso, não é?

- O que quer que seja - diz o homem do sanduíche - eu não tenho. - Você pode comer queijo com tomate e um belo pacote de Hula Hoops.

- Tudo bem - digo com relutância, e enfio a mão na bolsa. Quando faço isso uma pilha de correspondências que peguei hoje de manhã cai d minha bolsa no chão. Merda. Junto as cartas apressadamente, esperando que ninguém veja o que são. Mas o desgraçado do Rory está olhando direto para mim.

- Ei, Gina - diz ele, dando uma gargalhada. - Aquilo que eu vi ali era uma conta vermelha?

- Não! - digo imediatamente. - Claro que não. É um... um cartão de aniversário. Um cartão de aniversário de gozação. Para meu contador. De qualquer modo, eu preciso correr. Tchau!

Tudo bem, então isso não era totalmente verdadeiro. Era uma conta vermelha. Para ser honesta, têm chegado um bocado de contas vermelhas para mim nos últimos dias,e eu pretendo totalmente pagá-las quando tiver o dinheiro. Mas simplesmente não consigo ficar abalada. Quero dizer, eu tenho coisas mais importantes acontecendo na vida do que alguns ultimatos. Dentro de alguns meses estarei vivendo do outro lado do Atlântico! Vou ser uma estrela da televisão americana!

Harry diz que nos Estados Unidos eu provavelmente vou ganhar o dobro do que ganho aqui. Se é que não mais! E aí algumas continhas desgraçadas não vão importar muito, vão? Algumas libras de dívidas não vão exatamente arruinar meu sono quando estiver morando numa cobertura na Park Avenue, vão?

Meu Deus, e isso sim vai silenciar de vez aquele horrível John Gavin. Vai deixá-lo totalmente no chão. Imagine só a cara dele quando eu entrar e contar que vou ser a nova âncora da CNN, com um salário seis vezes maior do que o dele. Isso vai ensiná-lo a não ser maldoso. Finalmente abri sua última carta hoje cedo, e ela me perturbou um bocado. O que ele quer dizer com “nível excessivo de dívida?" O que quer dizer com "privilégio"? Derek Smeath nunca seria tão grosseiro comigo nem em um milhão de anos.


Harry está tendo uma reunião quando eu chego, mas tudo bem, porque não me importo em esperar. Adoro visitar o escritório da Potter Comunication - de fato, costumo aparecer lá um bocado, só pela atmosfera. É um lugar muito bacana - pisos de madeira clara, luminárias e sofás chiques, e todo mundo fica andando com cara de ocupado e dinâmico. Todo mundo fica até tarde da noite, mesmo não precisando - e por volta das sete horas alguém sempre abre uma garrafa de vinho e serve para todos.

Eu tenho um presente para dar à secretária dele, Mel, pelo aniversário - é um lindíssimo par de almofadas da Conran Shop e quando entrego a bolsa, ouço-a ficar boquiaberta.

- Ah, Gina! Não precisava!

- Eu quis - digo rindo de orelha a orelha, e me empoleiro íntima em sua mesa enquanto ela admira o presente. - Então, qual é a última?

Aah, nada melhor do que eu boa fofoca. Mel deixa a bolsa de lado e pega uma caixa de caramelos, e nós batemos um papo ótimo. Ouço tudo sobre seu terrível encontro com um cara medonho que a mãe dela está tentando lhe empurrar, e ela ouve tudo sobre o casamento de Neville. E então Mel baixa a voz e começa a me colocar a par das conversas do escritório.

Conta sobre as duas recepcionistas que não se falam desde que vieram trabalhar usando a mesma jaqueta Next, e as duas se recusaram a tirar - e a garota da contabilidade que acabou de voltar da licença-maternidade e está vomitando toda manhã, mas não quer admitir nada.

- E aqui vai uma bem suculenta! - diz ela, me entregando um saco de caramelos. - Soube que Cho está tendo um caso no escritório.

- Não! - encaro-a espantada. Verdade? Com quem?

- Com Ben Bridges.

Franzo o rosto, tentando situar o nome.

- Aquele sujeito novo, que era da Coupland Foster Bright, sabe?

- Ele? - Encaro Mel. - Verdade?

Tenho de dizer que estou surpresa. Ele éu amir, mas é baixinho, intrometido e quase gordo. Não é o que eu imaginaria como o tipo de Cho.

- Eu sempre vejo os dois juntos, meio que sussurrando. E um dia desses Cho disse que ia ao dentista, mas eu fui à Ratchetts e eles estavam lá, almoçando em segredo.

Ela interrompe quando Harry aparece na porta de sua sala, saindo com um homem de camisa roxa.

- Mel, peça um táxi para o Sr. Mallory, por favor.

- Claro, Harry - diz Mel, passando para sua voz eficiente de secretária. Ela pega o telefone e nós rimos uma para a outra, depois entro na sala de Harry.

Meu Deus, essa sala é elegante! Eu sempre me esqueço de como é grandiosa. Tem uma enorme mesa de madeira de bordo, projetada por um designer dinamarquês premiado, e nas prateleiras do nicho atrás dela há um monte de prêmios de RP que ele ganhou durante os anos.

- Aí esta você - diz ele, entregando-me um maço de papéis. Em cima há uma carta de algo chamado "Howski e Forlano, Advogados de Imigração nos EUA", e enquanto vejo as palavras "sua proposta de mudança para os Estados Unidos" sinto uma pinicada de empolgação.

- Isso realmente, está acontecendo, não é? digo, indo até sua janela que ocupa uma parede inteira e olhando para a rua movimentada. - Nós vamos mesmo para Nova York.

- As passagens estão marcadas - diz ele, rindo para mim.

- Você sabe o que eu quis dizer.

- Eu sei o que você quis dizer. - E ele me envolve nos braços. - E é muito empolgante.

Durante um tempo só ficamos ali parados, os dois, olhando a rua agitada de Londres lá embaixo. Mal posso acreditar que estou planejando deixar tudo isso para morar num país estrangeiro. É empolgante e maravilhoso - mas um pouco assustador.

- Você acha mesmo que eu vou conseguir um emprego lá? - digo, como fiz todas as vezes em que o encontrei nesta semana. - Você acha honestamente?

- Claro que vai. Ele parece tão certo e confiante que me sinto relaxar em seus braços. – Eles vão adorar você. Sem dúvida nenhuma. - Ele me beija e me aperta por um tempo. Depois vai até a sua mesa, franze a testa distraído e abre uma pasta enorme com uma etiqueta onde está escrito NOVA YORK. Não é de espantar que seja tão gigantesca. Ele me disse um dia desses que há três anos estava tentando fazer um negócio em Nova York. Três anos!

- Não posso acreditar que você está planejando isso há tanto tempo e nunca me disse - falo, olhando-o rabiscar alguma coisa num Post-it.

- Mm – diz Harry. Aperto os papéis com um pouquinho mais de força e respiro fundo. Há uma coisa que eu venho querendo dizer há um tempo... e agora é um momento tão bom quanto qualquer outro.

- Harry, o que você teria feito se eu não quisesse ir para Nova York?

Há um silêncio, afora o zumbido do computador.

- Eu sabia que você ia querer - diz Harry - É o próximo passo óbvio para você.

- Mas..e se eu não quisesse? - Mordo o lábio. - Você iria mesmo assim?

Harry suspira.

- Gina, você quer mesmo ir para Nova York, não quer?

- Quero! Você sabe que sim!

- Então qual é o sentido de fazer perguntas com "se"? O importante é que você quer ir, eu quero ir...está tudo perfeito. - Ele sorri para mim e pousa a caneta. - Como estão os seus pais?

- Eles estão.... bem - digo hesitando. - Estão meio se acostumando com a idéia.

O que é meio verdade. Eles ficaram bem chocados quando contei, tenho de admitir. Pensando bem, talvez eu devesse ter dado a notícia mais suavemente. Tipo, talvez eu devesse ter apresentado Harry a eles antes de fazer o anúncio. Porque o modo como aconteceu foi que eu entrei correndo na casa onde eles ainda estavam vestidos com as roupas do casamento, tomando chá e assistindo ao Countdown - desliguei a TV e disse toda animada:

- Mamãe, eu vou me mudar para Nova York com Harry!

Diante disso, mamãe olhou para papai e disse:

- Ah, Arthur. Ela se foi.

Mais tarde ela disse que não quis dizer bem isso, mas não tenho tanta certeza.

Depois eles conheceram Harry, e ele contou sobre os planos e explicou sobre todas as oportunidades na TV americana para mim, e eu pude ver o sorriso de mamãe se desbotando. Seu rosto pareceu ficar cada vez menor e meio que se fechou em si. Ela foi fazer chá na cozinha e eu fui atrás - e pude ver que ela estava chateada. Mas se recusou a demonstrar. Só fez o chá com as mãos ligeiramente trêmulas e pegou alguns biscoitos - depois se virou para mim, deu um sorriso luminoso e disse:

- Eu sempre achei que você combinaria com Nova York, Gina. É o lugar perfeito para você.

Encarei-a, percebendo de repente do que eu estava falando. Ir morar a centenas de quilômetros de casa, dos pais e... de toda a minha vida, afora Harry.

- Vocês... vocês vão me visitar sempre? - falei, com a voz tremendo ligeiramente.

- Claro que vamos, querida! O tempo todo!

Ela apertou minha mão e olhou para o outro lado - e então nós entramos na sala de estar, e não falamos muito mais sobre isso.

Mas na manhã seguinte, quando descemos para o café da manhã, ela e papai estavam olhando um anúncio no Sunday Times, de propriedades para férias na Flórida, coisa que, segundo eles, os dois já vinham pensando. Quando viemos embora aquela tarde, eles estavam discutindo vigorosamente sobre se a Disney World da Flórida era melhor do que a Disneylândia na Califórnia, ainda que, por acaso, eu saiba que nenhum dois em mesmo pôs os pés em nenhuma das duas.

- Gina, eu tenho de trabalhar - diz Harry, interrompendo meus pensamentos. Ele pega o telefone e disca um número. - Vejo você hoje à noite, certo?

- Certo - digo, ainda me demorando junto à janela. Depois, lembrando-me de repente, giro. - Ei você soube da Cho?

- O que é que tem ela? - Harry franze a testa junto ao fone pousa-o.

- Mel acha que ela está tendo um caso. Com Ben Bridges! Dá para acreditar?

- Francamente, não - diz Harry, digitando em seu teclado. - Não dá.

- Então o que você acha que esta acontecendo? - Empoleiro-me em sua mesa e o olho empolgada.

- Meu anjo - diz Harry pacientemente. - Eu preciso mesmo trabalhar

- Você não está interessado?

- Não. Desde que eles façam o trabalho.

- As pessoas são mais do que o trabalho que fazem - digo em tom reprovador. Mas Harry nem está ouvindo. Está com aquele ar distante, desligado, que surge quando ele se concentra.

- Ah, bem - digo e reviro os olhos. - Vejo você depois

Quando saio, Mel não está em sua mesa. Cho está parada junto dela, num terno preto elegante, olhando alguns papéis. Seu rosto está mais ruborizado do que o habitual, e imagino com um riso por dentro se ela esteve se enroscando com o Ben.

- Oi, Cho - digo educadamente. - Como vai?

Cho dá um pulo, e rapidamente junta o que estava lendo. Depois me olha com uma expressão estranha, como se nunca tivesse me visto antes.

- Gina - diz lentamente. - Bom, eu nunca.... A própria especialista em finanças. A guru do dinheiro!

O que há com Cho? Por que tudo que ela diz faz parecer que está jogando algum jogo estúpido?

- É - respondo. - Sou eu. Para onde Mel foi?

Enquanto me aproximo da mesa de Mel, tenho certeza de quase deixei alguma coisa em cima. Mas não consigo lembrar o que era. Uma echarpe? Eu estava com uma sombrinha?

- Mel foi almoçar - diz Cho. - Ela mostrou o presente que você deu. Muito chique.

- Obrigada - respondo rapidamente.

- Então. - Ela me dá um sorriso fraco. - Soube que você vai a reboque do Harry para Nova York. Deve ser legal ter um namorado rico.

Deus, ela é uma vaca. Nunca diria isso na frente de Harry.

- Eu não vou simplesmente "a reboque - retruco em tom agradável. - Eu tenho um monte de reuniões com executivos de televisão. É uma viagem totalmente independente.

- Mas... - Cho franze a testa, pensativa. - Seu vôo é por conta da empresa, não é?

- Não! Eu mesma pagarei!

- Só estava pensando. – Cho levanta as mãos como se pedisse desculpas. - Bom, divirta-se, certo? - Ela pega alguns envelopes grandes e enfia uma pasta, depois a fecha - Tchau.

- Vejo você depois - digo, e olho enquanto ela vai rapidamente para os elevadores.

Fico ali parada junto da mesa de Mel durante mais alguns segundos, ainda imaginando que diabos deixei ali. Mas, o que quer que seja. não consigo lembrar. Ah, acho que não deve ser importante.

Vou para casa e encontro Mione no corredor, falando ao telefone. Seu rosto está todo vermelho e brilhante e a voz está tremendo, e de súbito sou tomada pelo horror de que alguma coisa medonha aconteceu. Com medo, levanto as sobrancelhas para ela - e ela assente freneticamente volta, enquanto diz:

- Sim... e... sei... e.... quando vai ser?

Deixo-me cair numa poltrona sentindo-me fraca de preocupação. De que ela está falando? De um enterro? Uma operação no cérebro? Ah, meu Deus. Assim que eu decido ir embora... isso acontece.

- Adivinha o que aconteceu? - diz ela toda trêmula enquanto desliga o telefone, e eu dou um pulo.

- Mione, eu não vou a Nova York - digo, e impulsivamente pego suas mãos. - Fico aqui e ajudo você a passar pelo que quer que seja. Alguém...morreu?

- Não - diz Mione meio atordoada, e eu engulo em seco.

- Você está doente?

- Não. Não Gi, é uma notícia boa! Eu só... praticamente não acredito.

Bem, então o que é? O que é, Gi?

- Recebi uma oferta de ter minha própria linha de acessórios na Hadleys. Você sabe, a loja de departamentos. - Ela balança a cabeça, incrédula. - Eles querem que eu desenhe uma linha inteira. Molduras, vasos, papel timbrado... o que eu quiser basicamente.

- Ah, meu Deus! - Tapo a boca com a mão. - Isso é fantástico!

- O cara acabou de telefonar, vindo do nada, e disse que seus funcionários andaram monitorando as vendas das minhas molduras. Parece que eles nunca viram nada assim.

- Ah, Mione!

- Eu não fazia idéia de coisas iam tão bem. - Mione ainda parece em choque. - O cara disse que foi um fenômeno! Todo mundo do ramo está falando sobre isso. Parece que a única loja que não vendeu tão bem foi aquela que fica a quilômetros de distância. Em Finchley ou não sei onde.

- Ah, tudo bem - digo vagamente. - Acho que eu nunca fui naquela.

- Mas ele disse que deve ser por acaso, porque as vendas em todas as outras, em Fulham, Notting Hill, e Chelsea cresceram tremendamente. - Ela dá um sorriso embaraçado. - Parece que na Gifts and Goodies, aqui perto, sou eu quem mais vende.

- Bom, isso não me surpreende - exclamo. - Suas molduras são tranqüilamente a melhor coisa daquela loja. Tranqüilamente a melhor. - Envolvo-a com os braços. - Tento tanto orgulho de você, Mione. Eu sempre soube que você ia ser um sucesso.

- Bom, eu nunca teria conseguido se não fosse você! Puxa, foi você quem me convenceu a fazer as molduras... - De repente Mione está quase lacrimosa. - Ah, Gi, eu realmente vou sentir saudade de você.

- Eu sei - falo, mordendo o lábio. - Eu também
.
Durante um tempo ficamos as duas em silêncio, e eu acho honestamente que vou começar a chorar a qualquer minuto. Mas em vez disso respiro fundo e levanto os olhos.

- Bom, não tem nenhum problema. Você só precisa abrir uma filial em Nova York.

- É! - diz Mione, se animando. - É, eu poderia fazer isso, não é?

- Claro que poderia. Você vai estar no mundo inteiro logo, logo. - - Dou-lhe um abraço. - Ei, vamos sair esta noite e comemorar.

- Ah, Gi, eu adoraria, mas não posso. Vou para a Escócia. Na verdade - ela olha o relógio e faz uma careta - ah, meu Deus, eu não tinha notado que era tão tarde. Rony vai chegar a qualquer momento.

- Rony vem aqui? - digo chocada. - Agora?

De algum modo eu consegui evitar Rony, o primo de Mione, desde aquela noite medonha que passamos juntos. Basicamente o encontro estava indo bem (pelo menos, confortável, dado que eu não era a fim dele, nem tinha nada em comum com ele) - até que Rony me pegou olhando seu talão de cheques. Ou, pelo menos, acho que me pegou. Ainda não sei o que ele viu, e para ser honesta, não estou a fim de descobrir.

- Eu vou dar uma carona para ele até a casa da minha tia para uma pavorosa festa de família - diz Mione. - Nós vamos ser os únicos com menos de noventa anos.

Enquanto ela corre até o seu quarto, a campainha toca e ela grita por cima do ombro.

- Pode atender, Mione? Provavelmente é ele.

Ah, meu Deus. Ah, meu Deus. Eu realmente não me sinto preparada para isso.

Tentando assumir um ar de distanciamento confiante, abro a porta e digo toda animada.

- Rony!

- Gina – diz ele, encarando-me como se eu fosse o tesouro perdido de Tutancâmon.

Ah, meu Deus, ele está magrelo e estranho como sempre, com um agasalho tricotado à mão enfiado debaixo de um colete de tweed, e um gigantesco relógio de corrente pendurado do bolso. Sinto muito, mas sem dúvida o décimo quinto homem mais rico da Inglaterra, ou sei lá o que ele é, deveria ter condições de usar um Timex novo e bonito, não é?

- Bem, entre – digo com afabilidade excessiva, estendendo a mão com um dono de restaurante italiano.

- Fantástico – diz Rony, e me segue até a sala de estar. Há uma pausa desajeitada enquanto eu espero que ele se sente; de fato, começo a me sentir impaciente enquanto ele paira inseguro no meio da sala. Depois, de súbito, percebo que ele está esperando que eu me sente, e rapidamente me acomodo no sofá.

- Você gostaria de um titchy? – pergunto com educação.

- É meio cedo – diz ele com um sorriso nervoso.

“Titchy” é a palavra que Rony usa para bebida, a propósito. Simplesmente não consigo deixar de lembrar detalhes medonhos de nosso encontro – como quando ele tentou me beijar e eu me afastei bruscamente. Ah, meu Deus. Esqueça. Esqueça.

- Eu... ouvi dizer que você vai se mudar para Nova York – diz Rony, olhando o chão. - É verdade?

- É – digo, incapaz de impedir um sorriso. – É, este é o plano.

- Eu fui à Nova York uma vez. Não gostei muito.

- É – digo, pensando. – É, eu posso acreditar nisso. É meio diferente da Escócia, não é? Muito mais... frenético.

- Sem dúvida! – exclama ele, como se eu tivesse dito algo muito inteligente. – Exatamente isso. Frenético demais. E o povo é absolutamente extraordinário. Bem maluco, na minha opinião.

Comparando com o quê?, sinto vontade de responder. Pelo menos eles não chamam a água de “Ho” nem cantam Wagner em público.

Mas isso não seria gentil. Então não digo nada, e ele não diz nada – e quando a porta se abre nós dois levantamos a cabeça, agradecidos.

- Oi – diz Mione. – Rony, você está aí! Escute, eu vou pegar o carro, porque tive de estacionar meio longe na outra noite. Vou buzinar quando estiver voltando, e a gente pode ir nessa, certo?

- Certo – diz Rony, assentindo. – Vou esperar aqui com Gina.

- Maravilha! – digo, tentando dar um sorriso alegre.

Mione desaparece, eu me remexo sem jeito na poltrona, e Rony estica as pernas e olha os pés. Ah, isso é insuportável. A simples visão dele está me incomodando cada vez mais – e de repente eu sei que tenho de dizer alguma coisa agora; caso contrário, vou desaparecer em Nova York e a chance estará perdida.

- Rony – digo, e solto o ar com força. – Há uma coisa que eu... realmente quero falar com você. Na verdade, queria dizer há muito tempo.

- Sim? – diz ele, com a cabeça se levantando bruscamente. – O que... o que é? – Ele me encara ansioso, e eu sinto uma ligeira pontada nos nervos. Mas agora que comecei, tenho de ir em frente. Tenho de dizer a verdade. Puxo o cabelo para trás e respiro fundo.

- Esse agasalho – digo. – Ele realmente não combina com o colete.

- Ah – diz Rony, parecendo frustrado. – Verdade?

- Sim! – digo, sentindo um enorme alívio por ter tirado o peso do peito. – De fato... é apavorante.

- Eu devo tirar?

- Sim. E tire o colete também

Obedientemente ele tira o colete e o agasalho – e é espantoso com fica melhor simplesmente com uma camisa azul. Quase...normal! Então tenho uma inspiração súbita

- Espere aqui!

Corro ao meu quarto e pego uma das bolsas de viagem que estão na minha cama. Dentro há um agasalho que eu comprei há alguns dias para o aniversário de Harry, mas descobri que ele já tem um exatamente igual, por isso estava planejando devolver.

- Aqui! – digo, chegando de novo na sala de estar. – Ponha este. É do Pau Smith.

Rony enfia o agasalho preto na cabeça e puxa para baixo – e que diferença! Ele está começando a parecer bem distinto.

- Seu cabelo – digo, olhando criticamente para ele. – Temos de fazer alguma coisa com isso.

Dez minutos depois nós o molhamos, secamos com o secador e esticamos para trás com um pouco de gel. E... posso dizer. Foi uma tremenda transformação.

- Rony, você está maravilhoso! - digo, e estou falando sério. Ele ainda tem aquele ar magro e ossudo, mas de repente não pare mais um otário, parece meio.... interessante.

- Verdade? – pergunta ele, olhando para o próprio corpo. Rony parece meio em estado de choque, e talvez eu o tenha forçado ligeiramente a isso. Mas o fato é que a longo prazo ele vai me agradecer.

Uma buzina soa do lado de fora, e nós dois pulamos.

- Bom, divirta-se – digo, de repente parecendo a mãe dele. – Amanhã de manhã só molhe o cabelo de novo e molhe os dedos e vai ficar legal.

- Certo. – Pela cara de Rony, parece que eu acabei de lhe dar uma longa fórmula matemática para decorar. – Vou tentar lembrar. E o agasalho? Devo devolver pelo correio?

- Não devolva – digo horrorizada – É seu para ficar e usar. Um presente.

- Obrigado. Eu... agradeço muito, Gina. – Ele se adianta e me dá um beijo no rosto, e eu dou-lhe um tapinha desajeitado na mão. Quando Rony desaparece pela porta, pego-me esperando que ele seja feliz na festa e arranje alguém. Ele realmente merece.


O carro de Mione se afasta e eu vou até a cozinha preparar uma xícara de chá, imaginando o que farei pelo resto da tarde. Estava meio planejando trabalhar mais um pouco no livro de auto-ajuda. Mas a alternativa é assistir a Manhattan, que Mione gravou ontem à noite e será uma pesquisa realmente boa para a viagem. Porque, afinal de contas, eu preciso estar preparada, não é?

E eu sempre posso trabalhar no livro quando voltar de Nova York. Exatamente.

Estou toda feliz pondo a fita no aparelho quando o telefone toca.

- Ah, olá – diz uma voz de mulher. – Desculpe perturbar você. É Gina Weasley, por acaso.

- É – digo, pegando o controle remoto.

- Aqui é a sua...hmm... agente de viagens – diz a mulher e pigarreia. – Nós queríamos confirmar de novo em que hotel você vai ficar em Nova York.

- H.... no Four Seasons.

- E vai ser com um tal Sr... Harry Potter?

- Isso mesmo.

- Durante quantas noites?

- Hm... treze? Quatorze? Não tenho certeza. – Estou forçando a vista para a TV, imaginando se voltei a fita demais. Certamente aquele anúncio de salgadinhos Walker não passa mais, não é?

- E você vai ficar num quarto ou numa suíte?

- Acho que é uma suíte.

- E quanto custa por noite?

- Na verdade... não sei. Eu poderia descobrir..
.
- Não, não se preocupe – diz a mulher em tom agradável. – Bom, não quero perturbá-la mais. Aproveite a viagem.

- Obrigada! – digo assim que acho o começo do filme. – Tenho certeza de que vamos aproveitar.

O telefone fica mudo, e eu vou até o sofá, franzindo a testa ligeiramente. Sem dúvida a agente de viagens deveria saber quanto custa o quarto, não é? Puxa, o trabalho dela é esse.

Sento-me, tomo um gole de chá, esperando o começo do filme. Agora, pensando bem, foi um telefonema bem estranho. Por que alguém telefonaria só para fazer um punhado de perguntas básicas? A não ser que... será que ela é nova? Ou são está verificando, ou alguma coisa...

Mas depois a história toda é varrida da minha mente, enquanto a Rapsódia in Blue de Gershwin atravessa o ar e a tela é preenchida com imagens de Manhattan. Olho para televisão, totalmente fascinada, sentindo uma pontada de empolgação. É para lá que nós estamos indo! Daqui a três dias estaremos lá! Mal posso, mal posso esperar!








Endwich Bank
AGÊNCIA FULHAM
3 Fulham Road
Londres SW6 9JH

Srta. Ginevra Weasley,
Apto. 2
4 Burney Road
Londres SW6 8FD

21 de setembro de 2001

Cara Srta. Weasley,

Obrigado por sua carta de 19 de setembro.

A senhorita não quebrou a perna. Tenha a gentileza de contatar meu escritório sem demora para marcar uma reunião para falar de seus saques a descoberto.

A senhorita está sendo cobrada em £20 por esta carta.

Atenciosamente

John Gavin
Diretor de Recursos de Cheque Especial


ENDWICH – PORQUE NOS IMPORTAMOS
LINHAS AÉREAS REGAL
Escritório Central
Preston House
354 Kingsway
Londres WC2 4°


Srta. Ginevra Weasley
Apartamento 2
4 Burney Road
Londres SW6 8FD

23 de setembro de 2001

Cara Ginevra Weasley

Obrigada por sua carta de 18 de setembro, e eu fiquei triste em saber que nossa política de bagagens lhe causou noites insones e crises de ansiedade.

Admito que a senhorita pode pesar consideravelmente menos do que, como disse, “um empresário gordo da Antuérpia, enfiando um monte de bolinhos goela abaixo”. Infelizmente, as Linhas Aéreas Regal continuam não podendo aumentar seu limite de bagagem além dos 20kg, que é o padrão.

A senhorita pode começar um abaixo-assinado e escrever para Cherie Blair. Entretanto, nossa política continuará sendo a mesma.

Por favor, aproveite sua viagem.

Mary Stevens
Gerente de Atendimento ao Cliente













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