"Here by my side, an angel."
– Weapon, Matthew Good
– Querido, você prefere o rosa – Astoria colocou o vestido a frente do corpo, olhando-me pelo reflexo do espelho pregado na porta aberta do armário. Depois mostrou o outro vestido de sua mão direita – ou esse azul?
– Eu prefiro nada nesse corpo, você sabe – eu estava deitado na nossa cama, apenas com a calça social depois do banho, observando-a com uma espécie de desejo que não era conveniente ter uma hora antes do casamento do nosso filho.
Ela bufou, jogando os dois vestidos na cama ao meu lado.
– Você é tão inútil para me ajudar a vestir – falou andando nua pelo quarto enquanto jogava os cabelos negros para o topo da cabeça. Como é possível achá-la a mulher mais linda depois de tantos anos? Eu devia supostamente ter me cansado daquilo, mas essa era a visão que eu nunca sonharia em perder.
– Não foi para ficar vestindo você que nos casamos, querida. Foi para uma finalidade muito contrária a essa.
Dessa vez ela me encarou. Séria. Até colocou as mãos na cintura.
– Está me seduzindo? – observou minha calça, onde eu estava abrindo o zíper. Devagar.
Como se ela não soubesse.
– Está me evitando? – ergui a sobrancelha.
– Eu tenho que evitar, Draco – ela respondeu como se fosse óbvio. – Não temos tempo. Daqui uma hora nosso filho vai se casar. Coloque seu terno, rápido.
Rendido, porque quando Astoria não quer transar eu tenho certeza que não vamos transar, eu me levantei da cama. No caminho para o meu armário, mesmo assim, eu não quis saber dos princípios de mãe e sogra educada. Só a surpreendi com as mãos agarrando sua cintura, prendendo-a por trás com meu corpo naquela porta de armário. Apertei suavemente as duas palmas em seus seios, enquanto ela agarrava uma parte da minha virilha não só por reflexo, mas também pura provocação.
– Eu disse que não temos tempo – ela inclinou a cabeça para que eu beijasse seu pescoço, mesmo assim. A voz dela também não ficou mais decidida, e eu fiquei satisfeito que ela ainda se arrepiasse comigo. Bem, eu acho que nós ficaríamos juntos para sempre.
– Eu faço você acabar rápido – prometi, descendo meus dedos de seus seios para entre suas pernas.
– Você sabe que não existe isso de acabar rápido entre nós, se a gente faz umas dez vezes.
– Isso quando éramos mais jovens...
– Acha que mudamos de um tempo pra cá? – ela riu fraquinho. Mordisquei sua orelha.
– Bastante – sussurrei.
– Bem, você não me surpreende mais em nada – concordou.
– Ah é mesmo? – eu provoquei, introduzindo o dedo nela. Astoria não gemeu. – Então eu já fiquei entediante?
– Você já ficou previsível.
– Sabe, Astoria, eu não quero ser previsível.
Eu me afastei dela, e isso a deixou ligeiramente confusa. Ela virou para mim quando andei até a sacada. Sem camisa, com a calça aberta, naquela noite de vinte e sete de outubro, dia em que meu filho ia se tornar marido da filha daquele que uma vez foi meu inimigo, eu subi com meus pés descalço no mármore do balcão e me senti voando. Meu coração disparou imediatamente, mas eu continuei me equilibrando.
– Draco! Você ficou maluco? – ouvi Astoria correr até a sacada, colocando imediatamente um roupão. Eu apenas olhei para o vasto e extenso terreno de minha mansão. Senti o calor e o frio batendo em meu peito, o medo e a adrenalina arrastando meus cabelos. Eu sabia que eu estava a um passo de uma queda. Não que eu estivesse querendo ser dramático.
Só imprevisível.
– Draco, pare de brincadeira. Desça.
– Não somos mais jovens, Astoria – eu disse. O vento levou as palavras.
– Você bebeu? Pare com isso, não tem graça!
Eu podia ver o rosto da minha mulher contraído em medo e descrença. Ela não sabia se acreditava que eu fosse capaz. Isso me ofendeu. Será que ela achava que eu não fosse feliz o suficiente com ela?
– Tem medo de me perder, querida?
– Você tem duas opções. Ou caia dessa sacada ou quando você voltar a pisar nesse chão, eu mesmo irei matá-lo.
Eu sorri.
– É incrível aqui em cima – Estendi minha mão a ela. – Confia em mim?
De alguma forma, a voz dela estava embargada. Eu não entendi, mas Astoria estava com lágrimas nos olhos.
– Sim. Cegamente.
– Então suba comigo, querida. Eu não vou nos derrubar.
Continuei com a mão esperando para puxar a dela. Há um momento em nossa vida quando queremos fazer alguma loucura. Aquele era o momento certo. O momento de sermos imprevisíveis, depois de longos 30 anos juntos desde a noite em que a vi no bar de seu tio, tempo em que nos surpreendíamos com o que acabamos sentindo um pelo outro, além de um imenso e inevitável excitamento.
Astoria sempre foi corajosa, ou apenas inconsequente como eu. Ela pegou minha mão. De alguma forma, juntos, estávamos em pé na sacada de nosso quarto, esperando o tempo passar, esperando alguma coisa incrível e diferente acontecer em nossas vidas.
Ela não estava confiante, então eu segurei sua cintura até envolvê-la em meus braços.
– Lembra quando éramos estúpidos e jovens? – eu disse, perto do seu ouvido. – Depois de sobreviver a uma guerra, cada passo parece nos levar para um abismo. Eu sentia o tempo todo que eu ia cair. Então você apareceu e foi quando eu descobri que podia me segurar em alguém. Eu podia me segurar em você.
Astoria estava chorando. Até tampou a boca para abafar o soluço. Eu sei que isso tinha a ver com o fato de que teríamos um filho casado daqui algumas horas. O tempo sensibiliza as pessoas.
Ela chorava porque também se lembrava de tudo. Era a única coisa em comum que nós dois tivemos naquela época.
– Eu vou continuar sendo previsível, Astoria – avisei. – Porque você é minha mulher, e você conhece tudo sobre mim.
Ela negou.
– Eu ainda não conheço tudo o que você me faz sentir.
Nós ainda conseguimos ficar um tempo na sacada, sentindo aquele medo e imprevisibilidade roubada da juventude que não tínhamos mais. Quando alcançamos os pés no chão, o batimento cardíaco ficou acelerado. Encostei minha testa na dela e lhe dei um beijo na boca. Ela murmurou que me amava. Eu acariciei seus cabelos esvoaçantes e finalmente me dei conta:
– Bem, vamos atrasar.
Mas foi ela que me puxou para si:
– A cerimônia é chata.
Rindo com algumas lembranças, nos beijamos e caímos até nossa cama, aquele refúgio confortável. Mas nada mais confortável do que deslizar dentro de Astoria, gemendo e lhe enviando prazer, como na maioria das noites, embaixo e em cima do edredom. E também algumas vezes no tapete do chão e outras enroscados na cortina.
Não pense que viramos aquele casal perfeito, que nunca briga, que nunca se odeia. Casamento não é fácil.
Especialmente com Astoria. Era tão difícil mantê-la satisfeita.
– Isso, rápido – mandava, talvez, pela quinta vez. Eu me movimentava atrás dela, sem pensar em nada, a não ser estocar, fazê-la gemer, gritar, gozar. Eu estava molhado. Precisaria tomar outro banho, o que atrasaria um pouco mais. Caí em cima dela, sem me aguentar com o impacto do orgasmo, e, suados, ficamos ouvindo as respirações pesadas misturadas em uma só. Eu saí de dentro dela, beijando tudo, até chegar a seu pescoço. Eu estava completamente exausto e não queria sair dali por nada.
Ela continuou deitada de bruços na cama, com meu peso sobre ela. Estávamos rindo quando nos assustamos com a batida na porta:
– Vocês estão vivos?
Para minha mãe ter tido a coragem de bater na nossa porta, com certeza estávamos indevidamente atrasados.
– Está tudo bem – eu disse em voz alta. Astoria não parava de gargalhar com o rosto no travesseiro. – Astoria está com um problema com o vestido. Eu gostei do azul, a propósito – acrescentei para ela, que me afastou de cima e saiu depressa para se levar.
– Só lembrando que o casamento do filho de vocês é hoje, então... sem distrações!
Finalmente quando nos aprontamos – comportados e adultos –, saímos do quarto e encontramos com os primeiros convidados.
Seria o primeiro casamento em que os Weasley estariam como convidados da Mansão Malfoy. Astoria estava ansiosa, minha mãe nervosa e meu pai aterrorizado.
Mas o que me chamou mais atenção era a rigidez de Scorpius perante todo mundo que lhe cumprimentava. Depois que Dimitre se afastou para rever seus amigos Zabini no outro lado do jardim, eu me aproximei de Scorpius.
– Gravata desconfortável?
– Eu pareço tão nervoso assim?
– Está bem patético – avisei. – Que medo é esse agora?
– Eu não estou com medo. Quero dizer, é Rose. E eu não sei se vou fazê-la feliz.
Eu não imaginava que ele fosse despejar realmente o que estava sentindo, tão de cara para mim. Mas estávamos em uma distância segura dos ouvidos curiosos, então considerei que ele estivesse esperando me confessar aquilo há tempos.
– Acha que não é o suficiente para ela?
– Pai, eu quero isso mais do que tudo. Mas...
– Sem “mas” – eu segurei o ombro dele com força. – Quando eu me casei, eu tive esse medo. Esse mesmo medo que está tendo agora. O pior de tudo... casei com sua mãe sem ter certeza de que você nasceria. Eu podia desistir a qualquer instante e por dois segundos eu tive essa vontade. Dois segundos, com medo de não fazer sua mãe feliz. Eu podia ter escutado essa voz dizendo que eu sou um otário e que ela não merecia a mim, mas essa voz tem que ser ignorada, ouviu? Ela não vai aparecer só hoje, mas todos os dias. Masé essa voz irritante que vai fazer você se esforçar. E isso é o que vai importar nos próximos cinquenta ou sessenta anos da sua vida, se escolher ser otimista.
Scorpius me abraçou, aliviado.
E, depois, ele caminhou para fazer a própria esposa feliz.
Nota da Autora
Depois de 3 anos eu reli minha própria Money Honey.Dei um jeito com a saudade escrevendo essa simples oneshot. Não era algo que eu estava planejando, sinceramente, mas o bom de aula chata serve para isso: divagar e imaginar Draco e Astoria dando uns pegas. Acho que estava na hora só de um especial.