Tudo que Uma Garota Poderia Desejar
Gina caminhou devagar as quatro quadras até a casa de Cho. Uma hora antes Cho telefonara, pedindo-lhe que fosse lá. Ela concordara, com alguma relutância, mas quanto mais se aproximava da casa, mais temerosa e insegura ia ficando.
Cho parecia chateada ao telefone, e Marta havia dito que ela tinha telefonado na noite anterior, quando Gina estava fora. Que será que ela queria? E por que a chamou, em vez de ligar para o Erik?
Quando a moça atendeu a porta, Gina percebeu que o cabelo cobria-lhe o olho direito. O short e a camisa que vestia estavam amarrotados.
- Entre, disse ela secamente, indicando-lhe a sala.
Caminharam com cuidado para não pisar em algumas maas abertas, espalhadas pelo chão, que aparentemente ela começara a arrumar. Cho tirou uma caixa de cima do sofá para que pudessem sentar.
- Você já vai embora? Pensei que sua família ia ficar até o fim de agosto.
- Íamos, mas agora não vamos mais, respondeu Cho a baixinho. Vou para Boston, a casa de minha avô.
- E o resto da sua família?
- O resto da minha família?! repetiu Cho rindo. O que você quer saber? perguntou, com uma expressão de fúria no olhar. Vou lhe contar sobre o resto da minha família! EU! Eu sou toda a família que tenho!
- O que você quer dizer com isso?
Gina temia que Cho estourasse, mas viu algo diferente no seu rosto que lhe causou dó.
- É isso mesmo. Sou filha única, e meu pai morreu de câncer pulmonar há três meses, declarou Cho, acalmando-se um pouco.
- Sinto muito. Não sabia.
- É, não lhe contei. Eu e minha mãe viemos para cá para espairecer e descansar durante o verão. Só que minha mãe trouxe consigo uma velha amiga. Sua garrafa.
- O quê?
- Quero dizer que minha mãe é alcoólatra. Ela fez um tratamento alguns anos atrás, mas, com a morte de meu pai, começou a beber de novo. Desde o dia em que chegamos ela só ficou dentro dessa casa. Bebeu até não saber mais onde estávamos nem quanto tempo havia passado.
Cho virou a cabeça para olhar pela janela, e Gina notou que seu olho direito estava machucado e inchado.
- Que horror, Cho! Você está bem? O que aconteceu com seu olho?
- Minha mãe me deu um soco quando tentei fazer com que fosse para a cama ontem à noite. O Erik ia passar aqui para me pegar, e ela estava deitada no chão da sala. Erik ainda não a conhecia, e eu não queria que ele a visse naquele estado. Então tentei arrastá-la para o quarto. Ela ficou furiosa, me bateu e jogou uma garrafa de vodca em mim. Estava maluca, dizendo que ia me matar. Fiquei com muito medo e saí correndo pela rua até ao telefone público. Chamei a polícia. Levaram minha mãe. Tenho certeza de que irão colocá-la novamente em alguma clínica de recuperação.
- Puxa, que coisa terrível! Será que tem alguma coisa que eu possa fazer por você?
Cho voltou ao seu jeito frio e calculista e disse:
- Eu gostaria que você me ajudasse a fazer as malas. Preciva dar tantos telefonemas... Nunca vou conseguir arrumar tudo até a hora do vôo, às quatro.
Gina ficou arrumando as malas de Cho durante uma hora. Suas roupas enchiam três guarda-roupas. Tinha tantos vestidos lindos de seda, jeans caros de marcas famosas e sapatos que não acabavam mais.
Enquanto Cho terminava os telefonemas, Gina encheu uma maleta com os cosméticos. Abrindo a última gaveta, tirou um,i porção de delineadores, um espelho e uma caixinha cor-de-rosa redonda de plástico.
O que será isso? pensou Gina, destampando a caixinha. Dentro dela havia vários comprimidos brancos, pequenos, numerados dispostos na forma de um círculo.
- Tudo resolvido, disse Cho ao entrar no quarto. Minha mãe estava mais sóbria hoje de manhã e concordou em assinar os papéis de admissão ao hospital. Se tudo for bem, ela poderá voltar a Boston no final de setembro. Já arrumei a mala dela hoje cedo para deixar no hospital quando for para o aeroporto.
- Como você vai para o aeroporto?
- O Erik disse que me levaria.
- Você tem sorte de ter o Erik, disse Gina. Ele parece gostar muito de você. Vai ser horrível deixá-lo aqui, não é?
- Olhe só, onde você achou isso?! perguntou Cho, estendendo a mão para pegar a caixinha cor de rosa. Estou procurando isso há dias.
Antes que Gina pudesse responder a campainha tocou.
- Provavelmente é o Erik, disse Cho, saindo para atender a porta e deixando Gina no quarto.
Gina ouviu a voz de Erik ecoando pelo corredor.
- Vou sentir sua falta, sabia?
Ficou sentada na cama, pensando: Que doçura! Será que o Harry vai me dizer algo assim quando eu estiver voltando para casa?
- Fico contente que você tenha vindo, Erik, disse Cho com voz aveludada. Não sei o que teria feito se você não tivesse vindo.
- Eu até cheguei cedo, você não notou?
- Ainda bem, porque tenho de deixar as coisas da mamãe no hospital.
- Isso não deve demorar, disse Erik em voz mais baixa. Você ainda tem tempo de me dizer adeus.
- Pare com isso Erik! Agora não! Estou falando sério! A voz de Cho ficou abafada, e Gina só conseguia ouvir passos no corredor, vindo em direção ao quarto.
- Tem gente...
A voz de Cho vinha do outro lado da porta.
Antes que ela pudesse terminar a sentença, a porta do quarto se abriu. Gina deu um salto, olhos arregalados. Erik entrou abraçado com Cho.
Gina se assustou. O que deveria fazer?
- Ei! gritou ele. O que você está fazendo aqui?
- Eu... eu... eu estava de saída! gaguejou Gina.
- Não precisa! gritou Erik, saindo pelo corredor.
- Erik, gritou Cho. Preciso de você! Não vá embora! Ele abriu a porta da frente de sopetão e replicou:
- Eu também precisava de você, mulher! Mas você não está nem aí para mim. Estou cansado de suas desculpas e de seus joguinhos infantis. Cresça e amadureça! concluiu batendo a porta.
Gina ouviu o barulho estridente dos pneus do Porsche descendo a rampa de entrada. Esperou no quarto, sem saber o próximo passo a dar. Depois de alguns instantes, saiu devagar pelo corredor.
- Cho, você está bem?
- Que cara mais mau-caráter! Eu não gostava mesmo dele, disse Cho, com os olhos cheios de lágrimas. Gina sentou-se ao seu lado no sofá.
- Sinto muito ter atrapalhado você.
- Não foi você, disse a moça deixando as lágrimas jorrar. Ele é um meninão que não sabe o que fazer quando não consegue o que quer. Tenho coisas melhores pra fazer do que perder tempo com ele.
Aparentemente ela não estava convencida do que dizia. Enterrou o rosto nas mãos e chorou até não poder mais.
- Calma, disse Gina procurando um lenço de papel. Vai ficar tudo bem. Você tem tudo que uma garota pode desejar.
Cho levantou os olhos vermelhos e encarou Gina com uma expressão de frieza.
- Tudo que uma garota pode desejar? perguntou com sarcasmo. Então por que estou sempre tão sozinha. E por que estou tão infeliz que... que em dezembro passado tentei me matar? Concluiu, depois de hesitar por um instante. Pode me responder? perguntou quase gritando.
- Não, quer dizer, não sei, respondeu Gina, com lágrimas brotando nos olhos. Cho, não acredito que você esteja me dizendo tudo isso! Você tem tudo. Você é exatamente como eu gostaria de ser!
- Não sou não, disse Cho, enxugando as lágrimas e passando a mão no longo cabelo loiro. Você não sabe como sua vida é boa. Continue sendo inocente, Gina. Continue inocente.
Por um momento ambas ficaram em silêncio. Gina sentia o coração apertado. Queria muito ajudar a amiga e oferecer-lhe respostas. Se tivesse alguma maneira de ajudá-la... De repente teve uma idéia.
- Vou telefonar para o meu tio e pedir que ele leve você ao aeroporto, tá bem?
Não era muito, mas já era um começo.
Enquanto esperavam que Bob viesse, Cho se recompôs e parecia ter se recuperado do desentendimento com Erik. Dentro de vinte minutos Bob chegou e colocou no carro os pertences da moça.
Durante o trajeto até o aeroporto, Gina ficou matutando como explicar ao tio aquela situação. Entretanto ele foi bem discreto e não disse nada; foi só quando estavam a sós, voltando para casa, que ele perguntou se ela queria conversar sobre alguma coisa.
- Os homens são esquisitos, disse Gina. Não dá pra acreditar na maneira como Erik tratou Cho. Ele simplesmente a abandonou, como se não ligasse mais pra ela.
- Imagino que Cho tenha tido muitos namorados como o Erik, comentou Bob. Ela dá a impressão de ser uma moça muito solta. Isso não é bom.
- Estou começando a perceber isso. Quando a conheci, achava que ela era perfeita. Queria ser como ela em tudo. Hoje quase não acreditei quando ela contou como é infeliz. Obrigada por ter vindo e por tê-la ajudado. Essa foi a segunda vez nessas férias que você me socorreu quando meus novos amigos estavam em apuros.
- Estou sempre às ordens. Gosto de ajudar. Quer parar em algum lugar para jantar?
- Quero sim. Estou faminta. Desde que não seja na sorveteria Hanson.
- O que?
- Deixa pra lá. Esse é outro problema que preciso resolver.
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