O Barco ou a Praia?
- Depressa, tio Bob! O telefone está tocando!
Gina estava com as mãos cheias de coisas, diante da porta da casa de praia. Bob estava retirando a bagagem do porta-malas do Mercedes e Marta ainda se encontrava no carro, verificando o cabelo no espelho.
- Vamos depressa! gritou Gina. Entretanto quando Bob conseguiu enfiar a chave na porta, o telefone já havia parado de tocar.
- Eu verifico a secretária eletrônica, disse Gina.
Bob continuou a descarregar o carro e Gina ficou ouvindo com atenção as mensagens dos últimos três dias. Nenhuma das chamadas era do Harry. Paula também não telefonara. Aparentemente, ninguém sentira sua falta enquanto esteve fora.
Com passos arrastados, subiu para o quarto. Por que ele não ligava? Será que sabia que ela ia sair da cidade?
Bob empurrou a porta do quarto com a mala.
- Desculpe! Não sabia que você já tinha subido.
- Não tem problema. Faz o favor de colocá-la em cima da cama para mini?
A primeira coisa que tirou da mala foi a sacola com as blusas. Retirou a do Harry e ficou com um dilúvio de dúvidas: Será que ele acharia tolice? Será que deveria dar o blusão a ele? Talvez devesse esperar o momento certo, como quando ele viesse vê-la ou quando a chamasse para sair, ou...
- Carteiro! gritou Bob da porta.
Seu coração saltou de esperança. Quem sabe ele lhe mandara um cartão daqueles engraçadinhos, terno, sem ser meloso. Pegou os quatro envelopes e olhou depressa os remetentes. Uma das cartas era de sua mãe, uma de Paula, não, duas de Paula e uma do seu irmãozinho. Paciência! Chega de sonhos!
- Não fique empolgada demais, brincou Bob, vendo que ela estava chateada.
- Ah, não ligue pra mim, tio. Gina enrubesceu, surpresa por seus pensamentos estarem tão evidentes. Abriu primeiro uma das cartas de Paula e, ao fazê-lo, uma nota de cinco dólares caiu do envelope no chão.
- Dinheiro! exclamou Bob. Puxa! Bem que eu gostaria de receber cartas assim! Que espécie de jogo você ganhou? Gina passou os olhos pela carta.
- É da Paula, uma amiga lá da minha cidade. Nós fizemos uma aposta e eu ganhei, quero dizer, mais ou menos.
- Entendi, disse ele, levantando a sobrancelha.
- Bem, na verdade eu ganhei mesmo, mas não me sinto como achava que me sentiria. Ah! Deixa isso pra lá!
Naquele momento Marta apareceu à porta.
- Ah, vocês estão aí!
- Ei, escutem essa! disse Gina lendo em seguida a carta de seu irmão de oito anos.
Querida Gina,
Sinto sua falta. Espero que esteja se divertindo na casa do tio Bob e da tia Marta. Espero que se divirta quando for à Disneylândia. Não se esqueça de comprar uma lembrança para mim na Disneylândia. Eu quero um chapéu. Divirta-se.
Com amor,
Charlie Wesley
- Não é uma gracinha? exclamou. Pena que no dia-a-dia ele seja um pestinha. Quando é que vamos à Disneylândia? Seria divertido no meu aniversário, que é daqui a poucas semanas. Taí a indireta!
Marta olhou para Bob procurando uma resposta. Como ele nao disse nada, ela falou:
- Eu não sou exatamente o tipo de pessoa que vai à Disneylândia. Esse é mais um programa para o seu tio. Você pode ir lá com ela, no aniversário, não pode querido?
Com um sorriso esperto, Bob disse:
- Acho que eu não sou bem o cara com quem ela gostaria de ir a Disneylândia, se ela pudesse escolher.
- Bob deu uma piscadela, Gina enrubesceu e Marta de repente entendeu.
- Ah, bem! exclamou. É claro que você prefere que o Harry a leve. Seria maravilhoso! Bem, não se pode prever o que acontecer entre hoje e 27 de julho! Pensamento positivo, Gina! Pode ser que seus sonhos se tornem realidade. Marta saiu do quarto, deixando no ar seu rastro de perfume.
Gina leu as outras duas cartas. A vida por lá não mudara muito. Paula parecia a mesma de sempre. Sua mãe também. Como elas podiam permanecer as mesmas, quando tanta coisa diferente lhe acontecera?
Tirou o vestido novo, azul-cobalto, da mala e encostou-o ao corpo, estudando sua imagem no espelho. Nem parecia a mesa garota que chorara por causa de sua aparência diante deste mesmo espelho, semanas antes.
O cabelo curto agora caía em ondas naturais e, embora não tivesse tão deslumbrante quanto no dia que Maurice o penteara, ainda estava bonito. Naquele momento não se sentia arrependida por tê-lo cortado. Os ombros queimados pelo sol haviam descascado, mas o rosto permanecia bronzeado e sardento, dando-lhe uma aparência esportiva. Estava satisfeita com seu visual. E agora tinha esse vestido espetacular, com cinto e sapatos prateados para combinar. Marta tinha um olho clínico para roupas. Escolhera esse traje com cuidado no Macy's, perto do hotel. Na praça Ghirarde-III encontraram uns brincos de prata com pingentes bem modernos, que complementavam o conjunto. Era o tipo de roupa que deveria ser usada numa ocasião especial. Quem sabe num encontro com Harry? Entretanto a única coisa que podia fazer a respeito disso era esperar.
Estava louca para ir à praia no dia seguinte: queria ver se o Harry estaria lá e saber se ele a convidaria para sair. Sentia-se tão ansiosa que acabou indo à praia quando ainda não havia viv'alma! Ou melhor, quase ninguém! Havia só uma pessoa: Cho.
Sentimentos mistos inundavam Gina. Cho não fora ao enterro de Cedrico. Talvez nem soubesse. Pensou em voltar e correr em direção contrária, mas Cho já a vira e acenava para que se aproximasse.
- O tempo está perfeito hoje! disse Cho, cumprimentando-a e parecendo realmente contente em vê-la.
- Oi, respondeu Gina. Como foi seu encontro na festa, sema na passada?
O que realmente tinha vontade de dizer era: "Por que você me abandonou, traidora? Por que você é tão perfeita e tão horrível ao mesmo tempo?"
- Foi ótimo! O nome dele é Erik, ele tem um Porsche, e de lá pra cá temos nos encontrado todos os dias. Acabamos de voltar de Lajolla, onde passamos o fim de semana juntos. Cho parecida não ter vergonha de seu relacionamento obviamente "avançado" com o namorado.
Gina não sabia muito bem como mencionar o acidente com Cedrico, mas começou:
- Cho, você soube do Cedrico?
- Soube o quê? Gina engoliu em seco.
- Ele foi pegar onda lá no quebra-mar, na noite da festa. Você já tinha ido embora com o Erik.
- E daí?
- Nem sei como lhe dizer, mas ele se chocou contra o quebra-mar e foi levado para o hospital, mas não resistiu. Morreu na manhã seguinte.
- É uma pena, respondeu Cho, passando óleo de coco nas pernas bronzeadas. Eu lhe contei que o Erik tem um Porsche? É preto com estofamento interno preto.
Gina nem queria acreditar no que ouvia.
- Cho! gritou. Eu acabo de lhe dizer que o Sam morreu, e você fica aí falando sobre um carro! Você não me ouviu?
- Sim, ouvi, respondeu ela friamente.
- Não ficou chocada, emocionada, nada?!
- Escute, disse Cho, olhando fixamente para Gina. Talvez você seja nova demais para saber o que é a vida, então vou lhe dizer. A vida é dura, menininha, e quanto mais cedo você entender iss, melhor será.
Gina retraiu-se enquanto Cho continuava a destilar veneno.
- Cedrico morreu. E daí? As pessoas morrem, e não podemos perturbar muito quando isso acontece. A gente tem de viver o que quer e deixar que o resto se lixe... Se quiser ser feliz, te de lutar pela sua própria felicidade, porque quando acabar, acabou.
- Mas... disse Gina, interrompendo-a.
- Mas nada, menina!
O rosto de Cho estava vermelho, mas os olhos permanecia gélidos.
- Sem essa, Gina! A gente está só, cada um tem de se virar. Não podemos ficar parados esperando que alguém responda nossas orações ou realize nossos sonhos! Gina suspirou e tentou pensar em alguma coisa para dizer, mas não conseguia.
Quando Cho acabou de dizer tudo que queria, deitou em toalha, de olhos fechados e rosto voltado para o sol, ignorando Gina.
Gina não sabia o que fazer. Estava morrendo de raiva. Como que uma pessoa pode ser tão fria e sem coração? Quanto mais pensava nisso, mais queria gritar com Cho e dizer-lhe o quanto estava errada. Viver não é simplesmente aproveitar a vida ao maximo para depois morrer! Mas só conseguia chegar até aí em seus argumentos íntimos. Não sabia como refutar nada do que a outra dissera. Não tinha solução melhor.
Irritada, deu um pulo e correu em direção à água. Entrou apenas o suficiente para molhar os pés e foi caminhando pela praia. Depois que seus pés e sua ira haviam esfriado, voltou para onde estava sua toalha, decidida a enfrentar Cho com calma.
Para alívio seu, Cho havia ido embora. Então deitou-se, sobre a toalha, deixando que os raios ternos do sol a consolassem. Meia hora mais tarde alguém aproximou-se dela.
- Olá. Tudo bem com você? Era o Harry.
- Oi!
Gina sentou-se depressa. Ficava sem palavras quando o via.
- Quer ir a uma apresentação musical hoje à noite? Harry era extremamente direto.
- Uma apresentação musical?! Claro! respondeu Gina, com coração disparado.
- Como foi a viagem?
Gina tentou acalmar-se e adotar um tom mais maduro.
- Muito boa. Me diverti bastante.
Com um sorriso largo e simpático, Harry convidou:
- Vamos entrar na água?
Nas horas que se seguiram Gina sentia-se mais viva do que nunca. A água brilhava como um campo de brilhantes ao sol do meio dia, e as ondas estavam calmas.
Num momento em que surgiu uma onda maior, Harry agarrou a mão de Gina e disse:
- Mergulhe!
Seu tom de voz era forte, porém terno, e ela sentia seu calor mesmo na água fresca. Quando a onda passou, ele soltou sua mão. Gina queria sentir novamente a emoção daquele toque. Divertia-se imaginando como seria maravilhoso sentir seu braço sobre os ombros à noite, durante a apresentação musical.
- To a fim de sair da água, disse ele. E você?
- Também. Estou faminta!
- Eu trouxe um pacotinho de "chips". Harry ofereceu-lhe o salgadinho enquanto se enxugavam.
- Ótimo! disse Gina. Eu só trouxe água mineral, que minha tia pôs na sacola. Mas pelo menos ela colocou duas garrafas!
Enquanto comiam, Gina contou-lhe como tinha sido a viagem a San Francisco: passear de bonde, jogar moedas nas caixas dos violões dos músicos ambulantes, comer o melhor chocolate do mundo na praça Ghirardelli, empanturrar-se de caranguejo no Alioto's. Contou até da discussão que teve com os tios sobre Deus.
Harry escutou com atenção e depois perguntou:
- E o que eles disseram quando você perguntou a respeito das idéias deles sobre Deus?
- Mudaram completamente de assunto. Eles são assim mesmo. Agem como se soubessem tudo, mas quando procuro aprofundar mais uma questão, simplesmente mudam de assunto.
- É, meus pais fazem a mesma coisa, comentou Harry.
Dois meninos pequenos que corriam até a água passaram por cima da toalha de Harry, jogando areia dentro do pacote de salgadinhos.
- Deixe para lá! disse Harry, pegando o pacotinho e olhando lá dentro. Agora não saberemos se estamos comendo sal ou areia. Ele tentou rir da própria piadinha, mas Gina achou-o meio tenso.
- Harry, como você tem passado desde... desde, sabe, o enterro?
- Não tenho dormido muito bem. Fico pensando e remoendo aquela noite, tentando imaginar o que eu poderia ter feito forçá-lo a parar.
- Deve ser horrível.
- E é.
Gina olhou em sua volta. A praia estava cheia, mas não estava vendo nenhum dos outros surfistas.
- Harry, desde que Cedrico morreu, minha cabeça está cheia de perguntas sem resposta, disse Gina em voz contida, e continuou: Acho que você é o único que talvez possa explicar o que estou tentando entender. Posso lhe fazer umas perguntas?
- Claro.
- Tá bem, começou. Primeiro, como é que você sabe que vai para o céu quando morrer?
- Porque no verão passado eu aceitei a Cristo.
- Mas o que você quer dizer com "aceitei a Cristo"? Eu o aceito, creio que ele é Filho de Deus e tudo o mais. Nunca o rejeitei ou neguei.
Harry olhou para o mar. Parecia estar pensando muito.
- É tão simples que fica difícil explicar. As pessoas podem optar por viver do jeito que elas querem ou conforme Deus quer.
- Mas qual o jeito de Deus? perguntou Gina, quase gritando. Meu tio fica me dizendo para ser fiel a mim mesma, para seguir meu próprio rumo, e minha tia vive evitando a realidade e tentando pensar positivamente. Estou tão confusa!
- Eu entendo como você está se sentindo.
Gina continuou.
- Em casa era fácil. Todo mundo freqüenta a mesma igreja e acredita em Deus. Agora você me diz que se eu quiser ir para céu tenho de viver conforme o propósito de Deus. Mas qual a vontade dele, afinal?
Ele desviou o olhar para o oceano. Não gostava de se sentir ignorante.
- É assim, explicou Harry. Você está olhando o oceano Pacífico, não é? Lá longe está o Havaí. Suponha que o Havaí seja o céu. Você nunca chegaria lá a nado. Precisaria de um barco. É com. se Jesus fosse esse barco. Tá acompanhando meu raciocínio?
- Mais ou menos.
- Bem, nós temos de escolher, Podemos rejeitar uma viagem gratuita de barco ao Havaí, ou então sentar aqui e dizer: ''Eu acredito no barco e acredito no Havaí”. Entretanto se não entramos no barco, nunca chegaremos ao Havaí. Harry parecia contente com a ilustração, mas Gina ainda se sentia confusa”.
- Eu acredito em tudo isso, disse. Parecia haver algo mais profundo no que ele dizia, mas ela simplesmente não conseguia entender.
- Sim, mas você entregou sua vida a Jesus? Ou está sentada na praia dizendo "acredito no barco e no Havaí", sem subir no barco?
Harry estava mexendo numa área que ela ainda não estava muito disposta a encarar. Imaginou-se subindo num barco que iria para o Havaí. Parecia arriscado deixar a segurança da praia e enfrentar as fortes ondas do mar.
- Sei lá, disse ela com um sorriso. Pelo menos isso me da algo para pensar. Vou refletir um pouco a respeito do que disse. Preciso ir embora.
- Pego você em casa hoje lá pelas seis e meia, está bem? disse Harry.
- Claro! Fico te esperando!
Gina pegou suas coisas e foi para casa.
A vida parecia realmente estar-se tornando bela. Isso era boimdemais para ser verdade! Gina pensou no quanto ela já melhora por haver seguido os conselhos da tia. Estava realmente tornando-se uma pessoa autêntica.
- Tia Marta! gritou, abrindo a porta. Tio Bob!
Encontrou-os na sala, olhando um livro de amostras de papel de parede.
- Adivinhem o que aconteceu? Harry me convidou para sair hoje à noite! Dá pra acreditar? Uma apresentação musical! Ele vem me buscar às seis e meia! Só tenho três horas para me aprontar. Vou já para o chuveiro. Estou tão contente!
- Oh, Gina! exclamou Marta. Que ótimo! O que você vai vestir querida? Será que o vestido novo que compramos em San Francisco fica bem?
- Acho que sim. Nem pensei no que vestir. Só estou preocupada porque meu nariz começou a descascar. Olhe só.
- Você não tem usado o protetor solar que eu te dei? repreendeu a tia enquanto subiam a escada. Voltando-se então para Bob, acrescentou:
- Bob, querido, faz o favor de ligar para o Maurice e cancelar minha hora com a manicure. Preciso ficar e ajudar a Gina a se aprontar!
Em pé, sozinho, com o livro de amostras de papel de parede na mão, Bob respondeu, observando a animação das duas lá em Cima:
- Tuuuuuudo bem!
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