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7. Tempo de Chorar


Fic: PROMESSAS DE VERÃO HG ULTIMO CAP POSTADO


Fonte: 10 12 14 16 18 20
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Tempo de Chorar

Atravessaram a areia macia e fresca em silêncio. O sol acabara de se pôr, deixando tonalidades laranja e rosa no céu. Gina respirou fundo, sentindo o cheiro do mar. Queria apagar da lembrança a hora passada naquele lugar.

Harry fitava o mar. Por que ele tinha vindo com ela? Ela havia sido tão tola na festa... será que ficar sozinha com Harry seria outro passo errado? Ela não sabia mais em quem podia confiar. Ted interrompeu os pensamentos confusos da garota.

- Quer sentar um pouco no quebra-mar?

- Eu... eu não sei. Acho que sim.

Ela sentia-se culpada por não confiar nele.

Ficaram em silêncio muito tempo. As ondas quebravam logo abaixo de seus pés, espirrando gotículas de água na calça jeans de Gina. O ar estava morno, mas aquela umidade provocava um friozinho que a fazia tremer. Ela puxou as pernas para cima, sentando-se com as pernas cruzadas sobre a pedra tosca. A noite estava tranqüila, e a atmosfera toda tinha um efeito calmante.

- Então, começou Harry. Era como se ele tivesse deixado, de propósito, um tempo para a garota aclarar as idéias, e agora quisesse bater um papo.

- Não era o tipo de festa a que você está acostumada, hein?

- Não, admitiu Gina. A propósito, fiquei aliviada por você ter vindo me socorrer.

- Você não precisava de mim. Estava se virando muito bem sozinha; tomou sua decisão sem que eu tivesse que dizer nada.

Gina notou pela primeira vez o quanto o rosto do Harry transmitia serenidade. Ele tinha personalidade forte e sempre se expressava de maneira bem direta. Entretanto, ao olhar para ele naquele momento, Gina viu algo terno em seus olhos. O que começara como uma leve "paixonite" estava-se tornando algo que nunca sentira antes por um rapaz. Estava gostando do Harry pra valer.


- Posso lhe dizer uma coisa? perguntou. Na verdade eu nunca fumei nenhum tipo de cigarro. Nunca tinha visto nem sentido o cheiro de maconha! Me deu nojo, pra ser sincera.

- É por isso que você recusou o baseado? perguntou Harry.

- Não, disse ela, hesitando um pouco. Eu ia experimentar porque achava que era o que a Cho faria, e estava-me sentindo uma idiota parada lá daquele jeito. Foi por causa de uma coisa que prometi aos meus pais.

- Que coisa?

- Antes de eu vir passar as férias aqui, eles me fizeram prometer que não faria nada de que pudesse me arrepender depois.

- Parece sábio. Você está contente agora por não ter fumado?

Gina pensou por um momento.

- Sim, acho que sim. Tudo estava acontecendo tão depressa que não tive muito tempo para pensar se queria ou não. Estava com um pouco de medo e também curiosa, mas pensei que depois me arrependeria se experimentasse, e disse não.

Seguiram-se mais uns minutos de silêncio, mas logo após Gina indagou:

- Você gosta?

- Gosta do quê?

- De maconha. Você fuma muito?

Sua ousadia surpreendeu até a ela mesma, mas Harry não era o tipo de cara com quem se pode fazer brincadeiras tolas.

- Não. Antigamente eu fumava. Mas não faço mais isso.

- Por quê?

Harry olhou-a direto nos olhos.

- Porque sou cristão.

Gina ficou surpresa. Nunca esperava uma declaração daquelas de um surfista de Newport.

- E o que Cristo tem a ver com isso?

- Tudo.

- Bom, também sou cristã, declarou Gina, tentando recobrar-se do susto. Toda minha família é. Fui batizada quando era bebê.

- Eu fui batizado bem ali, disse Harry, apontando para o mar No verão passado. Vinte e sete de julho.

- Não brinca! disse Gina, descruzando as pernas e endireitando o corpo. É o dia do meu aniversário!

Harry parecia querer dizer-lhe alguma coisa, mas foram interrompidos por um barulhento grupo de pessoas que caminhava em sua direção.

Era o pessoal que estava na festa. Cedrico vinha na frente, gritando e fazendo muito barulho, imitado pelo resto da turma.

Pararam na praia a poucos metros de onde estavam Harry e Gina. Cedrico gritou alguma coisa sobre surfar no quebra-mar de olhos fechados.

- Que é que ele está fazendo? perguntou Gina.
- Ele está pirado. Já o vi assim antes. Fica "chapadão". Parece que vai tentar surfar, o que nessas alturas é uma loucura. Espere aqui um minutinho. Volto já.

Não dava para Gina ouvir o que Harry dizia para Cedrico, mas ela viu-o puxar o braço do amigo. Então ouviu Cedrico berrar uma série de palavrões para Harry, terminando com:

- Eu não preciso de você! Me larga!

Cedrico mergulhou enquanto alguns da turma debochavam de Harry, que saiu caminhando pela areia em direção a Gina.

- A Hanson ainda está aberta. Quer ir lá? disse ele com voz tensa.

- Ir onde?

Gina não se lembrava onde ouvira aquele nome antes.

- Tomar sorvete.

- Claro, mas, e o Cedrico?


- Eu tentei, né? Ele é responsável por seus próprios atos. A maneira como Harry estava falando demonstrava ira e frustração, assustando-a um pouco.

Tentou animá-lo enquanto andavam até a sorveteria.

- Meu tio jogou golfe hoje, e aconteceu uma coisa tão engraçada... o carrinho dele estragou e ele foi a pé até a sede do clube; só quando chegou lá é que lembrou que tinha deixado todos os tacos no carrinho, perto do décimo quinto buraco!

Harry não disse nada. Obviamente o caso era muito mais engraçado contado pelo tio Bob. O rapaz permaneceu sério até entrarem na sorveteria Hanson. De repente ele se animou, e Gina sentiu um aperto no coração ao perceber por quê. Hermione trabalhava ali. Ela estava equilibrando um banana split numa mão e milk shake, na outra.

- Mione! Como vão as coisas? Harry mostrou-se mais alegre e encaminhou-se para uma das mesas.

- Oi, gente! Já vou aí; um minutinho só. Ela fizera um rabo-de-cavalo no cabelo, amarrado com uma fita rosa-choque que combinava com o babado do avental do uniforme. Depois de entregar dois sundaes de chocolate na mesa ao lado da deles, ela limpou as mãos no avental e exclamou:

- Hoje está tão movimentado aqui! Se vocês tivessem vindo a uma hora, não teriam encontrado lugar pra sentar!

- O que você quer tomar, Gina? perguntou Harry, voltando a mostrar-se tranqüilo.

Gina resolveu provocar Hermione um pouquinho.

- Não sei, Harry. Eu não trouxe dinheiro.

- Não se preocupe. Eu trouxe, desde que você não peça a “extravagância do Hanson".

- Por favor! gemeu Mione. Fazer duas daquelas numa só noite é demais pra mim; e já ultrapassei minha cota hoje!

- Então vou querer um sundae de flocos, sem nozes e com calda de chocolate quente, disse Gina.

- E eu quero o de sempre, disse Harry, sorrindo para Mione.

Gina ainda tinha ciúmes da intimidade dos dois. Contudo sentia-se contentíssima por estar vivendo seu primeiro encontro com um rapaz.

Cerca de quatro meses atrás, ela e Paula haviam feito uma aposta para ver qual das duas seria a primeira a ter um encontro de verdade com um garoto. As regras eram que ele tinha de convidar, pagar a conta e levá-la em casa. Até ali, tudo bem. Parecia que a Paula é que teria de arranjar os cinco dólares.

O "de sempre" do Harry era um milk-shake de manga com um pedaço grande de abacaxi. Mione, com mãos experientes, colocou o sorvete sobre a mesa e perguntou:

- Você não ia à festa do Cedrico, Gina?

- Eu fui, mas não estava pintando muita coisa lá, então nós viemos embora.

Por que fui falar isso? E se o Ted disser a ela que na verdade saí de lá correndo e aos prantos? pensou Gina.

- Essa não é exatamente toda a história, disse Harry.

Gina se sentia uma boboca.

- Fico furioso da vida, Mione Quando saímos, Cedrico estava totalmente drogado. Tentei evitar que entrasse na água, mas ele me xingou como se eu não valesse nada. Harry parou e deu uma mordida no abacaxi.

- Quase bati nele, Mione, continuou Harry. Quase quebrei a cara dele! Mas sei que isso não ia resolver o problema.

Gina sentiu-se excluída da conversa, ao ver que Mione dava conselhos ao Harry.

- Sei que é difícil, Harry, mas você não pode passar o resto da vida tomando conta do Cedrico. É ele que está errado. Não é problema seu. Simplesmente entregue tudo ao Senhor.

Gina observou naquela conversa o mesmo clima de intimidade que havia notado entre os dois no dia anterior, na praia. Parecia mais uma discussão entre irmãos.

- Mas ele é meu melhor amigo! Não posso fingir que não me importo! Você nunca entendeu isso, Mionea. Sou leal aos meus amigos, mesmo quando eles são uns crápulas!

Mione pediu licença.

- Tenho de atender mais umas pessoas.

- E então, disse Gina, tentando entrar no assunto. Você e Cedrico são bons amigos?

- É. Nós nos conhecemos desde que eu me entendo por gente, e andamos sempre juntos. Sempre mesmo. Mas no ano passado, quando me tornei cristão, nós nos afastamos. Não me interessei mais pelas coisas que ele fazia, a não ser pelo surfe.

Gina não entendia por que "tornar-se cristão" mudava a situação entre amigos.

Harry ficou um pouco retraído enquanto acompanhava Gina até sua casa. Ela lutava contra o pensamento desalentador de que talvez ele não gostasse dela do jeito que ela gostava dele. Mas, à porta, ficou mais animada.

- Quero o número do seu telefone, disse Harry, com seu jeito franco.

794... principiou mas parou, lembrando que esse era o número de sua casa. Não sabia o número do telefone dos tios de cor.

- Espere um instante, disse, deixando Harry à porta e correndo para copiar o número na cozinha.

Quando voltou, uma sirene de ambulância soava a algumas quadras. Estava tão alta que quase não conseguiu escutar o que Harry disse ao despedir-se.

Será que ele disse: "Te vejo amanhã", ou, "te ligo amanhã" ?

De qualquer forma, a animação não diminuiu, mesmo quando encontrou a tia na sala.

- Olá, querida! Estou morrendo de vontade de saber como foi a festa. Você e Alissa se divertiram? O que vocês comeram? Brincaram muito como você pensava?

Gina riu até não poder mais.

- Não entendi, disse Marta. Por que está rindo tanto assim?

A garota esticou-se no carpete fofo e balançou a cabeça.

- Digamos que não era o tipo de festa que eu esperava. Mas acabei me divertindo assim mesmo, e Harry me trouxe em casa. Talvez ele ligue pra mim amanhã, então é melhor dizer ao tio Bob para não pegar no pé dele.

- O que você quer dizer com isso, Gina? perguntou Marta, piscando os olhos. Seu tio jamais fará algo que possa envergonha-la!

- Ah, claro que não!

A garota subiu para o quarto morrendo de rir. Que noite! Que semana! Parecia que havia amadurecido e mudado mais nos últimos dias do que nos últimos três anos.

Ainda estava super animada quando acordou na manhã seguinte. Enquanto limpava o rosto e se maquiava, pensava em Harry. Será que deveria descer à praia ou ficar em casa esperando seu telefonema? Enrolou o cabelo com um cuidado todo especial e estava quase pronta quando o tio bateu à porta.

- Gina, telefone. Alguém de nome Sary, ou Arry, ou Ry, ou algo parecido.

- Ôbaaaa! gritou. Já vou!

Deu uma última olhada no espelho, e desceu a escada de dois em dois degraus, e pegou a extensão na sala de leitura.

- Já peguei, tio Bob! disse, e em seguida ouviu o clique do aparelho sendo desligado.

- Olá!

Ela queria parecer meio distante, interessada e charmosa, tudo numa palavra só. Harry parecia ser o tipo do cara que costuma fazer essa espécie de joguinho; mas por que ela não podia?

- Gina, é o Harry. Estou no hospital. Você acha que sua tia ou seu tio poderiam trazê-la? É no Hospital Memorial Hoag. A moça ficou tão assustada que quase deixou o fone cair.

- Harry! O quê? Como? O que foi que aconteceu? Você está bem?,

- O Problema não é comigo. É com o Cedrico. Ele foi atirado contra o quebra-mar ontem. Quebrou muitos ossos, perdeu muito sangue e ainda está inconsciente.

- Quando você ficou sabendo?

- Ontem, quando deixei você em casa. Vi uma ambulância na praia e tive um pressentimento de que poderia ser o Cedrico, então fui seguindo-a até o hospital. Passei a noite toda aqui. Os pais dele estão viajando. Acho que vou voltar para a casa dele pra procurar os telefones de parentes ou alguém que saiba onde eles estão, concluiu com voz cansada.

- Bem, o que eu posso fazer?

Gina estava abalada e se sentia incapaz de ajudar, mas faria qualquer coisa pelo Harry.

- Pensei que talvez você pudesse ficar aqui com ele. Se ele acordar, talvez saiba dizer onde os pais foram. Eu não queria incomodar você, mas não consigo falar com mais ninguém.

- Claro, Harry, respondeu Gina estupefata. Já estou indo aí.

Bob dirigia e Marta falava sem parar. Harry encontrou-os no saguão e disse o número do quarto no hospital e do telefone da casa do Cedrico. Estava pálido e a expressão angustiada não combinava com o rosto forte e terno que Gina conhecia. Teve vontade abraçá-lo e chorar em seu ombro.

Harry foi embora e os três pegaram o elevador para o andar em que Cedrico se encontrava. Tantas coisas aconteceram ao mesmo tempo que não dava nem para saber o que havia realmente acontecido.

Cedrico parou de respirar e foi levado imediatamente para a sala de cirurgia. Havia algum problema por ele ser menor de idade e seus pais não estarem presentes para assinar os papéis permitindo cirurgia. Bob conversava com o médico em voz baixa, enquanto Marta e Gina aguardavam no corredor.

Um policial surgiu de repente e uma enfermeira conduziu-o a Gina.

- Com licença, senhorita, disse ele, olhando bem para ela. O homem tinha quase dois metros de altura, e só sua presença já amedrontava.

- Sou o oficial Martin. Posso fazer-lhe algumas perguntas?
- Sim, senhor.

Você estava com Cedrico Diggory ontem à noite na hora do acidente?

- Sim. Isto é, não. Quer dizer, mais ou menos, balbuciou Gina.

- Sei, disse o oficial, levantando a sobrancelha. Talvez devêssemos sentar pra que você me diga tudo que sabe.

Marta foi a primeira a sentar-se, mexendo nervosamente com as unhas.

- Conte tudo, querida, disse a tia, com a voz ainda mais alta e estridente que de costume.

- Bem, teve uma festa na casa dele ontem à noite, e eu cheguei lá pelas oito, começou Gina.

- Rolava droga na festa?

Marta engasgou.

- Céus, não!

O oficial parecia irritado.

- Talvez a senhora devesse deixar a jovem responder.

Marta encolheu-se no sofá.

O coração de Gina martelava.

- Sim, senhor.

- Havia drogas? repetiu ele.

- Sim, senhor.

Com o canto do olho, ela observava a tia empalidecida.

- Subi a escada, disse Gina, com voz tremula, porque um dos caras me disse para subir. Eu estava procurando alguma coisa para beber que não fosse cerveja, e perguntei se tinha Coca em algum lugar. Me mandaram pra cima, pra perguntar ao Cedrico. Cedrico Diggory. Era na casa dele. A festa, quero dizer.

Gina tremia tanto que não conseguia nem raciocinar direito.
- Continue, disse o policial.

- Bem, subi para o quarto e, quando entrei, tinha umas pessoas que estavam... bem, no começo eu nem sabia o que estavam fazendo. Mas aí concluí que devia ser maconha.

- Oh, não!

Marta parecia que ia desmaiar.

- Senhorita Weasley, disse o policial, inclinando-se e olhando firmemente para Cris. Você participou no uso de drogas ilegais ontem à noite?

- Não!

A palavra lhe saltou da garganta como um gato acuado, Depois, contendo-se um pouco, ela respondeu mais calmamente:

- Não, senhor. Eu não usei.

Nunca se sentira tão bem, tão certa de que tinha tomado decisão correta.

Marta suspirou aliviada.
- Sabe o nome de alguma outra pessoa que estava na festa? perguntou o oficial.

- Só o Harry. Acho que o sobrenome dele é Potterr, mas não tenho certeza. É ele que está tentando localizar os pais do Cedrico.

- E você não conhecia mesmo as outras pessoas no quarto ontem à noite? Insistiu ele, não parecendo convencido.

- Não, senhor.

- Está bem. Continue.

Gina deu mais alguns detalhes. De repente o policial interrompeu-a e perguntou:

- Quer dizer que o Harry foi embora com você depois que Cedrico entrou no mar?

Ela acenou que sim.

- Esse Harry tentou impedir Cedrico de entrar na água?

- Sim, senhor. Mas não adiantou. Ele disse que o Cedrico estava “chapado" demais e não sabia o que estava fazendo. Gina notou que o tio vinha caminhando pelo corredor em sua direção, com o rosto pálido como cera. Aproximou-se dela, segurou seu queixo com cuidado e, com os olhos marejados de lagrimas, disse:

- Sinto muito, querida. Os médicos não puderam fazer nada.

- Ai, meu Deus do céu! exclamou Marta.

- O paciente expirou? perguntou o oficial sem emoção.

Bob acenou, confirmando.

- Bom, obrigado por sua ajuda, senhorita. Com licença, disse o policial.

Bob sentou-se e abraçou Gina. Ela começou a tremer incontrolavelmente e chorou com a cabeça em seu ombro, deixando marcas de rímel em sua camisa de golfe azul-clara.

- Harry ainda não sabe! disse ela chorando. Temos de ligar pra ele. Cadê o número?

Marta se recompôs e voltou ao controle da situação.

- Deixe que seu tio faça a ligação Ginevra. Fique aqui e procure acalmar-se.

A cabeça de Gina estava a mil enquanto olhava para o tio Bob na cabine telefônica, a alguns metros. Como o Cedrico podia estar morto? Ela só o conhecera poucos dias atrás, e agora se fora. Não podia ser verdade! As lágrimas lhe escorriam pelo rosto.

Bob voltou e disse mansamente:

- Acho que é melhor a gente ir embora.

- E o Harry?

Gina chorava incontrolavelmente.

- Consegui falar com ele, disse Bob. Ele localizou os pais do Cedrico em Carmel. Eles estarão voltando no próximo vôo, e Harry vai busca-los no aeroporto.

Falando em voz mais baixa, Bob acrescentou:

- Eles ainda não sabem.

A volta para casa foi incomoda. Tirando o fungar de Gina e os suspiros ocasionais de tia Marta, tudo estava quieto. Quando chegaram na rampa de entrada da garagem, Marta quebrou o silêncio.

- Na verdade, Ginevra, eu não tinha idéia de que era esse tipo de amigos que lhe faziam companhia! Ora, se eu tivesse pensado por um momento que você iria a uma festa com drogas ontem eu...

Bob interrompeu-a com uma força que Gina jamais vira.

- Cala a boca, Marta! Não vê que foi você que a empurro para tudo isso?

- Eu?! Como eu poderia empurrar a menina? Marta bufava, pronta para se defender.

Bob insistiu:

- Sim, você! E você é teimosa demais; não vai admitir! Com isso bateu a porta do carro e entrou em casa furioso.

- Que audácia! disse Marta, indignada.

Gina não sabia o que fazer. Nunca os vira brigando assim.

Do mesmo modo como uma onda espumante se retira, a ira de Marta desapareceu, e ela recobrou a postura reservada de sempre.

- Gina, meu bem. Não fique sentida com seu tio. Tenho certeza de que ele não quis magoá-la. Sabe o que mais? Vamos nós duas comer uma salada na Ilha Balboa? Há um lugarzinho maravilhoso que há muito quero que você conheça.

Gina sentia-se como se o mundo inteiro estivesse girando e rodopiando à sua volta. Como tia Marta podia falar em comer numa hora daquelas? A garota fitou os olhos na tia. "Que mulher fria, insensível! Será que ela acha que fingindo não ver a realidade, fará as coisas ruins desaparecerem?"

- Vamos? Insistiu Marta, procurando a chave do carro. Gina procurou responder com toda a educação possível, mesmo com o espírito tão conturbado.

- Sinceramente, tia Marta, não estou com vontade de comer. Prefiro me deitar um pouco, se não se importa.

O final veio intencionalmente sarcástico e, com um gesto de desagrado, Marta disse:

- Está bem. Então vou sozinha.

Gina saiu do carro e abriu a porta da frente com um gesto melancólico, enquanto o conversível prateado descia a rampa da garagem e corria pela rua. Uma dor lacerante parecia esmagar sua cabeça. Refugiou-se então no quarto, onde passou o resto do dia de porta fechada. Por muito tempo ficou deitada na cama, fitando o nada a sua frente. Como um disco arranhado que voltava sempre para a mesma linha, a morte de Sam não saía de sua cabeça.

Os questionamentos eram tantos! Por que Sam? Ele tinha só dezesseis anos. É verdade que de estava fumando maconha, mas sua morte foi um acidente. Deus não podia ter evitado que aquilo acontecesse? Todos nós cometemos erros. E onde Cedrico estava agora? Será que estava no céu ou ... Será que o inferno existe? As pessoas vão para o inferno quando morrem? Como é que ele foi morrer daquele jeito?

Não parecia verdade. Nada parecia verdade.

Talvez se escrevesse tudo, colocasse no papel todos os acontecimentos dos últimos dias, conseguisse entender o que acontecera, ou pelo menos fazer com que aquilo parasse de girar em sua cabeça. Escreveu tudo numa carta para Paula. Levou horas, e ficou com cãibra na mão, de tanto segurar a caneta.

- Gina, chamou Bob baixinho, do lado de fora da porta.

A garota levantou a cabeça.
- Quer que eu prepare alguma coisa pra você? perguntou ele.

- Não, obrigada.

- Quer beber algo? Está com fome?

- Obrigada, tio. Só quero ficar sozinha, se não se importa.

- Claro. Não vou incomodá-la mais. Mas se precisar de alguma coisa, me chame, viu? Qualquer coisa, tá bem?

- Está bem. Obrigada.

Ela continuou a escrever. Foi a carta mais longa que escreveu: vinte e quatro páginas. Contudo, ao reler, não encontrou as respostas que procurava.

O sol começava a se pôr quando ela olhou pela janela. O mundo continuava seu curso lá fora, As ondas continuavam a vir e voltar. As gaivotas sobrevoavam as latas de lixo. As pessoas continuavam a fazer sua corrida de fim de tarde, no horário de sempre. Nada havia parado. A vida continuava para todos os Outros. Não parecia justo.

Finalmente foi vencida pelo cansaço. Entrou no banheiro, encharcou um pano felpudo com água morna e fez uma compressa no rosto, respirando o vapor. Tudo parecia amargo como fel. Até o pano parecia áspero contra sua pele.

Mal conhecia Cedrico, no entanto estava dominada pela emoção. Como seria, pensou, se isso tivesse acontecido com um amigo mais intimo?

Trôpega, caminhou até a cama, puxou o acolchoado sobre os ombros e caiu num sono profundo.






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