A Festa
Á mesa do jantar Gina revirava, em silêncio, seu quiche de camarão. Marta retomou o controle da situação.
- Estou ansiosa para conhecer sua nova amiga Cho. Estou gostando de ver como você tem feito amizades depressa. Até recebeu um convite para uma festa! É absolutamente ma-ra-vi-lho-so!
Agora Gina nem sentia mais vontade de ir à festa. Mas começou a animar-se novamente quando Bob contou, num jeito muito engraçado, como seu carro de golfe quebrara no décimo quinto buraco aquela tarde. Quando Cho tocou a campainha, Gina estava contente de novo e disposta a se divertir.
Marta gostou imediatamente de Cho. "O ápice da perfeição", diria ela mais tarde; e um ótimo exemplo para Gina.
Mas o entusiasmo da garota murchou quando abriu a porta, Cho estava usando um vestido. Um vestido branco incrível que destacava seu bronzeado. O ar da sala encheu-se do seu perfume de gardênia enquanto ela, educadamente, conversava com Bob e Marta,
Gina analisou-a detidamente. Sua maquiagem estava perfeita, o cabelo muito bem arrumado, tudo nela era perfeito! Gina a detestava e, ao mesmo tempo, daria tudo para ser igualzinha a ela.
Quando estavam a caminho da casa do Cedrico, Cho disse:
- Eu quase não vinha mais. O Cedrico é um boboca! Tão imaturo!
- Pensei que vocês já estivessem ficando apaixonados.
- Você pensou isso? disse Cho, parecendo surpresa. Ele é um bebezão. Tenho coisas melhores pra fazer do que criar menininhos.
Quando chegaram, Cho desfilou pela sala com movimentos de bailarina. Primeiro girando para cumprimentar uma pessoa, depois levantando graciosamente o braço para acenar a outra.
Gina observava impressionada, e aquela música barulhenta fazia seu coração bater mais forte. Nem Cedrico nem Harry estavam por perto. Era um mar de espectadores desconhecidos observando o desempenho de Alissa, que cumpriu seu papel bem ensaiado ate ir sentar-se no sofá, onde estava o cara mais maravilhoso da festa.
Gina calculou que ele tivesse vinte e um ou vinte e dois anos. De cabelo e bigode escuros e espessos, lembrava aquele cara do antigo seriado TV, "Magnum". Ele estava até usando uma camisa com estampa havaiana.
Obviamente Cho decidira que ele seria sua conquista da noite. E ele deve ter percebido suas intenções porque, em poucos minutos, deixou a moça com quem viera, passou o braço em volta de Cho, e os dois saíram juntos pela porta da frente.
Agora Gina estava sozinha, intimidada, assustada e dolorosamente consciente de que era a única de jeans. Todas as outras garotas estavam com vestidos de festa. Ela se sentia como uma menininha de três anos, tremendo num canto com sua camiseta de ursinho. Como poderia admitir que a tia estava certa sobre o que ela deveria vestir?
Sentiu uma enorme vontade de sair correndo porta afora, mas não poderia ir para casa agora. Não queria admitir para a tia que fracassara.
As pessoas à sua volta davam-lhe as costas, conversando, segurando latas de cerveja, algumas fumando. Ninguém olhava para ela. Talvez se sentisse melhor se estivesse com uma bebida como todo mundo.
Enchendo-se de coragem, saiu do seu cantinho e procurou a cozinha.
- Com licença, disse ela a um dos surfistas em pé, perto geladeira. É aqui que a gente pega alguma coisa pra beber?
Ele não respondeu. Simplesmente apontou para uns tambores de gelo que estavam no meio da cozinha e tomou mais um gole de cerveja. Gina enfiou a mão no gelo para procurar um refrigerante. Só tinha cerveja. No outro tambor era a mesma coisa.
Não queria beber aquilo. Só havia experimentado cerveja uma vez, quando tinha dez anos, e achou o gosto horrível. "Como alguém pode gostar disso?"
Outro surfista entrou na cozinha e gritou pra ela:
- Ei, manda duas geladinhas.
Gina assustou-se. Era a primeira pessoa que falava com ela desde que chegara à festa.
Atendeu prontamente e, entregando-lhe as latas, perguntou:
- Você sabe onde está o Cedrico?
Ele pareceu não escutar por causa da música. Ela perguntou de novo, mais alto:
- Sabe onde está o Cedrico?
O surfista olhou para ela como se estivesse tentando lembrar de onde a vira antes.
- Lá em cima, respondeu. Daí ele conseguiu lembrar:
- Ei, a Cho veio?
- Veio, mas já saiu com outra pessoa. Gina tinha de gritar porque a música estava ensurdecedora Daí perguntou:
- Onde lá em cima?
- Ah?
- Lá em cima onde? Ela estava gritando no ouvido dele.
- Ah?
Ele parecia confuso e, de repente, a música parou.
- Eu só queria perguntar ao Cedrico onde tem Coca.
O silêncio foi total. Um dos rapazes disse:
- Qual é, gatinha?! Hoje é dia de festa! A menina ao lado dele riu.
Por que todo mundo está me olhando assim? Seu coração batia Será que estão me achando infantil por ter pedido Coca em vez de cerveja?
Tentando manter a pouca compostura que ainda tinha, subiu a escada. Bateu na primeira porta fechada que encontrou, e alguém gritou lá de dentro:
- Vá embora!
Bateu então numa segunda porta, e Cedrico apareceu.
- Oi, disse Gina, sentindo-se uma completa idiota.
Cedrico olhou em volta e atrás dela.
- Cadê a Cho?
- Saiu com um cara.
Sua voz refletia a irritação por ter sido deixada sozinha. Cedrico também estava irritado e soltou uma série de palavrões que a deixaram totalmente chocada. Como eles podiam parecer um par de pombinhos num dia e desprezar um ao outro no dia seguinte?
- Eu não queria incomodar você, Cedrico. Só queria saber se tem Coca ai?
Ele a olhou assustado, da mesma maneira que aquele rapaz a olhara na cozinha.
- Claro! Entre aqui!
Cedrico conduziu-a para o que certamente era o quarto de seus pais. Cinco ou seis pessoas estavam sentadas na cama e no chão. Todos olhavam para um cara ao lado da mesinha de cabeceira, que enrolava alguma coisa entre os dedos.
Ninguém conversava com ela, embora não a ignorassem totalmente. Era como se tivesse entrado numa turminha particular e, alguma razão, eles a haviam aceitado.
Cedrico deu ao rapaz uma caixa de fósforos, depois aproximou-se de Cris e disse baixinho:
- Não tem coca, tá legal? Mas esse aqui é de primeira. "Ouro de Kona”. Ce sabe, muito melhor do que o que a gente consegue por aqui.
De repente Gina entendeu e exclamou:
- Quer dizer que isso é maconha?
Novamente todos olharam para ela como os outros na cozinha haviam olhado. Agora ela estava entendendo por quê. De vem ter pensado que ela estivesse pedindo cocaína, não Coca-Cola! Como ela pôde ser tão boba?
Cedrico parecia ofendido.
- É, como eu falei, a coca não pintou. Toma aqui! disse ele empurrando o baseado na frente do rosto de Gina. Quer a primeira tragada?
Todo mundo estava esperando. O suor fazia arder seu rosto queimado pelo sol. Depois de toda a confusão que causara, como poderia simplesmente dizer: "Não, obrigada, tenho de ir embora”?
Desesperada, ela engasgou:
- Tudo bem, Cedrico, vá você primeiro.
- Tá legal, respondeu. Ele deu uma tragada, puxando a fumaça densa, de cheiro adocicado, para dentro dos pulmões e prendendo a respiração antes de soltá-la.
Só aquele cheiro já estava deixando Gina com a cabeça leve. O que deveria fazer quando ele oferecesse de novo o baseado?
A porta ficava do outro lado do quarto. Não dava para sair discretamente. O que Cho faria? O quarto parecia rodopiar sua volta. A música que vinha do andar de baixo provocava uma vibração que ela sentia desde a sola dos pés até a cabeça. Cedrico entregou-lhe o cigarro sem dizer nada. Ela tomou-o com mãos trémulas entre o dedão e o indicador como o vira fazer. Fechou os olhos e levou-o à boca. A fumaça espessa enchia s narinas. Ela abriu os lábio, mas, de repente, parou.
- Não posso! Simplesmente não posso!
- Parece até que é a primeira vez dela! disse uma das meninas, sentada à beira da cama. Que criançona!
- Vamo lá, passe pra nós! pediu um dos rapazes. Gina entregou-lhe o cigarro, sentindo o ardor das lágrimas nos olhos. De repente ouviu uma voz do outro lado do quarto.
- Ei, legal! exclamou Harry. Ela é uma grande garota. É capaz de tomar suas próprias decisões. Todo mundo olhou para ela.
- Bem, disse ela, engolindo em seco. Eu... ha... aprecio vi ter me convidado, Cedrico, e... ha... foi muito bom, mas... a-a-acho que vou indo agora.
- Como você quiser, murmurou Cedrico, enquanto ela saía correndo do quarto e descia apressadamente a escada.
Desesperada, ia empurrando as pessoas para abrir caminho entre amultidão que bebia, ria e sacudia a cabeça ao som da musica. Passando pela porta da frente, deixou as lágrimas escorrerem.
Sou mesmo uma criançona! pensou, com vontade de gritar.
De repente, alguém tocou em seu ombro. Gina virou-se bruscamente, pronta para dar um murro em quem fosse.
Era o Harry.
- Você vai para casa agora? perguntou com ternura.
Ela desviou o olhar e tentou não chorar mais.
- Acho que sim.
- Vou com você.
Era mais uma de suas declarações. Não uma pergunta ou um convite, mas simplesmente um fato.
- Vamos por aqui, acrescentou, caminhando em direção a praia. Gina passou o dedo por baixo de cada olho, para limpar alguma mancha de rímel e lápis. Seguiu-o de boa vontade, mas incerta quanto ao que poderia acontecer em seguida. Sentia-se insegura demais para fazer qualquer outra coisa.
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