O Convite
Na manhã seguinte, Gina foi bem cedinho para a praia, de cabelo arrumado e com maquiagem nos olhos. Esperou ansiosamente pelo Harry. Não havia quase ninguém, exceto uns poucos surfistas que não conhecia. Ninguém do grupo que conhecera no dia anterior estava lá.
Voltou para casa, que ainda se achava em silêncio, e olhou para o relógio. Oito e vinte e sete. Não era de espantar que ninguém estivesse na praia.
Esparramou-se sobre uma poltrona e ligou a televisão. Estava passando um programa infantil. Gina ficou ali assistindo meio desligada, vendo um boneco que tentava convencer o outro comprar um sorvete de picles e sardinha. O segundo ficava dizendo que não gostava.
- Como pode dizer que não gosta se nunca experimentou?!
O primeiro insistiu tanto que o outro acabou comprando o sorvete.
-
Eca! gritou ele ao experimentar o sorvete. Provei e não gostei.
- Ha-ha-ha! riu o primeiro boneco. Sabia que não ia gostar. Sinto muito, mas agora sua moeda já está no meu bolso. Ha-há-ha! Ganhei o dia. He-he-he!
- Que chatice! pensou Gina, desligando a TV. Pensar que isso é um programa "educativo", para criancinhas! Credo!
- "Provei, e não gostei!" disse ela arremedando o personagem.
- Não gostou do quê?
A voz de Bob veio da porta.
- Ah, um sorvete de picles com sardinha.
- E que tal uma omelete de picles, sardinha e queijo?
Gina riu da brincadeira do tio e replicou:
- Ótimo, se eliminar os picles e as sardinhas!
Enquanto tomavam o café da manhã, Gina conversou com o tio sobre Harry.
- Ele é o cara mais bacana que já conheci, e tenho certeza de que gosta de mim.
- Qualquer rapaz seria louco se não gostasse de você!
Era tão fácil conversar com o tio Bob. Ela queria poder relacinar-se assim com seu pai, mas ele era um homem muito fechado. Conversar com ele consistia em ouvi-lo falar sobre um assunto durante horas e, no final, a sua conclusão: "É assim que tem de ser. " Ele não lhe dava espaço para ter suas próprias idéias e expressá-las. Ele era o pai, ela a filha. Ele dizia, ela obedecia. Era assim mesmo. Estava gostando dessa liberdade de poder dar suas opiniões, conversar sobre tudo e sentir-se capaz de tomar decisões acertadas.
Com a autoconfiança aumentada, dirigiu-se novamente à praia, lá pelas onze horas, pronta para o que desse e viesse. Estava tão entusiasmada que, quando viu o Harry, correu para cumprimenta-lo, sem perceber que ele estava conversando com outra garota, aliás, uma graça de garota.
- Ei, Gina! disse Harry. Como vão as coisas? Esta é a Hermione.
- Oi, disse Hermione com um sorriso rápido. A jovem era baixa e magrinha. Tinha cabelo escuro na altura do ombro e olhos vivos, cor de chocolate. Seu bronzeado era bem mais intenso que o de uma modelo de propaganda de bronzeador.
Os olhos de Gina pularam de Harry para Trícia e novamente para Harry. Será que estava interrompendo alguma coisa?
- Vocês se importam se eu colocar minha toalha aqui?
- Claro que não, respondeu Hermione. O Harry me disse que havia conhecido duas garotas novas na praia ontem, enquanto eu estava trabalhando. Sua amiga virá?
- Não sei. Na verdade eu a conheci ontem e, depois que ela saiu com o Cedrico, não a vi mais.
- Eu vi os dois hoje cedo, disse Harry em voz baixa. Provavelmente eles ainda vão aparecer mais tarde.
- Não sei como você consegue ser tão amigo dele, disse Mione a Harry.
- Eu e Cedrico somos amigos há muito tempo.
- Sei, mas vocês dois não têm mais nada em comum.
- Não posso simplesmente ignorá-lo, defendeu-se Harry.
- Não fique zangado, respondeu Mione repreendendo-o. Eu só fico me perguntando por que você ainda anda com ele, só isso.
- Onde você trabalha? interrompeu Gina, tentando melhorar o clima.
Não dava para saber se Harry e Hermione estavam conversando como, irmãos ou como namorados.
- Na Sorveteria Hanson. Fica lá perto do Pavilhão. Quer um emprego? Eles estão procurando mais alguém para trabalhar à noite.
- Não, mas obrigada pelo interesse, respondeu Gina, ainda tentando descobrir qual o relacionamento de Harry e Hermione. Harry e Hermione! Até os nomes combinavam! Será que ele gostava dela? Sentiu-se meio insegura sem saber direito o que ela era para ele.
- Que horário você trabalha hoje? perguntou Harry a Hermione.
- Meio dia às seis. Você ainda vai poder me dar uma carona?!
- Claro. É melhor irmos embora logo. Olh'aí, o Cedrico e a Cho!
Agora é que Gina sentiu-se sobrando mesmo. Cedrico e Cho chegaram abraçados, nitidamente orbitando em uma galáxia particular.
Que será que estou fazendo aqui? perguntou-se Gina.
- Vocês irão todos à festinha amanhã à noite? perguntou Cho.
- Que festa? murmurou Gina.
- Do Cedrico. Os pais dele vão estar fora da cidade no fim de semana.
- Você vai, Hermione? perguntou Gina.
- Não, não sou muito de festas. Além do mais, tenho de trabalhar.
- E você, Harry?
- Provavelmente darei uma passada por lá. O interesse de Gina aumentou. Se Hermione não fosse, talvez ela tivesse mais chance com o Harry.
- Acho que eu vou, disse Gina. Vou pedir que minha tia me deixe lá.
- Ah! Não faça isso! disse Cho com uma risadinha. Não numa festa dessas! São só algumas quadras. Você pode ir comigo, se quiser.
- Ótimo!
Gina lançou um olhar para Harry para ver se ele se ofereceria para levá-la.
- Temos de ir, foi tudo o que ele disse. Vou levar a Mione para o trabalho. Além disso, prometi a meu pai que terminaria de pintar a varanda hoje.
- Tchau! Vejo vocês depois! disse Gina a Harry e Mione, tentando não deixar transparecer o desapontamento pelo fato de o Harry não passar o dia com ela.
Cho e Cedrico também resolveram sair, e foram caminhando pela praia abraçadinhos. O corpo bronzeado de Cho atraía como um imã os olhares de todos por quem passava. Certamente ela sabia que todo mundo estava olhando, mas agia como se não ligasse a mínima. Gina tirou o romance da sacola e tentou não ficar muito deprimida por ter ficado sozinha de repente. O sol da tarde queimava suas costas e, de tempo em tempo, ela erguia os olhos na esperança de que Harry voltasse.
Não dava para entender. Ontem ele parecia estar realmente interessado nela. Hoje ele e Mione pareciam um casal, discutindo, ele levando-a para o trabalho...
Como é que eu fico nessa historia? questionou-se. Pelo menos ele vai á festa amanhã, e a Mione não! Eu queria saber lidar com os rapazes como a Cho. Assim seria mais fácil conseguir que um cara como o Harry gostasse de mim.
Depois de passar ali várias horas sem progredir muito na leitura, ela juntou suas coisas e atravessou a areia quente aos pulinhos, imaginando como seria que a Cho conseguia andar com tanta elegância. Tudo que Cho fazia era perfeito. Se pudesse ser igual a ela...
O pior de voltar para casa era a certeza de que sua tia pediria um relato completo do dia; e não havia muito a dizer. A não ser sobre o convite para a festa. Pelo menos tinha isso de bom para esperar.
Marta estava deitada, esticada sobre uma espreguiçadeira no pátio, com um copo grande de chá gelado na mão. Usava um maiô preto com uma faixa roxa na cintura e um enorme chapéu de palhinha com fita também roxa. Só suas pernas estavam expostas ao sol.
Estava lendo uma revista em formato de jornal, com a foto de uma artista de cinema na capa, e uma manchete que dizia algo como: "Alexis quer vingança". Por um momento Gina achou a tia um pouco parecida com a artista da capa.
- Olá, Gina! disse Marta, com uma expressão meio assustada. Não vi você chegando. Como foi o dia querida. Tão bom quanto ontem?
Gina fez um relato, eliminando os detalhes. Não contou que acabara ficando sozinha na praia, mas falou sobre o convite para a festa.
Marta disse com orgulho.
- Eu sabia que você conseguiria se entrosar com a turma mais popular, se tentasse! A que horas devo deixá-la na casa do rapaz?
- Na verdade, a Cho vem me buscar.
Gina esperava que Marta não insistisse em levá-la de carro, porque Cho dera a entender que ela ia parecer meio infantil se a tia a levasse.
- Bem, vou pensar no caso, disse Marta. Em seguida, acrescentou:
- Ó céus! Temos de sair para comprar um vestido bonito pra você usar.
- Mas tia, você me deu um guarda-roupa inteiro faz poucos dias, lembra?
- Sim, mas não compramos nenhum vestido de festa de verdade.
Marta parecia bastante preocupada.
- Vestido de festa? Sem essa! E se a gente for fazer alguma brincadeira mais movimentada? Eu vou de jeans.
Para alívio seu, Marta se acalmou.
Quando Gina entrou na cozinha, Bob estava retirando um pacote de hambúrguer do congelador.
- Nossa! exclamou ele quando a viu. Você se queimou!
- Mesmo? perguntou, parecendo contente. Estou surpresa por meu rosto estar queimado. Fiquei de bruços quase o dia todo.
- Aqui, sua lagostinha, disse ele, oferecendo-lhe um tubo de gel de aloe vera. Passe isto depois do banho, ou você vai inchar como tomate e assustar os garotos.
- Hoje na praia eu não os assustei, respondeu ela com certa petulância. Fui até convidada para uma festa, anunciou, abrindo a geladeira e procurando algo para comer.
Minha nossa! retrucou Bob. Não estamos nos tornando uma borboletinha social de repente?! Teremos a honra de sua presença no jantar hoje?
- Claro. A festa é só amanhã. Gina pegou uma colher e começou a tomar sorvete de chocolate e nozes direto no pote. Bob parecia não se importar.
- Foi esse seu novo amigo, o Harry, que a convidou?
- Não, mas ele também vai estar lá, disse Gina, terminando de tomar o sorvete. A festa é na casa do Cedrico, e eu vou com a Cho, explicou, mexendo nos armários. Tem alguma coisa pra se comer nesta casa?
- Daqui a algumas poucas horas teremos um jantar rnexicano no pátio, disse com exagero dramático. Devo chamá-la quando estiver tudo pronto?
- Si, si senor! respondeu Gina, enquanto subia a escada.
Foi só quando olhou no espelho do banheiro que viu o que seu tio falara sobre a queimadura de sol. Até suas orelhas estavam queimadas! Ao lavar o cabelo, a água do chuveiro parecia mil agulhas enfiando-se nas suas costas.
Vestir-se foi um esforço monumental. Até mesmo o gel de aloe Vera ardia quando o aplicava aos ombros.
Mais tarde, quando os três se sentaram à mesa para jantar, Marta olhou bem para o rosto de Gina, e falou:
- Ginevra, querida! Você está horrivelmente queimada! Não levou o filtro solar para o rosto hoje?
- Está tudo bem, Marta, disse Bob acalmando-a. Eu lhe dei o gel de aloe vera. Ela vai ficar bem.
- Não coma muito, querida. Você tem de sentir-se leve amanhã à noite.
- Deixa a mocinha! protestou Bob.
- Bem, amanhã vai ser uma noite importante para Gina, e só quero que ela esteja com seu melhor aspecto.
*****
Gina não se sentia tão bem quando chegou a grande noite. Estava tão queimada de sol que acabou passando o dia inteiro deitada pelos cantos, gemendo, tomando água gelada e tolerando a tia, que besuntava uma variedade de misturas nos seus ombros e costas doloridos.
Ela queria ir à praia para procurar o Harry, mas Marta não a deixou sair de casa.
Passou o dia pensando nele.
Lá pelas quatro da tarde começou a revirar o guarda-roupa a fim de decidir o que vestiria. Finalmente resolveu pôr um jeans novo e uma camiseta com estampa de ursinho. Era o tipo roupa que Paula teria usado. Mas o que ela queria mesmo era ter o número do telefone da Cho para perguntar-lhe o que ela iria vestir. Cho era tão mais amadurecida que Paula e, tendo morado em tantos lugares diferentes, sabia muito mais sobre , vida do que todas as amigas de Gina de sua cidade.
Enquanto escovava o cabelo curto, pensava no lindo cabelo comprido de Cho. Resolveu deixá-lo crescer de novo. Quando completasse dezessete anos, ele já estaria novamente do tamanho do Cho. Virou a cabeça pra trás em frente ao espelho, imitando sorriso de Cho e sacudiu a longa cabeleira imaginária.
- O que está fazendo, meu bem?
Marta estivera olhando da porta do quarto.
- Oh! Só brincando, respondeu Gina, assustada.
- Está na hora de você começar a se aprontar. Já resolveu o que vai vestir?
Gina olhou para sua roupa.
-
Isto. Vou usar isto. Já estou quase pronta.
Marta examinou a garota com ar de censura.
-
Parece que você já se decidiu. Eu estava só querendo ajudar.
Virando-se então para sair, mudou o tom de voz e anunciou com uma alegria exagerada.
- Bem, o jantar está pronto!
Não agüento isso! pensou Gina, com vontade de gritar. Primeiro os adultos insistem em dizer que temos de crescer, ser autênticos e tomar nossas próprias decisões. Depois, quando a gente resolve, eles falam que somos incompetentes e que nossas decisões são insensatas.
Jogou a escova no chão, abriu de sopetão a porta do armário, pegou o vestido novo de alças e arrancou a camiseta. Ai! A pele queimada latejava. Caiu no choro e jogou-se na cama ficando quietinha até sentir-se mais calma.
- Não me importa o que ela acha, disse bem alto. Vou vestir o que eu quero. O que é que ela sabe sobre a turma?
Colocou novamente a camiseta, escovou o cabelo e desceu a escada.
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