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3. O Pesadelo


Fic: PROMESSAS DE VERÃO HG ULTIMO CAP POSTADO


Fonte: 10 12 14 16 18 20
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O Pesadelo



Chegaram em casa às quatro e meia da tarde e encontraram Bob no escritório, à frente do computador, com uma pilha de correspondência.

- Tãtãtãtãam! anunciou Marta teatralmente.

Bob virou-se, e por um momento, pareceu chocado. Então seu sorriso voltou.

- Ora, ora, não sabia que você iria trazer uma atriz de cinema para jantar conosco! Se soubesse teria vestido algo mais apresentável!

- Que é que você acha? perguntou Gina, dando uma voltinha. Gostou? Meu cabelo ficou bom, curtinho assim?

Estava curto mesmo! Pouco abaixo das orelhas. Maurice havia feito uma escova deixando-o todo cheinho. Ele cortara o cabelo do alto da cabeça bem curto, arrumando-o num penteado espetadinho e puxando uma franjinha desfiada. Ao olhar-se no espelho, Gina reclamou que estava parecendo um poodle. E embora tivesse dito isso baixinho, Maurice ouviu e repreendeu-a severamente. Parecia ofendido por alguém ousar questionar uma de suas criações. Todos os cabeleireiros elogiaram a garota, dizendo que estava deslumbrante.

Contudo ela não se convencera. Queria saber o que Paula acharia. Mas como a amiga estava a três mil e quinhentos quilômetros de distância, ficou ansiosa por ouvir o que o tio Bob iria dizer. Sabia que ele seria sincero.

- Você me surpreendeu, mocinha! Se não estivesse com a mesma roupa que estava usando quando saiu daqui hoje cedo, eu não a teria reconhecido. Ficou estonteante!

- O cara do salão me mostrou como se aplica esse negócio de musse, e eu trouxe dois frascos. Comprei também um enrolador elétrico de cabelo que ele me ensinou a usar. Mas não foi só isso! Espere só pra ver o que tem nessas sacolas. Nunca fiz tantas compras assim em toda minha vida!

Animada, ela abriu todos os pacotes para mostrar os novos pertences. Logo o sofá estava coberto de roupas, sapatos, acessórios e uma linha completa de maquiagem.

- Dá pra acreditar? perguntou Gina, toda sorridente. Queria poder usar tudo de uma só vez!

Marta parecia muito satisfeita consigo mesma.

- É exatamente o que ela precisava, disse baixinho a Bob. Umas roupas novas e coisas que a ajudassem a melhorar a auto-estima. Eu não lhe disse que ela ficaria mais animada?

- Você estava certa! disse Gina, dando um gritinho. Estes brincos ficam ótimos com este vestidinho. Não vejo a hora de sair com ele.

- Que tal pôr agora? Assim aproveito para levar minhas duas "namoradas" pra jantar fora e comemorar, ofereceu Bob.

- Ótimo, Bob, disse Marta, naquele tom de quem está no controle da situação. Mas tenho uma reunião com o grupo de mulheres hoje à noite. Vão vocês dois. Por que não a leva à Cozinha do Siri?

- Está bem, concordou Bob. Parece uma boa idéia. Q que você acha, Gina?

A garota já havia ajuntado as roupas novas e estava correndo escada acima quando respondeu:

- Estou pronta em cinco minutos!

Surpreendentemente, ela aprontou-se rápido mesmo e, quando desceu, encontrou o tio ao telefone. Enquanto esperava notou que ele trocara de camisa e penteara o espesso cabelo castanho. Bob era um homem atraente, que aparentava ter bem menos que os seus cinquenta e um anos de idade. A pele, curtida pelo sol das muitas tardes no campo de golfe, apresentava pequeninas rugas ao redor dos olhos, que se acentuavam quando sorria. A voz suave e grave harmonizava-se com sua personalidade tranqüila. Seu jeito de ser contrastava profundamente com o estilo de vida acelerado de Marta.

Quando Gina entrou na sala, Bob deu um assovio e ofereceu-lhe o braço.
- Posso ter a honra de acompanhá-la até o carro, gentil dama? Gina deu uma gargalhada.

- Mas é claro, vossa "charmosidade".

Quando estavam saindo, Marta gritou:

- Divirtam-se!

Ao chegarem à Cozinha do Siri, descobriram que teriam de esperar uma hora para conseguir um lugar. Então pediram um coquetel de camarão e caminharam até um longo banco de madeira, passando por um grande número de pessoas.

- Que ventinho agradável, comentou Bob.
- Tem cheiro de peixe, acrescentou Gina.

- É porque o quebra-mar de Newport fica logo ali no fim da rua, explicou Bob, apontando a direção com o garfo de plástico.

- É lá que todos os barcos descarregam a pesca diária.

- Puxa! Olha só aquele carro!

- Você está falando do Rolls Royce?

- É isso aí. Será que tem algum artista de cinema nele? Perguntou abaixando a voz.

- É pouco provável.

- Eu nunca tinha visto um carro desses, a não ser na televisão.
Gina levantou-se do banco e jogou o copinho de plástico do coquetel no lixo. Naquele momento, um carro esporte, conversível, entrou no estacionamento.

- Aquele é que é meu tipo de carro! exclamou Bob, quando ele voltou ao banco. Tala larga, rodas de magnésio, direção esporte. Deve ser um 68.

- Ah, respondeu Gina. Ela não parecia muito impressionada com o carro. Entretanto ficou bastante interessada nos rapazes que desciam dele. Observando-os enquanto vinham em direção ao restaurante, ela concluiu que eles representavam o que ela gostava na Califórnia. Bronzeados, usavam shorts de surfista de cores vivas e camisetas estampadas. Pararam a poucos metros, com ar de quem não quer nada.

Por um momento Gina pensou que estivessem olhando para ela. Devia estar imaginando coisas. Mas Bob confirmou suas suspeitas.

- Aqueles caras estão olhando pra você.

- Não estão não!

- Claro que estão. Deve ser a roupa e o penteado novo. Quer que eu os convide pra jantar conosco? brincou ele.

Gina virou as costas para os dois rapazes, que estavam realmente olhando na sua direção.

- Pára! cochichou. Nem acredito que você tenha dito isso!

- Nossa! Para alguém que nem esteve no sol hoje você está vermelha demais. Naquela hora a recepcionista do restaurante chamou:

- Sr. Robert, grupo de dois, por favor!

Parece que só conseguimos uma mesa para dois, disse Bob. Seus namorados vão ter de esperar uma próxima vez.

Gina abaixou os olhos ao passar por eles. Bob sorriu e cumprimentou-os com a cabeça. De dentes cerrados, ela ameaçou:

- Eu te mato, tio!

Depois que fizeram o pedido, ainda esperaram uns vinte minutos até serem servidos.

- Graças a Deus, disse Bob, ao ver o garçom aproximar-se. Estou morto de fome.

Seu comentário fez com que Gina perguntasse algo que vinha-lhe martelando a mente havia algum tempo.

- Você e a tia Marta acreditam em Deus? Bob pensou um instante e explicou:

- Acho que encaramos a religião como algo muito pessoal. Algo interior, baseado naquilo que se crê. Não ë uma coisa sobre a qual se deve falar publicamente.

- Vocês costumam ir à igreja?
-
Claro, de vez em quando. Mas sempre acreditei que Deus está em todo lugar e é parte de tudo, assim a gente pode adorá-lo onde estiver. Não precisa ir à igreja pra isso.

Gina freqüentava uma igreja desde que se entendia por gente. Toda sua família e suas amigas de Wisconsin também freqüentavam. Na verdade, ela conhecera Paula numa classe de escola .dominical para crianças. Eram amigas desde então. Nunca conhecera ninguém que acreditasse em Deus que não tivesse o habito de ir à igreja.

- E então, disse Bob, com um suspiro profundo. Parece que você e Marta tiveram um dia empolgante, fazendo compras. Como se sente com o novo visual?

Espetando o garfo num camarão, ficou a pensar por um momento. Estava gostando de se sentir mais adulta e mais na moda, e no íntimo adorara a atenção daqueles rapazes lá fora. A sensação de estar misteriosa e atraente instigava-lhe o desejo de experimentar um estilo de vida que nunca vivenciara antes, mas sobre o qual fizera mil fantasias.

- Sabe, começou ela com a voz mais amadurecida possível. Realmente gosto. É muito mais o "eu" de verdade, não acha?

Ele deu um daqueles sorrisos cativantes e declarou:

- Se você estiver feliz, Ginevra Molly Weasley, é isso que importa.
*****
Aquela noite, obedientemente Gina aplicou o novo adstringente e o hidratante antes de vestir o camisão de dormir. O adstringente cheirava a remédio, mas o hidratante tinha uma fragrância de perfume fino. "Estou ate com cheiro de rica", pensou, deitando-se na luxuosa cama e cobrindo-se com a colcha branca de bordado inglês.As palavras do tio ainda lhe ecoavam na cabeça, no silêncio do quarto: "Se você estiver feliz, é isso que importa."

Hoje ela se sentira feliz. Uma felicidade contagiante, empolgante. Mas aquela empolgação trazia a tiracolo um novo temor. Uma vez no verão passado ela se sentira assim quando voltava de um passeio com alguns amigos. O irmão de Paula havia lhe sugerido que dirigisse sua pick-up. Ela não estava muito a fim. Contudo Paula e sua prima já haviam dirigido naquele dia, e ela não poderia agora simplesmente dizer que não queria.

Estava penas a setenta por hora quando os outros riram e desafiaram:

- Vai mais depressa!

Ela sentia um frio na barriga. Divertido? Talvez. Apavorante? Certamente.

Apagou a luz do abajur sobre a mesinha de cabeceira e dormiu, pensando em como faria no dia seguinte, na praia, para parecer mais extrovertida, tomar seu destino em suas próprias mãos e tudo mais.

Às duas da manhã, acordou assustada, coração disparado e a camisola ensopada de suor. Acendeu depressa a luz e tentou respirar mais devagar.

- Ar fresco! Preciso de mais ar!

Pulou da cama e escancarou a janela. Tragando fundo a brisa que vinha do mar, sentiu a mente começar a se aclarar.

- Que pesadelo horroroso!

Ela arfava, tremendo com a lembrança do sonho assustador: Estava deitada na praia quando, de repente, veio sobre ela uma onda gigante que a arrastou para o mar. Depois de muito lutar, finalmente ela conseguiu subir à tona. Contudo, em todas as direções que olhava, só via água. A terra desaparecera.

À distância, avistou um barquinho a remo. Tentou nadar até lá, mas tentáculos compridos e gosmentos de algas marinhas se enroscaram em suas pernas, tentando puxá-la para baixo. Cada braço de alga tinha uma voz e, todos juntos, diziam:

- Pegamos você! Pegamos você!

Finalmente ela alcançou o bote e agarrou-se à sua borda, desesperada para pular para dentro dele. Houve um momento aterrador em que ficou indecisa: não sabia se deveria erguer-se e entrar no barco, ou entregar-se ao mantra das algas. Naquele instante crucial estava paralisada pela indecisão.

Foi então que acordou.

- "Foi só um sonho", disse a si mesma. "Um sonho bobo e sem significado."

Respirou fundo mais uma vez, fechou a janela e pôs-se a andar para lá e para cá.

- "Foi só um sonho", repetia.

Então, deixando a luz acesa, enfiou-se debaixo da colcha e orou:

- Querido Pai celeste, protege-me e guarda-me em segurança. Esteja com minha mãe, com meu pai e com o Gui. Amém.
Orando por sua família, Gina lembrou-se da promessa que fizera aos pais antes de sair de casa. Acrescentou então:

E, querido Deus, ajuda-me a cumprir a promessa que fiz aos meus pais de não fazer nada de que possa vir a me arrepender. Amém.

Instantes depois, estava dormindo.


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