A Transformação
Na manhã seguinte, Gina acordou com o barulho do mar. Parecia um gigante respirando fundo, tranqüilo, a cada ida e volta das ondas. Abriu as cortinas e ficou olhando umas gaivotas que sobrevoavam a praia à procura de comida. As brancas brilhavam como um flash no azul do céu. Abriu a janela para curtir a brisa. Estava encantada com o oceano. Ondas espumantes quebravam na praia, apagando as pegadas de duas pessoas que haviam corrido ali mais cedo. Tudo parecia refrescante e novo.
Vestiu-se depressa, correu para a cozinha e disse um "Bom dia!'" animado ao tio Bob, ao qual ele respondeu:
- Bom dia, olhos brilhantes! Espere só pra ver o que eu preparei para você!
- Hummm! O cheirinho é de panqueca.
- Acertou! disse o tio, tirando a primeira panqueca fumegante da frigideira. Tem manteiga e calda na mesa, e esta é pra você. Eu mesmo preparei a massa e devo admitir que parece que saiu perfeita, merecedora de um premio.
- Estou impressionada!
Gina foi correndo passar manteiga na panqueca, cortou-a com cuidado, fechou os olhos e levou a primeira garfada à boca. De repente Marta entrou na cozinha e exclamou:
- Gina, queridinha! O que você pensa que está fazendo?
- Tomando meu café da manhã.
- Mas meu bem, você sabe quantos carboidratos têm nessa panquequinha? Isso não é um desjejum apropriado para uma moça que quer que seus olhos brilhem, sua pele seja perfeita e seu cabelo sedoso!
- Será que eu quero mesmo? Quer dizer, não é bom não?
Com o garfo a poucos centímetros da boca e manteiga escorrendo pelos dedos, Gina olhou para o tio à procura de apoio. Bob apenas sorriu.
Marta tirou algo do armário, bateu no liquidificador e ofereceu à sobrinha.
- Aqui está, meu bem. Isto é muito melhor para você. Tem todas as vitaminas e sais minerais de que necessita para que os rapazes a notem.
Entregou-lhe um copo com uma bebida espumante, rica em proteína.
- Vamos, beba! Experimente!
Gina soltou o garfo e pegou o copo. Parecia horrível. Tomou um gole. O gosto era péssimo.
- Eca, tia Marta. Você quer que eu beba isso?
- Claro. Tome tudo. E tenho mais uma coisa pra você.
Tirou da geladeira metade de um grapefruit em gomos, num prato de vidro com uma toalhinha de papel enfeitado. Com ar muito satisfeito, entregou à garota a fruta amarga.
- Aí. Não é uma maravilha? O desjejum perfeito. Acabe logo enquanto eu troco de sapatos. Só temos vinte minutos antes de sua consulta de cores. Dizendo isso saiu da cozinha.
Gina olhou para a panqueca e o grapefruit. Virou-se então para o tio que, tentando conter uma imensa gargalhada, disse:
- Vitaminas e sais minerais, hein?!
- Não achei graça! retrucou Gina, esforçando-se para segurar uma risada.
- Não sei... parece um excelente desjejum.
- Então beba você! disse ela, empurrando-lhe o copo.
- Eu não! Sua tia já tentou mudar minha alimentação uma vez. Pra mim chega!
Gina olhou para a bebida, depois para a panqueca e, enfiando duas garfadas enormes na boca, pediu:
- Não conta pra ela não, tá?!
- Seu segredo está seguro comigo. Bob deu unia piscadinha e tirou outra panqueca da frigideira.
- Você sabe que as intenções dela são boas, não sabe?
- Sei, sim, disse Gina com um suspiro. Tio, você acha que eu devo cortar o cabelo?
Ele sentou-se ao seu lado à mesa, estudando seu rosto e cabelo como um fotógrafo em busca do ângulo certo.
- Acho que não sou a melhor pessoa para responder isso. Sempre gostei do seu cabelo do jeito que é. Sua tia é que entende de moda. Por que não pergunta a ela?
-
Esse é o problema. Ela quer que eu corte o cabelo hoje, e não tenho certeza se devo.
- Bem, disse o Bob, cortando sua panqueca. O único conselho que posso dar é "a ti mesma sê fiel".
- A mim mesma o quê?
"A ti mesmo sê fiel" é uma citação de Shakespeare. Quer dizer, faça o que você quer fazer e não tente agradar a todo mundo. Siga sua própria cabeça.Tenho adotado essa filosofia há anos, e, provavelmente, é por isso que tenho tanto sucesso nos negócios imobiliários. Simplesmente sigo meu "faro" e sou autentico. Sempre fui fiel a mim mesmo.
Marta entrou na cozinha vestida com um macaquinho lilás que exibia seu corpo esbelto.
Gina levou discretamente os pratos para a pia e jogou fora a bebida de proteína, antes que a tia notasse.
- Espero que você tenha contado à Gina que muito do seu sucesso vem também da secretária maravilhosa que tinha em seu primeiro escritório imobiliário. Dizendo isso abraçou o marido e beijou seu rosto, deixando uma mancha de batom cor maravilha.
- Sabe, né? Aquela doce secretária, com quem você acabou se casando...
Trocaram um sorriso e um beijo rápido.
- Está vendo, Gina? ressaltou Bob. Sempre vale a pena seguir sua voz interior!
- Bem, minha voz interior me diz que temos de correr! exclamou Marta.
Deu então uma olhada para a sobrinha e perguntou:
- Querida, você vai assim? Bem, não tem importância. Não temos tempo de trocar. Vamos!
A garota olhou para a saia xadrez rosa e azul com babados, e a blusa azul clara de mangas bufantes. Era um dos seus melhores conjuntos, e gostava dele; mas o comentário da tia fez com que se sentisse cafona.
Sentiu uma onda de depressão, mas não tinha tempo de deixá-la tomar conta de seus pensamentos como no dia anterior. Marta já estava tirando o Mercedes prateado da garagem.
- É melhor você correr, disse Bob. Quando sua tia entra nessa corrida, não há quem a faça parar.
Bob estava certo. Ao lado da tia Marta, o dia voava. Na primeira hora e meia, uma senhora elegantíssima "vestiu" a jovem com variados tecidos de cores diversas. O objetivo era determinar quais eram as "suas" cores e quais não lhe caíam bem. Selecionou então algumas amostras de cores e tecidos e entregou-as a Gina. Ela deveria levá-las consigo sempre que fosse comprar roupas.
- Estas são as suas cores, disse a especialista. Jamais use uma cor que não esteja entre as amostras selecionadas.
O verde forte do seu maio não estava na seleção de "suas" cores. O azul claro da blusa que vestia também não. Gina nunca soubera o quanto era desinformada a respeito de moda.
Enquanto perambulavam por lojas super chiques, Gina tentava, com dificuldade, acompanhar o pique da tia. Quando se tratava de fazer compras, Marta ia a todo vapor. Nada a fazia parar e nada estava fora do seu limite de preço.
Ao meio-dia pararam para comer uma salada no restaurante Bob Burns, que Marta disse ser o único lugar com a atmosfera adequada em toda a "Ilha da Moda". Gina não gostou nada do lugar. Achou o ambiente escuro e silencioso demais, mas acompanhou a tia a um dos ambientes. Caindo sobre um assento almofadado, empurrou as sacolas contra a parede.
- Estou achando nosso progresso muito lento, queridinha, disse Marta, espremendo uma fatia de limão no chá gelado. Você não está gostando das compras? Parece com medo de provar as coisas. Ainda não experimentou um maio sequer! Qual o problema, Gina?
A garota passou os dedos pelas pontas do cabelo e resolveu ser sincera com a tia. Afinal de contas, o tio Bob lhe dissera que fosse autêntica.
- Não sei se gosto das mesmas coisas que você. As duas blusas e a sandália que compramos são peças básicas, mas não sei se me sentiria bem usando alguns dos conjuntos que você estava me mostrando. Além do mais, não sei, eu acho estranho deixar você pagar tudo. Nunca fiz tantas compras assim na vida!
A garçonete chegou com as saladas e perguntou a Gina se ela queria pimenta em seu prato. Gina olhou-a meio perdida por um momento e respondeu:
- Não, acho que não.
Não conhecia aquele tipo de pimenta.
A garçonete parecia não ter notado a inexperiência de Gina. Havia-se voltado para Marta e oferecia-se para salpicar pimenta na salada dela.
- Escute, continuou Marta. Já lhe disse que hoje quem paga sou eu. Não estrague o meu prazer! Vamos começar a comprar!
Gina acenou concordando e empurrou o tomate para o lado do prato.
- Vou tentar me soltar.
- Isso nos leva a outro assunto, Gina. Você precisa se esforçar para ser mais extrovertida se quer fazer amizade com a turma da praia Tome as rédeas do seu destino, querida. Defina o que você quer c vá em frente. Lute para assumir o controle de sua própria vida. Dê o primeiro passo! Seja atirada! É a única maneira de vencer.
- Sei não. Não é assim que sou.
- Então torne-se assim! Levante a cabeça e diga a si mesma que tudo que quiser é seu!
Gina terminou a salada e olhou com vontade para a bandeja de sobremesas que a garçonete lhes apresentava.
- Aceito aquela coisa de chocolate ali, disse ela, apontando para uma torta de nozes e chocolate.
- Querida! exclamou tia Marta. Antes que a tia pudesse repreendê-la, a garota falou:
- Você acaba de me dizer que tudo que quiser é meu, e eu quero um pedaço de torta!
Marta deu uma risada leve que removeu por um momento sua capa de sofisticação, revelando a moça simples de cidade do interior que fora um dia.
- Está bem, você venceu. Já estou satisfeita, disse, dirigindo-se à garçonete. Virou-se então para a sobrinha:
- Saboreie depressa seus carboidratos pra gente sair e fazer mais compras.
Na cabine de provas de uma das lojas em que entraram, Gina havia experimentado uma dúzia de maiôs, quando Marta trouxe um que parecia encantá-la.
- Este é maravilhoso! exclamou ela com entusiasmo renovado. Não é cavado demais como o vermelho, mas está bem na moda. Confie em mim, querida. Vai ficar absolutamente divino em você!
O maiô tinha alças fininhas cruzando nas costas; era preto, com pequena estampa azul-turquesa. Definitivamente não era o tipo de maio que Gina teria escolhido, mas resolveu experimentá-lo para ver a reação da tia.
Marta realmente gostou do maiô.
- Ah, Gina! Eu não lhe disse? Ficou perfeito em você. Absolutamente perfeito. Vamos, saia desse cubículo e olhe-se nesse espelho de corpo inteiro!
Enquanto a garota saía timidamente, Marta chamou a atendente:
- Veja minha sobrinha neste maiô. Não está maravilhosa?
Que vergonha! Gina viu no espelho o reflexo da atendente, que sorria e concordava educadamente.
- Será que devo comprar? perguntou Gina, olhando a etiqueta de preço, onde marcava oitenta dólares.
- Mas é claro! respondeu Marta. Agora, vamos ver o que mais a gente encontra aqui. Eles têm uma coleção maravilhosa.
Meia hora depois, Gina observava a caixa somando o preço de suas roupas novas. Além do maiô, levava três calças sociais, seis blusas, dois vestidos de alça, um blusão de moletom, uma saia jeans e quatro shorts.
- São setecentos e oitenta e sete dólares e cinquenta e oito centavos, disse a moça com um sorriso.
Marta tirou o cartão de crédito e, entregando-lhe ainda um par de brincos amarelo-cheguei, perguntou:
- Pode acrescentar estes também? Ficarão perfeitos com esse vestidinho de alça, não acha, Gina?
A jovem ainda estava sem fôlego pelo total da compra. Sua mãe costumava fazer a maior parte de suas roupas, e quando tinham de comprar alguma, não podiam gastar mais de quarenta dólares numa tacada. Mas agora estava com a tia Marta, e esse era o jeito dela. Então respondeu:
- Claro, são lindos.
Na saída, passando pela seção de cosméticos, Marta exclamou:
- Ótimo! Ainda bem que passamos por aqui. Meu perfume esta quase no fim.
Pediu à balconista o tamanho maior do "Private Collection". Em seguida, disse, em parte para a balconista e em parte para a sobrinha:
- Ei, tenho uma idéia! Vamos aproveitar e fazer sua maquiagem aqui!
A balconista concordou com prazer, e antes que Gina se desse conta, estava sentada numa banqueta alta diante de um espelho, com luzes voltadas para ela. A especialista em cosméticos passou um chumaço de algodão sobre a face e o nariz da garota, explicando o procedimento correto para a limpeza dos poros.
Deve ser um sonho! pensou Gina, enquanto a esteticista passava uma sombra lilás em suas pálpebras. Com um lápis macio, a moça fazia um traço ao redor de seus olhos, aplicando-o com cuidado nos cantos externos. A escova em sua pele parecia veludo, e quando apertou os lábios, pensou em como o brilho tinha cheiro de morangos.
- pronto, disse a esteticista. Olhe-se no espelho. O que acha?
Gina abriu os olhos devagar.
- Será que sou eu? disse baixinho.
Era ela, mas não parecia ser. Aparentava mais idade e maturidade. E seus olhos! Nunca havia notado como eles eram bonitos.
- Os olhos dela tem o formato perfeito, disse a esteticista. Ela pode fazer qualquer coisa com eles, no que diz respeito às cores; eles têm uma cor azul-esverdeada tão diferente!
- É mesmo? perguntou Gina, aproximando-se um pouco mais do espelho para examiná-los melhor.
- Sim, assegurou-lhe a maquiadora, levantando o queixo de Gina para olhar mais de perto. Conheço modelos que fariam de tudo para ter olhos como os seus.
Gina mal podia acreditar. Sentia uma empolgação diferente, quase como se tivesse feito algo que não deveria.
Em casa, sua mãe só lhe permitia usar um pouco de brilho nos lábios. Tudo isso agora era maravilhoso!
- Você fez um trabalho excelente, comentou Marta para a esteticista. Vamos comprar um de cada produto que você usou.
- Tia Marta! Tem certeza? assustou-se Gina.
- Mas é claro! Não faça tanto escarcéu, querida! Voltando-se então para a esteticista, acrescentou:
- Queremos também a linha completa de produtos para o sol.
Gina nem conseguia acreditar que tudo aquilo estava acontecendo com ela.
- Muito obrigada, tia!
- Por nada, querida. Marta entregou-lhe a sacola repleta de cosméticos, e disse:
- Agora só temos mais uma parada a fazer, caso você queira saber.
- E onde é? perguntou a sobrinha, vendo seu reflexo numa vitrine.
- O salão do cabeleireiro Maurice, é claro!
Percebendo a manobra da tia, Gina sorriu e comentou:
- É, parece que é agora ou nunca!
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