Capítulo 1 - Devidamente Apresentados
A rotina recomeçava naquela manhã de segunda-feira para Hermione. Como sempre, acordava bem cedo, tinha tempo apenas para tomar um banho rápido, vestir algo, escovar os dentes, verificar os cadernos na mochila e partir. Era uma rotina na qual seu corpo já estava mais do que acostumado, sua mente agia automaticamente. Durante esses momentos ela não pensava em nada, podia dizer até mesmo que não prestava realmente atenção na música que tocava em seu iPod. Como se tivesse sido programada, ela se dirigia ao ponto de ônibus mais próximo, aguardava alguns minutos e embarcava em direção ao seu trabalho, despertando realmente apenas quando atravessava o portal da empresa, sendo recebida diariamente pelo seu grande inimigo: o ar condicionado.
Como era uma das primeiras pessoas a chegar à empresa, ela constantemente tinha um tempinho sobrando para tentar acertar um pouco seu visual, às vezes passava uma maquiagem leve, mas na maioria dos dias o máximo de cor que seu rosto recebia era um protetor labial sabor morango que ela sempre tinha na bolsa. Depois, ligava seu computador, verificava seus e-mails, sua rede social, escolhia a playlist do dia e, finalmente, iniciava seus trabalhos, naquela segunda não foi diferente.
Seu celular vibrou, despertando sua atenção. Sem muita expectativa do que seria, ela viu o alerta de mensagem não lida na tela. Seus lábios se curvaram em um sorriso ao ver a mensagem:
“Bom dia meu amor! Passando apenas para falar que te amo muito!”
Era Harry Potter, seu namorado. Seu amor, futuro marido, homem dos seus sonhos. Harry tinha muitos adjetivos, alguns deles não foram ditos por ela, mas por familiares e amigos. Não podia negar, ele era o namorado perfeito! Apaixonado, bem sucedido, educado, de boa família, lindo... Suas amigas e primas morriam a cada gesto de romance praticado por ele. Hermione se lembrou da primeira vez em que ele foi à sua casa, sendo apresentado oficialmente como seu namorado. Uma de suas primas comentou horas mais tarde, quando ele já havia ido embora:
_Vocês viram como ele a acompanha com o olhar? Não é obsessivo sabe? É como se estivesse hipnotizado por ela! Não consigo explicar.
Hermione realmente não tinha do que reclamar em sua vida pessoal: estava muito bem, estava feliz! Instintivamente tocou a aliança de compromisso que carregava em seu anelar direito. Até aquele dia, tiveram poucas brigas. Apenas uma briga foi realmente devastadora, culminando em um término de namoro de... 1 dia. Sim. Foi o máximo que ficaram separados. O amor acabou falando mais alto e os ciúmes dela, aliados ás desconfianças dele foram deixados de lado. Havia apenas uma coisa que Hermione se queixava às vezes: estavam juntos há 4 anos e nunca mais deram um beijo com tanta intensidade como o primeiro. Ela até arrepiava ao lembrar: estavam sentados em um dos bancos da faculdade em um fim de tarde. Era início de primavera, o tempo estava agradável. Estavam se conhecendo há algumas semanas e aquela era para ser apenas mais uma das tantas tardes em que tinham intermináveis conversas sobre si mesmos, faculdade, família, amigos, hobbies e outros tantos pontos de conhecimento. Havia, no entanto, algo diferente naquela tarde... Ela não sabia se era o ar, a atmosfera, o ambiente ao redor. Algo estava diferente. Como sempre, faziam brincadeiras onde os “toques involuntários” aconteciam, seguidos de gargalhadas. Em uma dessas “brincadeiras”, Hermione fingiu ficar magoada e ficou de costas para Harry. Ele, por sua vez, se aproveitou da situação e a enlaçou pela cintura, fazendo-a deitar-se em seu colo, com a cabeça apoiada em seu joelho esquerdo e as pernas fora do banco. Já não riam e tampouco emitiram alguma palavra. Sentindo a respiração ficar pesada, ela fechou os olhos. Poderia ficar naquela posição para sempre! Mas Harry decidiu que poderia fazer ficar ainda melhor. Com toda delicadeza do mundo, ele tocou seu rosto, contornando a testa, os olhos, o nariz, as bochechas (ruborizadas) e, finalmente, os lábios. Foi impossível para ela não entreabri-los um pouco, ajudando o ar chegar mais depressa aos pulmões.
Harry repetiu esse movimento por mais duas vezes, até que os dedos deram lugar aos lábios. Hermione teve que se controlar para não beija-lo de imediato quando sentiu os lábios quentes percorrerem seu rosto. Para tortura-la um pouco mais, ele roçava devagar sua boca na dela, mas logo se afastava e beijava sua bochecha. Essa agonia durou pouco tempo, pois o próprio não aguentou e logo cobriu completamente a boca dela com a sua, se entregando a um beijo único. O dia era único: os desenhos que o Sol fazia ao se por, a brisa leve, o perfume das flores que desabrochavam apenas naquela hora. Tudo estava combinando com aquele momento. Aquele dia ficou marcado como o primeiro beijo e, claro, o início de um namoro.
Foi uma tarde única que nunca mais aconteceu, e ela sentia falta disso às vezes, dessa intensidade, amor sem regras. Sabia que ele sentia falta disso também. Mas por uma escolha mútua, decidiram frear suas emoções, que em certos momentos chegaram longe de mais. Acreditavam na beleza do sexo apenas após o casamento e tentavam seguir isso à risca. As vezes era difícil, principalmente para Harry, cuja religiosidade nunca ficou escondida para ninguém. Quanto mais ele se segurava, mas ela queria instigá-lo e, quando ele correspondia (à altura, diga-se de passagem), era a vez dela se arrepender e frear a si mesma. Em 4 anos de namoro, nunca o assunto “casamento” fora tão discutido entre os dois. Mas para se casarem, tinham que ter uma vida financeira melhor. Ele já era bem sucedido para a idade (25 anos), ela, no entanto, não estava satisfeita com seu emprego. “Emprego!”. E estava de novo sentada à sua mesa. De volta à realidade.
_Não aguento mais tanta chuva, estou falando sério! Meus pés não param secos, meu cabelo não dura nada e minhas roupas não secam! Você está me escutando Mione?
Como um despertar, Hermione percebeu que já não estava sozinha no local. Outros funcionários foram chegando aos poucos, inclusive Luna Lovegood, que se sentava ao seu lado.
_Bom dia para você também Luna!
_Ah, bom dia! Tudo bem?
Hermione sorriu em resposta e voltou sua atenção para o computador à sua frente. Tinha uma pilha de coisas para fazer, mas não estava em desespero. Em 3 anos trabalhando na área de qualidade de software, ela já havia se acostumado com a demanda de trabalho, com a pressão, prazos curtos e clientes exigentes. Era a rotina de uma empresa de desenvolvimento de sistemas. Gostava do seu trabalho, mas sentia que não estava sendo valorizada o suficiente, por isso estabeleceu algo para si mesma: ficaria naquela empresa apenas até a conclusão de sua graduação. Assim que formasse, iria pedir aumento. Caso não houvesse uma resposta satisfatória, estava decidida a pedir demissão. Faltavam nove meses para a conclusão do curso. Apenas nove meses mais e tudo estava acabado.
Observou com certa curiosidade o ambiente ao seu redor: a maioria das pessoas eram novas na empresa. Da turma que trabalhava com ela há 3 anos atrás, poucos sobraram. Isso era um sinal de que já estava passando da hora dela mudar também. Luna também fazia parte deste seleto grupo de veteranos, haviam se tornado grandes amigas, ou, talvez, a união entre elas foi, inicialmente, uma estratégia de defesa: veteranos unidos! Havia uma fila com 4 computadores à sua frente, sendo apenas 1 deles ocupado por Michael, um membro da equipe. Era um rapaz simpático, inteligente e prestativo, estava se destacando mais ultimamente. Fazia parte da turma dos novatos. Recentemente um outro rapaz deixou a empresa, desfalcando a equipe em que Hermione atua. Ou seja, havia uma vaga em aberto na equipe, o que significava...
_Novatos, eles estão por todos os lados! _ esbravejou Luna, na hora do almoço. _ Fiquei sabendo que já sabem quem ira ocupar o cargo de desenvolvedor que esta em aberto na nossa equipe.
_Isso é bom... _ Hermione disse de imediato, até se deparar com o olhar reprovador da amiga. _ Bom, o fato é que tem dias que estou ficando sem atividades, devido à essa falta de desenvolvedor na nossa equipe. Sabe, eu gosto de ficar “a toa”, mas tem dia que cansa, por incrível que pareça!
Luna concordou temporariamente, pois logo em seguida voltou a reclamar. Hermione não conseguia entender por que a outra reclamava tanto da vida: estava noiva, morava com o noivo em um apartamento belíssimo, tinha um cargo ótimo, ganhava muito bem. Realmente, ninguém nunca está satisfeito com o que possui. O ser humano é ingrato, ela pensou.
O comunicado oficial de que a equipe ganharia um novo membro veio apenas na parte da tarde, quando o gerente da equipe, Thomas, anunciou a nova contratação.
_Ele irá iniciar conosco amanhã, espero que vocês o recepcionem muito bem, o ajudem nas dúvidas que ele levantar, enfim, todo aquele processo que vocês já conhecem. Agora, quanto aos prazos dos projetos...
Hermione ficou observando o gerente falar, mas não prestava real atenção. Ficou observando-o e pensando se ele tinha alguma ideia do quanto era detestado pelo restante da equipe. Sim, era uma realidade triste, mas verdadeira: ninguém ali suportava aquele homem. Apesar de toda gratidão que ela tinha por ele, não conseguia mais negar sua insatisfação. Quanto ao “novato”, ela nunca teve problemas em se adaptar com novos membros de equipe, pelo contrário, era bastante sociável. Com este com certeza não seria diferente.
Em casa, mais tarde, após um merecido banho, ela preparou seu habitual chá e ligou para Harry.
_Boa noite! _ ele disse do outro lado da linha.
_Boa noite amor, como está?
_Com saudades...
Os dois riram e logo um silêncio incômodo caiu entre eles.
_Eu já disse o quanto te amo hoje? _ ele confessou.
_Não... _ela estava mentindo.
_Bom, eu te amo!
_Eu também te amo Harry... Olha, eu estou realmente cansada hoje, vou desligar mais cedo.
_Tudo bem, eu entendo. Durma bem!
_Você também...
Hermione desligou o telefone sentindo que algo estava errado. Não com Harry, claro, ele era sempre carinhoso e amoroso. O problema era com ela! E ela sinceramente não estava entendo o por que, o amava muito! Felizmente, seu corpo exigia descanso e ela adormeceu de imediato. Sentia que o dia seguinte seria cheio, e não errou.
Seu olhar estava fixado em algum ponto indefinido na tela a sua frente. Já estava cansada de reler a mesma linha da documentação e não entender o que realmente tudo aquilo queria dizer. Tinha até mudado a música que ouvia, para uma mais tranquila, na esperança de que os acordes a ajudassem a pensar um pouco, mas foi um fracasso. “Preciso de café!” ela pensou, quando uma mão pousou em seu ombro, chamando sua atenção. Era seu chefe.
_Ah... Me desculpe... _ ela ia dizendo, retirando os fones. Apenas naquele momento ela percebeu que Luna estava em pé ao seu lado, com um estranho ar de deboche. _ A música estava alta... Me desculpem!
_Nós percebemos Srta. Granger, não se preocupe. _ Hermione sentiu o rosto corar. _ Se puder, por favor, nos acompanhe até a sala de reunião número 2.
_Sim senhor.
O gerente se afastou e Hermione começou a rir, visivelmente desconcertada com a situação. Luna também começou a rir e disse:
_Ficamos te chamando durantes um tempo e você simplesmente não ouviu!
_Eu sei, eu estava tão envolvida com... Ah, deixa pra la. Vamos?
Entraram na sala de reunião, onde Thomas e Michael já se encontravam.
_Sentem-se por favor! _ Thomas disse, sem olhar para as duas diretamente, mantinha sua atenção no notebook à sua frente.
As duas assumiram seus lugares e aguardaram. Por alguns minutos o único barulho a ser ouvido foi o dos dedos ágeis de Thomas digitando freneticamente algo, até que a porta da sala foi aberta. Hermione não prestou atenção em quem estava entrando, mantendo seu olhar na paisagem que se estendia pela janela de vidro.
_Me desculpem a demora. _ alguém disse, e Hermione percebeu que não reconhecia aquela voz.
Curiosa, ela se voltou para a porta e deparou-se com um homem desconhecido mas... Tinha que reconhecer a beleza dele.
_Não tem problema Sr. Taylor, fique a vontade.
“Sr. Taylor”, ela repetiu o sobrenome mentalmente. O tal “Sr. Taylor” se sentou em uma cadeira oposta àquela em que Hermione se encontrava. Ela não pôde deixar de notar o ar de total desinteresse do rapaz, assim como o porte físico do mesmo não passou despercebido.
_Bom, _ disse Thomas, finalmente._ Meus caros, bom dia a todos primeiramente! Eu os reuni aqui para apresentar-lhes John Taylor, o novo membro da nossa equipe.
Hermione voltou novamente seu olhar para o novato e percebeu que os olhos dele estavam sobre ela. Sentiu-se nervosa por um momento, até que finalmente desviou seu olhar. Ele, no entanto, continuou com sua análise sobre ela. Interesse? Atração? Ele mesmo não sabia dizer. Mas sentia que aquele ar de petulância vindo da nova colega de trabalho ainda lhe traria muitos problemas, ele iria adorar enfrenta-los!