Nick Granger Potter: é esse Harry sabe ser mal..
ashashashsahsha...
pra matar a curiosidade...
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— Muito bem.
Harry se sentou e seus faiscantes olhos negros percorreram a mesa suja com uma desaprovação tão mal disfarçada que Hermione foi obrigada a lembrá-lo de que a cantina de um hospital não era um restaurante cinco estrelas.
— Tentei limpar a maior parte das migalhas — completou Hermione para se desculpar, recebendo em troca uma careta.
— Por que está se desculpando pelo estado deste lugar? — questionou Harry com impaciência. — Ninguém, muito menos eu, espera que a cantina de um hospital seja um restaurante cinco estrelas, mas esta mesa parece acumular meses de sujeira.
Hermione se perguntou como os funcionários de Harry conseguiam estar à altura de seus padrões, impossíveis de atingir. Será que despeja esse sarcasmo frio e sem trégua sobre qualquer um que cometa o menor deslize? Estremeceu e tomou um gole de café.
Ficava intrigada ao constatar que a delicadeza e a sensibilidade do padrinho não o haviam influenciado. Era tão diferente de Sirius como a água do vinho, mas ela sabia que o histórico familiar de Harry não era muito normal. O pai falecera quando tinha três anos, e a mãe, dez anos depois, período que passara em um colégio interno, quando ainda era uma criança sem idade suficiente para atravessar a rua, quanto mais para ser afastado do único lar que conhecia. Ficara aos cuidados de dois padrastos, nenhum deles, segundo ela conseguiu averiguar, muito interessado no menino de inteligência precoce, mas rebelde.
Quando chegou a Sirius, aos treze anos, sua personalidade já estava formada. Era um órfão, rico graças à herança da mãe, incrivelmente inteligente e, de acordo com o padrinho, achava que o mundo estava sob seu comando.
Lendo nas entrelinhas, Hermione podia imaginar um adolescente de beleza tentadora, mais inteligente que a maioria dos professores, autoconfiante e, no entanto, receoso das relações humanas.
Ela freqüentemente tentava alimentar a autoconfiança na presença dele, vendo-o como um solitário por baixo de todo o sucesso e poder financeiro.
Mas a tentativa falhara mais uma vez.
— Você ia falar sobre... o que decidiu fazer? Sobre seu trabalho? — adiantou Hermione.
— Bem, não vou voltar para Nova York, ao menos até Sirius ficar bem. A solução óbvia, a meu ver, seria me concentrar no escritório de Londres e ficar no apartamento de Chelsea, mas isso envolveria muitas idas e vindas se eu quisesse vê-lo, por isso decidi que a única solução é montar um escritório na casa e trabalhar lá por tempo indeterminado.
— Na casa? Que casa? — ela se perguntava se teria perdido alguma informação vital dentre o que ele dissera.
— Que casa você acha que é? — O tom de Harry era muito paciente. Fixou os olhos na face espantada de Hermione e observou o entendimento chegar aos poucos.
— Vai trabalhar na casa de Sirius! — disparou Hermione.
Seu estômago parecia sapatear. Felizmente estava sentada, caso contrário poderia ter desmaiado.
— Correto. Agora beba, não podemos passar o dia todo aqui na cantina.
Fitava-o com os olhos arregalados. Previra que ele estaria ali por alguns dias, uma semana no máximo, e já decidira que, se fosse necessário, poderia evitá-lo. A casa era grande e, com um pouco de planejamento, nunca encontraria com ele. Nas poucas ocasiões em que não houvesse como se esquivar, respiraria fundo e lidaria com o desconforto temporário.
Mas ficar por tempo indeterminado?
— Além disso — Harry virou o pulso para ver as horas no relógio —, você trabalhará para mim. Eu preferiria alguém com um pouco mais de experiência no mundo dos negócios, mas você está disponível e servirá. Não posso pedir à minha secretária que saia de sua cidade e se mude para cá. Ela é casada e tem dois filhos.
Isso significava que, não fosse pelas raízes emocionais, ele não hesitaria em fazê-la sair de sua cidade.
— Não precisa ficar tão assustada, Hermione. Eu não mordo.
Harry levantou-se e Hermione percebeu que, para ele, a conversa estava encerrada. Não que houvesse sido uma conversa. Ele a informara o que tencionava fazer e sua obrigação era calar-se e obedecer.
Enquanto seguia Harry pelo corredor do hospital, só conseguia pensar no pesadelo que representava o que ele acabara de propor.
O prazer de ver Sirius foi mitigado pela faca que, metaforicamente, sentia encostada ao seu pescoço.
Após alguns minutos, durante os quais ela segurou a mão de Sirius, Harry resolveu tocar no assunto da nova função de Hermione.
— Não acho que este seja o momento... — começou a dizer em protesto, mas Harry a subjugou com um olhar.
— Estou apenas tranqüilizando meu padrinho quanto a contar com minha presença por um bom tempo.
— Não deve prejudicar seu trabalho — objetou Sirius, como era de se prever e, para desgosto de Hermione, continuou — embora, é claro, seja muito bom saber que você estará na casa, cuidando dela e de minha querida Hermione...
Hermione tentou não falar de forma abobalhada.
— Não preciso que cuidem de mim, Sirius — conseguiu dizer, com uma dose considerável de autocontrole, desviando os olhos do olhar desconcertante de Harry. — Tenho quase vinte e quatro anos! Sou capaz de cuidar de mim mesma e de garantir que a casa não desmorone à minha volta! Além do mais — disse em tom de encorajamento, apertando levemente a mão de Sirius —, você estará em casa mais rápido do que imagina.
— Foi isso que o médico disse?
— Bem, não exatamente, mas ainda não falamos com os médicos...
— Como sempre, não há um médico por perto quando se precisa deles — interrompeu Harry, com expressão de desagrado. — Pelo visto não aparecerá em menos de uma hora e dei instruções específicas à enfermeira para que ele viesse me ver antes de iniciar as visitas.
Os olhares de Sirius e Hermione se cruzaram num entendimento mútuo. Harry partia do princípio de que seus desejos tinham de ser obedecidos.
Hermione começou a sonhar acordada, imaginando Harry sendo forçado a esperar no final de uma longa fila, ao passo que, no começo da fila, um médico tão prepotente quanto ele agia sem nenhuma pressa e ele tentava atrair sua atenção lá do fundo. Percebeu que estava sorrindo quando a voz de Harry a trouxe de volta à realidade.
— Está aqui conosco? — inquiriu ele, esquecendo a boa educação, como de costume, e Hermione se endireitou na cadeira.
— Estava só pensando...
— É melhor irmos andando. Sirius precisa descansar.
Ambos miraram o velho senhor, cujos olhos haviam se fechado.
— Ele parece tão frágil — sussurrou Hermione com súbita angústia. Num impulso, olhou para Harry e se deparou com a frieza dos olhos verdes.
— O que você esperava? — levantou-se e foi para a porta, impaciente. — Ele sofreu um ataque cardíaco. Achou que o encontraria dando cambalhotas?
— Não, mas...
— E não acho que seja bom — continuou Harry, adiantando-se pela porta e depois deixando que ela o ultrapassasse no corredor — deixar ele perceber que existe dúvida sobre sua plena recuperação.
— Não fiz isso! — protestou Hermione, num sussurro contrariado. — Sirius não ouviu o que eu disse e... não estava olhando para mim. Na verdade, ele tinha apagado! Claro que não quero que ele pense que... que...
— Onde está esse médico? — Harry examinou o corredor. Hermione notava a agitação das enfermeiras que o olhavam com interesse enquanto ele inspecionava o local.
— Acho que ainda não passou uma hora — afirmou Hermione, de forma dúbia. — Talvez seja melhor sentar e esperar.
Harry olhou-a como se a idéia de sentar e esperar por algo ou por alguém fosse um conceito estranho a ele.
— Ficar aqui de pé não vai fazer o médico aparecer mais depressa — observou ela. — E nós estamos atrapalhando.
Antes que Harry tivesse tempo de fazer um de seus comentários, Hermione se afastou e foi pedir a uma enfermeira atrás do balcão que os avisasse da chegada do médico.
— O afilhado dele está muito preocupado — disse em voz baixa; enquanto Harry se aproximou de modo embaraçoso.
— O afilhado tem razão de estar ansioso para obter algumas respostas — comentou Harry, demonstrando educação, e Hermione pôs-se a pensar como conseguia soar tão ameaçador quando, na visão dele, estava fazendo uma afirmação inofensiva. Nem precisava olhá-lo; podia imaginar sua expressão sisuda. A enfermeira deve ter captado os mesmos sinais, pois sua expressão quase autoritária foi substituída por um nervoso meneio de cabeça.
— Se eu deixasse as pessoas esperando o dia inteiro — foi a primeira coisa que resmungou assim que se sentaram nas cadeiras do corredor — já teria falido.
Hermione segurou a língua, pois não queria criar polêmica, uma vez que ainda teria de levantar a questão que a perturbava.
— E deixe que eu fale quando esse médico resolver aparecer — rosnou. — Ficar cheio de dedos não vai me dar as respostas de que necessito!
Hermione fitou-o discretamente e soube com certeza absoluta que Harry estava desesperado, e a única maneira de lidar com isso era ficar ainda mais agressivo e enfático que o normal. Hermione se comoveu e, num impulso, pousou a mão pequena no pulso dele, que reagiu com um olhar de tamanha reprovação que ela a retirou imediatamente.
— Poupe-me da compaixão, Hermione.
— Nunca baixa a guarda, Harry? — ouviu-se dizer, percebendo no mesmo instante que tinha passado dos limites. Um homem como esse não gosta de perguntas pessoais. Até Sirius evitava matar a curiosidade acerca da vida do afilhado.
— Desculpe-me — disse imediatamente. — Não é da minha conta. Ambos estamos preocupados.
Ela o esperou falar, o que não aconteceu, e suspirou. Achou que ele tinha ignorado seu comentário e se surpreendeu ao ouvi-lo dizer em voz baixa:
— Sirius nunca ficou doente. Pelo menos, nunca teve nada de grave. É estranho, pois nunca imaginamos que as pessoas que amamos são vulneráveis; somos tolos em acreditar que viverão para sempre.
Hermione deu por si sentada na beirada da cadeira e prendendo a respiração. Sentiu-se solidária com o inesperado desabafo, mas achou melhor não dizer nada. O momento de fraqueza de Harry passaria, e ele teria raiva dela por tê-lo testemunhado.
— Estive pensando — arriscou, vacilante — se poderíamos conversar sobre essa questão do trabalho, Harry...
Ele inclinou o corpo ligeiramente para olhá-la, os olhos semicerrados. Foi preciso ela reunir toda a sua força de vontade para não desviar o olhar, o que o deixaria irritado. Ele já havia rosnado que era impossível conversar com alguém que não o olhava nos olhos. Mal sabia ele que bastava lhe lançar um olhar para que ela entrasse em pânico.
— Sobre o que precisamos conversar? — indagou, com voz moderada.
— Eu... não tenho as qualificações necessárias para trabalhar com você — gaguejou. — Nunca trabalhei como secretária profissional ou coisa assim...
Harry franziu o cenho.
— Está ajudando Sirius em suas memórias, não está?
— Sim, mas...
— Corrija-me se eu estiver errado, mas isso deve envolver no mínimo algumas coisas básicas, como a capacidade de digitar.
— Bem, sim, eu sei digitar, mas...
— Achei que tinha feito um curso...
—- Um curso bem rápido — apressou-se a enfatizar. — Fui babá por quatro anos e quando os Harrisons decidiram se mudar para o exterior eles me ajudaram, enviando-me para um curso de três meses para que eu pudesse auxiliar Sirius com serviços de digitação — passou a língua nos lábios nervosamente e descobriu que, em vez de desejar desviar o olhar, estava fascinada ao contemplar de perto o rosto forte e magro e o modo como os fracos raios de sol realçavam os cabelos negros.
— Por que fizeram isso? — perguntou, franzindo a testa.
— Ah, eles gostavam de mim. Ainda mantemos contato.
— E como prova de afeição resolveram enviá-la para um curso de secretariado? Não estou entendendo, Hermione.
— Bem, eu mencionei que queria deixar de ser babá. Não que eu não tenha gostado de cada minuto. Eu gostei! Cuidava de duas crianças adoráveis e não poderia almejar uma maneira melhor de começar a vida em Londres. Os Harrisons eram patrões perfeitos. Sirius também é, sinceramente. Tive muita sorte...
— Hermione — ele balançou a cabeça, confuso —, aonde quer chegar? Não pedi um histórico de sua vida profissional. Apenas quero saber por que não quer trabalhar para mim.
— Certo. Sim, o que eu estava dizendo é que trabalhar nas memórias de Sirius não é o mesmo que ser uma secretária de verdade. — Logo ele diria que não estava entendendo novamente. Dava para ver no seu rosto. Queria que fosse direto ao ponto e não que se desviasse do assunto. — Sei digitar, mas não muito bem. Normalmente, anoto tudo bem devagar e, quando Sirius tira um cochilo, eu digito. Bem devagar — sentiu-se obrigada a expor a realidade dos fatos. — Ele não trabalha num ritmo acelerado, Harry.
Harry sorriu, divertindo-se com aquilo, e ela ficou ainda mais hipnotizada por aquele sorriso.
— Não conseguirei acompanhar seu ritmo — afirmou abruptamente. — E não acho que você seja paciente com erros. Eu cometo muitos erros. E passo horas corrigindo-os — para o caso de Harry não ter entendido a mensagem, Hermione decidiu acabar com qualquer sombra de dúvida quanto à sua inadequação. — Para ser sincera, levo mais tempo corrigindo os erros do que digitando. Não sou muito boa com computadores e Sirius não se importa porque ele também é um caso perdido com eles.
— Devia ter um pouco mais de autoconfiança — Harry incentivou. — E a familiaridade com computadores é uma questão de prática.
— Tenho bastante autoconfiança — replicou Hermione. — A não ser quando se trata de tecnologia. Podia contratar alguém temporariamente através de uma agência da cidade. Alguém que tivesse a experiência que mencionou.
— E o que você faria o dia todo? — inquiriu Harry, com os olhos semicerrados. — Afinai de contas, está sendo paga e com Sirius hospitalizado não teria nada para fazer, não é? Em vez de concluir que nunca seria capaz de trabalhar para mim, devia encarar isso como um desafio para preencher as longas horas numa casa vazia.
Um desafio? Desafio não é algo que a pessoa deseja fazer? Quem encara uma coisa que lhe causa horror como um desafio?
Entretanto, antes que Hermione tivesse a chance de refletir e responder algo apropriado, o médico chegou e ela apenas ouviu enquanto Harry tomava as rédeas da conversa. Ele perguntou coisas nas quais ela jamais pensara, com uma rudeza que a constrangeu, mas que o médico parecia apreciar, a julgar por suas respostas profundas e completas.
A conclusão era que não havia razão para Sirius não se recuperar completamente. Ele devia, inclusive, se exercitar um pouco, e estaria de volta em casa dentro de duas semanas. Harry o impressionara de tal forma que ele chegou a lhe fornecer seu telefone residencial em um pedaço de papel, e disse a ambos que poderiam contatá-lo a qualquer hora se tivessem outras dúvidas ou estivessem apreensivos com alguma coisa.
— Exercitar-se — murmurou Harry, enquanto se encaminhavam para o carro. — O único exercício de Sirius são as leves caminhadas no jardim, certo?
— Ele não é nenhum garoto, Harry — disse Hermione e, não resistindo à ironia, acrescentou, séria: — O que esperava que ele fizesse? Que desse cambalhotas em volta dos canteiros de flores?
Ficou espantada e satisfeita pela risada repentina em reação ao comentário sarcástico e somente quando estavam no carro, saindo da cidade, lembrou-se da conversa inacabada sobre trabalho. Ou melhor, inacabada do seu ponto de vista. Harry obviamente tinha decidido que o assunto estava encerrado e agora meditava sobre os desafios apresentados pelo médico e os exercícios leves que fariam bem ao padrinho.
Hermione respirou fundo e a seguir disparou:
— Mas como vai comandar um império de uma casa? Você não precisa estar lá, à disposição, caso... — a voz foi diminuindo enquanto ela tentava visualizar a dinâmica de um grande negócio. —... aconteça alguma coisa?
— Alguma coisa como o quê? — indagou ele, curioso.
— Não sei ao certo... — disse em tom vago, franzindo o cenho. —- Uma catástrofe ou coisa do gênero.
— O edifício desmoronar, por exemplo?
Hermione interpretou o tom divertido como um ataque subversivo à sua óbvia ignorância acerca das finanças corporativas e dos negócios, que nunca lhe despertaram interesse.
— Quero dizer — enfatizou, corajosa —, não precisa estar de fato num escritório no seu edifício para que, no caso de terem problemas, as pessoas possam... falar com você? Cara a cara?
— Ah, não — Harry respondeu pausadamente. — A tecnologia hoje está bastante sofisticada...
— Não é culpa minha não ter estudado sobre computadores — defendeu-se. — Claro que tivemos aulas de Tecnologia da Informação na escola, mas nunca me interessei. Sempre achei os computadores muito impessoais.
Olhou pela janela, pensativa, e recordou a época de escola. Fora muito feliz, porém nem mesmo nos momentos mais otimistas se descreveria como uma dessas pessoas confiantes e bem-sucedidas, que parecem destinadas às carreiras mais brilhantes.
Não enxergava um meio de não trabalhar para Harry, ainda mais depois de ele ter mencionado o fato de que estava recebendo uma remuneração e devia estar a serviço dele se o padrinho não estivesse presente. No entanto, ao se imaginar apressada, ágil, atendendo telefonemas e correndo no ritmo alucinante de Harry, sua mente parecia se desligar e uma sensação de enjôo surgia no estômago. Talvez, se não se sentisse tão estranha e simplória na presença dele, pudesse tê-lo convencido de sua competência, mas a realidade era que se atrapalharia com tudo e acabaria enfurecendo-o.
Será que ele não via isso? Por que ia querer se expor a uma irritação sem fim por ela não ser capaz de acompanhar seu passo? Hermione divagou para um cenário angustiante em que cada erro seria ridicularizado até que Harry decidisse substituí-la.
— Podem ser impessoais, mas também são inestimáveis.
— Hã?
Ela o sentiu respirar fundo, impaciente.
— Os computadores — ele a fez lembrar em tom severo. — Falávamos sobre computadores. Aliás, você falava. Dizia que nunca se interessou por eles na escola.
— Ah, sim. Desculpe-me.
— Você tem o hábito infeliz de se desculpar por tudo — comentou Harry no mesmo tom severo. — Terá de perder esse hábito quando trabalhar para mim. É irritante.
— E quando eu cometer erros? — perguntou, preocupada.
— Lá vai você de novo. Pensando na pior hipótese antes mesmo de começar. O que estou fazendo? Isso é totalmente irrelevante!
— Mas não acha que acontece? — ela não conseguiu segurar a pergunta. Pensando bem, sempre fazia isso!
Mal Sirius começava a ditar e uma torrente de perguntas inundava sua mente, sem que ela conseguisse segurá-las. Mas como podemos conhecer melhor as pessoas se fizermos somente as perguntas relevantes?
— Computadores? Eles me permitem trabalhar de qualquer lugar. Minha secretária me envia a correspondência por e-mail e posso acessar todos os arquivos de que preciso pressionando um botão. Como imagina que controlo a filial de Londres quando estou em Nova York e vice-versa?
— Não imagino — declarou, com sinceridade. — A verdade é que nem sequer imagino o que você faz. Deve ser muito estressante.
— Eu trabalho bem sob pressão.
— Ah — murmurou Hermione, de forma dúbia.
— De qualquer forma, o que estou dizendo é que o escritório de Sirius servirá a curto prazo. Passarei um ou dois dias em Londres — fez uma pausa —, caso precise solucionar uma das catástrofes misteriosas que mencionou, mas passarei o resto da semana aqui. Já estou com meu laptop, portanto não deve haver qualquer dificuldade em transmitir os arquivos para o computador de Sirius, e as roupas que tenho aqui servirão por enquanto.
Com seu último argumento caído por terra, Hermione afundou no assento e contemplou desanimada a vida que teria nas duas semanas seguintes. Ele já iniciara a lista de características de sua personalidade que teria de mudar para que pudesse aturá-la, e ela não tinha dúvidas de que a lista aumentaria até chegarem a um resultado próximo das exigências dele.
Emergiu de seus pensamentos ouvindo-o falar e viu que Harry estava de volta ao tema dos exercícios leves e, quando mencionou a natação, Hermione olhou rapidamente na direção dele. A mera visão daquele perfil sério fez um calafrio percorrer seu corpo. Mais uma coisa com que lidar, percebeu melancólica. Aquele rosto bronzeado e belo despertava-lhe algo como mulher que não era comum sentir, embora não gostasse dele. Torcia, sem muita esperança, para que os contatos mais próximos eliminassem essa reação indesejada.
— Sirius não gosta de nadar — informou. — Uma vez me disse que, se os seres humanos fossem feitos para chacoalhar na água, nasceriam com guelras. Ele não considera a natação um exercício relaxante.
— Não estou sugerindo que atravesse o canal — disse Harry. — Mas nadar é um exercício leve e você ouviu o que o médico disse.
— Sim, mas a piscina está num estado deplorável.
— Porque nunca é usada.
— Fico surpresa por você não usá-la quando vem visitar Sirius — ponderou Hermione, pensando que, a julgar pelo corpo em forma, Harry devia se atirar em qualquer exercício sempre que tivesse um raro momento de lazer. E também em como devia ficar lindo em uma sunga. Corpo bronzeado, nada fora do lugar... Afastou a imagem que se tornava cada vez mais nítida e sentiu uma pontada de culpa.
— Aquela piscina está em péssimo estado. Precisa urgentemente de reformas. Estava bem decrépita quando Sirius veio para cá, anos atrás, e só piorou — fez uma pausa. — Certamente lhe faria bem uma renovação. Pensando bem, possui todos os requisitos necessários. Fica em local coberto, ainda que seja preciso sair da casa para ir até lá, e com uma pequena obra ficaria boa. Posso instalar aquecimento, fazer uns dois vestiários, contratar alguém para consertar as rachaduras...
— Precisa de mais do que uma simples renovação — destacou Hermione. — Harry, tem ervas daninhas nas rachaduras no fundo! Na verdade, na última vez que Sirius a viu, sugeriu que, com um pequeno acréscimo de terra, poderíamos transformá-la em uma estufa!
— Ele disse isso?
Hermione aquiesceu, olhou-o e viu seu sorriso genuíno. Por alguns segundos, seu coração pareceu parar, e então retomou a atenção no trânsito, sentindo-se atordoada. É claro que ele não estava sorrindo para ela, disse a si mesma. Lembrou-se da impaciência daqueles frios olhos verdes, porém... era como ver um repentino e maravilhoso raio de sol irrompendo de nuvens carregadas.
Logo Harry estava de volta ao seu jeito de ser, aquele ao qual estava acostumada. Voltou a ser o homem que dava ordens sem se preocupar em acrescentar um por favor ao final, ou em demonstrar um mínimo sinal de agradecimento.
— Bom, trataremos de fazê-lo mudar de opinião e essa pode ser a sua primeira tarefa pela manhã. Passarei o dia no escritório em Londres, e você terá o dia livre para contratar as pessoas necessárias para colocar aquele buraco de concreto em funcionamento.
— Em funcionamento? Quanto tempo acha que levará para isso acontecer?
— Pague o que pedirem e levará o tempo que eu desejar — garantiu Harry. — Mas precisa estar pronto antes de Sirius voltar para casa. A última coisa de que precisa é de operários perturbando o sossego de sua recuperação.
— Não tenho certeza se...
— Lição número um no mundo dos negócios: ter sempre certeza. Número dois: fazer com que trabalhem sob o seu comando. Se você se recusar a tolerar atrasos e cancelamentos, verá que as pessoas trabalharão dentro do cronograma que você estipular!
Hermione quase repetiu que não tinha certeza sobre nada daquilo, mas engoliu as palavras no último minuto. E disse, insegura:
— Nunca tive ninguém trabalhando sob o meu comando...
— Então aí está outro desafio! E quanto à piscina, acho que também deve ter alguns móveis.
— Que tipo de móveis?
— Poltronas. Confortáveis. Poltronas nas quais Sirius possa relaxar depois de fazer exercício. Você escolhe. E não diga nada a ele. Será uma surpresa.
— Acha que o coração dele vai agüentar?
— Está falando sério?
— Não — admitiu. — Mas quando ele vir a piscina, acho que devemos deixá-lo se acostumar aos poucos com a idéia de usá-la.
Estavam finalmente perto da casa e, como sempre, o coração de Hermione se reanimou. Isso também reavivou o pensamento de que ela dirigira até o centro da cidade e depois de volta para casa, sem dar vexame. O mínimo que ele podia ter feito era agradecer por tê-lo levado, mas é claro que isso seria pedir demais.
Harry entrou na casa a passos largos, acendendo as luzes e relatando suas expectativas. Começaria a trabalhar na casa dentro de dois dias, anunciou, e ela deveria estar a postos o mais tardar às 8:30. Ele estaria de pé e em franca atividade às 7 horas, mas, naturalmente, não esperava que ela se ajustasse de maneira tão rígida aos seus horários. Ele se viraria com o café da manhã e ela deveria cuidar de seu próprio almoço, mas esperava que não parasse para comer quando o volume de trabalho fosse grande. Molly providenciaria o jantar de ambos. A jornada de trabalho se encerraria às 17:30.
Hermione quase gargalhou quando Harry terminou de falar e perguntou educadamente se ela tinha dúvidas, pois ele não parecia disposto a esclarecer nenhuma delas. Na realidade, encontrava-se de pé ao lado do corrimão, inquieto.
Hermione assentiu perplexa e ele fez um breve meneio com a cabeça.
— Ótimo. Nesse caso, estarei no escritório ajeitando as coisas. Não me espere para jantar. Belisco alguma coisa no meio do caminho, pois ainda tenho muito em que pensar.
Ela assentiu novamente, sem fala, e sentiu muita pena da pobre secretária de Harry.
Graças a Deus, Sirius logo estará bem e a vida voltará ao normal
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Continua...
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Bjus...
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