(Cap. 2) Capítulo 01
Capítulo 01
Já passava da meia-noite quando ouvi passos pelo caminho de pedras que conduziam aos portões. Minhas narinas arderam ao sentir o fedor do lobisomem. Fenrir Lobo Greyback passava entre as sebes com pressa, seus passos eram pesados e firmes, suas presas expostas brilhavam ao luar. A capa que usava estava apertada, provavelmente pertencia a outro Comensal. Segurei o riso, pois a visão dele era ridícula.
Meu corpo estava dolorido depois de tantas horas na mesma posição e o frio também não ajudava muito. Desci rápido da árvore seguindo o lobisomem que já estava virando a esquina da outra rua. Eu precisava segui-lo e conseguir algumas respostas. A conversa que ele teve com Voldemort na noite passada me deixou muito intrigado. Como ele tinha descoberto sobre Hermione Granger? O Ministério a tinha dado como morta.
O feitiço rastreador atingiu a nuca de Fenrir precisamente, o deixando um pouco tonto. Eu tinha sorte por ele ser burro o suficiente e não imaginar que tinha sido enfeitiçado. Com um estalido o lobisomem tinha sumido debaixo de um pessegueiro, deixando um rastro luminoso para que eu pudesse segui-lo. Aparatei seguindo o rastro luminoso e ainda estava em Londres, provavelmente perto da Travessa do Tranco. Ali a maioria das ruas não passava de vielas escuras e mal cheirosas. Olhei ao me redor buscando a figura fedorenta do Lobo. Ele estava encostado num muro de pedras úmido e olhava um ponto distante. Como ele fedia! Será que nunca tinha ouvido falar de banho e higiene bucal? Eca.
O silêncio das ruas era interrompido apenas pelas gotas de chuva nos telhados e os bichos que andavam sorrateiramente pelas vielas. Eu apenas acompanhava os movimentos do lobisomem. Um vulto surgiu no começo da rua. Caminhava depressa e sua cabeça virava constantemente para trás, talvez verificando que não estava sendo seguido. A forma foi aumentando conforme o vulto se aproximava de nós.
– Está atrasada. – Fenrir rosnou para o vulto.
– Lobo querido, são apenas alguns minutos. – A voz era doce, sensual, feminina. Suas feições estavam cobertas por grande capuz negro.
– Onde está a Sangue-Ruim? – Fenrir questionou direto. Ouvi ansioso o que ela tinha a dizer.
– Eu não sei! Ela está viva, mas somente algumas pessoas sabem onde. Pelo que pude perceber está protegida pelo Fidellius e Dumbledore é o fiel, então não será provável que eu descubra seu paradeiro. – Ela disse irritada. – Não foi por ela que te chamei aqui hoje.
– Algo novo? – Fenrir a devorava com o olhar, apesar de não ser possível ver seu rosto.
– Não me olhe como se eu fosse seu jantar, Lobo. – A voz dela estava raivosa. - Você tem um duplo no seu bando.
Isso com certeza era interessante.
– Há meses que o último membro entrou para o bando. É impossível! – Ele rosnou furioso.
– Já faz quase 15 meses que ele está infiltrado, mas eu descobri somente ontem. – Ela disse rápido. Eu acompanhava cada palavra dita e tinha quase certeza que conhecia a voz dela. – Remo Lupin está entre os seus lobisomens.
– Não vai sobrar nada dele quando eu descobri por onde ele anda. – Ele rosnou. – Vou precisar esperar a próxima lua cheia para encontrá-lo. Merda!
Não ouvi mais da conversa. Caminhei calmamente pelas ruas vazias e escuras do Beco Diagonal. Um plano começava a ganhar contornos na minha mente. Aparatei na Rua da Fiação. Era um bairro trouxa pobre e abandonado, poucos postes de luz funcionavam e uma névoa rala cobria o chão. Andei por alguns tantos metros até parar de frente ao que parecia ser uma casa abandonada. Tentei passar pelo portão, mas um feitiço escudo me fez voar longe.
– Merda! – Eu rosnei ao cair.
Levantei-me sem dificuldades e retornei até a entrada da casa. Era bem provável que ele estivesse com a Ordem ou em Hogwarts, mas já que estava ali não custava tentar. Eu sabia que não conseguiria romper o escudo da casa, então só me restava uma coisa – gritar.
– Snape? – Eu chamei alto. Nada. – Snape? – Gritei mais uma vez.
Dois minutos depois quando eu já virava para ir embora a porta se abriu. Severo Snape me olhava com cara de poucos amigos. Bem, ele nunca foi muito simpático.
– Moleque, tem noção de que horas são? – Ele rosnou pra mim. Abri um sorriso debochado.
– Vai me convidar para entrar? – Eu perguntei rindo. – Está frio demais aqui fora.
Ele me lançou um olhar desdenhoso, com certeza pensava se eu merecia um Crucius ou um Avada... Ele não mudava. Eu tinha entrado diretamente na pequena sala de visitas, que dava a impressão de uma cela acolchoada e escura. As paredes eram inteiramente cobertas de livros, a maioria encadernada em couro preto ou castanho; um sofá puído, uma poltrona velha e uma mesa bamba estavam agrupados no círculo de luz projetado por um candeeiro preso no teto. O lugar tinha um ar de abandono, como se não fosse normalmente habitado. Continuava tudo igual como quando eu era criança. Acomodei-me no sofá enquanto observava Snape servir uma generosa dose de firewisk da garrafa de cima da mesinha.
– Tome. – Ele me estendeu o copo. – No quarto tem roupas secas e toalhas. Tome um banho quente e depois conversamos sobre sua inesperada visita.
Antes que eu pudesse dizer alguma coisa ele tinha se virado e caminhava em direção ao seu gabinete. Com certeza ele não mudava. Tomei o firewisk de um gole e deixei o copo na mesinha. Subi as escadas virando a esquerda no estreito corredor, parando em frente à segunda porta. Ali não existia o luxo nem as mordomias da mansão, mas era ali que eu me sentia realmente em casa. Uma calça de moletom e um casaco de lã estavam dobrados em cima de uma cadeira no canto do quarto – era a roupa que eu tinha deixado da última vez em que estive ali.
Deixei minhas roupas molhadas no chão do banheiro e entrei debaixo da ducha de água quente. Quando eu era criança e não entendia os objetivos de meu pai, fazia de tudo para agradá-lo. Fazia o máximo esforço que meu corpo e mente infantil permitiam para aprender tudo que ele me ensinava. Devorava com apetite todos os livros que ele me dava de presente: Feitiços Avançados, Arte das Trevas, Magia Negra... Então começaram os duelos. Eu não conseguia acompanhar meu pai e por isso sempre perdia e, consequentemente era castigado. Às vezes eram torturas, às vezes ficava sem comer – dependia do humor de Lucius. Eu amava meu pai, queria ser como ele, deixá-lo orgulhoso por me ter como filho e não compreendia porque ele me tratava daquela maneira.
Uma vez eu tinha apanhado muito de Belatriz e meu pai, tinha sido um dia puxado, pois queriam que eu aprendesse a duelar com mais de um oponente. Eu não conseguia falar nada e nem abrir os olhos. Minha mãe ficou desesperada, mas não sabia como cuidar de mim e nem podia me levar para o St. Mungus. O que ela diria ao médico? Como explicaria meu estado debilitado? Então, chamou Snape e uma grande discussão começou entre ele e meu pai. Snape questionava o objetivo de estar me treinando e meu pai simplesmente respondeu: “É tudo pelo Lorde, ele está retornando e precisa de Comensais”. A partir daí não prestei mais nenhuma atenção na conversa. A mágoa me consumia.
Todas as minhas ilusões viraram fumaça. Tudo que eu tinha imaginado para justificar o comportamento de meu pai era mentira. Ser o melhor aluno de Hogwarts, ser um homem do qual ele se orgulhasse, honrar o nome de minha família... Nada disso. Eu era apenas uma maneira de agradar ao seu mestre, uma maneira de garantir que Voldemort tivesse Comensais da Morte a sua disposição quando ressurgisse. Dois dias depois Snape surgiu na mansão e me convidou para passar as férias com ele. Não sei como ele tinha convencido meu pai, mas não me importava eu só queria distância de Lucius. No mesmo dia eu tinha ido para casa dele e são as lembranças de todas as férias que passei aqui que tornam a minha infância melhor.
Enfiei a cabeça na água quente na tentativa de afastar esses pensamentos e focar no que realmente importava no momento – convencer Severo a participar da minha loucura. Depois de me vestir fui direto ao gabinete de Snape. A porta estava fechada, então bati antes de entrar.
– Entre. – Ele resmungou mal-humorado.
Seu gabinete era como o restante da casa – simples. As paredes continham dezenas de livros, alguns vidros com ingredientes para poções, caldeirões e pergaminhos. Ele estava sentado numa cadeira acolchoada e velha, a mesa de mogno estava coberta de rolos e penas.
– O que veio fazer aqui Draco? – Como ele era direto.
– Preciso de sua ajuda... – Eu disse rápido.
– Para que? – Ele perguntou. – O Lorde o enviou aqui?
– O Lorde. – Disse com desprezo. – Nem sabe que estou aqui.
– Então do que se trata? Sua mãe? – Ele supôs.
– Ordem da Fênix. –Eu disse num jato. Não sabia o que ele iria pensar disso, mas ninguém além dele poderia me ajudar.
– O que tem a Ordem? – Ele disse tranquilo.
– Quero fazer um acordo com a Ordem. – Ainda não sabia se isto era o certo a fazer, mas eu não tinha opções se quisesse Voldemort fora da minha vida.
– E eu com isso? – Falou como se eu tivesse perguntado se iria chover.
– Me responda. Você é fiel a Voldemort? – Eu precisava ter certeza.
– A minha resposta é a mesma que a sua no caso de uma pergunta como essa. – Snape deu um sorrisinho sarcástico. – Você pode encenar muito bem o papel de Comensal exemplar, mas... Sabemos que você é uma cobra a espera do bote perfeito.
- Tsc. – Me senti maravilhado com o elogio. – Estaria disposto a me ajudar a dar o bote?
Snape riu, não, ele gargalhou! Era a primeira vez nos meus 23 anos que eu o via rir assim. Como ele ficava diferente... Parecia mais jovem.
– Como pretende convencer a Ordem a lhe ajudar? – Ele perguntou depois do seu ataque de riso. E eu me achando louco.
– Lupin está indo bem no bando de Greybeck? – Eu lancei a isca. Se tudo que aquela mulher falou para Fenrir fosse verdade eu saberia gora.
– Como sabe disso? – Ele me olhava sem acreditar. – Garoto me diga como descobriu isso!
– Vocês têm uma espiã na Ordem. – Disse sem rodeios.
– Eu vou precisar que prove Draco, não para mim, mas sim para eles. - Snape disse enquanto se servia de firewisk.
Peguei minha varinha enquanto selecionava a memória do encontro entre Fenrir e a mulher misteriosa. Quando ele percebeu o que eu estava fazendo me estendeu um vidrinho onde guardei o fio prateado.
– Me mostre. – Ele pediu.
Eu odiava quando entravam na minha mente e ele sabia disso. Snape estava me castigando por tê-lo acordado de madrugada. Eu revi toda a cena desde a minha espera até chegar a Rua da Fiação. Restaurei meu poder de oclumência e expulsei Snape da minha cabeça antes que pudesse ver mais coisas.
– O que quer em troca por esta informação Draco? – Ele tinha que ser assim sempre tão direto?
– Proteção para minha mãe. – Respondi. - Não posso fazer nada enquanto Voldemort puder usá-la contra mim.
– Não vai ser difícil conseguir ajuda deles depois de salvar a vida de Remo Lupin, talvez, até mesmo o Eleito se digne a lhe agradecer. – Ele disse zombeteiro.
– Talvez o inferno congele. – Entrei na brincadeira.
– O que pretende fazer depois Draco? – Eu sabia que ele perguntaria.
O que eu iria dizer a ele? Ah, vou matar meu pai, Belatriz e Voldemort e deixar o mundo mais feliz??? Como se fosse assim fácil... Eu realmente teria que me livrar de Lucius e Bela se quisesse enfraquecer Voldemort e quem sabe realizar meu sonho de vê-lo longe da minha vida. Mas como eu faria isso?
– A única coisa da qual tenho certeza é de que quero Voldemort fora da minha vida e estou disposto a tudo para isso. – Essa era a mais pura verdade.
– Entendo. Mas já pensou em como fará isso? - Ele resmungou. – Voldemort é poderoso e tem muitos aliados... Tem certeza de que deseja enfrentá-lo?
– Sim. – Não precisei pensar para responder. – Por isso resolvi ajudar e ser ajudado pela Ordem.
Afinal, temporariamente estaríamos lutando contra um mesmo objetivo – destruir Voldemort. O depois, bom, deixasse para depois.
– Vá dormir garoto. – Ele disse.
Eu sabia que o assunto estaria encerrado por enquanto e não adiantaria insistir. Eu dependia dele naquele momento, então jogaria de acordo com suas regras. Estava abrindo a porta quando me chamou.
– Sim? – Respondi olhando para trás.
– Pegue aquele vidro ali. – Disse apontando para um vidro com um líquido marrom dentro. – Tome um gole dessa poção, é contra resfriados.
– Vou tomar. – Respondi humilde. – Obrigado padrinho.
– Vá até a cozinha e coma alguma coisa, aposto que não come nada desde manhã?!? – Ele me conhecia muito bem. Eu ri.
– Obrigado por se preocupar. Boa noite.
Às vezes eu gostaria que Severo fosse meu pai.
Então, mereço reviews? Beijos.