Capítulo Treze – A Volta da Vida
– A quem devo anunciar?
– Diga que... Um velho amigo... Severus.
– Severo?
– Severus!
– Severo, mesmo?
– Não, senhor! Severus! US no final.
– Severos?
– Esse é meu nome, Severus Snape, tem algo de errado?
– Não, não. Um momento só.
Quando ele saiu, Snape virou-se para Rafaela, que estava na calçada – Será que eu preciso de mais poção?
Rafaela riu – Não, aquilo que tomou foi o suficiente até amanhã. É que Severus não é um nome lá muito comum... – e parou – Snape, você quer que eu dê uma volta, e depois volto pra cá ou...
– Não! – ele quase gritou – Você fica.
– Sim, senhor professor!
Aqueles foram os minutos mais longos de toda a vida de Snape. Não fiz idéia do que lhe esperava. O estômago estava revirado, as mãos geladas, a boca seca e o coração acelerado. O porteiro esperou alguns segundos ao interfone depois que disse para Morgan o nome do homem que a procurava. Depois ouviu a resposta, que veio numa voz baixa e tensa.
– Peça pra ele esperar.
Assim que desligou, Morgan ficou olhando para o aparelho, quase sem respirar.
– Tem alguém aí, mãe?
– Tem, filha...
Sophia chegou até a mãe – Quem?
Morgan a olhou – Snape.
A jovem de cabelos extremamente negros e lisos paralizou-se e ficou encarando a mãe.
– Snape..?
– Sim... Ele disse... Severus Snape.
– O que ele está fazendo aqui?
– Não sei, acho que... Veio te procurar.
Sophia abraçou a mãe. Ambas estavam abismadas com a visita. Sophia conhecia toda a história. Morgan lhe contara, quando ainda era criança, tudo o que havia acontecido, desde que conheceu Severus, até a gravidez e a separação forçada. Sophia sabia que o homem com que Morgan se casara não era seu pai, mas assim o considerava. Nunca fizera diferença alguma em sua vida saber que seus irmãos mais novos eram, na verdade, meio-irmãos. Mesmo assim, Sophia colocara em seus planos futuros que iria para a Inglaterra em busca do pai, assim que terminasse a universidade. Porém, agora ele estava lá, na portaria, alguns metros abaixo, e Sophia não sabia se ficava feliz ou extremamente apavorada. Morgan sentiu o coração acelerar como uma adolescente. Estava divorciada do marido havia poucos meses, e continuava muito amiga dele. Tinha certeza de que acabariam se reconciliando. O problema de Morgan era que praticamente via Snape a cada vez que olhava para Sophia. Ela era muito parecida: os cabelos eram lisos, grossos e oleosos como os do pai, mas muito bem cuidados. Os olhos eram uma mistura de Severo e Morgan, tinha a doçura da mãe a firmeza do pai, e era linda como a mãe.
– Eu vou descer. – disse Sophia, em um ímpeto
– Vamos falar pra ele subir.
– Não... Vão fazer perguntas. – disse apontando para a sala onde os dois irmãos jogavam videogame.
As duas estavam muito nervosas. Pararam olhando-se, para tomar coragem, e desceram. Snape estava parado diante do portão, imóvel, e Rafaela andava de um lado para o outro na calçada, ansiosa. Além de querer ver logo a cara da filha do professor, queria fazer muita coisa naquele final de semana, mas sabia que não teria tempo pra tudo. Mas uma coisa sabia que não deixaria de fazer: procurar o amigo.
– Daniel?
O rapaz vinha andando pela calçada, regata, bermuda e tênis, na direção da casa da namorada Sophia. Imaginou que tivesse visto alguém muito parecido com a antiga amiga, mas achou impossível. Ao aproximar-se e ver que ela o encarava, ficou incrédulo.
– Rafaela?!
Parou a alguns passos e ficou olhando.
– Daniel, não acredito! – ela disse sorrindo muito
– Não pode ser! – o rapaz aproximou-se – É você mesma?!
– Sou eu!
Gargalharam. Rafaela abriu os braços e Daniel a abraçou levantando-a do chão. Do portão, Snape levou um susto mas, ao perceber que eles riam, deixou-os pra lá. Viu então duas pessoas aparecendo na portaria e quando entraram em seu campo de visão, reconheceu Morgan imediatamente.
– Mas, meu Deus, o que você está fazendo aqui? – perguntou o sorridente Daniel
– É uma longa historia!
– Quando você voltou?
– Hoje de manhã, mas é só por esse final de semana, domingo eu volto pra Inglaterra.
– Pô! Por que tão pouco? – e se lembrou – Ah, é, esta estudando, né?
– Feito louca. Tem tanta cosia acontecendo que eu vou acabar maluca. E você, como vai? Pra onde está indo?
– Pra cá mesmo, na casa da minha namorada. – olhou para o prédio e a viu chegando ao portão, com cara de assustada – Olha ela ali, é a Sophia.
– Sophia?!
– É. Quem é aquele?
Sophia parou diante de Snape. Os dois não falaram nada, não sabiam o que dizer. Morgan não se aproximou, ficou olhando de longe, tremendo dos pés à cabeça.
Sophia gaguejou – Você... É você? Severus?
– Sabe que eu sou?
Sophia estava com os olhos mareados e começou a tremer o queixo – Sei... Minha mãe me contou tudo. O que está fazendo aqui?
– Vim à sua procura. Demorei demais para tomar uma atitude.
– Eu ia te procurar depois da faculdade... Pretendia ir até a Inglaterra, te procurar... E me apresentar a você.
– Eu não sei o que dizer... Espero há vinte anos por isso, mas agora não sei o que fazer.
Sophia começou a chorar – Que tal começar por um abraço?
A última pessoa que Snape abraçara na vida fora Morgan, quando ela foi embora. Desde então não teve contato físico com quase ninguém. Nada como um abraço, mas ele não resistiu nem por um segundo. Abraçaram-se forte e longamente. Sophia chorou e Snape ficou emocionado como nunca. Não chorava desde a partida de Morgan.
– Aquele é o Snape... Ah, Daniel, eu não acredito que você é namorado da tal Sophia!
– Mas peraí... Você conhece a Sophia? Quem é Snape?
– Deixa eu tentar explicar rapidinho: o Snape é meu professor em Hogwarts, de Poções. No passado, quando era estudante, ele foi namorado da Morgan...
– A minha sogra?
– Isso. Aí ela engravidou e os pais dela fizeram ela deixar a escola e se mudar com eles. Snape e ela perderam completamente o contato, ele ficou sem saber se tinha mesmo um filho, não sabia nada. E agora ele resolveu, foi pra Colômbia...
– Ah! Acho que saquei. O vô da Sophia mora em Cartagena.
– É, isso mesmo, você já sacou tudo. E eu vim com o Snape porque eu conheço o Brasil melhor do que ninguém de lá, e agora eles estão ali se conhecendo. Olha que emocionante!
Daniel ficou pasmo com a coincidência – Bom, então eu nem vou interromper. Vem cá, senta aqui comigo e me conta as novidades, porq...
Rafaela ainda olhava para Snape na portaria e ficou extasiada.
– Olha lá, olha lá! Se abraçaram!! Ai, meu Deus, que bom que deu certo!
– Eu já sabia que o pai de verdade dela não era o seu Julio, mas não conhecia a historia inteira. – disse Daniel, também sorrindo
– Está com ela há quanto tempo?
– Uns quatro meses, eu acho. Estudamos juntos.
– Ah, é! Você entrou em que faculdade?
– Aqui na sub-Andradina, a entrada é num prédio da Consolação.
– E escolheu o quê? Poções ou Herbologia?
– Poções. A Sophia também.
– Ah, então é coisa de família. O pai dela é especialista nisso!
– E você? Como está o colégio?
– Cara, Hogwarts é demais, você precisa conhecer!
– Me fala sobre o castelo... É muito grande mesmo como todo mundo fala?
– É imenso!! Castelão medieval, com milhares de entradas, corredores e passagens secretas, é grande demais, acho que em o diretor Dumbledore conhece tudo lá.
– Que da hora... Lá na Andradina também tem umas coisas assim, esse dia o corredor zoou comigo, me levou pro colégio primário, que fica do lado... Eu nunca tinha entrado lá, fiquei perdidão.
Rafaela riu – Cara, o seu jeito de falar não muda! Eu senti tanto a sua falta, Dan!
Daniel a abraçou mais uma vez – Eu também, Rafa! Era tão bom o tempo de escola que a gente ficava aprontando o tempo todo! Anda muito bagunceira ainda?
– Que nada. Estamos levando muito a sério os estudos, esse ano está sendo rígido demais, atolado demais, não dá tempo de fazer zoeira. E também que lá é diferente, né, os Britânicos são meio sérios...
Depois de se abraçarem, Sophia olhou nos olhos de Snape – É um prazer te conhecer.
Snape secou os olhos – O prazer é todo meu.
Sophia – Mãe? – procurou-a
Morgan estava ainda no mesmo lugar, quase chorando. Deu dois passos e parou perto dos dois. Ela e Snape se olharam longamente. Enquanto isso, Sophia viu Daniel do lado de fora, conversando com alguém que ela imaginou ser qualquer amigo que podia estar passando por lá. Ele podia esperar.
– Morgan... Você... – Snape gaguejou, emocionado– Não mudou quase nada!
Morgan deixou uma lágrima escorrer, sorrindo – Mudei sim... Você também mudou.
– São vinte anos...
– Vinte anos... Parece que foi ontem.
– Mãe, vamos subir... A gente manda o Gabriel e o André irem jogar no quarto, pra gente poder conversar direito... Aqui é meio estranho.
Morgan secou o rosto – É. É, vamos. Severus... Vem com a gente.
Então Snape lembrou-se de Rafaela e virou-se para o lado de fora. Viu-a sentada na mureta e abraçando uma pessoa que estava sentada ao seu lado.
– É o Daniel, né? – Sophia perguntou para a mãe
– Acho que é.
– Aquela é a Rafaela, minha aluna. Ela me trouxe até aqui.
Daniel e Rafaela se levantaram e foram até o saguão, onde os três estavam parados, ao verem que olhavam para eles. Rafaela olhou interrogativa para Snape, que sorriu pra ela. Um sorriso que ninguém que Rafaela conhecia jamais havia visto. Daniel chegou até Sophia e cumprimentou-a com um beijo rápido.
– Você conhece a aluna do Severus? – Sophia perguntou
– Quem é ele? – Snape perguntou à Rafaela
As perguntas uma em cima da outra fizeram todos sorrirem, e Daniel respondeu – Rafaela é minha melhor amiga, dos tempos de Colégio.
– Daniel é meu namorado. – disse Sophia – Daniel... Esse é Severus ele é... – silêncio constrangedor – Ele é... Meu pai.
Rafaela e Snape sorriram e se entreolharam rapidamente, sem precisar dizer nada.
– Oi, Sophia. É um prazer conhece-la! Deu trabalho mas, enfim, nós te encontramos!
– Vamos todos lá pra cima. – disse Morgan – Eu faço um café.
– Ah... Não, eu... Acho que vocês têm muito o que conversar, prefiro voltar pro hotel. – disse Rafaela – Snape, você se lembra como voltar pra lá?
– Claro, lembro.
– Então... A gente se vê depois.
– Volto outra hora, tá, Sophia? – disse Daniel – Também acho que vocês precisam ficar sozinhos
– Ah... Você quem sabe...
– Me liga.
Deram-se outro beijo e todos se despediram. Morgan, Sophia e Snape entraram no elevador, Rafaela e Daniel saíram pelo portão de grade.
– Então... Você virou professor de Hogwarts..? – perguntou Morgan
– Sim, mas depois de algum tempo... Aconteceu muita coisa que não devia ter acontecido.
– Aposto que ensina poções.
Snape sorriu – Isso mesmo.
– Eu estou no segundo ano da faculdade de Poções. – contou Sophia
Snape ficou orgulhoso. A filha herdara seu talento. Só quando chegaram ao sétimo andar, onde Morgan e Sophia moravam, foi que Snape se lembrou que tinha receio de engenhocas trouxas como elevadores. Estava tão bobo e nervoso com a situação que nem percebeu.
– Meninos, nos dêem licença, por favor. – Morgan disse ao entrar
– Porquê? – perguntou o menino mais velho
– Quem é ele, mãe? – completou o outro
– Um antigo amigo, e nós temos muito o que conversar.
– Andem logo, vão jogar no quarto. – mandou Sophia
– Você não pode me dar ordem!
– Posso sim, pirralho, vai lá pra dentro se não quiser ficar sem orelha!
– Não briguem. Vocês dois, agora. – Morgan apontou pro corredor. Os meninos foram bravos para o quarto e ela olhou para Snape – Meus filhos... Meio mal criados.
Daniel e Rafaela caminharam abraçados pela calçada e atravessaram a rua, indo para o hotel que ficava na esquina. Costumavam ser tão amigos que parecia que o tempo de separação não existira. Era como se tivessem se encontrado no dia anterior. No caminho até lá, Daniel contou a historia de seu namoro com Sophia, uma paquera sem graça e uma amizade simples. Ele era quase apaixonado, mas não era nada perto da maior paixão que ele já tivera.
– E você? – Daniel perguntou assim que chegaram ao hotel
– Eu? Eu nada... Quero dizer...
– Nada? Tem quase dois anos que você está lá... E nada?
– Não nada! – ela se corrigiu – Eu tive um rolo com um amigo de lá, o George, mas não passou disso, hoje continuamos muito amigos, ele já se formou. Aliás, sou especialista nessa de ficar amiga de antigos rolos! – disse rindo
Daniel riu, concordando.
– Mas e depois dele? Tem alguém, não tem? – ele insistiu e Rafaela respirou fundo sorrindo – Ah, sei, esse sorrisinho! Quem é?
– Você vai me achar ridícula.
– Porquê?
– É o Remus Lupin... Professor.
Daniel começou a gargalhar – Professor?! Você está de rolo com um professor?!
– Não ri assim de mim, não, que você foi apaixonado pela diretora por dois anos!
Daniel parou de rir imediatamente – Como você sabe disso?
– A Carla me contou.
– Tá, tá, foi mal, eu estava zoando. Mas quem é ele, porque você se apaixonou?
– Eu não disse que estou apaixonada.
– Fala logo, angústia!
Daniel foi com Rafaela até o bar do hotel, onde se sentaram a uma mesinha redonda em um canto. Pediram chopp e continuaram o assunto. Rafaela contou da amidade que surgira entre eles desde o ano anterior, sem detalhar os motivos que a faziam estar em Hogwarts, o diálogo que tiveram no último dia de aulas, o encontro em Londres antes do início do ano letivo e o término do namoro, apesar de ainda se encontrarem a haver um sentimento forte entre eles. Daniel deixou de achar a história estranha e entendeu que era real. Rafaela pediu segredo absoluto, para que ele não comentasse nada sem querer na frente de Snape, que não sabia de nada.
Eram nove da noite. Morgan pediu jantar por telefone, porque não quis parar a conversa para preparar. Ela, Sophia e Snape ficaram sentados na sala sem ver a hora passar, colocando toda a conversa em dia e se conhecendo. Mãe e filha queriam saber tudo o que Snape tinha feito nos últimos vinte anos. Contrariado, Snape não escondeu nada. Disse que virou comensal de Voldemort, o que deixou as duas horrorizadas, mas aliviadas de saber que ele se arrependeu e virou-se novamente para o lado do bem, tornando-se espião e arriscando a própria vida, algo que fazia até hoje em prol da Ordem da Fênix.
Quando o jantar chegou, Morgan mandou os dois filhos para a casa da avó paterna deles, que morava na rua paralela. Como eles sempre adoravam ir comer na casa da avó, foram sem reclamar. Jantaram já num clima menos tenso. Estavam juntos há duas horas e começaram a se sentir mais soltos, falando sobre tudo o que era possível. Sophia estava assustada, mas feliz. Não sabia como agiria a partir de agora com os dois pais, Julio e Severus. Queria poder conhecer melhor Severus, mas jamais deixaria de amar e de chamar Julio de pai. Já Morgan estava completamente balançada e não parara de tremer até então. O amor que vivera com Snape fora grande demais para ser esquecido e agora, diante dele mais uma vez, não sabia o que fazer. Snape se sentia um garoto, de tão feliz. Conhecera a filha, uma garota inteligente, bem sucedida e que se parecia muito com ele. Também estava nervoso diante de Morgan, mas feliz demais para ficar com medo do que poderia acontecer
– E você, Severus, casou? – perguntou Sophia, sorrindo – Tenho algum irmão por aí?
– Não... Eu não me casei, nem tive ninguém. Ninguém sério.
– Que bom... Tenho dois irmãos mais novos e já não agüento, imagina descobrir mais um! – disse Sophia, rindo para cortar o clima
Às dez da noite, tanto Snape quanto Rafaela estavam cansados e rezando por uma cama bem confortável. Daniel a deixou subir para o quarto. Havia insistido em subir com ela, mas Rafaela recusou-se dizendo que precisava muito dormir. Ainda estava cansada e confusa com os fusos-horários.
Morgan e Sophia acompanharam Snape até a calçada, mas no fundo não queriam que ele fosse embora tão logo. Morgan pediu que Sophia fosse buscar os irmãos porque já estava ficando tarde, e se ofereceu para acompanhar Snape até o hotel. Sophia abraçou Snape mais uma vez, despedindo-se, e pediu para ele aparecer ou telefonar no dia seguinte, já que ficaria apenas aquele final de semana no Brasil.
– Você se casou depois de quanto tempo? – Snape teve a coragem de perguntar a Morgan alguns minutos mais tarde
– Depois de quatro anos. Eu o conheci em Cartagena e me mudei com ele pra São Paulo. Eu estava sozinha, não me sentia bem-vinda com a minha filha na casa dos meus pais. Na primeira oportunidade, fui embora. O que eu queria, mesmo, era voltar pra Inglaterra, mas não tinha a mínima condição. Eu não trabalhava e meus pais nunca me dariam condições de ir pra lá... Depois que me casei, então, ficou impossível.
– E a Sophia? Desde quando ela sabe sobre mim?
– Desde sempre. Antes mesmo de eu me casar com o Julio. Ela tinha dois ou três anos quando eu contei tudo. Ela sempre foi muito compreensiva. Disse, daquele tamanhinho, que queria te conhecer, porque queria ter um pai. Eu fiquei arrasada, porque não podia fazer nada. Várias vezes, enquanto ela crescia, ela pedia pra eu repetir a história, e eu contava tudo de novo. Ela começou a chamar o Julio de pai só depois que o Gabriel nasceu, ela tinha nove anos, mas nunca se esqueceu que você existia em algum lugar da Inglaterra. Logo que ela entrou na faculdade, disse que quando terminasse ia pra lá, pra ver se conseguia um emprego legal, e pra te procurar.
– Eu devia ter vindo antes... Foram vinte anos, eu demorei demais.
– Não se culpe, Severus. Acho que foi na hora certa. Na hora que você se sentiu impulsionado a vir, agora que a Sophia é adulta, agora que você faz arte do lado certo de novo...
Deram-se boa noite, com vontade de dar um abraço, mas ambos se seguraram por insegurança. Morgan viu Snape sumir pelo saguão do hotel e voltou pra casa.
Rafaela ouviu uma batida à porta. Desligou a televisão, colocou o robe e foi atender. No corredor, Snape estava encostado ao batente, arfante.
– Snape? O que aconteceu?
– Subi pela escada...
Rafaela riu – Eu não acredito! Você subiu vinte e um andares de escada, seu maluco! Entra!
– Eu preciso de agradecer, Rafaela... Você.. Me ajudou muito, graças... Graças a você... Eu...
Rafaela riu – Calma! Senta, respira! Então deu tudo certo?
Snape sorriu – Deu! Tudo perfeitamente certo.
– Que bom, eu percebi que o clima estava meio tenso, mas parecia estar tudo bem.
Na manhã seguinte, Rafaela e Snape desceram para o café da manhã no restaurante do hotel e já estavam comedo quando um funcionário do hotel foi avisá-los que havia um visitante para eles. Autorizaram que Daniel entrasse e ele se sentou também à mesa. Cumprimentou Snape, seu novo sogro, e começaram a conversar. Rafaela estava sonolenta, e não participava muito da conversa deles. Falavam, obviamente, sobre Sophia, e o assunto variou até Hogwarts. Daniel comentou que adoraria poder ir conhecer os castelo, passar nem que fosse um final de semana lá, com a amiga. Snape deu uma desculpa que não deixou de ser verdade: estavam todos muito atolados com os cursos extras que a escola estava oferecendo aos alunos, mas quando houvesse alguma folga para os alunos, inclusive para Rafaela, ele seria bem-vindo, e se levasse a namorada, mais ainda.
Quando Rafaela se levantou para se servir de mais café no buffet, o mesmo funcionário foi falar com ela novamente. Em seguida, ela voltou para a mesa.
– Elas estão entrando. – disse se sentando
– Elas quem? – perguntou Daniel
– Hã... Quem? – ela riu
– Como é que elas sabem onde vocês estão?
– Morgan me acompanhou até aqui, ontem. – explicou Snape
– Hum, sei... – disse Rafaela – E aí, Snape, vai rolar ou não?
– O quê?
– Gíria não dá, Rafa! – disse Daniel – Poção Fala Tudo também não é ninja!
– Não é o quê? – peguntou Snape sem entender e Rafaela e Daniel riram. Snape olhou para Rafaela – Você brinca assim porque não está em Hogwarts, senão eu já te descontava cem pontos pra Grifinória!
Rafaela fingiu ficar séria de repente – Credo, ‘sôr.
Morgan e Sophia se aproximaram da mesa. Sophia ficou séria ao ver Daniel sentado ali. Todos se cumprimentaram, Snape mais alegre do que Rafaela jamais vira.
Logo Rafaela arrumou qualquer coisa pra fazer pra sair de perto deles. Não sabia dizer porque, mas não se sentiu nem um pouco à vontade com todos juntos. Disse que ia visitar as tias que moravam na Mooca e que talvez só voltaria à noite. Daniel queria ir com ela, mas sabia que ia gerar uma situação estranha com Sophia. Aproveitou também para passar pela casa da amiga Carla, mas não encontrou ninguémem casa. Snapefoi com Morgan e Sophia para a casa delas, e Daniel foi embora. Era um momento família que não acontecera nunca. Os três ficaram cada vez mais a vontade juntos e Snape sentia-se renovado. Morgan ainda estava nervosa, mas resolveu tentar se soltar para ver se divertia-se um pouco. Severus ficou com as duas na cozinha enquanto preparavam o almoço, sentado à mesa. Aproveitava para observá-las e notou como Morgan parecia ainda mais bonita com os anos que passaram.
Rafaela passou a tarde toda com as tias, que eram vizinhas e primos no bairro da Mooca. Quase esqueceu da hora conversando com eles, relembrando a infância com os primos e contando – quase – todas as novidades. Quando começou a anoitecer, os primos foram com ela até o ponto de ônibus, onde se despediram. Haviam crescido juntos e foram muito amigos naquela fase. A falta de convivência os separou um pouco, mas ainda se adoravam.
– Eles achavam que a gente era muito sério, mas era só virarem as costas ou o corredor que a gente caía na risada por causa deles! – contava Snape
– Só quem não ria era o Malfoy, lembra? Aquele era sério mesmo, mais do que a gente.
– Malfoy é Malfoy, não é? O filho dele é igual, tanto na aparência quanto no jeito de ser. Vai acabar tendo o mesmo fim que o pai.
– É mesmo, né? O Malfoy estáem Azkaban... Ouvifalar, já, dessa cadeia. A detenção principal aqui do Brasil fica em Brasília, a capital, enfiada bem fundo no sub-solo. É cuidada pelos aurores mais poderosos do Brasil, ninguém nunca fugiu de lá.
– Eu nunca confiei nos dementadores de Azkaban.
– Fala mais, gente! – dizia Sophia, sorridente – Conta mais sobre a escola, sobre o que vocês faziam lá! – o que ela queria mesmo era que Snape contasse a versão dele sobre o namoro com Morgan, mas não perguntou diretamente.
Quando a noite chegou, Morgan e Sophia novamente acompanharam Snape até o hotel. Combinaram que Snape passaria a manhã com elas, antes de ir embora. Ele tomou coragem e subiu pelo elevador. Sorriu sozinho, pensando em como fora proveitoso o final de semana. Não só pela ex e pela filha, mas por ele mesmo. A alma estava leve, feliz, e ninguém, a partir de então, o reconheceriaem Hogwarts. Sentiuvontade até mesmo de mudar a aparência, o cabelo, o nariz. Tinha que voltar a viver.
– Ah, Snape, que bom que você chegou! Daniel e eu estamos indo ao shopping, vamos comer alguma coisa e ver um filme, topa?
– Não, obrigado. Já ouvi falar muito mal sobre esses filmes que vocês assistem nesses lugares... Mas podem ir, eu fico aqui.
– Tem certeza, não tem problema ficar sozinho?
– Absoluta.
– Falou então, sogrão, a gente se vê mais tarde! – disse Daniel, indo até a porta
Snape apontou o dedo pra ele – Olha, juízo, heim? Lembre-se da minha filha!
– Ele está em boas mãos, Snape – riu Rafaela – se ele olhar pro lado eu dou uns tapas nele, pode deixar!
Sentaram-se frente a frente numa mesa de uma lanchonete de fast-food. Rafaela mordeu o lanche e fez cara de prazer, depois falou ainda de boca cheia – Meu Deus, como eu estava precisando disso! – e Daniel riu – É bom demais! Como é que todo mundo vive sem isso, não é possível!
– Já sei o que eu vou te mandar de presente. Eu coloco um feitiço de conserva, e te mando uns vinte lanches desse.
– Hum, vinte, não! Vinte desse grandão e vinte daquele de queijo cheddar, pra eu me empanturrar mesmo.
– Olha só, assim você engorda, heim? Vai deixar de ter esse corpão que você tem.
– Mas não, mesmo. Só a minha rotina já me faria perder todas essas calorias aqui.
* * *
– Rafaela! Rafaela, acorda... – disse Snape batendo na porta, em inglês – Rafaela, são quase seis da manhã, está tarde!
Lá dentro, ela demorou para entender o que estava acontecendo. Respondeu que já estava indo e se levantou preguiçosa.
– Porque você está falando inglês, Snape?
– Acabou a minha poção e não tenho mais ingredientes. Você tem, não tem?
– Ah, tenho... Deixei por aqui em algum lugar... Aliás, eu tenho até uma feita na minha bolsa, que eu trouxe pra qualquer emergência, só que já deve estar passada.
– Está com quantos dias?
– Hoje é o terceiro.
– Joga fora, então. A não ser que você queria me deixar mudo durante um dia inteiro.
– É... A que horas a gente vai embora?
– Acho que é você quem sabe.
– Ah, sei lá, acho que tem que ser ainda de manhã. Quanto mais cedo melhor.
– Estou indo pra lá agora. São as últimas horas, depois disso não sei quando vai dar pra vê-las de novo...
– É, Snape... Depois que tudo isso acabar, depois que toda a crise passar e que estiver tudo resolvido... Aí você volta pra cá e passa uma temporada maior.
– Assim seja. Bem, estou indo. Volto daqui a pouco.
– Falou.
Snape voltou da porta – Esquecemos a poção!
Rafaela se levantou – Ah, é mesmo. Acho que está tudo aqui, ó.
Em poucos minutos, ela fez a poção e Snape ficou olhando, com ares avaliativos de professor. Depois de pronta, ele bebeu e saiu logo que o efeito aconteceu. Às seis horas. Snape subiu sem precisar ser anunciado pelo porteiro. Bateu à porta e, vendo que estava aberta, empurrou-a – Com licença? Sophia? Morgan, estou entrando!
Um menino chegou à sala e olhou sério para Snape – Quem é você?
– Eu sou... Eu sou... Amigo da sua mãe.
– Você que é o pai da minha irmã?
– Sou.
– Você vai fazer ela largar a gente?
– Eu? Não, eu não...
– Ela está fazendo a mala porque, então?
– Malas?
Morgan entrou na sala – Gabriel! Eu não mandei você tomar todo o seu café da manhã?
– Saco... – saiu reclamando
– Oi, Severus, bom dia.
– Bom dia. O que ele falou sobre mala?
– Ah, ele falou..?
– Falou. Sophia pretende ir pra...
– Vem cá.
Ela estendeu a mão e o levou até o quarto de Sophia, onde ela lutava contra o zíper da mala, que estourou com a força – Saco! – pegou a varinha que estava na cama – Reparo.
– Oi, Severus! Essa mala está me vencendo de quinhentos e cinqüenta a zero!
– Eu te ajudo. Vai viajar pra onde? – disse aproximando-se da mala
– Adivinha!
– Não tenho idéia. Você encheu muito, devia ter ampliado o interior...
– É, eu achei que ia caber tudo. – disse Sophia e o olhou por uns instantes – Vou tirar uma semana de férias da faculdade... É que eu nunca falto, né, então eu posso fazer essa maluquice...
– Você quer ir pra Hogwarts?! – disse Snape, assustado
Sophia alargou o sorriso – Gostou da idéia?! Quero passar uma semana lá.
– Mas... Mas...
– A não ser que... Você não queira que eu vá.
– Não! Não, imagina, é claro que eu quero, eu... Adoraria, mas...
– Não posso ir?
– É que... Assim, de repente, eu não sei se... Não sei o que Dumbledore vai pensar de receber... Alguém sem aviso.
Sophia murchou e se sentou na cama – Ah... Droga, eu queria tanto conhecer o castelo... Já ouvi falar muito de lá, ainda mais porque você vive lá.
Snape respirou fundo e se sentou ao lado dela – Tudo bem. Não tem problema, você pode ir.
Rafaela levou um susto quando viu Sophia com a mala, ao lado de Snape, de braço dado com ele. Olhou interrogativa para o professor – Snape, deixa eu falar uma coisa... Vem cá.
Os dois foram para o corredor, deixando Sophia com Daniel em seu quarto do hotel.
– Não me diga que ela está indo pra...? – ela perguntou e Snape ele fez que sim com a cabeça – Você é louco, Snape?! Não pode! Você sabe que...
– Fala baixo!
– Você sabe que não pode! – ela disse baixando o tom – Tudo o que está acontecendo no castelo, os treinamentos, as aulas, Snape, ela não pode saber! Se você contar pra ela, vai ser considerado infiel pelo feitiço!
– Eu sei disso! Mas me responda como é que eu ia falar não pra minha filha? Ela estava com a mala pronta na hora que eu cheguei, ficou toda triste quando eu falei que não podia... Eu não podia fazer isso.
– Não podia... Não podia mesmo. Olha, Snape, o problema é seu, heim? Você que vai ter que se entender com o Albus e se virar pra ela não saber de nada. Eu não tenho nada a ver com isso!
– Exatamente. Você não tem nada a ver com isso, não precisa se preocupar.
– Quanto tempo ela vai ficar?
– Uma semana.
Daniel e Morgan desceram com os três até o metrô e lá aconteceu a despedida. Sophia queria ficar agarrada em Daniel pra não deixar ele e Rafaela se abraçarem muito, Morgan e Snape, nem ligando pros outros, se abraçaram apertado e longamente.
– Volte assim que possível. Você será sempre bem-vindo.
– Pode esperar, porque eu vou aparecer. – respondeu sorrindo e a abraçou novamente
Ao lado, Daniel soltou-se de Sophia para se despedir de Rafaela.
– Te espero nas próximas férias.
Depois Sophia agarrou o namorado, como se fosse passar dois anos fora. Logo, Snape, Sophia e Rafaela passaram pelas catracas e deram um último tchau para Morgan e Daniel, que ficaram do lado de fora. Pegaram o trem lotado e foram em pé até a Sé, onde desembarcaram. Sophia enganchou no braço do pai e os dois saíram andando, deixando Rafaela meio para trás. Snape não achou normal andar daquele jeito com a filha, mas adorou a demonstração de carinho. Fizeram baldeação e desceram na estação bruxa invisível aos trouxas. Sophia já conhecia o lugar e tomou a frente, conduzindo o pai. Com o dinheiro de Snape no bolso, Rafaela comprou as passagens e Sophia a olhou torto, evidentemente achando que era errado ela ficar com todo aquele dinheiro.