Capítulo Seis – A Seleção Especial
O portão do castelo sempre ficava deserto durante a semana, quando todos os alunos estavam dentro da escola. Já nos sábados e domingos, muita gente passava por lá, quase o dia todo, indo e voltando de Hogsmeade. Esse era um desses dias. O portão escancarado, com um feitiço que permitia que apenas convidados e alunos o adentrassem, para evitar qualquer tipo de confusão. Quem passava por ali naquele instante, assustou-se: de repente, um bruxo aparatou do lado de fora do portão. Estava com a roupa meio chamuscada, como se houvesse sido queimada em algumas partes.
Hermione e Ronald, sentados debaixo de uma árvore, namorando, viram quando ele surgiu, caminhando com uma pequena maleta nas mãos.
Ronald ficou de pé – Olha o meu irmão!
Hermione se levantou também, dando alguns passos à frente – É ele mesmo. – e ergueu os braços – Aqui!
Na sala comunal do salão especial, Rafaela estava sentada, pernas cruzadas sobre o sofá e cabeça caída porá trás, olhando em silêncio para o teto. Estava entediada. Sabia que àquela hora Ronald e Hermione, Harry e Ginny estavam namorando em paz, por isso não ia procura-los. Sentia-se sozinha. Se ao menos pudesse procurar por Remus, mesmo que fosse apenas pela sua companhia...
Ouviu quando a parede de entrada do salão foi aberta e, pela cortina, viu Snape entrar. Parou de andar assim que a viu.
– O que está fazendo aqui? – ele perguntou
– Nada.
– Nada?
– É, na-da. Não tenho nada pra fazer.
Snape caminhou até a mesa de jantar e lá colocou o livro que carregava, sentando-se à sua frente. O salão ficou em silêncio por um ou dois minutos, quando Rafaela, cansada de não fazer nada, levantou-se e foi a caminho do dormitório. O professor parou de ler e a olhou se distanciar.
- Rafaela. – ele disse
Ela parou e o olhou. Ele jamais a havia chamado pelo primeiro nome, e pelo que sabia, a nenhum outro aluno de todo o castelo.
- Precisamos conversar. – ele continuou – Por favor. – ele disse apontando para o lugar vazio a sua frente
Sentindo vontade de fingir que não ouvira aquilo e correr para longe, Rafaela foi até a mesa, sem dizer nada, e sentou-se diante de Snape e o olhou.
- Não tivemos oportunidade de converser sobre o ano passado. – ele começou – E eu sei o quão desconfortável ficou a situação depois de tudo o que aconteceu. Eu precisei te machucar, e sei que mesmo que entenda as razões pelas quais fiz aquilo, a impressão que você tem de mim não é fácil de se apagar.
- É... – Rafaela disse baixo ainda olhando para ele, a expressão tão dura quanto a quele ele sempre tivera – Que bom que entende isso.
- Você é uma boa aluna de poções e eu acredito que devemos ter uma boa convivência a partir de agora, nesses treinamentos especiais. Pelo bem de tudo o que estamos fazendo, devemos ter um convívio saudável.
- Sei...
- Portanto...
- Portanto, eu vou tentar deixar aquilo no passado. – Rafaela o interrompeu – É impossível esquecer, não vou simplesmente perder a minha memória. Eu sei que você fez aqulo porque estava sendo observado, mas eu estava com medo de verdade. Nada foi apenas uma atuação pra mim, não importam as razões, você foi meu carrasco. – ela disse sentindo um nó na garganta, enquanto Snape ouvia em silêncio – Mas de qualquer forma... – ela pensou – Depois de estar diante de Voldemort e de sentir aquele medo, aquela negatividade, aquela aflição... Sabe, agora eu acho que você faz um ótimo trabalho ao conseguir ficar próximo de tudo isso por tanto tempo e fazê-lo acreditar que aquele é mesmo você. Se fosse eu já teria fugido a muito tempo, me declarado parte da Ordem e nunca voltaria praquele lado de novo. Então... – ela parou e respirou, pensando um pouco – Eu te respeito, Severus. – ela disse e ele se moveu um pouco espantado em ouvir aquilo – Eu te respeito pelo que você faz e acho que você está certo, nós precisamos ter um bom convívio, pois acho que ninguém, pelo menos entre os alunos, tem uma história em comum como você e eu temos. Trabalhamos juntos no ano passado, e vamos trabalhar juntos também nesse ano. Então está tudo bem.
Snape parecia não ter esperado ouvir aquilo. Empertigou-se ao ouvir que ela o respeitava e deu pequeno sorrido de canto.
- Estou satisfeito em ouvir isso. Portanto, vamos em frente..
Rafaela sorriu pra ele e se levantou, indo finalmente para seu dormitório. Não havia percebido, mas aquela mágoa era constante e um tanto pesada. Sorriu ao sentir-se mais leve.
* * *
Naquela tarde, Charlie fingiu que estava apenas visitando o castelo e que se retiraria pela hora do jantar. Ele se retirou, sim, porém foi escondido para a Sala Especial, onde algumas pessoas o aguardavam. Teve uma breve reunião com Albus e alguns dos outros professores e se acomodou em uma cama extra que fora colocada no dormitório masculino.
Durante o jantar, os cinco alunos ficaram proximos a Charlie, que deixara dos outros professores de lado, e todos se deram muito bem. Depois de comerem, alguns professores se retiraram, e além de Charlie, apenas Remus ficou na sala especial com os alunos. Harry notou a cara feia que Snape fez ao retirar-se do salão, sabendo que aquilo não era horário para ficar conversando, ainda mais em um lugar com tantas regras como Hogwarts, mas essa era a vantagem de serem alunos especiais, recebendo visitas especiais.
À uma e meia da manhã, com suas barrigas doendo de tanto rir com Remus e Charles, os cinco alunos subiam o corredor secreto a partir de uma saída atrás de um quadro no corredor da sala de Transfiguração. Ginny foi a primeira a separar-se do grupo, pegando o corredor em direção ao teto do seu quarto. Depois Hermione e Rafaela foram para o lado direito, enquanto Ronald e Harry pegaram o lado esquerdo. Quando todos estavam a salvo em suas camas, tomaram cada um seis pílulas do Tumble Taurus. Após o sono de apenas meia hora, mas que parecia ter sido de seis horas, levantaram-se todos muito silenciosamente, quase ao mesmo tempo, vestiram-se e no local combinado do corredor secreto, às duas e quarenta da madrugada, usaram o vira-tempo de Hermione – ficaram com medo de usar o de Harry, que poderia ainda estar avançando as horas. Já às onze e quarenta e um entravam no salão especial. O conselho de professores quase inteiro os aguardava.
Os alunos responderam o coro docente de “bom dia” e adentraram mais na sala, acomodando-se nas cinco cadeiras vazias, dispostas em círculo com as dos professores. Remus e Charles já os aguardavam, de certo também usaram algum vira-tempo. Apenas quando Harry viu Madame Hooch lembrou-se que não havia ido a um treino sequer de Quiddich naquele final de semana. Viu que Hagrid estava inquieto, afinal desde o começo não aprovava o treinamento que ele e os amigos estavam recebendo. Antes que pudesse reparar em qualquer outro professor, passou a escutar atentamente a Dumbledore.
– Esse é um dia muito especial. Após um pouco de treinamento, acredito que já estejam acostumados com a carga horária - e antes que Ronald cochichasse “até parece”, coninuou – Pelo menos não estão dormindo pelos cantos. Porém, vejam, o treinamento de agora em diante irá se intensificar. Na semana que vem começaremos nosso segundo mês em Hogwarts, e quanto antes começarmos a praticar, melhor.
Até mesmo Hermione achou esquisita a colocação “começarmos os treinamentos”. Então tudo aquilo não era um treinamento? Como se lesse os pensamentos, Dumbledore prosseguiu – Apesar de terem sido intensos e muito importantes, hoje a escola escolherá as habilidades específicar de casa um de vocês. Casa um tem algumas especialidades, tendências para aprendizado, ou mais facilidade com algum assunto. Infelizmente precisaremos interferir na escolha pessoal de vocês e terão, além dos ensinamentos gerais, aulas específicar para cada um.
– Então o grupo vai se separar? – perguntou Hermione
– Sim… E não. – respondeu o diretor – As revisões gerais ainda serão feitas em grupo, e pode acontecer de mais de um de vocês terem as mesmas especialidades.
O grupo entendeu que, mais uma vez, aquilo era para o bem geral. Rafaela ficou muito animada em saber que não precisaria escolher por conta própria qual seria a habilidade que ela tinha mais desenvolvida, para fazer uma especialização posterior à escola, afinal tinha muitas dúvidas, e também não ficava tão chateada porque não namorava – não mais – ninguém do grupo para ter obsessão em ficar perto.
– E são os professors que vão nos dizer quais são as especialidades? – perguntou Rafaela
– Não. Os professores estão aqui para começar a orientação imediatamente. Eu não posso tomar essas decisões, também. Portanto, quem as fará é o conselheiro da escola.
Dumbledore apontou para a mesa de centro da sala comunal, onde ninguém havia percebido que o Chapéu Seletor aguardava. Imediatamente a professora McGonnagal se levantou e buscou o chapéu, levando direto na direção dos alunos. Ronald o recebeu primeiro e colocou, nervoso, na cabeça.
– Weasley novamente! – o chapéu disse em voz alta para todos na sala – Sei que além do dom de Gryffindor da família, você herdou algo mais. Ah, sim. Você é um Magine brilhante, só precisa deixar de ser cabeça-dura e treinar muito essa habilidade. – Ronald fez uma cara de espanto, sem saber absolutamente sobre o que ele estava falando. Quando ia tirar o chapéu, o mesmo continuou – Escute! Eu não terminei! Você tem um grande talento com Defesa Contra as Artes das Trevas, e não deve desperdiçá-lo também.
Ronald tirou o chapéu um pouco atordoado. Hermione abraçou-o, orgulhosa.
- Mione... – ele cochichou – Que droga é essa de Magine?
Hermione ia começar a explicar, porém a professora mandou que ela mesma colocasse o chapéu.
– Uma mente brilhante, Srta. Granger. Você, moçinha, será grande com as Cristuras Mágicas. Aliás, com qualquer criatura, e também tem um grande talento como Curandeira. Também não deve deixar para trás seus talentos com Poções, inegáveis. Essas são suas habilidades!
O próximo foi Harry, que estava mais animado com aquilo do que qualquer outro.
– Potter, outra vez! O garoto que teria sido grande em duas casas, mas escolhe Gryffindor. Criaturas Mágicas, sempre! – “ótimo”, Harry pensou, pelo menos teria a companhia de Hermione nas horas difíceis – Seu talento ao voar também não deve ser esquecido, e Defesa Contra as Artes das Trevas é uma enorme destreza pessoal!
Ginny, ao lado de Harry, não precisou que a professora dissesse para ela colocar o chapéu. Também animada, pegou-o da mão de Harry e o vestiu.
– Por enquanto a mais jovem Weasley! Um coração enorme e um grande talento com feitiços. Mesmo que ainda não saiba, assim como seu irmão, tens também o grande talento de Weasley como Magine. Devo também destacar seu grande valor como Curandeira.
Chegou a vez de Rafaela. Ginny a entregou o chapéu e ela o colocou, apreensiva. Para a surpresa de todos o chapéu, feliz, começou a cantar, como adorava fazer:
Muito bom dia, senhorita Salles!
Como uma bela ave a voar,
Suas habilidades são muitas, se quer escutar!
Além de saber Voar muito bem
A senhorita é ótima em Feitiços também
E antes que queira se safar
Saiba que precisa se especializar
No incrível estudo das Poções
E, principalmente, nas Transformações!
Rafaela tirou o chapéu após um tempo com os olhos arregalados, com cara de boba. Ela sempre pensaram em se especializar em várias coisas, mas não sabia que tinha que se especializar em tantas.
Após um tempo, receberam os novos horários. Na verdade não mudava muita coisa, o que mudava era o que preenchia o horário. Dumbledore fixou um grande pergarminho antigo na parede para que os alunos pudessem verificar algumas observações sobre os novos cursos. Para Harry, apenas as observações de TCM e DCAT apareciam em destaque; para Ginny, apenas Feitiços e Magine, e assim por diante. Ao todo, a informação era assim:
Aulas Especiais de Vôo – Aulas curtas, exigirão pouco tempo de seu horário (uma vez por semana), mas bastante garra para fazer valer o seu talento. Novas acrobacias serão ensinadas, além de feitiços úteis nunca antes ensinados na escola. Indicam-se os livros Feitiços Aéreos Avançados, de Jonathan Hermann e Proteja-se na Vassoura, de Severino Barba-Ruiva.
Professora: Madame Hooch.
Alunos: Harry Potter e Rafaela Salles.
Curso Avançado de Feitiços – Ensinará como multiplicar em até mil vezes a potência de seus feitiços, além de ensinar uma gama enorme de feitiços avançados. Devido ao pouco tempo disponível, recomendamos uma pós-especialização. Carga horária média (duas vezes por semana). Recomendamos os livros Feitiços Para Especialistas, de George Khristian e Reduzindo o Tempo e Aumentando a Potência de Seus Feitiços, de Angelina Barbacue.
Professor: Flitwick.
Alunas: Rafaela Salles e Ginny Weasley.
Magine – Aulas incrivelmente mais avançadas que as dadas na escola (apenas no último ano). Você aprenderá a fazer feitiços incríveis com a força do pensamento, conjurar objetos e até ingredientes de poções, por isso é uma aula de agrega quase todas as outras. Carga horária média para pesada, três vezes por semana, aulas mais longas que o normal. Recomenda-se a utilização do livro O Verdadeiro Magine, de Clóvis Thompson.
Professora: Minerva McGonnagal.
Alunos: Ginny e Ronald Weasley.
Curso Muito Avançado de Poções – Aprenda tudo aquilo que você sempre teve curiosidade, mas não teve autorização. Devido ao estágio avançado que as alunas já se enquadram, aprenderão o estágio mais avançado, recebendo o certificado Mestre de Poções ao final do curso. Aprenderão a fazer Poções com rapidez e perfeição, mesmo sob feitiços de impedimento ou machucados. Aprenderão as difíceis poções Acorda-Morto, capazes de reanimar pessoas à beira da morte. Terão autorização ao acesso da grande maioria dos ingredientes mágicos, inclusive aos Catalisadores da Birmânia e muito mais. Carga horária pesada – todos os dias, aulas de duração média. Não recomendamos livros, alunos deverão estudar com as próprias anotações.
Professor: Severus
Alunas: Rafaela Salles e Hermione Granger.
Real Defesa Contra Arte das Trevas – Chega dos pequenos truques de defesa. Após esse curso, o aluno tornar-se-á especialista na área, recebendo, também, o certificado. Aprenderá a usar suas virtudes mais íntimas para defender-se, terá aulas práticas de como produzir armas rapidamente com qualquer material. Sugerimos uma pós-especialização. Exigimos os livros Proteja-se das Artes das Trevas Regionais, de Luccas III; Estudos Avançados Contra Arte das Trevas, de Olívia Jump-Berh; Aprenda com quem não sobreviveu, de Gaspar Bith; Não Caia Nessa, de Albus Dumbledore, O Homem Que Conjurava Patronos, de Beth Jim. A carga horária é pesadíssima: Aulas longas, todos os dias.
Professores: Severus Snape e Remus Lupin.
Alunos: Harry Potter e Ronald Weasley.
Curso Avançado em Trato de Criaturas Mágicas – Desprendendo-se do trato de criaturas praticamente inofensivas e dóceis, o curso avançado em TCM realmente utilizará o dom pessoal do aluno em domar, lidar, conversar com e amigar-se a Criaturas Mágicas. O aluno aprenderá a montar exércitos com trasgos, elfos e dragões, desde que se dedique e tenha paciência com eles. O aluno formado receberá o certificado de Pertencente À Ordem dos Protetores de Elfos e Dragões. Aprenderá como utilizar as criaturas mágicas da melhor forma, contra a Arte das Trevas. Recomendaremos as leituras sobre as criaturas mágicas que estudaremos quando as estivermos estudando. A carga horária é bem pesada. Aulas diárias, de duração média ou longa, depende da boa vontade das criaturas mágicas. O curso exige relatório final e Trabalho de Conclusão de Curso para receber os certificados.
Professores: Rubeous Hagrid e Charles Weasley.
Alunos: Harry Potter e Hermione Granger.
Curso Único de Enfermagem e Medicina Mágica – As alunas terão atenção especial, podendo, ao fim do ano, ingressarem em qualquer universidade mágica de medicina com conhecimentos avançados, eliminando diversas matérias. Aprenderão a elaborar poções avançadas de Medicina, feitiços simples, porém potentes, e a curar feridas sérias, emocionais e físicas. Terão também um curso avançado de automedicação, muito útil, de pequenos reparos, que serve tanto em bruxos como trouxas, e de contrafeitiços à magia negra. É importante conciliarem as outras habilidades pessoais com a de Medicina, por isso a aluna Granger terá aulas especiais de Poções Curandeiras e Veterinária Mágica, enquanto a senhorita Weasley terá de Feitiços Curandeiros e Curando Com o Pensamento. Recomendaremos os livros ao longo do curso. Carga horária média para pesada. Aulas de duração média todos os dias.
Professora: Madame Pomfrey.
Alunas: Hermione Granger e Ginny Weasley.
Curso Isolado de Transformações Avançadas – Como a aluna terá as aulas isoladamente, receberá mais atenção e terá tempo para os treinamentos necessários. Aprenderá transformações arquitetônicas, como transformar em um banheirinho um grande salão de duelos. Aprenderá a ampliar e reduzir magicamente espaços e objetos, e, como está associado à habilidade de Feitiços, aprenderá também a solidificar e transformar feitiços (para isso, algumas aulas serão auxiliadas pelo professor Flitwick). Aprenderá a transformar pequenas aranhas em ursos e vice-versa, e a desenvolver a habilidade de Animagia. Não recomendamos livros, por enquanto, apenas que preste muita atenção e dedique-se muito às aulas. Carga horária de média para pesada, três vezes por semana, aulas de longa duração.
Professora: Minerva McGonnagal.
Aluna: Rafaela Salles.
Após a leitura, os alunos estavam um pouco encantados, um pouco abismados, um pouco não acreditando no que acontecia. Hermione ficou mais animada que nunca quando soube que poderia pertencer à Ordem dos Protetores de Elfos Domésticos e Dragões. Não tanto pelos dragões, mais pelos elfos. Já se imaginava ensinando àquelas criaturinhas feitiços mais avançados, próprios para bruxos de verdade. Por eles, ela seria capaz até de contrabandear varinhas. Ginny estava feliz por fazer, finalmente, um curso avançado de Medicina, ainda mais associado aos seus cursos de Magine e Feitiços. Rafaela estava mais abismada com o curso de Transformações, que só ela faria.
A semana foi mais atulhada do que todas as outras que já haviam se passado. Não tiveram tempo para fazer nada além de suas aulas normais, especiais e específicas. Estavam ficando exaustos, mas não desanimavam, porque sabiam muito bem o motivo de tudo aquilo.
Com Hagrid e Charles, a primeira aula foi com um filhote de Dragão da Ucrânia. O filhote era muito grande, tinha quase o tamanho de um Norueguês adulto. A sala vazia ao fundo do jardim fora ampliada o bastante para o Dragão poder voar lá dentro. Harry e Hermione tinham um prazo de uma semana para domesticá-lo. Harry conseguiu que o filhote o deixasse tocá-lo na testa, que era onde ele gostava de carinho, mas o bebê não deixou Hermione se aproximar. Além dessa e de outras aulas práticas na semana, Hagrid e Charles passaram bastante teoria. Se eles errassem as respostas que deviam escrever no pergaminho, este começava a gritar, mas nenhum precisou fazer isso.
Remus e Snape, nas primeiras aulas da semana para Harry e Ronald estavam meio tortos um com o outro, mas se adaptavam bem para ensinar. Snape falou quais eram as táticas preferidas dos comensais e as especialidades deles. A primeira semana dessas aulas rodou em torno desse assunto e do que devia ser feito para se defenderem dos ataques. O feitiço Estupefaça foi usado como um substituto para o feitiço negro Avada Kedrava, que logicamente eles não poderiam usar nas aulas. Harry “morreu” quatro vezes e Ronald três.
Remus perdeu a paciência – Vocês pensam que isso é algum tipo de brincadeira?! É a vida de vocês! Se não são capazes de se defender desse feitiço serão mortos antes que consigam apontar a varinha!
– Vamos tentar novamente. – disse Harry
– Não é para tentar, dessa vez, é para fazer, sr. Potter. – disse Snape
– Vamos lá, dessa vez um contra o outro. Vamos! – disse Remus
Harry e Ronald se olharam. Teriam que duelar, mas não tiveram coragem de perguntar quem devia atacar quem. Com certeza a resposta seria “vocês acham que vão poder fazer essa pergunta em uma luta de verdade?!”. Sem pensar, Ronald ergueu a varinha.
– Stupefy!
E Harry estuporado mais uma vez.
– Não é possível! – Remus gritou enquanto Snape acordava Harry com outro feitiço – Se você não conseguir dessa vez, Harry, eu juro que tiro você dessa aula! – nem parecia que Remus adorava Harry como se fosse seu afilhado
Na segunda tentativa, Harry lançou o feitiço, mas Ronald conseguiu, pela segunda vez, se defender. Assim que o fez, tentou estuporar o amigo, que finalmente o desviou. A partir daí, os dois começaram a se defender com mais facilidade.
Na única aula especial de vôo da semana, que aconteceu no campo de Quadribol e arredores durante a madrugada, com um grande escudo anti-ruído, Rafaela e Harry se divertiram muito, apostando várias corridas cada vez mais velozes, empatando em várias delas. Essa aula serviu para saberem se equilibrar na velocidade máxima de suas vassouras, que era bem mais do que costumavam dar em treinos e jogos de Quadribol.
– Eu não sabia que a vassoura podia chegar à cento e cinquenta por hora! Eu nem imaginava! – disse Rafaela, quando desceu da vassoura, junto com Harry, na porta do castelo
– Pois é, é novidade pra mim, também. Bom, né? – concordou Harry
– Nossa, bom demais!
– Não sei como a gente vai usar isso, - disse Harry – Mas é sempre bom saber, né?
– Aham. Acho que a gente vai morrer até o Natal.
Harry riu – Quê isso, acho que a gente sobrevive...
Snape estava eufórico para as aulas especiais de poções, mas não o demonstrava. Estava tão sério e azedo como sempre fora. Na ala escolar do salão especial, Rafaela e Hermione esperavam que ele chegasse, sentadas lado a lado colocando a fofoca em dia.
– E você? – disse Hermione
– Eu o quê? – disse Rafaela
– Como está, você sabe... – e baixou a voz para menos que um sussurro – Remus.
Rafaela olhou para o tampo da carteira – Ah, Mione... Está na mesma. A gente está conseguindo conviver bem e eu percebi que o que ele falou sobre ainda estar comigo era verdade... Mas não é a mesma coisa, né?
– Talvez essas aulas ajudem. Ocupam muito o tempo, enchem a cabeça.
– Isso é verdade. Eu estou satisfeita com as aulas, estou empolgada e esforçada... Mas ninguém sabe que no fundo eu estou muito triste...
Pouco depois, Snape chegou na sala e se dirigiu imediatamente para as carteiras da ala escolar. Hermione e Rafaela se levantaram e se juntaram e ele, enquanto colocava sobre as carteiras dois livos muito pesados e com aspecto bastante novo, de grossas capas pretas e inscrições com a própria letra de Snape, em dourado: “Apostila de Poções – Miscelânea de textos dos maiores livros de poções”. Feito isso, prosseguiu:
– Esse será o material inicial de nossas aulas. Para hoje, preciso que vocês leiam a teoria do primeiro capítulo para começarmos os exercícios. Podem ler lá fora, no jardim, enquanto tentarei reunir-me com outros professores para darmos um jeito nessa ala escolar dessa sala. Precisamos ampliar esse espaço e dividi-lo, de forma que cada professor tenha seu espaço.
Rafaela, recolhendo seu material que estava sobre a mesa – A que horas poderemos voltar?
– Às cinco horas. Acho que em quarenta minutos vocês duas conseguem fazer uma boa leitura.
Rapidamente Hermione e Rafaela correram para o jardim, que parecia estar maior e mais florido.
– Dumbledore se preocupa mesmo em estarmos sempre sentindo bem. – disse Hermione
Rafaela sorriu – Que pena que esqueceu que Snape gosta de ter sempre um espaço só dele... Você viu como ele fica irritado?
Hermione, sentando-se no primeiro banco e abrindo sua apostila – Snape sempre está irritado, Rafa.
Rafaela, já sentada, folheando a apostila – Eu sei, mas ele está ficando um pouco mais simpático. Olha só, ele deu quarenta minutos para a gente ler esse capítulo, que nem é tão grande. Se fosse há um tempo atrás ele daria o mesmo tempo para lermos o triplo disso.
– Já é um grande avanço... Bom, vamos lá.
As aulas de Transformações para Rafaela foram além das suas expectativas. Ela nunca havia percebido sua facilidade com as transfigurações, e agora, com a aula particular, tomava um grande gosto com isso. Logo nas primeiras aulas teve exercícios complicados, e começou um treinamento que perduraria por todo o semestre: tornar-se invisível sem capa de invisibilidade e desenvolver as abilidades em Animagia.
Hermione e Ginny se encontravam todos os dias com Madame Pomfrey em uma sala secreta abaixo da Ala Hospitalar, para ter aulas de Enfermagem e Medicina. Algumas matérias eram um pouco estranhas, como Medicina Alternativa Para Trouxas (tratamento mágico eficaz de modo que os trouxas não percebessem a magia). Às vezes as alunas recebiam tratamentos diferenciados, cada uma utilizando a Medicina Mágica da melhor forma pessoal, através de suas outras habilidades especiais próprias. Hermione, além das habilidades ditas pelo chapéu, tinha uma enorme facilidade com outras coisas, como herbologia. Usando essa facilidade e a de Poções, começou a aprender por fora o Trato de Ervas Mágicas Medicinais. Usando sua habilidade com Criaturas Mágicas, aprendia Veterinária Mágica. Gina começou a aprender feitiços avançados medicinais com a força da mente, usando suas três habilidades de uma vez só. Dessa forma, as aulas diárias de Medicina faziam-nas testar todas as aulas especiais de uma vez só.
As aulas de Magine, de longe, eram as mais complicadas. Toda vez que Ginny saía das aulas pensava que tinha que receber o certificado de conclusão de curso de Hogwarts, mesmo estando no sexto ano, para as vistas dos outros alunos. Sua matéria toda estava muito adiantada. Precisava engolir os livros de todas as matérias para se dar bem em Magine, ainda porque era tudo o que havia aprendido, mas com a força da mente. Fazia longas seções de estudo com Ronald nos horários de descanso, enquanto os outros estudavam suas matérias ou se divertiam. Apesar do esforço, ela e o irmão estavam se sentindo muito felizes com a conquista, conseguiam realizar quase todas as tarefas com facilidade, e isso completava a felicidade de McGonnagal de ver seus alunos se dando bem.
O mesmo não podiam dizer Remus e Snape sobre seus alunos de Defesa Contra Artes das Trevas; apesar de Ronald e Harry terem essa habilidade, as aulas realmente eram muito mais exigentes que o normal, o que os fazia penar para conseguir o mínimo.
Flitwick ficou muito feliz com a sala nova da ala escolar da Sala Especial. A primeira aula foi meio complicada e acabou terminando mais tarde, justamente por não ter um espaço ideal para treinar e ensinar os feitiços avançados para Rafaela e Ginny. A partir da segunda aula, as seções começaram a render muito mais que esperava, o que o fazia dizer freqüentemente às alunas que, daquela forma, nem precisariam fazer uma pós-especialização. Logo no fim da segunda aula, ao fim da primeira semana de aula), Rafaela e Ginny já conseguiam aumentar em até cinqüenta vezes a potência de alguns feitiços mais fáceis. Ginny tinha planos para quando pudesse aumentar daquela forma a força de seus feitiços medicinais. Rafaela já pensava em seus feitiços de Transformações (a professora dissera que aquelas aulas de Feitiços teriam grande importância mais para frente em sua matéria). Sabiam que ainda aprenderiam a hipnotizar, des-hipnotizar, apagar e reaver memória recente, além de trancar portas, explodir objetos, fazê-los levitar com mais velocidade e força pelo ar, aumentar ou diminuir seu peso e inúmeros outros feitiços que poderiam ser muito úteis. Rafaela e Ginny adoravam as aulas.
No final de semana os cinco alunos estavam eufóricos, porém um pouco exaustos. Precisariam ir para Hogsmeade de qualquer forma, primeiramente para repor as energias e curtir uma tarde rindo e conversando no bar de Madame Rosmerta. O Segundo motivo (e o mais especial para os professores) era a compra dos livros e outros materiais solicitados para os cursos especiais. Os dois casais, Harry e Ginny e Ronald e Hermione, aproveitaram o tempo também, já que nenhum deles se encontrava nas aulas especiais. Hermione e Ronald ainda se encontravam nas aulas que tinham juntamente à turma do sétimo ano da Grifinória, mas Ginny e Harry não tinham essa facilidade. Salvo apenas nas agora raras aulas de revisão geral, os cinco nunca se encontravam em aulas.
Rafaela, sentindo-se bastante de fora, saiu para dar uma volta sozinha, alegando ir comprar alguns materiais especiais de Transformações (apesar de na lista não pedir material nenhum). Deixou os dois casais de amigos no bar da Madame Rosmerta e caminhou um pouco pelas ruas, comprou algumas coisas em lojas diversas e acabou entrando em um pub que sempre ficava mais vazio. Sentou-se ao balcão, de costas para a porta, pediu uma bebida e ficou bebendo sozinha. Sentiu uma saudade dolorida de Remus, e se lembrou que a cerca de um mês atrás estava com ele em um pub em Londres, cercada de trouxas, namorando sem medo. Ouviu a porta sendo aberta atrás de si e quase imediatamente assustou-se com Fred e George pulando felizes para os bancos de cada lado dela.
- Querem me matar engasgada?!
- O que está bebendo? – perguntou Fred
- Fire Whiskey.
- Uau! – disse Fred – Queremos o mesmo que ela, por favor!
- Que foi? Fire Whiskey é pra comemorar algo muito grande ou pra afogar alguma mágoa. – disse George
- Segunda opção.
- Como assim? – perguntou Fred – É o nosso amigo..?
- Não estamos mais juntos.
Rafaela contou a eles o que havia acontecido com o término do namoro e como as coisas estavam desde que isso acontecera.
- Poxa, Rafa... – disse Fred – Eu sinto muito.
- Mas pelo que eu entendi vocês não terminaram, terminaram... – disse George – Só não tem como continuarem se encontrando e, você sabe, mas não deixaram de ter alguma coisa.
- Não, isso é verdade. Mas deixar de “encontrar” está sendo um saco! Os outros em casais, duas duplas felizes quando chega o fim de semana pra poderem ficar juntos, e eu sozinha, morrendo do coração!
- Opa... Acho que você já está meio bêbada.
- Nada, só tomei uma dose...
- É o suficiente.
- Afinal, o que vocês estão fazendo aqui? – ela perguntou – Não deviam estar trabalhando na loja?
- Marcamos aqui de encontrar com o Charlie. – respondeu George
- Ainda não o vimos desde que ele chegou ao castelo. – completou Fred
A porta se abriu e os três se viraram a tempo de ver Charlie entrar no bar, seguido por Remus. Fred e George foram felizes cumprimentar o irmão mais velho, a quem não tinham a oportunidade de encontrar fazia muito tempo. Rafaela continuou sentada, agora virada na direção deles, com seu copo na mão e sorrindo um pouco constrangida. Remus passou pelos três irmãos que se cumprimentavam felizes e se sentou ao lado de Rafaela. Ela se virou novamente para o balção, ao lado dele, e tomou mais um gole de whiskey. Remus pediu um igual ao bartender e os dois se olharam. Rafaela começou a rir.
- Dizem que é o melhor remédio para disfarçar momentos constrangedores!
Remus também riu, pegando seu copo – Isso não devia ser constrangedor. Continuamos nos vendo o tempo todo no castelo.
- É, mas no castelo, não em um bar tomando whiskey.
Remus riu e levou o copo à boca, mas imediatamente Rafaela arregalou os olhos e arrancou o copo de suas mãos.
- O que foi isso?! – ele perguntou, assustado
- Você está doido, não pode tomar isso! Pelas minhas contas ontem você começou a tomar a poção Wolfsbane?
Remus, limpando o whiskey que caíra em seu casaco, ergueu as sobrancelhas, impressionado – Você sabe o dia em que eu começo a tomar a poção?
- Ah... – Rafaela gaguejou – Sei. E você não deveria beber no primeiro dia da lua cheia.
Ela colocou o copo de Remus no balcão e olhou para a frente, constrangida.
- Isso é muito sensível da sua parte...
- Nem tanto. – ela disse e o olhou – É isso que namoradas fazem.
Imediatamente, Charlie se juntou a eles, acompanhado por Fred e George. Remus ficou olhando sem reação para Rafaela. Depois de mais alguns minutos de conversa com todos, Remus se levantou, pedindo licença.
- Bom, então até a próxima. Devo vê-los em sete ou oito dias.
Todos o cumprimentaram apertando sua mão, e Rafaela fez o mesmo.
- Se cuida...
- Pode deixar.
* * *
Quase sem tempo para levar uma vida pessoal, passaram por aquele mês sem perceber. O clima começava a ficar mais tenso, porque quanto mais aprendiam a lidar com as artes das trevas, mais ficava claro o que teriam que enfrentar.
Ginny teve uma gripe muito séria que não passava com poções comuns, e Hermione e Rafaela, aproveitando para treinar suas habilidades com poções, fizeram uma que demorou uma semana para ficar pronta. Ginny teve aulas teóricas de medicina na própria ala hospitalar, com a professora e Hermione com máscaras especiais para não se infectar. Harry queria muito ficar com ela durante aqueles dias, mas não podia chegar muito perto, mesmo com a mascara. Ficaram morrendo de saudades um do outro. Em dois dias tomando colheres da poção a cada duas horas, Ginny se recuperou e Rafaela e Hermione foram elogiadas pela poção perfeita.
Estavam quase no final de outubro. Completamente integrados com os horários, o vira-tempo e as aulas, os cinco alunos estavam cada vez melhores. Aos poucos, Harry e Ronald melhoraram muito em Defesa Contra as Artes das Trevas, para a satisfação se Remus e Snape, que aumentaram a intensidade das aulas.
Rafaela, entre os cinco, era a que sempre estava mais exausta, pois era a única que tinha quatro tipos de aulas diferentes, enquanto todos os outros tinham apenas três, mas ela adorava isso. Queria se provar para si mesma e ficar sem tempo para pensar em nada mais, para não pensar demais em Remus e na vontade que tinha de estar com ele. Encontra-lo todos os dias nas aulas normais e especiais tornara-se normal, e em alguns momentos ele realmente parecia apenas seu professor. Era como se seu professor e seu suposto namorado fossem dois homens diferentes, e era do namorado que ela sentia falta.
A relação professores e alunos estava cada vez melhor. Chamavam-se pelo primeiro nome, inclusive o diretor Albus, brincavam e riam juntos nos tempos livres de horários de lanche, intervalos de aulas e fim de tarde. Apenas Snape continuava sendo chamado e chamando a todos pelo sobrenome, mas estava bem menos azedo do que sempre fora.. Ainda era muito rígido, mas parecia entender melhor aos alunos, e de vez em quando sorria, ainda assim sem mostrar os dentes. Todos os professores estavam muito contentes com seus alunos. Eram todos ótimos aprendizes, bruxos talentosíssimos que teriam brilhantes futuros pela frente.