Capítulo Quatro - Animagus
Durante o próximo café da manhã que tomaram no salão principal, junto com todos os outros colegas do castelo, o Correio chegou na forma de dezenas de corujas que entraram pelas janelas mais altas. Quase todos os alunos receberam cópias do Daily Prophet e cartas e pacotes vindos de casa. Rafaela reconheceu Panther de longe, e ele pousou suavemente á sua frente, estendendo a pata com um pequeno bilhete preso. Rafaela o retirou, fez o carinho na coruja, que bebeu um gole de suco de sua taça e saiu novamente. Era um pedaço pequeno de pergaminho com um breve recado.
“Precisamos converser. Pode vir ao meu escritório ainda durante o café da manhã?
Remus”
Rafaela olhou ansiosa para a mesa dos professores e viu Remus tomando café cabisbaixo e rapidamente. Reparou quando ele pousou a xícara de chá e se levantou, saindo do salão. Rafaela terminou sua tigela de mingau de aveia também apressadamente, inventou uma desculpa e deixou os amigos. Ao entrar na sala de Defesa Contra as Artes das trevas, certificou-se de que o corredor estava deserto. Atravessou a sala e subiu a escada que levava ao escritório. Quando se aproximava da porta, Remus a abriu. Sorriu levemente para ela e fez um gesto para que entrasse. Assim que fechou a porta, os dois se abraçaram com força e se beijaram longamente, abraçando-se novamente depois.
Rafaela o olhou, ainda de perto – Desde quando você sabe de tudo isso?
- Desde antes do jantar na casa dos Weasley. Eu queria te contar, mas não foi possível.
- Todos eles sabiam, não é? – disse Rafaela enquanto os dois se sentavam em um sofá – No jantar?
- Todos sabiam. Molly tentou fazer o jantar ser o mais normal possível... Dizendo ser um adeus à vida normal.
- Tenho certeza de que ela foi contra.
- Enfaticamente. Arthur ficou dividido, mas ela não queria que isso acontecesse em nenhuma circunstância, afinal os filhos dela estão envolvidos. Mas a maioria venceu e ela cedeu.
- E você, o que acha disso?
- Acho inevitável. A presence dos alunos na Ordem é inevitável e, na minha opinião, já devia ter acontecido a algum tempo. Acho que ainda temos bastante tempo até que aconteça, podemos nos preparar bem até lá.
- Eu também acredito nisso. Eu sei que eu, e com certeza todos os outros também, vou me dedicar muito a isso. Como Dumbledore disse, a brincadeira acabou.
- Tenho certeza que você vai. – ele disse e suspirou, segurando a mão de Rafaela – É sobre isso que precisamos conversar.
- Ah, eu estou odiando esse tom de “precisamos conversar”. – ela disse séria
- Os treinamentos, voltar no tempo todos os dias, a exaustão de dias com quase o dobro de horas e de dedicação que eu sei que você vai dedicar... E eu também, eu vou ter trabalho dobrado, ensinando as aulas normais e as aulas especiais, reuniões e planejamentos com a Ordem, e tudo isso com apenas três semanas úteis por mês. Nós precisamos definir nossas prioridades, Rafa... E está muito claro que, agora, não somos nós.
Rafaela o olhava um pouco estupefata.
- Por favor, não me odeie. – Remus voltou a dizer – Preciso fazer isso para que as coisas deem certo.
- Você prometeu que nós estaríamos juntos. – Rafaela disse, amargurada
- E eu cumpro isso! – ele disse soando angustiado – Nós estaremos juntos, eu sempre estarei ao seu lado. E quando tudo acabar, tudo o que eu quero é viver isso que nós temos, livres, só nós dois, sem guerras ou preocupações. Mas agora é complicado demais, nós temos coisas demais pra nos preocupar!
Rafaela soltou a mão de Remus, ainda em choque.
- Nós não sabemos ao menos se haverá alguma coisa depois de tudo, Remus. Nós podemos ser mortos nessa batalha, tudo pode simplesmente acabar. Mas você está decidindo acabar isso agora, antes de tudo, quando poderíamos estar juntos, nos amar e nos apoiar. Mas você está desistindo... Eu nunca desistiria de você, mas você está desistindo de mim.
- Não! – ele disse, desesperado, pegando novamente a mão dela. Rafaela não deixou que ele a segurasse e se levantou, parando a alguns passos do sofá. Remus continuou sentado, olhando-a – Eu nunca vou desistir de você! Rafaela, eu só estou sendo razoável. Eu quero que possamos nos dedicar completamente a esse plano, para ter certeza de que haverá um amanhã! Eu quero que os treinamentos sejam perfeitos pra podermos vencer essa guerra e podermos ficar juntos! Você não entende isso?
Rafaela ficou em silêncio por alguns segundos, olhando pra ele com amargura.
- Talvez eu entenda… Um dia. Não agora. Agora, pra mim é só o meu namorado terminando comigo quando eu mais preciso dele.
Sentindo as lágrimas chegaram de repente, quis simplesmente desaparecer dali. Virou-se para a porta, mas rapidamente viu uma das janelas aberta. Sem planejar ou pensar em mais nada, foi na direção dela, correndo.
Remus, levantando-se do sofá, viu Rafaela se transformar em um pequeno beija-flor e desaparecer no céu azul.
* * *
Dumbledore retornara havia pouco tempo do café da manhã no salão principal para seu escritório. Mal chegara á sua mesa para começar o trabalho do dia quando algo em uma janela bem alta e pequena o chamou a atenção. Havia um pequeno pássaro olhando para dentro, através do vidro. Observou-o por alguns segundos, curioso, então acenou sua varinha e fez o vidro desaparecer. Imediatamente o beija-flor entrou voando.
- Ora, que novidade é essa, Rafaela?
O beija-flor deu uma volta na sala e, ao aproximar-se do chão, transformou-se na aluna. Estava descabelada e sentia seu coração batendo mais aceleradamente do que jamais sentira em sua vida. Quase sem ar e de pernas tremendo, buscou apoio na guarda da poltrona à frente da mesa. Dumbledore foi até ela e a ajudou a se sentar. Tentou falar, mas seu coração acelerado a atrapalhou.
- Acalme-se respire fundo. – disse Dumbledore – Beba essa água. – disse enchendo uma taça que estava à mesa com um toque de varinha
Rafaela quase derrubou a taça com as mãos tremulas, mas conseguiu beber. Aos poucos seu coração foi voltando ao normal e ela conseguiu respirar.
- Eu não sei como! – foi a primeira coisa que conseguiu dizer
Dumbledore sorriu de leve – É exatamente assim que a primeira tranformação, quando é natural, acontece. Me diga, você estava em um momento de emoção, bom ou ruim, não estava?
Em silêncio, ela fez que sim com a cabeça, bebendo água da taça mais uma vez.
- Isso, devo dizer, é uma supresa muito boa. Apesar de não saber exatamente quais as consequências de ser um beija-flor pode trazer à sua saúde, por causa da velocidade, batimentos cardíacos... Mas podemos dar um jeito e descobrir uma maneira para que não se sinta tão cansada após uma transformação.
Rafaela, respirando com mais facilidade, pousou a taça de água – Ótima surpresa... – ela repetiu – É. Acho que pode ser útil, não é?
- Com certeza, Rafaela, com certeza. Isso é muito bom. Vou falar com a professora McGonnagal, ela deverá começar treinamentos em animagia com você o mais breve possível. Acredito também que não devamos registrá-la. O fato de ninguém saber pode se tornar útil.
- Ok... Não pensei em nada disso, mas confio em você.
Dumbledore sorriu de leve – Agradeço por vir me procurar. Alguém mais viu essa transformação?
Rafaela pensou por um segundo – Ahm... Sim. O professor Lupin estava por perto. Ele viu.
Dumbledore a olhou por um segundo profundamente, por cima dos óculos. Porém, quando voltou a falar, tinha o mesmo tom de antes – Perfeito. Vou mencionar sua animagia hoje na reunião da Ordem. Não se preocupe com mais nada, se acalme. Acredito que esteja na hora da sua aula.
Agradecendo, Rafaela deixou o escritório, as pernas ainda um pouco bambas e a cabeça perdida com tudo o que havia acabado de acontecer. Chegou cerca de cinco minutos atrasada para a aula de Feitiços com o resto dos alunos da Gryffindor, e não conseguiu se concentrar nas lições por nenhum instante.
- Rafa! – ela ouviu Hermione gritar para ela na saída da aula – Rafaela, espera! – a alcançou no corredor cheio de alunos – Aconteceu alguma coisa?
Rafaela olhou em silêncio para Hermione, a expressão triste.
- Eu te conto depois das aulas. – ela disse em voz baixa e saiu de perto novamente
* * *
Finalmente, no sábado, depois que a primeira a exaustiva semana de aulas acabou, o grupo de alunos especiais acordou ás oito da manhã, tomou café da manhã na Sala Especial, voltou á meia-noite, teve aulas até as oito da manhã e se viram, finalmente, livres. Foram matar a fome no salão principal, junto com todos os outros alunos, alegres e cheios de energia. Apesar de estarem morrendo de vontade de ir à Hogsmeade, quase desabavam sobre as tigelas de mingau de aveia.
– Acho que devíamos falar com Fred e George e ver se eles têm alguma coisa, por debaixo dos panos, que possa nos ajudar. – sugeriu Harry
– Claro. – disse Ronald – São especialistas em coisas por baixo dos panos.
Quando saíram do castelo, Hermione e Ginny seguraram Rafaela um pouco, e as três ficaram para trás enquanto harry e Ronald caminhavam para Hogsmeade.
- Pode contar agora, não pode? – disse Hermione
- O que aconteceu, Rafa? – disse Ginny, dando o braço para a amiga
- Gente, eu deixei tão claro assim que alguma coisa aconteceu? – perguntou Rafaela
- Sim, pra nós. – disse Hermione – Os meninos não perceberam, é claro.
- Bom... É o Remus. – começou Rafaela
Resumiu a conversa que tivera com ele no dia anterior, como ele havia decidido que eles não deveriam estar juntos naquele momento, e no quanto aquilo a estava fazendo sofrer.
- Mas Rafa... – disse Hermione, depois de ouvir a tudo – Você não acha que ele...
- Ele está certo? – completou Rafaela – Você acha que é mesmo melhor não termos um ao outro enquanto tudo isso está acontecendo?
- Não exatamente! – defendeu-se Hermione – Mas o que ele disse sobre você e ele precisarem se concentrar pra fazer as coisas fun...
- Ah, não seio, Mione! Como eu mesma disse pra ele, talvez eu venha a entender, mas não agora. Não consigo enxergar. Meu namorado terminou comigo depois de quê, duas semanas juntos?
- Eu sinto muito, Rafa... – disse Ginny – Mas não sei se você realmente precisa se preocupar tanto com isso. Ele não terminou porque não gosta de você e não quer mais nada. Ele fez isso pra vocês poderem se focar nas coisas que importam agora, pra poderem ter um futuro juntos. Faz sentido, se você pensar racionalmente nisso.
Rafaela se calou, caminhando olhando para baixo. Sentiu lágrimas escorrerem silenciosas pelo rosto.
- Eu sei... – ela disse, finalmente – Eu sei, meu lado racional já estava começando a entender isso. Mas gente... Imagine se um deles – disse apontando com o queixo para harry e Ronald que caminhavam à frente delas – fizesse isso com vocês. Sabem? Vocês também não vão ter tempo pra ficar juntos e também precisam se focar, tanto quanto eu preciso, ou Remus precisa. E vocês não precisam terminar.
- Não, mas também não vamos ter tempo uns pros outros. – respondeu Ginny
- Além disso, as coisas entre você e Lupin são um pouco diferentes, não são? – disse Hermione – Nós não precisamos nos esconder. Pensa nisso, a preocupação de vocês terem que se encontrar em segredo seria só mais uma coisa pra encher a cabeça de vocês.
- É… – disse Rafaela lentamente – Vocês estão certas. Eu vou ficar bem, gente. É que aconteceu ontem, sabe... Ainda estou chocada.
- Eu sei, querida. – disse Ginny – Vocês vão ficar bem. Tenho certeza de que ele vai continuar ao seu lado de qualquer forma, como sempre esteve.
Rafaela sorriu de leve para as duas, secando o rosto – Vocês têm razão. Vou ficar bem. E vou aproveitar esse fim de semana porque, Merlin, nós merecemos!
Ao chegarem ao povoado os ânimos aumentaram consideravelmente. O bar da Madame Rosmerta já estava lotado como sempre, mas o grupo conseguiu uma pequena mesa apertada nos fundos do salão, com suas canecas de cerveja amanteigada. Rafaela segurou sua caneca no alto e interrompeu a conversa dos amigos.
– Pessoal, posso dizer uma coisa? – todos a olharam – Muito obrgada pela atenção. – disse sorrindo – Esse dia merece um brince, uma celebração, simplesmente porque estamos aqui. Sobrevivemos à primeira semana!
Todos exclamaram e brindaram com as canecas cheias. Era realmente uma vitória. Depois de beberem, sentindo-se mais leves a cada instante, saíram do bar e foram para a loja dos Weasley Fred e George. Procuravam algo que poderia ajudá-los na atual situação. Ganharam dos gêmeos um Mapa do Maroto atualizado e revisto conforme as mudanças que o próprio castelo fez em si mesmo ou que alguém tivesse feito. A principal mudança, Harry notou só de olhar para ele, eram as muitas passagens secretas que não estavam relatadas no mapa original.
– Isso é tão legal! – disse Ginny – Mas como vai nos ajudar, exatamente?
George abriu o mapa no quarto feminino do sexto ano da Gryffindor”. O mapa identificava exatamente o quarto e todas as passagens secretas que haviam nele. Ginny exclamou um palavrão.
– Nem mesmo nós sabíamos que existiam tantas passagens assim no castelo. – disse Fred
- Nós conhecíamos as que levam pra for a do castelo, ou apenas pra alguma sala onde pudéssemos nos enconder. – disse George - ,mas essas que não estavam antes no mapa são apenas dentro do castelo, elas podem te levar de um lado para o outro do castelo, de andar para andar, de quarto para quarto.
– Vai ser muito mais fácil pra vocês se encontrarem sem esbarrar em ninguém. – prosseguiu Fres – porque, se olharem com atenção, verão que há passagens em cima das camas de todos vocês. Se sabem que elas existem, fica bem fácil de abrir.
Rafaela se lembrou que sabia sobre aquelas passagens muito antes de todos eles. Era o sistema de emergência do castlo que Remus usara no semestre anterior para ir até a cama dela ampará-la. Lembrando-se de que não poderia falar sobre isso sem entregar o segredo, fingiu que também nunca ouvira falar sobre aquilo.
– Nunca vi nada tão inteligente quanto esse mapa. – disse Rafaela, olhando para o mapa por cima do ombro de Ginny – Muito bem, meninos!
– Não não o criamos, apenas o.. Aprimoramos! – disse George
- Quem criou, então? – ela perguntou
- Meu pai – disse Harry – e Sirius, Remus e Pettigrew.
- Jura? – ela perguntou olhando rapidamente para Hermione e Ginny
- Agora, gente... – disse Hermione, mudando de assunto – Desde quando vocês sabe sobre... Vocês sabem
- Nos contaram antes do ultimo jantar na Toca. – respondeu Fred – Mamãe e papai sabiam antes, e como podem imaginar, mamãe não estava feliz.
- Mas ela acabou entendendo e se convencendo de que é inevitável. – completou George
- Tão inevitável quanto a fadiga que tivemos essa semana e vamos ter cada vez mais quando os treinos se intensificarem. – disse Rafaela, tentando passar por cima da lembrança de Remus dizendo para ela que aquilo tudo era “inevitável”. – Quanto a isso, vocês sabem de algo que possa nos ajudar?
- É claro que sabemos! – disse Fred, feliz
- Aqui estpa. – disse George, tirando um frasco comprido e fino de vidro do bolso do casaco – Eu os apresento o Tumble Taurus.
- É o seguinte – Fred começou a explicar –, para cada pílula, vocês dormirão por cinco minutos. Mas esses cinco minutos vão parecer uma hora de sono. Vocês podem tomar três de uma vez e dormir por quinze minutos e acordar como se tivessem dormido por três horas.
- Perfeito para tomar entre as aulas, depois do almoço, ou a qualquer momento que puderem.
– Genial! – disse Ginny, pegando o frasco da mão do irmão – Onde arranjaram isso?
– E a gente arranja alguma coisa? – disse Fred – Nós criamos essa belezura!
– É que vocês sempre foram meio ruins em Poções. – completou Ginny
– Sempre fomos ruins com Snape. – disse George – É bem diferente.
Depois de quase uma hora decidiram deixar a loja, que já estava ficando lotada de alunos, e Fred e George não podiam mais deixar todo o antendimento nas mãos dos vendedores. Caminharam um pouco pelas ruas e sentaram-se em uma pracinha, entre árvores, em bancos de concreto. Rafaela, finalmente, contou aos amigos o que acontecera no dia anterior: sua primeira transformaçãoem animaga. Todosficaram animadíssimos e lhe deram os parabéns por descobrir um talento tão “bacana”. Rafaela, pessoalmente, não estava muito animada. A experiência havia sido assustadora, e a sensação de que seu coração ia explodir quando voltou a normal a fazia pensar bem se queria que aquilo acontecesse de novo.
- Então é um beija-flor? – perguntou Ginny – Por que acha que esse é o seu animal?
- Não tenho certeza... – respondeu Rafaela – Eu realmente gosto de música e de canto, principalmente instrumentos clássicos... Mas beija-flores não cantam, eles quase não fazem nenhum som, não sei se isso faria muito sentido... Eu também gosto de voar, não jogo Quiddich, mas amo voar de vassoura, me sinto livre.
- Nunca te vi viando. – disse Harry – Não curte Quiddich?
- Não... – Rafaela resmungou – Não gosto muito de jogos de competição.
- Aliás, Harry – disse Hermione –, já pensou sobre o time? Não acho que seria muito inteligente você manter o posto como capitão, já tem coisa demais pra você fazer esse ano.
- Eu pensei nisso... – ele respondeu, desanimado – Decidi que preciso de uma boa desculpa pra dar o cargo pra outra pessoa.
- Muita gente iria querer. – disse Ronald, tão desanimado quanto Harry ao imaginar que talvez não conseguisse conciliar as aulas e treinamentos com a posição de goleiro no time
- É? Tipo quem?
- Tipo qualquer um que é do time. Ah, e o Colin também, ele está sempre metendo o bico.
- É, acho que ele ia gostar.
* * *
Rafaela deixou Hogsmeade antes dos amigos. Eles formavam dois casais e, mesmo que não fizessem de propósito, ela acabou se sentindo bastante de fora. Não querendo atrapalhar e com a desculpa de escrever algumas cartas para a família, foi embora. Harry, Ginny, Ronald e Hermione ficaram por lá um pouco mais, tomando cervejas amanteigadas em um pub um pouco mais vazio, mas logo também voltaram ao castelo. Estavam adiando uma visita à cabana de Hagrid desde o primeiro dia de aulas.
Hagrid os recebeu um pouco mais silencioso do que o de costume. Ofereceu chá, pediu que se sentassem, porém gaguejava nas poucas palavras que falava. Parecia extremamente incomodado com alguma coisa.
– Querem mesmo saber por que estou chateado? – ele perguntou quando Harry perguntou se estava tudo bem
- Claro que sim. Você nunca nos tratou estranho assim antes.
- Querem mesmo saber? Não aguento ver vocês nessa situação!
- Como assim, nessa situação? – perguntou Ginny
- Esse horário maluco que estão sendo obrigados a fazer!
- Obrigados? – disse Harry – Peraí, Hagrid, não estamos sendo forçados a nada!
- Achei que você apoiava. – disse Hermione
- Eu estou gostando da experiência. – murmurou Ginny
Hagrid levantou-se, impaciente – Pode até ser uma boa experiência, e até divertida já que estão entre amigos – e coçou a longa barba – O problema é o porquê disso. Não entendem que estão sendo treinados para lutar contra vocês-sabem-quem? Todos na escola sabem que eu sou contra o risco que estão correndo. Todos sabemos que é questão de tempo até aquele-que-não-dizemos-o-nome chutar os portões do castelo, e vocês estão sendo seduzidos pela magia do novo, pelo sentimento de estar a frente de tudo, de ser parte de tudo. – e concluiu – Essa é a primeira vez que discordo de Dumbledore.
Após um breve momento de silêncio, Hermione respirou fundo e começou a falar – Espera um pouco, hagrid, todos sabemos que podemos confiar no Dumbledore. Não estou o defendendo ou nos exaltando, mas precisamos ser mais racionais. Se Dumbledore nos escolheu, e os professores nos escolheram, e a Ordem nos aceitou como parte deles, significa que eles sabem que estamos do lado certo e que somos realmente capazes de ser parte disso, e de vender no final. O castelo tem criaturas, professores, aliados, bruxos e bruxas incríveis. Mas se eles precisavam de um time de estudantes como nós, estão nos preparando pra isso.
– Eu sei que todos vocês têm potencial, que são capazes de vencer as criaturas das trevas numa situação assim, junto com as forças do castelo, mas...
- Eu não me importo em lutar com todas as forças que tenho para o bem. – disse Ginny
- O que é melhor? – continuou Hermione – Voltar pra casa no caso de uma invasão e ficar lá, esperando até que Voldemort bata na minha porta e faça o que ele fez com... – e baixou a cabeça – os pais do Harry, os pais do Neville, ao Sirius ou à professora Burbage?
Hagrid ficou um pouco abalado e tentou animar Hermione, dizendo que apenas se preocupava demais com eles.
– É verdade, Hagrid. – continuou Harry – Não estamos sendo forçados a nada. Tudo isso é muito importante pra nós, vamos nos acostumar logo à carga horária, e ficaremos muito orgulhosos de nós mesmos se pudermos fazer algo pra ajudar em uma emergência.
- Aprendemos muito sobre auto-defesa, Hagrid. – disse Ronald – E não é a primeira vez que vamos passar por algo assim.
* * *
O único dia de descanso passou rápido demais. Todos estavam muito cansados e, ao sair da casa de Hagrid, foram para seus quartos na torre da Gryffingor e dormiram o máximo que puderam. Ao entrar em seu quarto, Hermione viu Rafaela já dormindo. Acomodou-se e tentou não pensar em nada de muito sério, e adormeceu rapidamente, sem precisar de nenhum comprimido de Tumble Taurus. Às dez e meia acordou, chamou Rafaela e, como nenhuma colega ainda havia ido se deitar, puderam olhar bem o Mapa do Maroto – Fred e George haviam feito dois mapas, um havia ficado com Harry e Ronald e esse estava com elas, dividindo-o com Ginny – e conhecer finalmente as passagens que haviam sobre suas camas. Para quem não sabia de sua existencia, era completamente invisível, porém agora que sabiam que a entrada estava ali, era possível ver um alçapão bem descrito no teto. Um simples feitiço o abria. Rafaela e Hermione trancaram as cortinas de suas camas com um feitiço e subiram pelo alçapão. Minutos depois viram Ginny chegar pelo corredor baixo que havia sobre os quartos e, em seguida, Harry e Ronald também chegaram. Seguiram juntos, sem falar muito, por cerca de vinte minutos por descidas, estreitamentos, algumas barreiras e bifurcações, até encontrarem o final do corredor que chegava bem próximo à sala de Transfiguração. Consultando o mapa, viram que não havia ninguém por perto e, com mais um feitiço simples, abriram a passagem e saíram para o corredor. Estavam um pouco empoeirados, mas não se importaram. Chegaram adiantados á sala especial, e perceberam imediatamente o quanto aquele mapa os ajudaria na rotina de treinamentos.
A primeira aula especial, à meia-noite, foi de Defesas Especiais Gerais e, dessa vez, o professor Lupin estava presente. Rafaela não pôde deixar de dividir um olhar apreensivo com as amigas, porém respirou fundo, ciente de que nada poderia atrapalhar os treinamentos, conforme ele mesmo a havia dito. Ele mesmo pareceu um pouco desconfortável no início, porém ao perceber o esforço e o sucesso de Rafaela em passar por cima de qualquer assunto pessoal, a aula acabou fluindo muito bem. Por incrível que parecesse, os professores Lupin e Snape formaram uma boa dupla ao revisar e passar noções gerais a respeito de tudo o que era pretendido para aquelas aulas. Até mesmo um teste teórico foi passado, apenas para se ter a certeza de que todos estavam confortáveis com tudo o que já haviam aprendido anteriormente e, na segunda metade da aula, testes práticos aconteceram no grande salão ao fundo do jardim. Sem cerimônia, os alunos foram atacados pelos professores com feitiços simples, porém que se o aluno não conhecesse e soubesse lidar, seria derrubado. Os feitiços que os alunos lançavam contra Snape eram defendidos com muita facilidade por ele. Harry conseguiu acertá-lo uma vez, mas nenhum dos outros foi capaz de surpreendê-lo. Snape explicou que, constatanto aquilo, avisaria imediatamente a Dumbledore que era necessário que todos tivessem aulas de Legilimência. Harry, lembrando-se do quão horríveis eram aquelas aulas, sentiu o ânimo despencar.
Remus acertou um feitiço em Rafaela, que se deixou distrair por um segundo. Ele a olhou um pouco assustado, tentando ver se ela estava machucada. Rafaela estreitou os olhos e Lupin a viu erguer a varinha rapidamente, atacando-o. Naquele instante, ela deixara de lado os esforços para não deixar nada de pessoal ficar á frente deles. Por mais que tentasse entender os motivos da separação, ainda estava triste e com raiva dele. Remus se defendeu, mas Rafaela continuava atacando. Ninguém percebeu. Duelavam entre si e com Snape, e não viram Rafaela atacar Remus ficando mais brava a cada segundo, como se finalmente pudesse colocar seus sentimentos pra fora, e agora não queria parar mais. Remus se defendeu com calma no começo, mas começou a perceber que a força dela só aumentava. No meio do treinamento, os alunos viram Remus, cair no chão ao ser atingido por Rafaela. Ele a olhou espantado, numa mistura de admiração por ela ter duelado tão bem e de surpresa por ter sido atacado por ela. Rafaela o olhou, de longe, ofegante e com os olhos cheios de lágrimas.
Apesar desse problema, a aula correu bem e os professores os elogiaram – Snape ao máximo em que conseguira – e todos entenderam que, a partir da próxima aula, chegaria o momento de começarem a aprender mais do que imaginavam.
Quando a aula acabou, Rafaela foi a primeira a sair do salão, andando a passos longos para sumir logo de lá. Parou à mesa e pediu um copo de água gelada, que secou quase um um gole só, controlando-se. Os outros alunos entraram também e, logo depois, Remus e Snape. Ela deu as costas pra eles, eram ambos os rostos que ela menos queria ver no momento.
Os cinco alunos foram direto para a ala comunal, fechada por cortinas de veludo, com três grandes sofás, uma pequena mesa e um enorme tapete fofo. Combinaram que naquele intervalo testariam, todos juntos, os comprimidos da poção Tumble Taurus. Harry foi até o quarto masculino pegar o frasco com os comprimidos enquanto Ginny, Hermione e Rafaela pegavam alguns biscoitos e suco que estavam servidos na grande mesa, para que todos pudessem comer no conforto dos sofás antes do teste. Tomaram todos ao mesmo tempo seis comprimidos, às vinte para as quatro, de forma que dormissem durante meia hora e equivalesse a seis horas de sono.
Os comprimidos, pequenas bolinhas brancas, tinham gosto de puro açúcar. Ginny comentou que achava que aquilo não ia funcionar, de tão doces que eram. Cerca de três minutos depois de tomarem, ninguém sentia absolutamente nenhum tipo de efeito.
– Já devíamos estar com pelo menos um pouquinho de sono, não acham? – perguntou Hermione
- Eu tenho certeza que vai funcionar. – disse Harry – Fred e George podem não ter sido ótimos nas aulas do Snape, mas eles são talentosos e não brincariam com coisa séria assim.
- Também não duvido – disse Rafaela – Deve ser como injeções de pré-anestesicos dos trouxas. Quando dá o tempo, a pessoa tomba.
- Anestésico? – peguntou Ronals
- Coisa de trouxas. Eles fazer cirurgias complicadíssimas pras coisas mais simples. Não são como nós que tomamos um golinho de uma poção e estamos bem.
Antes que pudessem falar qualquer outra coisa, o tempo de espera de cinco minutos foi chegando ao fim. O sono chegou arrebentando a todos, que mal puderam pousar as taças de suco á mesa e se acomodar em uma boa posição. Dormiram sem ao menos se mover durante trinta minutos, como se não existisse mais nada no mundo além daqueles sofás. Às quatro e quinze da manhã todos acordaram ao mesmo tempo, como se um despertador tivesse tocado. Tinham a expressão e o hálito característico de quem realmente havia dormido durante seis horas, e não por apenas meia. Revigorados e felizes com o resultado dos comprimidos, todos se apressaram para se recompor antes da aula de Revisões Gerais, que começou às quatro e vinte.
Após as aulas especiais, às oito horas, o grupo utilizou as passagens secretas para voltarem aos quartos de manhã, pela primeira vez após o início daquelas aulas. Assim, puderam sair de suas camas normalmente, como se estivessem dormindo lá como qualquer aluno normal, só então foram para o salão principal, para tomar o café com os colegas. Quando o Harry e Ronald desciam as escadas do dormitório masculino de sétimo ano, encontraram Neville.
– Faz tempo que não os vejo aqui. Normalmente quando eu acordo vocês já saíram e deixaram as cortinas fechadas!
Impressionantemente dispostos, o grupo de alunos repetiu as tarefas normais diárias até o horário de descanso, às 16h. Aproveitaram o tempo para conversarem com os outros colegas de casa. Hermione e Rafaela decidiram passar pela biblioteca para mostrarem a quem estivesse lá estudando que eram pessoas normais e que não estavam sumidas. Harry encontrou Colin pelos corredores e começou a conversar com ele sobre o time da casa. Com uma empolgação enorme, Colin começou a dar várias idéias para Harry, a respeito de táticas e de novos membros para o time.
- Escuta, Colin… Por que você não fica oficialmente como capitão do time?
- Nossa, Harry, me desculpa, não quis ofender! – ele se defendeu e Harry riu
- Não, não é isso! Sério. Estou no sétimo ano, tenho NIEMs pra me preocupar, as matérias estão muito pesadas, mais do que em qualquer outro ano. Não sei se consigo continuar me focando no time, e eu não quero de jeito nenhum que a Gryffindor perca a taça desse ano. Você está sempre dando boas idéias, acho que seria um ótimo capitão. O que acha?
Colin pareceu levar um choque. Chegou a colocar a mão no peito antes de encontrar palavras para dizer que estava honradíssimo com o convite. Harry aproveitou a cena para colocar a mão sobre o ombro dele, e dizer que sabia da responsabilidade e que estava confiando nele. Inchado de orgulho, Colin prometeu fazer o time vencer o campeonato e saiu quase chorando para contar a novidade aos amigos. Harry sentiu uma ponta de tristeza ao deixar de ser o capitão do time, posto que teve tanto orgulho de ocupar, porém sabia que estava fazendo o melhor e, de qualquer forma, ainda seria o apanhador por aquele último ano.
Depois do jantar daquela noite, voltaram todos para a torre da Gryffindor e encontraram-se no corredor secreto acima das camas para usar o vira-tempo. No lanche das 18h, Dumbledore estava presente e avisou que a próxima aula atrasaria um pouco para começar, já que a professora McGonnagal estava lidando com um problema que houvera com algumas crianças do segundo ano.
– O que foi? – perguntou Harry
– nada demais, apenas uma garota que transformou o nariz da colega emu ma batata pela quarta vez desde o início do semestre.
O lanche foi posto à mesa e todos comiam calmamente. O professor Lupin se juntou a eles minutos mais tarde, e a professora McGonnagal chegou, nervosa,em seguida. Dissealgo sobre aqueles alunos serem “impossíveis” e mencionou que o trio Harry, Ronald e Hermione não ficaram para trás.
- Bem professora – disse Ronald – Você vê onde isso nos trouxe, não é?
Em instantes o clima já estava leve novamente, a professora não deixando o nervoso com os alunos atrapalhar um agradável café da tarde. Era como se não houvesse três professores entre os alunos.
Exceto por rafaela, que notava bem demais a presença de Remus. Este não a olhou nenhuma vez sequer, talvez ainda como resultado do pequeno duelo que tiveram horas antes.
– É, vocês acham engraçado, é? – disse Ronald depois de uma gargalhada que todos deram à mesa – Ver o seu ursinho se transformar em uma aranha enorme e peluda é traumatizante!
- Claro que eu sei disso! Me lembro do seu pânico quando entramos na floresta! – riu Harry
– Ah, não! – Ronald disse alto, largando seu pão de milho no prato – Nem me lembre daquela noite horrível, eu não aguento!
Harry começou os detalhes pros amigos – Eu tentando falar com o bichão e o Ron ficava me cutucando, sem voz de tanto medo. Eu estava com medo também, mas ele estava quase se borrando!
- Olha isso, que grande amigo que eu tenho! – disse olhando com ares de indignação
Entre risadas, Albus contou que quando era criança havia uma aranha imensa que vivia em seu jardim. Ele nunca ia até lá, porque também morria de medo dela.
- Ouviram isso? Até o Albus tem medo de aranhas! – ele disse apontando feliz para o diretor
- Ah, droga! – disse Rafaela audivelmente, dando um soquinho no ar – Eu não devia ser um pássaro, demais ser uma aranha! Só pra você ficar louco!
Ronald quase teve um ataque ao imaginar uma amiga simplesmente se transformando em uma aranha e todos riram muito.
- Pensa nisso, Ron! – disse Remus, entrando no assunto – Se ela é um pássaro, ela pode se livrar das aranhas pra você, comendo-as!
- Bom, algumas aves bem grandes comem outros animais também. – disse Rafaela ainda rindo e olhando para Remus
- Pelo amor de Deus! – disse Ronald, e ninguém percebeu a situação – Falem sobre outra coisa ou eu vou morrer! Literalmente, eu vou falecer, vou entrar em óbito!
- Por falar nisso – disse McGonnagal – mas sem que Ronald venha a falecer, Rafaela, precisamos começar seus treinamentos nessa semana.
- Ah... É? – ela perguntou, deixando de rir
- Não estava esperando por isso? – estranhou a professora
- Estava, claro! Estou. Só estou nervosa. Eu quase tive um ataque cardíaco na primeira vez, vocês sabem como é o coração de um beija-flor. Sinceramente, eu pensei que nunca mais ia voltar ao normal
- Isso é absolutamente normal. Com o treinamento não deverá acontecer novamente.
Passaram o resto do café da tarde discutindo os benefícios que essa animagia desconhecida por qualquer outra pessoa traria aos treinamentos. Rafaela ficou bastante incomodada. Não sabia como fizera aquilo, ninguém parecia entender o quanto assustada ela ficara e tinha medo que nunca mais conseguisse fazer aquilo, pois não sabia sequer como havia acontecido, e a situação em que estava quando aconteceu não se repetiria novamente. Trocou um olhar angustiado com Remus, antes que pudesse se conter, esquecendo que estava com raiva dele. Remus pareceu entender o que ela estava pensando, e ele mudou de assunto, dizendo que já era hora da próxima aula. Antes que todos se levantassem, porém, Dumbledore voltou a falar.
– Vejo que as jarras de suco de macâ estão vazias. Fico felizes que tenham gostado, pois era um suco muito especial. Adicionamos nele uma boa quantidade de poção Abidance – alguns se entreolharam sem entender do que se tratava. Hermione e Rafaela concordaram com a cabeça, sabendo imediatamente o que era – Como a maioria de vocês não se lembra o que é essa poção, afinal são apenas seres humanos, ela nos garante mais segurança nas nossas aulas. Essa sala já é equipada com um feitiço de segurança que vocês já conhecem, identificação e senhas. Mas, de acordo com a especialidade desse caso, depois que tomamos essa poção, inclusive eu e todos os professores, infelizmente se algum de nós não for digno de confiança e dos segredos que guardamos aqui, essa pessoa começará a se esquecer de coisas simples, como senhas, a localização da sala... Se a pessoa seguir não sendo digna de confiança, passará a se esquecer dos ensinamentos e momentos vividos aqui, até que não reste nenhuma memória desde o convite para aprender ou ensinar nesse grupo.