Setembro/Outubro de 1998.
- Aonde vai?
Harry virou-se. Estava se encaminhando para a saída do castelo quando ouviu um chamado bem familiar. Olhou Hermione se aproximar com o rosto vermelho por causa da pressa de alcançá-lo.
- Estou indo... – ele hesitou – Ver alguém.
- Quem? – ela perguntou curiosa.
Ao ver que ele não respondia, ela entendeu.
- Ah... Sim... – ela ficou envergonhada – Você não quer me contar... Eu entendo.
Harry deu-lhe um abraço consolador.
- Você volta hoje? – ela perguntou timidamente.
- Sim, Minerva só me liberou aos domingos.
- Irá sair todos os domingos? Sempre de manhã?
Ele confirmou.
- Voltarei antes que sinta minha falta.
Hermione deu um sorrisinho triste e voltou para o castelo. Voltou seu olhar para Harry e o avistou antes que desaparatasse. Suspirou cansada e resolveu passar o resto do dia na biblioteca, para terminar os deveres. Terminou poucos minutos antes de Rony aparecer e convidá-la para jantar. O ruivo parecia um pouco chateado por ela ter trocado o domingo inteiro por estudos, em vez de passá-lo ao seu lado. Ela o acompanhou até o Salão Principal, enchendo-o de beijos e carinhos, fazendo com que ele a “perdoasse” por ter passado o dia inacessível.
Quando estava conversando com Parvati sobre os rumores de uma festa no dia de Natal, Harry apareceu no salão. Parecia bastante triste e abatido. E completamente distraído.
- Olá, Harry! – Hermione chamou sua atenção, tentando animá-lo – Como foi o seu dia?
Seus olhos imensamente tristes fizeram Hermione arrepender-se de suas palavras. O moreno parecia prestes a cair no choro a qualquer momento.
- Não estou me sentindo bem... – ele disfarçou, desviando o olhar do dela – Acho que vou me deitar.
- Mas você nem comeu!
- Não estou com fome – ele falou já se levantando.
Hermione o viu se distanciar rapidamente. Deixou passar uns minutos e anunciou que iria se deitar também. Ninguém desconfiou. Em frente à escadaria de mármore, parou para pensar onde Harry se esconderia de tudo e todos. Não conseguiu pensar em nenhum lugar além da torre de Astronomia, mas pareceu muito improvável que ele fosse querer se acalmar por lá. Resolveu procurá-lo na torre da Grifinória, por fim. Subiu as intermináveis escadarias e entrou no Salão Comunal. Encaminhou-se para o dormitório masculino do sétimo ano e lá o encontrou. Tinha um choro sofrido e encolhia-se na cama, como se sua dor interna estivesse matando-o.
- Harry... – ela se aproximou rapidamente e o puxou para um abraço – Harry, o que houve?
Ele teimava em não responder.
- Harry, querido... – ela insistiu docemente – Não pode nem me contar o que machuca seu coração?
Ouviram vozes se aproximando e Harry rapidamente afastou-se dela. Ela o olhou assustada e pegou a Capa de Invisibilidade que ele sempre deixava em cima do malão. Cobriu-os rapidamente, segundos antes de Rony, Dino, Simas e Neville aparecerem no quarto.
- Ah, você que é um mau perdedor! – exclamou Dino – Rony não trapaceou porcaria nenhuma!
- Claro que ele trapaceou! – rebateu Simas – Eu estava ganhando por cem pontos! Como é que em duas jogadas ele me passa e ganha?
- Dino tem razão, Simas – comentou Rony contente. – Você é um mau perdedor.
Estavam tão animados discutindo sobre o jogo que nem perceberam a porta se abrir lentamente, abrindo caminho para por ela passarem um Harry e uma Hermione invisíveis.
- Você pensa rápido – Harry elogiou baixinho a amiga por debaixo da capa. Eles caminharam até em frente à lareira. – Vamos tirar a capa aqui mesmo. Não tem ninguém.
Ela negou com a cabeça e o puxou em direção ao seu quarto. Entraram rapidamente e despiram-se da capa.
- Aqui teremos mais privacidade – ela disse, se encaminhando para cama e o puxando pela mão.
Harry sentou ao lado dela na confortável cama. Ele ainda a olhava envergonhado pela cena que ela presenciou.
- Você precisa parar de me salvar – ele comentou brincando. – Ficarei mal-acostumado.
Ela sorriu.
- Que bom que já está melhor. Vai me contar por que estava daquele jeito?
O moreno hesitou diversas vezes antes de responder.
- Sinto falta deles... – ele evitou seu olhar novamente, passando a contemplar o céu através da janela – De meus pais... De Sirius... – ele respondeu à pergunta muda de Hermione – Sinto falta daqueles que amo... E daqueles que se foram e que eu muito gostava...
Dumbledore, Remo, Tonks, Fred e Dobby deviam estar na lista, pensou Hermione. Ela viu os olhos de Harry marejarem antes de pular em seu colo e abraçá-lo fortemente.
- Oh Harry... – ela falou consoladora, antes de se separar dele e olhá-lo nos olhos – Não fique assim. Lembre-se: eles sempre estarão com você. Sempre que quiser pode achá-los... Aqui. – ela pousou sua mão delicadamente em cima do coração de Harry.
Ele confirmou com a cabeça, ainda emocionado. Encostou sua testa à dela, fechando os olhos.
- Dumbledore me disse algo parecido antes, quando descobriu que meu patrono era a forma animaga de meu pai – ele comentou, fazendo força para não chorar novamente. – Também gostaria que ele estivesse aqui. Para me dar conselhos, me ensinar o melhor caminho... As coisas parecem tão bem agora, depois da guerra. E ao mesmo tempo, parece que tudo está fora do lugar. Sinto que estou enlouquecendo!
A moça aproximou seu nariz do dele, brincando com o rapaz. Harry sorriu, emocionado por ter alguém como Hermione em sua vida. Alguém que largava seu mundo para cuidar dele, consolá-lo e mostrar-lhe novamente o caminho. Amava-a mais do que tudo, e sentia por não ser correspondido. Sentia vontade de beijá-la, como em retribuição por seus cuidados e carinhos, e por toda sua atenção. Mas não podia. Não depois daquela promessa... Mas podia dizer-lhe o que sentia, não podia?
- Eu amo você, Mione...
Ela o olhou penosamente.
- E eu a você, Harry.
Sorriram, e o rapaz a abraçou carinhosamente. Passou um bom tempo até ele se afastar e dizer que iria dormir.
- Não quer ficar por aqui essa noite?
O moreno sentiu-se extremamente tentado a aceitar o convite. Olhou para os olhos da jovem, e só respondeu depois de ter certeza que o convite não era por pena, e sim por afeto, por necessidade de companhia.
- Está bem. Só irei ao dormitório buscar um pijama.
Hermione aproveitou a saída de Harry para trocar-se também. Deitou-se na cama poucos minutos antes de Harry abrir a porta do quarto e sair de debaixo da capa. Ele correu e deitou-se rapidamente ao lado dela.
- Ah... – ele exclamou extasiado pela maciez da cama – Que maravilha!
Hermione riu.
- Sentiu saudades?
Ele deitou-se de lado para que pudesse olhá-la melhor.
- Muitas – ele brincou.
- E de dormir comigo?
- Ué! Não era disso que você estava falando?
Hermione riu de novo.
- Seu bobo!
Tiveram uma noite calma e relaxante. No dia seguinte, Hermione reparou que ele já estava bem melhor. Mas ainda sentia-se intrigada pelo segredo do moreno. O que será que o deixara tão abalado e saudoso?
- Chega! – declarou Rony furioso, fechando o livro e assustando Harry, Hermione e Gina. – Não aguento mais nada! Juro que se ouvir mais um feitiço, vou enlouquecer!
E arrumou suas coisas, exasperado. Os três riram, mas compreendiam perfeitamente o amigo. As aulas mal haviam começado e eles já estavam atolados de deveres, principalmente Hermione, que além de ter mais matérias que os amigos e todo o esforço para se manter organizada com os deveres, estava quase tão atrasada quanto os outros três.
- Também sinto que vou explodir a qualquer momento – declarou a outra ruiva. – Preciso de água... Ou uma poção para dor de cabeça...
E saiu rapidamente, deixando seu material com Harry e Hermione. A morena deu uma risadinha.
- O que foi?
- Imaginei dois feitiços e uma poção só com a frase de Gina. – Harry riu – Acho que também estou ficando louca.
- Bem-vinda ao clube.
Ela deu um sorriso e voltou-se para o trabalho. Terminou o seu de Aritmancia antes de Harry chegar à metade do seu. Gina voltou instantes depois.
- Melhor?
- Sim, mas acho melhor irmos para a aula, antes que McGonagall nos mate.
- Tem razão. – Harry juntou seu material – Eu perdi a noção de tempo aqui.
Terminaram de arrumar tudo e saíram da biblioteca em direção à aula extra de Transfiguração, onde a professora os aguardava impaciente. Harry não a culpava: dar aula em pleno sábado para a turma mais avançada e, ao mesmo tempo, mais atrapalhada com os assuntos, devia deixar qualquer professor à beira da loucura.
- Vamos! – apressou-os – Temos muito que fazer hoje.
- Prevejo mais dois trabalhos até o fim do dia... – comentou Gina pesarosa para Harry e Hermione, que riram.
- Oh, meu Deus! Será possível que ninguém lembra que hoje é meu aniversário? – a morena falou fingindo irritação, horas mais tarde, no Salão Comunal. Rony e Gina arregalaram os olhos e voltaram-se para ela surpresos. Harry, no entanto, tinha um ligeiro sorriso nos lábios.
- Que dia é hoje? – perguntou Rony confuso.
- Dezenove de setembro, Ronald!
Rony e Gina pareciam mais surpresos ainda.
- Sinto muito, Mione! – desculpou-se a ruiva – Estive com a cabeça tão cheia essa semana, principalmente com essa aula da McGonagall, que estava perdendo o sono! Esqueci de comprar um presente, mas juro que amanhã dou uma escapulida à Hogsmeade e compro algo especial para você!
Hermione derreteu-se com o carinho da amiga. As duas se abraçaram fortemente.
- Mione... – falou Rony com cautela – Sinto muito...
Ela deu um sorriso consolador para o namorado.
- Tudo bem... Mas terá que comprar um presente para mim também! – ele riu, beijando-a docemente.
- Lamento ter que deixá-la, mas preciso acordar cedo para terminar o trabalho de Flitwick – Hermione confirmou com a cabeça antes de Rony beijá-la mais uma vez. – Amo você!
- Eu também te amo... Boa noite.
- Eu vou tentar terminar o trabalho logo! – declarou Gina, se levantando e indo até a mesa de estudo do Salão Comunal. Harry e Hermione continuaram no confortável sofá.
- Parabéns, Mione.
- Ah, cale a boca! – eles riram – Eu sei que você não esqueceu!
Ela então lhe mostrou a fina pulseira prateada em seu braço. Tinha pingentes no formato de coração, estrela, lua, sol... Delicado e simples, mas lindo.
- Como podia saber se fui eu?
- Não tinha certeza até a minha explosão de agora há pouco. Rony e Gina foram bastante convincentes quando disseram que esqueceram. Mas você não falou nada, só ficou rindo enquanto os outros dois tentavam me mimar.
Harry sorriu.
- E a pulseira não faz o tipo de Rony... – Harry fez uma careta confusa – Ah, vamos dizer que Rony não tem muito tato para me dar presente algum.
Ele riu.
- Você não. Parece que sempre sabe o que me dar.
- Comprei quando você veio me ver, no mês passado – falou de repente.
Hermione surpreendeu-se. Há muito tinham prometido não tocarem no assunto.
- Não me lembro disso.
- Comprei antes de te ver.
Ficou confusa.
- E por que não me deu na época?
Ele voltou seu olhar para ela, sorrindo.
- Porque seu aniversário é hoje.
A garota o olhou desconfiada, mesmo quando ele voltara o olhar para o fogo crepitante da lareira.
- Queria me dar naquele dia, não é? – falou séria, mas baixo para que Gina não os ouvisse – Não faria sentido algum me comprar um presente para o mês seguinte.
O rapaz voltou a sorrir e não respondeu à pergunta. Hermione notou que olhava frequentemente para o relógio no pulso.
- Esperando alguém?
- Sim.
No minuto seguinte, Monstro apareceu na frente dos dois, dirigindo-se a Harry.
- Já posso trazer, Sr. Potter? – perguntou animado.
Harry confirmou, sorridente. Monstro sumiu num estalo no instante que o rapaz voltava o olhar para a moça.
- O que está aprontando, Harry? – perguntou cautelosa.
- Surpresa!
Monstro reapareceu, trazendo consigo um mini-bolo de chocolate numa bandeja colorida. Hermione ficou com água na boca ao ver a cobertura do bolo. Harry sorriu e conjurou uma única vela, no formato de um “19”. A garota só faltou pular de alegria.
- Gina, venha aqui! – Harry chamou.
A ruiva voltou ao sofá com os amigos e também se animou com o doce. Começou a entoar um “parabéns pra você”, e Harry e Monstro a acompanharam. A morena ficou com os olhos marejados.
- Seus bobos! – falou enxugando uma lágrima – Como ousam mexer comigo desse jeito?
- Ei, a ideia foi dele! – protestou Gina, brincalhona.
- Você sabia disso?
- Não.
Hermione riu, olhando encantada para Harry.
- Obrigada...
- Por nada. Agora coma um pedaço – falou apontando para o bolo. – E você também, Gina.
Os quatro se serviram do pequeno doce e logo o elfo partiu de volta para as cozinhas. Gina sorria bobamente, provavelmente efeito do doce, Harry pensou. A ruiva deu boa-noite aos amigos, um abraço apertado em Hermione e subiu as escadas do dormitório feminino, esquecendo-se completamente de seu trabalho, ainda em cima da mesa. Harry riu.
- Achei que ainda estavam brigados – Hermione comentou.
- Tecnicamente, foi ela quem ficou chateada. Mas não se preocupe! – ele afirmou antes que a amiga protestasse – Não pretendo ficar sem falar com ela mais tempo.
Hermione sorriu, mais aliviada.
- E agora... – falou misterioso – O seu presente de aniversário!
E tirou do casaco um embrulho retangular e bem-feito.
- Mais um? Mas Harry...
- Nem ouse. – cortou – Abra.
- Um livro? – comentou brincalhona – Por que não estou surpresa?
- Ah, cale a boca! Abra logo.
Hermione abriu o pacote rapidamente e se surpreendeu.
- Ficção? – comentou verificando cada detalhe do livro, e já abrindo as primeiras páginas – Foge um pouco à regra, não?
- Que regra?
- Bom, você só me dava livros da escola, ou que tinham alguma coisa relacionada aos estudos.
Harry sorriu.
- Achei que ia gostar deste. É um romance.
- O outro lado da meia-noite... – leu o título – Por Sidney Sheldon.
- Dizem que é muito bom.
Ela riu.
- Vou confiar em você... – riram – Mas agora vou me deitar também, ok?
O moreno apenas confirmou com a cabeça. Hermione lhe deu um beijo na bochecha e despediu-se. Harry passou a mão bobamente no rosto, no lugar que a amiga o beijara, no instante que ela subiu as escadas.
Jogada no confortável sofá do salão comunal, de olhos fechados e com as pernas no braço do móvel, Gina Weasley apenas queria um momento de descanso antes de voltar para os pesados livros que ainda tinha que estudar. Já passava das nove da noite, e a maioria dos estudantes já havia se rendido ao seu precioso sono. Apenas ela, Rony e Hermione resistiam bravamente. Harry sumira o dia inteiro.
- Onde você estava? – ouviu Rony perguntar.
- Por aí... – era a voz de Harry. Lembrou-se que era domingo e que ele provavelmente sumira novamente, como todos os domingos.
- Aonde você vai? – dessa vez foi Hermione.
- Pegar meus livros. Também estou atrasado nos deveres, lembra?
E ouviu passos se distanciando. A ruiva bufou, contrariada.
- Quando acham que ele vai contar alguma coisa?
- Nunca – Rony e Hermione responderam juntos.
Harry voltou pouco depois. Gina achou que já havia descansado demais para quem também estava com os deveres acumulando. Sentou-se à mesa com os outros três, esforçando-se para não olhar para o moreno a todo instante. Percebeu os olhos dele marejados, mas não falou nada. Suspeitou que Hermione também notara aqueles olhos vermelhos, mas a moça teve tato o suficiente para ficar calada. Ficaram as três horas seguintes discutindo e debatendo-se sobre o complicado dever de Transfiguração, o exaustivo trabalho de Feitiços e o monótono dever de Poções. Hermione terminou primeiro, guardando logo suas coisas e dando um beijo de boa-noite em cada um, demorando-se mais em Rony. Gina percebeu Harry desviar o olhar dos dois.
Rony não havia terminado ainda, mas foi o segundo a partir, prometendo terminar na hora do almoço do dia seguinte. Gina duvidava muito daquela promessa...
- Quando voltará a falar comigo? – Harry perguntou, distraído em seu dever.
- Quando eu tiver vontade – respondeu seca.
Ouviu Harry rir baixinho. Os constantes movimentos dele chamaram sua atenção. Ele fechava os livros com calma, mas não parecia estar guardando-os. Surpreendeu-a quando ele se levantou e ofereceu uma mão a ela. Olhou-o desconfiada.
- Aceita uma dança?
- Não há música.
- Use a imaginação, Weasley. – ele brincou – Juro que não dói.
Ela lhe lançou um olhar carregado de ódio. Não pareceu afetá-lo nem um pouco. Pelo contrário, ele desistiu de esperar e a puxou da mesa, abraçando-a afetuosamente.
- O que está fazendo? – perguntou quando ele passou a mover-se lentamente, com ela em seus braços.
- Não me ouviu dizer que iríamos dançar?
Gina suspirou, tentando render-se àquele momento de calma e profundo relaxamento. Mas estar de volta aos braços dele era complicado... Principalmente depois de sua última “conversa”.
- Por que está fazendo isso?
- Porque precisamos conversar, e você sabe disso.
Sim, ela sabia. Mas não significava que queria ter aquela conversa.
- Não gosto de estar brigado com você. – ele disse calmamente, confortando-a. Gina permitiu-se encostar a cabeça no peito do rapaz.
- Nem eu – confessou.
- Você se tornou especial demais para mim, Gina... Não posso viver sem você.
- Deixou-me acreditar que iríamos ficar juntos – respondeu amarga. – Fez com que eu criasse ilusões a respeito de nós dois.
- Eu sei. E sinto muito por isso. Mas o que aconteceu... Não foi porque eu quis.
- Você se apaixonou por outra – encarou-o nos olhos. Os verdes pareciam temerosos pelo que ela podia falar. – Como espera que eu perdoe isso?
- Porque você também se apaixonou...
Gina engoliu em seco. Não, não havia chance alguma de ele saber. Ela sempre fora discreta. Sempre.
- Não é verdade.
- É sim – rebateu. – Eu conheço você. Conheço seu olhar apaixonado. E eu sei que não o dirige mais a mim.
Seus lábios tremeram, nervosos. Sentiu o corpo inteiro tremer de expectativa. Harry voltou a dançar lentamente, puxando-a consigo, mas sem desviar o olhar.
- Conheço você desde pequena – ele deu um pequeno sorriso. – Não profundamente, como o fiz há dois anos. Mas mesmo assim conheço. Sempre gostei muito de você. Sabe disso, não é? – ela confirmou – Você sempre foi a caçula da família, a única menina. Sempre quis sair das sombras dos irmãos. Esperta, dedicada, decidida. Sempre te admirei...
Ele hesitou, desviando o olhar por alguns segundos.
- Quando começamos a namorar, eu achei que não poderia ficar mais feliz! – ele deu um sorriso bobo, fazendo-a sorrir também – Você se mostrou de um jeito que eu nunca imaginei que fazia parte de você. Adorei te conhecer ainda mais profundamente.
Gina finalmente desviou o olhar do dele, balançando a cabeça em negativa.
- Onde está querendo chegar, Harry?
O rapaz suspirou, como quem toma coragem para falar algo difícil. A garota sentiu o coração bater com bastante intensidade.
- O que quero dizer é que adorei conhecer a sua infância, sendo seu amigo. Adorei conhecer seu lado romântico, sendo seu namorado. Gostaria de te conhecer muito mais, mas como um irmão...
Ela sentiu um calafrio percorrer seu corpo. Não sabia se estava pronta para aquilo.
- Não sei se consigo. Tudo o que aconteceu entre a gente...
- Foi incrível! – ele a interrompeu, surprendendo-a em como completara sua frase. – Foi maravilhoso, Gina, e eu não vou negar para você. Mas não estamos mais apaixonados um pelo outro. Você sabe que não.
Olhou para ele, vendo a sinceridade em seus olhos. Sentiu os seus marejarem.
- Ele foi um monstro... – tentou manter firmeza na voz, mas era difícil falar dele – Por tanto tempo... Eu não posso gostar dele.
- Ele mudou. Todo mundo percebeu. – ele lhe sorriu, consolador – Se ele não tivesse mudado, se não tivesse um mínimo de bondade dentro dele, eu sei que você não se apaixonaria.
Uma lágrima teimosa caiu em seu rosto. Harry limpou-a carinhosamente e a abraçou apertado. Gina retribuiu na mesma intensidade.
- Eu sei como é... – ele sussurrou em seu ouvido – Eu sei como é se apaixonar pela pessoa errada...
Era verdade, ele sabia. Melhor do que ela. Melhor do que ninguém... É doloroso apaixonar-se por um inimigo, e Gina remoía esse sentimento dia após dia, evitando-o, escondendo-o.
Mas e quanto a se apaixonar pela melhor amiga? Principalmente quando ela também está apaixonada, mas por outro homem? Deixou algumas lágrimas saírem, sofrendo por ela mesma e por Harry.
- Você a ama?
Ele quase não ouviu. Afastou-se dela devagar, voltando a olhar para os seus molhados olhos castanhos. Harry parecia nervoso.
- Tanto que chega a doer às vezes.
- Diga... – implorou.
Sentiu-o tremer. Olhou seus olhos fixamente, e enquanto dizia, Harry não desviou o olhar nem por um segundo.
- Eu a amo. Mais do que tudo. Mais do que a minha própria vida. – ele respirou fundo – Sou apaixonado por Hermione Granger... E tenho certeza que ela é a mulher da minha vida.
Harry enxugou mais uma lágrima no rosto de Gina. A moça estava emocionada com a declaração do rapaz. Lamentava por os dois não estarem mais apaixonados um pelo outro. Talvez formassem um lindo casal.
- Então tem a minha bênção.
- O que disse? – ele parecia confuso.
- Eu disse... – ela respirou fundo, tentando manter a voz o mais firme possível – Eu disse, que como uma irmã caçula que você nunca teve, eu abençoo você... – ele deu um pequeno sorriso – Tem a minha bênção, Harry. Abençoo seu amor por nossa melhor amiga, e rezo para que, algum dia, vocês tenham a chance que merecem.
- E Rony? – ele perguntou cauteloso.
- Rony não a merece – o rapaz não pôde deixar de notar um toque de amargura em sua voz. – Nunca a mereceu. Quero o melhor para minha amiga e... E sei que o melhor é você.
Harry abriu mais o sorriso, aparentando também estar emocionado. Abraçou-a com força, dando um beijo carinhoso em sua face. Segurou o rosto dela com as duas mãos e proferiu docemente:
-Também abençoo seu amor, minha irmã caçula. – ela deu um riso tímido – Que você e Draco também tenham sua chance. E que sejam felizes.
Ela voltou a abraçá-lo.
- Ou eu mato aquele filho-da...
- Harry! – protestou, tentando controlar o riso. Harry sorriu também, e voltou ao abraço.
Hermione olhava aquela cena a uma curta distância, satisfeita pelo bem-sucedido feitiço de desilusão. Emocionou-se quando Harry e Gina finalmente fizeram as pazes, depois de quase três semanas sem se falarem. Não que fosse a vontade dele, mas Gina fizera de tudo para manter-se afastada do trio o máximo de tempo possível, principalmente do moreno, ainda magoada por Harry tê-la “desprezado”.
A morena ficara ali por longos minutos, vendo-os dançar e conversarem abertamente. Surpreendeu-se ao ouvir Harry dizer que não estavam mais apaixonados um pelo outro, e que Gina sabia de tudo isso. Indagara-se por algum tempo, tentando adivinhar quem roubara o coração da ruiva. Mas o moreno respondera por ela: Draco Malfoy... Hermione ainda duvidava se tinha ouvido direito.
Mas, mesmo feliz pelos amigos, lamentava que os dois não ficassem juntos. Achava que formavam um lindo casal, fazendo-a lembrar-se de Tiago e Lílian Potter com bastante frequência. Lamentava por confirmar, da boca dos dois, que Harry ainda estava apaixonado por ela, Hermione... Desejava tanto que o moreno reatasse com a amiga, para que esquecesse essa paixão absurda e poderem viver sossegados...
Balançou a cabeça em negativa, chateada. Sorriu ao vê-los felizes e dançando e voltou ao seu quarto.
Os misteriosos sumiços de Harry Potter foram desvendados por Hermione quatro semanas depois da primeira saída do moreno. A essa altura todos já haviam notado a contínua ausência de Harry aos domingos; a curiosidade e preocupação da moça estavam no limite! O garoto ainda tivera mais dois acessos de tristeza depois da noite que Hermione o consolara pela primeira vez. A morena o fizera dormir com ela naquelas duas vezes, e teve que admitir que estava adorando a companhia de Harry durante as noites, fazendo com que ela o convidasse mais vezes para dormir com ela. Na quinta saída dele, ela resolveu fazer uma loucura.
- Perdoe-me Ignoto – ela segredou para a capa de invisibilidade de Harry. – Juro que é por uma boa causa. Prometo devolvê-la assim que voltar.
Saiu rapidamente do dormitório masculino, escondendo a capa por debaixo do casaco. Encontrou Rony tomando café sozinho na mesa da Grifinória. Poucos alunos tinham o hábito de acordar cedo, principalmente aos domingos, como o trio. Hermione aproximou-se do ruivo e falou apressada:
- Terei que sair. Não sei que horas voltarei. Conto com sua discrição em relação ao meu sumiço, principalmente para com os professores.
- E aonde vai? – ele perguntou confuso.
- Diria a você se soubesse.
Ela já estava se levantando com uma bolacha na boca e um pacote na bolsa quando Rony a puxou pelo braço.
- Vai atrás de Harry, não é?
- Rony, por favor! – ela estava farta dos ciúmes de Rony – Ele é meu amigo, estou preocupada com ele!
- Tudo bem – ele suspirou conformado. – Não vou negar que esses sumiços dele também me preocupam.
Hermione sorriu e deu-lhe um beijo apaixonado.
- Voltarei antes que sinta minha falta.
E saiu apressada em direção aos jardins para esperar, já invisível, pelo moreno. Não demorou cinco minutos até que ele aparecesse. Carregava um pacote pequeno e embrulhado em papel de presente infantil. Hermione já vira aquele pacote nas mãos de Harry, na última visita que fizeram à Hogsmeade. Ela até brincou com ele, perguntando se já era para o filho dele. O garoto sorriu e não respondeu, guardando o pacote na mochila que levara.
Acompanhou o moreno, discretamente, até o vilarejo bruxo. Ele pareceu hesitar por uns instantes. Olhou ao redor, como se procurasse alguém. Passou os olhos por onde Hermione estava estática. Ele abaixou a cabeça e sorriu, como se lembrasse de algo animador. Voltou a caminhar pelo vilarejo e, quando não havia ninguém por perto, Hermione aproximou-se dele com todo cuidado. Segurou delicadamente o cachecol do moreno, segundos antes do mesmo desaparatar.
Apareceram em um sítio grande e bem cuidado. Hermione tinha a vaga sensação de que já estivera ali. Seguiu Harry a uma distância segura e viu o moreno bater na porta da grande casa. Ouviu um grito em resposta e logo uma mulher extremamente familiar abriu a porta. Hermione segurou sua varinha com toda força, prestes a atacar a mulher no primeiro movimento em falso. Fez uma careta confusa quando a mulher abriu os braços e Harry deu-lhe um abraço carinhoso. Logo outra mulher apareceu e chamou o garoto para entrar. Hermione aproximou-se rapidamente, conseguindo entrar a tempo.
- Obrigada por vir, querido – falou a mulher que se parecia muito com Bellatriz. – Ele está lá em cima brincando.
E então Hermione reconheceu a mulher. Não por tê-la visto antes, mas sim pela semelhança que tinha com Bellatriz Lestrange. Aquela era Andrômeda Tonks, mãe de Ninfadora. Devia ter se lembrado que Lestrange há muito estava morta... A outra mulher Hermione teve certeza que não conhecia.
- Estamos saindo agora, – contou a mulher desconhecida – mas voltaremos por volta de meio-dia. Incomoda-se em ficar sozinho com ele?
- Claro que não! – Harry mostrou-se bastante animado – Podem demorar o quanto quiserem. Nós dois vamos nos divertir muito!
As senhoras sorriram e passaram algumas instruções ao jovem, antes de sair pela porta e deixar um Harry sonhador na sala. O garoto se encaminhou para as escadas, com Hermione em seu encalço. Ela o viu abrir a última porta do corredor, e sabia quem iria encontrar antes de vê-lo.
- Olá, Teddy! – Harry gritou animado, chamando a atenção do menino que estava no chão. O garotinho balançou os braços, animado com a visita. Ergueu os braços para o padrinho, que o levantou do chão e o carregou, dando-lhe um abraço apertado. O garotinho parecia animado com o gesto, fazendo barulhos com a boca e agitando os bracinhos ansiosamente. Harry riu e o colocou no chão novamente. – Olha o que o padrinho trouxe pra você!
O menino sorria sem parar. Harry colocou a pequena caixa na frente do bebê, que parecia admirado com a caixa nova e colorida. Teddy bateu com as duas mãos na caixa, divertindo-se com o barulho que ela fazia.
- Tudo bem, eu abro pra você.
Harry abriu o pequeno embrulho e revelou um chocalho grande e colorido. Ajudou a criança a segurar o brinquedo e divertiu-se com a agitação do afilhado. “A idade do barulho”, pensou Hermione, dividida entre a alegria e a emoção de ver Harry cuidando sozinho de uma criança. Sentiu uma grande admiração pelo moreno. Passaram quase toda a manhã ali: Harry brincando com Ted e Hermione emocionada em vê-los brincar, como se fosse uma mãe orgulhosa por seu filho e marido.
“Cuidado com os pensamentos, Hermione. Nada admira mais uma mulher do que um homem que cuida de uma criança...”.
Tratou de tirar rapidamente os pensamentos desagradáveis da cabeça, e voltou sua atenção para os meninos. Harry carregava o afilhado no colo e o levava para o andar de baixo, a fim de lhe dar algo para comer. Ambos ficaram incrivelmente sujos com a papinha que Harry deu ao pequeno, que parecia estar se divertindo muito com tudo aquilo.
- Vou me limpar, está bem? – ele falou para o bebê, que parecia entretido com a comida alaranjada que escorria de sua cadeirinha – Não saia daí, eu volto logo!
E correu para o andar superior, onde pareceu se trancar no banheiro. Hermione saiu por alguns instantes de debaixo da capa.
- Oi, Teddy... – ela falou baixinho, chamando a atenção dele – Tudo bom? É a tia Mione. Ah, querido! É tão bom te conhecer pessoalmente!
O menino a olhava atentamente, como se esperasse uma brincadeira da parte dela.
- Não trouxe nada pra você hoje... – ela tentou consolá-lo. Não que ele parecesse triste um segundo sequer – Mas prometo que na minha próxima visita lhe trago um brinquedo bastante barulhento, que não deixe sua avó dormir um instante! – ela segredou divertidamente para o menino, que riu mesmo sem entender. Hermione deu um beijo estalado na bochecha da criança e voltou para debaixo da capa.
Harry não demorou a aparecer, tirando o menino da cadeirinha, limpando-a com um aceno da varinha, e levando o bebê para um banho. O moreno apareceu no quarto de Teddy alguns minutos depois. Hermione se deliciou com aquele cheirinho de bebê limpo que Teddy exalava. Sentiu vontade de se aproximar e dar uma sonora fungada na criança, vendo-a se divertir com o barulho... Mas controlou-se. Harry enxugava, brincava e conversava com o bebê o tempo inteiro, que prestava atenção em tudo ao que o padrinho fazia.
- Agora sim! – comentou um Harry animado – Tá sequinho, cheiroso... Cadê o tio Harry, cadê? – ele escondeu o rosto atrás do macacão que segurava, saindo logo em seguida. Teddy dava gostosas gargalhadas – Achou!
Harry vestiu uma fralda e uma roupa confortável no afilhado, carregando-o logo em seguida. Hermione quase não controlou o choro com a cena que se seguiu: Harry ninando Teddy... O moreno cantava suavemente para a criança repousada em seu colo. O menino colocou a cabeça no ombro do padrinho, se acomodando. Hermione o viu bocejar diversas vezes antes de se entregar a um confortável sono no colo do rapaz.
Harry encaminhou-se para o berço, onde ajeitou o bebê com todo cuidado. Em seguida puxou uma cadeira e sentou-se próximo ao afilhado. Olhou-o fixa e carinhosamente por quase uma hora inteira, que foi quando a Sra. Tonks anunciou sua chegada. Harry deu um carinhoso beijo em Teddy antes de descer.
- Onde ele está? – perguntou Andrômeda.
- Dormindo... – Harry respondeu suavemente – Brincou tanto que não aguentou.
Ela deu um sorriso de orgulho.
- Poderia jurar que, se isso não fosse impossível, você seria o pai de Teddy, Harry! – ela o elogiou – Conhece-o tão bem... E é notável o quanto ele gosta de você!
O moreno sorriu envergonhado.
- Já tá na minha hora... – Harry comentou depois de um pouco de conversa jogada fora – Preciso fazer algumas coisas antes de voltar à Hogwarts.
A mãe de Tonks confirmou com a cabeça e foi abrir a porta para o moreno sair.
- Voltará na semana que vem? – perguntou Andrômeda.
- Claro que sim. – ele garantiu – E acho que da próxima vez trarei alguém comigo. Você se importa?
- Claro que não, querido. – tranquilizou a senhora – Pode trazer quem quiser.
Hermione ficou se perguntando quem seria essa pessoa que finalmente compartilharia do segredo de Harry. Não pôde se questionar mais. Teve que sair antes de Harry, e segui-lo de perto até ele desaparatar, o que ocorreu logo em seguida. Hermione abriu os olhos achando que estava de volta à Hogsmeade. Ficou boquiaberta com o que viu.
O cemitério.
O cemitério onde todos os mortos da última batalha foram enterrados.
Engoliu em seco e seguiu Harry, que já andava a uma longa distância. Viu que ele parou rapidamente em uma lápide, conjurou algumas flores e disse algumas palavras que Hermione não pôde ouvir. Era o túmulo de Fred Weasley. Hermione não conseguiu segurar algumas lágrimas. Então era isso que o deixava abatido todo domingo? Visitar aqueles que partiram, que morreram em seu nome para um mundo melhor? Hermione não pôde deixar de se sentir pequena perto daqueles que morreram para que o trio fosse bem-sucedido na queda de Voldemort...
Ela olhou para Harry, que estava ajoelhado e parecia falar algo para as lápides em frente a ele. Caminhou até lá, mas manteve uma distância segura. Eram os túmulos de Lupin e Tonks, e Harry lhes falava palavras doces e reconfortantes:
- Levei até um chocalho para ele hoje! – ele comentou com a voz embargada pela emoção – Ele estava tão animado hoje, Tonks! Ele me lembrou de você: sempre alegre e trapalhona. Hoje ele me sujou com a papinha... Ele achou divertido pegar a comida da colher e passar no meu rosto... – ele não pôde deixar de rir com a lembrança – O filho de vocês está sendo bem cuidado, eu garanto a vocês. Cuidarei dele até o dia em que ele poderá se cuidar sozinho. Transformarei Teddy em um homem em que sentirão orgulho de ter como filho. Ele crescerá sabendo da história de vocês, e de que vocês partiram amando-o, lutando para que ele vivesse nesse mundo tranquilo que temos hoje. Isso eu prometo a vocês...
Hermione sentiu vontade de correr até ele e pular em seu colo. De seus olhos as lágrimas já escorriam livremente. Sentia vontade de consolar e ser consolada. Harry era mesmo um homem (sim, pôde ver que ele já era um homem!) de bom caráter e grande coração. Não se esqueceu daqueles que o ajudaram. E tinha certeza que nunca iria esquecer. Seria grato para sempre...
Harry conjurou um bonito ramalhete de rosas para Tonks e outro de tulipas para Remo.
- Espero que gostem... Nunca fui bom com feitiços. Mione que sempre fez isso melhor do que eu.
Hermione sorriu com o elogio. Viu Harry se levantar e o seguiu até a saída do cemitério. Segurou novamente no cachecol de Harry segundos antes dele desaparatar e aparatar à beira mar. A garota enxugou as lágrimas que ainda estavam em seu rosto e seguiu Harry até o alto de um morro, onde Dobby jazia em paz. Ela sentiu ainda mais orgulho do homem que seguia. Ele era nobre e fiel com todos, até mesmo com a menor das criaturas, que passou por cima de todo o preconceito e refez sua vida. E que ajudou Harry quando ele mais precisou.
- Sinto sua falta, Dobby – ela o ouviu dizer. – Obrigado por tudo! Obrigado por salvar a mim e aos meus amigos, mesmo quando eu o proibi de me ajudar. Obrigado...
E então conjurou um punhado de lilases, onde deixou junto à pedra que servia de lápide.
- Descanse em paz, meu amigo.
E voltou a caminhar. Ela o viu olhar para o mar por muito tempo. Sabia que ele precisava de um tempo para controlar as emoções. E se bem o conhecia, só havia mais um lugar para ele ir. E não se enganou.
Godric`s Hallow.
Hermione sentiu o coração palpitar antes mesmo de abrir os olhos e confirmar que estavam no cemitério da cidade onde Harry nasceu. Viu o rapaz se encaminhar para a lápide mais recente do lugar. Aquela onde estavam seus pais...
Ela manteve-se à distância para que ele não ouvisse seus soluços. Mas ainda era capaz de ouvi-lo:
- Só não pude visitar Sirius, pai. – ele comentou distraído – Seria estranho pedir autorização para entrar naquela sala...
Harry conjurou alguns cravos vermelhos.
- Pra você, mamãe... – ele conjurou lírios também – E pra você, papai... Soube que eram seus favoritos, por causa da mamãe. Queria que estivessem aqui comigo... Cuidar de Teddy tem sido uma alegria e uma tristeza. Ele lembra um pouco de mim mesmo. Não tive pais por perto; eles partiram antes que eu pudesse conhecê-los. E assim está sendo com ele também. Tenho medo do dia em que ele me perguntará por que não tem pais... O que eu direi a ele? Que eles morreram por mim, para me ajudar a matar Voldemort? – ele respirou fundo – Ah, que falta que vocês me fazem!
E assim ele ficou nas duas horas seguintes: admirando os túmulos de Lílian e Tiago Potter. Aqueles que lhe deram a vida e morreram para salvá-lo. Um sacrifício que Harry nunca esqueceria. Que estaria para sempre marcado em seu coração...
Quando estava anoitecendo, Hermione o viu se levantar e caminhar sem pressa à saída do cemitério. Harry parou por um instante, que Hermione agradeceu mentalmente por ajudá-la a chegar perto dele, e disse baixinho:
- Tire a capa, minha linda... Preciso tanto de um abraço seu!
- Jura mesmo que não está chateado comigo?
Ele não pôde evitar um sorriso.
- Já disse que sim – devia ser a décima vez que respondia a essa pergunta. – Por que não tenta dormir? Temos aula logo cedo.
Harry e Hermione estavam deitados na cama da moça. Eles tiveram uma longa conversa a respeito da perseguição de Hermione. Harry lhe deixou bem claro que a curiosidade dela era uma característica que precisava ser controlada. Mas não ficara chateado com sua intromissão, isso ele jurara. Ela então lhe perguntou por que não contara antes, o que ele simplesmente respondeu com um simples “não estava preparado antes, agora estou...”.
- Deixará que eu o acompanhe no próximo domingo? – ele confirmou com a cabeça, sonolento – Inclusive para ver Teddy?
- Sim, minha princesa – ele tinha os olhos fechados. Parecia prestes a dormir – Poderá ir comigo. Podemos dormir agora?
Hermione parecia não ter aceitado o fato de que Harry não brigara com ela por algo tão sério. Ajeitou-se ao lado do moreno, ligeiramente emburrada.
- Por que essa cara feia, Mione?
- Porque acho que está com raiva de mim e não quer me dizer!
Harry chegou mais perto da morena e a abraçou de lado.
- Não estou chateado com você... – ele falou quase dormindo – Conforme-se com isso e vá dormir.
Hermione sorriu mais aliviada, e o abraçou também.
- Amo você, Harry!
- Também amo você, minha pequena. Boa noite...
- Boa noite.
Logo Hermione sentiu o moreno relaxar ao seu lado. Ela o olhou e sorriu docemente. O rapaz parecia ter um sono calmo e feliz, segundo o pequeno sorriso que havia em seus lábios. Hermione não resistiu e acariciou aquele rosto angelical por um tempo, antes de sentir o sono chegar.
- Você é um homem incrível, Harry! – ela confessou baixinho – Não sabia que tinha um coração tão grande... Ou melhor, sabia. Mas nunca tinha prestado tanta atenção... Por que eu não me apaixonei por você, hein? Você é tudo o que uma mulher poderia querer: é lindo, inteligente, corajoso, leal, amigo... Além de um ótimo padrinho! Será um pai e tanto, tenho certeza! Sorte da mulher que conquistará seu coração.
Hermione hesitou.
A mulher que conquistará seu coração...
Ela mesma.
- Ou melhor, – ela corrigiu-se – sorte da mulher que se apaixonará por você, e receber todo o seu amor em troca.
E nesse momento Hermione sentiu raiva. E inveja.
Inveja daquela que chegaria e tomaria de si seu melhor amigo, levando com ela (e quem sabe pra bem longe!) todo aquele carinho em forma de homem que Hermione tinha para si todos os dias. E raiva por ser a garota por quem Harry se apaixonara. Raiva porque também não o amava do mesmo modo.
Optou por uma segunda loucura naquele mesmo dia: beijou-o levemente nos lábios.
Sorriu ao ver que ele continuava dormindo, apesar de ainda ter aquele sorriso.
Aquele seria seu segredo.
E foi dormir, com um sorriso bem grande estampado em seu rosto.
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N.A.: Capítulo bem grandão para vocês!! O capítulo que mais me deu trabalho, mas valeu a pena... Cenas H/H, Harry fazendo as pazes com a Gina, o aniversário passageiro da Mione... Eu acho que ficou bom. Espero que gostem! ^^"
Agradecimentos especiais à EnigmaticPerfection, Laauras e rosana franco, que fizeram de mim uma autora muito feliz! Obrigada por acompanharem a fic. Sugestões/reclamações são sempre bem-vindas, ok? Abraços e até o próximo capítulo (que deve vir na sexta ou sábado...)!