Julho de 1998.
Voltaram para o Largo Grimmauld em completo silêncio. E mesmo tendo passado uma semana desde aquele “incidente”, como Hermione preferia lembrar, Harry ainda não voltara a falar direito com ela. E isso estava deixando-a maluca! Passar sete longos dias ao lado de seu melhor amigo, e ao mesmo tempo longe dele, trocando apenas palavras como “bom dia” ou “boa noite” estava enlouquecendo-a.
Naquele dia resolvera chamar Rony para passar o dia com eles, na tentativa de fazer Harry voltar a falar. Seu plano, em parte, deu certo. O moreno e o ruivo passaram horas conversando no antigo quarto de Sirius, e só desceram quando Hermione gritou ao pé da escada para eles descerem e jantar.
- Vocês estão estranhos – observou Rony. – Calados... E desde que eu cheguei não trocaram uma palavra. Está tudo bem?
- Está sim, Rony. – responderam Harry e Hermione juntos. Harry continuou:
- Só tivemos um pequeno desentendimento – falou o moreno olhando para a sua comida –, mas vai passar, não se preocupe.
- Você vai ficar bem? – perguntou Rony para Hermione, quando todos terminaram de jantar e Harry dissera que iria se deitar – Quer que eu fique com você mais um pouco?
- Não se preocupe. Sério... – ela confirmou depois dele fazer uma careta duvidosa, abrindo a porta para ele – Falarei com ele daqui a pouco. Não estou mais agüentando esse silêncio!
Ele pareceu mais calmo. Deu-lhe um beijo de boa noite e saiu em direção à praça, para poder aparatar. Hermione fechou a porta e deu um longo suspiro.
- É agora, Hermione! – falou baixinho para si mesma – Você nunca foi uma covarde. É só bater naquela porta e pedir para conversar. Não deve ser tão difícil quanto está imaginando.
Subiu em direção ao antigo quarto de Sirius, agora ocupado por Harry, e hesitou várias vezes antes de bater na porta.
Do lado de dentro Harry observava o céu estrelado quando ouviu a porta bater bem baixo, como se a pessoa estivesse com medo de acordá-lo. Respirou fundo e tomou coragem de ir abrir a porta. Sentiu seu perfume antes de olhar o seu rosto:
- Hermione...
- Oi... – ela começou tímida – Acordei você?
- Não. Nem deitei ainda.
- Ah, que bom. Podemos conversar?
Ele deu um pequeno sorriso e deu passagem a ela. Hermione sentou-se na cama e esperou Harry falar algo dessa vez. O moreno demorou a dizer alguma coisa, e só disse quando estava de costas para ela, voltando a ver as estrelas.
- O que quer conversar? – comentou distraído.
Sentiu Hermione se aproximar. O nervosismo da garota podia ser sentido a quilômetros. Ou podia ser só sua imaginação...
- Eu queria saber se posso ter meu amigo de volta...
Ele tentou manter a voz o mais fria possível:
- O que eu sinto não mudou.
Ela hesitou.
- Imagino que não – ela respondeu baixo.
- Não quero ter que esconder isso, muito menos de você.
- Sem problemas.
Sua voz delicada tinha um tom de súplica. A barreira que Harry havia colocado entre os dois se desfez como água. Seu coração se acelerou e antes que pudesse pensar, ele a abraçou forte. O perfume suave de Hermione o embriagava e o deixava cada vez mais apaixonado. Ele a abraçava como se daquilo dependesse sua vida. Dali não queria sair nunca mais.
- Você nunca me perdeu, Mione. Nem nunca vai perder.
Sentiu pequenos soluços em seu ombro e afastou-se para olhá-la nos olhos. Ela chorava.
- Não chore, minha pequena – ele enxugou as poucas lágrimas que havia em seu rosto. – Eu estou aqui... – ele abriu um sorriso que a fez sorrir também.
- Senti sua falta! – ela declarou.
Ele a abraçou novamente. Sussurrou no ouvido dela:
- E eu mais ainda a sua...
Um silêncio reconfortante pairou ali por um bom tempo. Hermione sentia que poderia dormir no colo de Harry e acordar com um ótimo humor pela manhã.
- Durma aqui comigo, Mione. Só esta noite...
Ela o olhou, estática. Seus olhos arregalados fizeram Harry rir alto.
- É só dormir, Granger! Não pense bobagens! (*)
Hermione deu um sorriso nervoso.
- Você tem uma memória terrível! – ela sorriu – Vou ao meu quarto me trocar e já volto, está bem?
Ele confirmou e a viu se afastar e sair do quarto. Voltou seu olhar para as estrelas e tomou um susto quando Hermione tocou seu ombro.
- Tão distraído...
Harry sorriu e puxou Hermione para mais perto dele, posicionando-a na sua frente, para que ela olhasse as mesmas estrelas que ele.
- Está vendo aquelas estrelas, quase invisíveis, lá em cima? – ela negou com a cabeça. Ele aproximou-se mais e a abraçou por trás. Segurou a mão da jovem e a ajudou a achar as respectivas estrelas – Aquelas cinco. Vê agora? – ouviu-a sorrir e confirmar – Aquela é a constelação de Cão Maior, sabia? A maior estrela, a do topo, se chama Sirius.
O sorriso de Hermione sumiu. Olhou para Harry e ele pôde ver seu olhar, dividido entre a pena e a compaixão.
- Sinto falta dele, às vezes – confessou. – Das conversas, dos conselhos que ele me dava. E quando me sinto só, gosto de olhar para aquela estrela, ou para a sua mão. É quase como se eu sentisse a presença dele.
- Espere. Minha mão?
Harry sorriu ante a confusão.
- Desculpe-me. Acho que eu não te contei. – ele segurou sua mão direita e colocou-a na altura de seus olhos – Você ficou com um machucado quase imperceptível. Foi quando Nagini nos atacou em Godric’s Hallow. Eu cuidei desse ferimento em particular, lembra? – ela confirmou – Colocando sua mão à altura da visão, a marca parece muito com a constelação de Cão Maior. – ele abaixou sua mão e colocou à disposição de Hermione – E esse sinal, no fim da sua “constelação”, parece com Sirius.
Hermione olhou para a sua mão e conseguiu ver o que Harry lhe descrevia. Sorriu, ligeiramente emocionada.
- Você me conhece melhor do que ninguém. Mais do que eu mesma, às vezes... – ele sorriu, confirmando com a cabeça – Que bom que eu faço você lembrar-se de pessoas especiais.
- Você É uma pessoa especial, Mione... – falou envergonhado – A mais especial de todas.
Foi a vez de Hermione abrir um sorriso.
- Venha... – ela o puxou em direção à cama – Vamos deitar.
Deitaram cada um de um lado da cama, e Hermione fez com que Harry ficasse deitado de lado, olhando para ela. O moreno percebeu que poderia passar o resto de sua vida olhando para aqueles brilhantes olhos castanhos, que nunca iria se cansar. Era incrivelmente simples e maravilhoso perceber os sentimentos de Hermione, todos confusos e misturados, somente olhando para seus olhos. Observou-a ficar encabulada com seu olhar, fixo e apaixonado, e então desviou os olhos com um ligeiro sorriso nos lábios.
- Acho que eu me esqueci de contar. – ele começou, voltando seu olhar para ela – Vão reabrir Hogwarts nesse outono.
- Sério? – ela comentou animada.
- Sim. Minerva me chamou para ajudar a ela e aos outros professores a reconstruírem o castelo. Ela me convenceu dizendo que com a ajuda do Mapa do Maroto, o trabalho iria ficar mais rápido. A previsão é que, com minha ajuda, as aulas comecem no primeiro dia de setembro, como todos os anos.
- Isso é maravilhoso, Harry! Quando você vai?
Ele hesitou.
- Ao amanhecer.
O sorriso sumiu do rosto de Hermione.
- E quando iria me contar? – ele a olhava nervoso. Hermione também sabia ler seu olhar – Não iria, não é?
- Não – ele confessou. – Não tive coragem. Pedi para Rony avisá-la amanhã.
- E quando voltará? – ela tentou fugir do assunto. Parecia desapontada.
- Não volto. Pelo menos não esse ano. Ficarei lá até as aulas terminarem.
- E o seu aniversário? – ele fez uma careta confusa – Eu estava organizando uma festa surpresa com toda a família Weasley e mais alguns amigos. Não acredito que não estará lá!
Harry a olhava, num misto de confusão e alegria. Então ela estava fazendo uma festa pra ele, mesmo sem se falarem? Sentiu-se extremamente mesquinho com todo aquele orgulho que sentira naqueles dias, e extremamente encantado por ter uma amiga como Hermione.
- Faltam semanas para o meu aniversário, Mione.
- Duas semanas e meia apenas – ela rebateu teimosa. – Até já escolhi o seu presente! E devo dizer que ele é lindo!
O orgulho da moça fez Harry rir. Abraçou-a forte e rolou na cama junto com ela, fazendo-a rir. Ele a colocou ao seu lado novamente, e deitou-se o mais próximo possível dela, fazendo seus narizes se roçarem. Ela brincou com o seu, num típico beijinho de esquimó. Ele sorriu e passou seu braço por cima da cintura da moça. Não queria nenhuma distância entre eles.
- Venha para a sua festa de aniversário, está bem? – ela perguntou doce, num tom que sabia que Harry nunca iria recusar – Se não vier, eu irei até Hogwarts lhe buscar!
Harry sentiu uma vontade quase incontrolável de beijá-la. Aquela proximidade e a doçura de Hermione faziam seu coração bater mais forte. Fechou os olhos e sorriu mais calmo.
- Está bem. – ele rendeu-se, divertido – Eu virei. Vai ser n’A Toca?
- Sim, lá é maior. Mesmo que não fosse, a Sra. Weasley iria me matar se não desse a ela a honra de fazer o seu bolo.
Harry sorriu e voltou a fechar os olhos. Aproveitou aquele silêncio e tentou uma maior proximidade, que Hermione permitiu, “beijando-o” mais uma vez. Estar perto dela lhe fazia bem, fazia com que tivesse vontade de se aproximar cada vez mais. Seus lábios ansiavam por um beijo...
- Já está dormindo? – ouviu-a sussurrar.
- Não tenho sono.
- E eu não quero dormir na última noite que passarei com você em semanas! Não depois de passar dias longe de você!
- Então converse comigo.
- Está bem... – silêncio – No que está pensando?
- Em você. E no porquê de não me deixar dormir.
Hermione riu.
- Engraçadinho – ele riu junto com ela. – Sério, Harry. No que está pensando?
O rapaz abriu os olhos e Hermione estremeceu com seu olhar e com a profundidade de sua voz.
- Em você... Em nós... No quanto ficamos bem juntos...
- Harry...
Ela tentou se afastar, mas Harry a impediu, trazendo-a de volta para perto.
- Não, não fique longe de mim.
Hermione hesitou, mas surpresa com a atitude do rapaz, resolveu ficar próxima dele. Estava segura quanto ao que sentia. Jamais iria se render à paixonite repentina de Harry. Viu que ele se acomodara e fechara os olhos novamente. Relaxou.
- Gosta de ficar assim, pertinho?
- Espero que seja uma pergunta retórica – Hermione riu.
- Não, não é.
- Gosto muito... – ele tinha uma voz sonhadora – Sua pele macia tocando a minha, esse seu cheiro tão doce e envolvente, sua voz macia que acalma minha alma e meu coração... Acho que eu só me sentiria mais completo com...
Harry abriu os olhos, hesitante, e viu que ela sorria.
- Você é um bobo, Potter!
- Bobo, não! – teimou – Apaixonado.
- É a mesma coisa!
Os dois riram.
- Tem razão. – ele contou – Melhor deixar de bobeira e ir dormir, Mione.
- Eu?! De bobeira? – ela indignou-se, em um ligeiro tom divertido – É você quem está se declarando!
- Sim... – ele declarou – Sou eu. E poderia fazer a noite toda se quisesse.
Ela sorriu.
- Pode parecer errado, mas acho tão fofo você me falando essas coisas bonitas! – ela finalmente confessou – Por anos ficamos só no abraço, ou na defesa mútua. Nunca falamos o que sentíamos. Não que eu achasse necessário. Mas agora... É tão bonito saber o que se passa na sua mente e no seu coração.
Harry sentiu-se incentivado a ir em frente. Passou a acariciar o rosto de Hermione, que fechou os olhos em agrado.
- Também gosto de te contar o que sinto. Sempre te contei tudo, e esconder o que há de mais especial em mim me deixou louco! Adoro estar pertinho assim de você... Já ouviu aquela música? – ele começou a cantar – Eu nunca vi um anjo assim tão perto. Não vá embora, fique um pouco mais... Vem, que a noite é uma criança. E a gente fala e dança, só nós dois. Não, não vá dormir tão cedo, que eu tenho tanto medo de acordar e não te ver nunca mais... (**)
Ela abriu um sorriso que derreteu o coração do moreno.
- Você canta tão bem!
- Obrigado. É quase assim que eu me sinto perto de você, sabia? És tão linda... Parece um anjo! Gostaria que ficasse perto de mim o tempo inteiro, pra te proteger, e ser cuidado por você. – ele engoliu em seco – E tenho medo do dia em que te perderei de vista para sempre.
- Também tenho medo de perdê-lo! – ela o abraçou forte – Amo-te tanto!
E como ele queria que esse amor fosse mais profundo, ou tão mais forte quanto o dele!
- Também amo você, Mione.
Sim, ela sabia que era mais uma declaração da parte dele, mas não se importou. Ao contrário: sorriu ao perceber que era a primeira vez que ele dizia que amava alguém... Talvez até se acostumasse com esse novo Harry atencioso e apaixonado. Pelo menos era melhor do que sua idéia de ajudá-lo a esquecer esse novo sentimento.
O garoto estava quase cochilando quando ouviu Hermione sussurrar:
- Não quero acordar e não te encontrar mais aqui.
Harry soltou-se ligeiramente dela, para que ela dormisse mais confortavelmente. Deu um carinhoso beijo em sua bochecha e falou olhando para aqueles olhos castanhos que tanto amava:
- Então não durma.
Hermione não duvidou nem por um segundo que ele estivesse falando sério. Ele iria partir, ela estando acordada ou não. E o pior é que não conseguia mais segurar o sono. Fechou os olhos e ouviu uma última frase de Harry, antes de adormecer profundamente:
- Não esqueça que eu amo você...
E Hermione não esqueceu.
Acordou com aquela frase ecoando em sua cabeça.
“Não esqueça que eu amo você...”.
Harry partira sem se despedir. Conhecia esse jeito dele e mesmo assim não conseguia se acostumar. Ele nunca gostara muito de despedidas. Preferia partir no escuro, sem se despedir de ninguém. Provavelmente para evitar algum sofrimento.
Hermione levantou da cama e esticou os braços para frente, espreguiçando-se. Olhou para a sua mão e teve vontade de chorar de saudades: Sirius não a deixaria esquecer-se de Harry...
~x~x~x~x~
N.A.: (*) Nesse trecho, Harry brinca com Hermione fazendo menção a outro acontecimento que aconteceu entre eles (a garota fica até envergonhada quando Harry a lembra disso). Se vocês, queridos leitores, quiserem uma espécie de "capítulo bônus" a respeito de tal acontecimento, eu posso escrever. Mas, particularmente, prefiro deixar quieto por enquanto. A fic tem uma ''parte 2'', e esse acontecimento aparece em mais uma lembrança do casal.
(**) Trecho retirado da música ''Quando Você Quiser'', do Bruno & Marrone. Sei que uma música brasileira não é ideal para uma fic cujos personagens são estrangeiros, mas não consegui ignorar a letra. Pareceu perfeito (pelo menos pra mim) para o momento.
Agradecimentos especiais a EnigmaticPerfection e a Melissa Hashimoto pelo comentários. Estou boba até agora (tanto que já postei quatro capítulos a mais do que o esperado para a semana)! Obrigada, de verdade. Espero que gostem do capítulo. Tomara que não esteja bobo demais (sempre tenho medo de deixar o drama "melado demais").
Próximo capítulo somente no sábado. Ou na sexta, se conseguirem me deixar "boba" de novo com os comentários, rs. Abraços!