Junho/Julho de 1998.
Abriu os olhos lentamente, a preguiça tomando conta de seu corpo instantaneamente. Deparou-se com um par de castanhos atentos e carinhosos.
- Harry? Harry, pode me ouvir?
Ele gemeu como que confirmando.
- Sente alguma dor?
Negou. Hermione sorriu mais tranquila.
- Quem é você?
O sorriso da garota murchou.
- Não se lembra de mim? – perguntou desesperada – Merlin! Será que bateu a cabeça? – ela remexeu em seus cabelos, agoniada – Não se lembra de mim, Harry? É a Mione!
- Mione? – a garganta seca o incomodava.
- Sim – falou esperançosa.
- Você não é Hermione. Minha melhor amiga é muito mais bonita que você...
Seus reflexos não foram rápidos o suficiente: Hermione deu-lhe um tapinha no ombro. Harry riu de sua indignação.
- Passou dias desacordado e ainda vem com gracinhas? Você não presta, Potter!
O rapaz ainda ria enquanto ela o ajudava a sentar-se. Sabia que por trás da pose de durona, Hermione estava mais do que aliviada ao vê-lo sorrir e brincar. A garota foi atrás de medi-bruxos instantes depois, que passaram a examinar Harry por horas. Depois de concluírem que não havia nada de errado com ele, permitiram que a jovem comunicasse os Weasleys e os deixassem visitá-lo.
- Quanto tempo dormi?
- Dois dias.
"Desde o dia do funeral", Harry pensou amargurado.
- E por que estou aqui?
- Não se lembra mesmo? – perguntou surpresa. Ele negou. – Encontrei você desmaiado na sala de Dumbledore! Se bem que desmaiado não é a palavra certa... Você parecia morto! Tentei te acordar e não consegui, me desesperei e te trouxe aqui em dois tempos! Os medi-bruxos me disseram que era cansaço emocional, depois de tudo o que aconteceu...
Harry ficou dividido entre a vergonha de tê-la deixado preocupada e o agradecimento por ter cuidado dele. Segurou a mão de Hermione carinhosamente entre as suas, tentando mostrar com aquele simples gesto o quanto era grato por tudo. Ela lhe sorriu bobamente, dando um beijo estalado em sua bochecha.
- Harry! – a Sra. Weasley apareceu no quarto, aflita, junto com o marido e metade dos filhos. Abraçou o rapaz antes que ele tivesse tempo de responder. – Meu querido! Que alívio! Você nos deixou preocupados!
- Sinto muito – falou sincero, a voz abafada pelo abraço.
- Trate de se recuperar logo, está bem? – ela o soltou, olhando-o docemente.
Harry sorriu de alívio ao vê-la bem. Sorriu ao ver todos bem, apesar de todas as lutas de alguns dias atrás. E então a enfermeira chegou e começou a reclamar da superlotação do quarto, dizendo que isso poderia fazer mal ao paciente. A pedidos de Harry, ela disse que permitia uma visita de cada vez no quarto.
A primeira pessoa que ficou ali foi Gina. Ele engoliu em seco ao ficar a sós com ela.
- Gina... Eu...
- Não precisa dizer nada. – ela sorriu gentilmente – Eu consigo reconhecer uma causa perdida.
Ela segurou as mãos dele e o olhou profundamente.
- Eu vejo como você olha para ela... Você a ama, apesar de não querer admitir isso pra ninguém. E não é um amor de amigos, de irmãos. Você a ama como um homem ama uma mulher... E eu sei que não posso competir com esse amor.
Harry deu um suspiro, entre o alívio e a pena. Gostava muito de Gina, contou para ela, mas sabia que o que sentia por Hermione era forte demais para ignorar. Ela deu um sorriso conformador e deu um beijo na bochecha do moreno.
- Nunca esquecerei você.
E então ela saiu, deixando Harry perdido em pensamentos enquanto cada membro da família Weasley entrava para cumprimentá-lo. Voltou a si quando sentiu Hermione segurando sua mão e chamando seu nome. Sorriu ao vê-la novamente.
- Que susto! – ela comentou sorridente – Pensei que teria que interná-lo de novo.
Ele sorriu e, contrariando as ordens, levantou-se e a abraçou.
- Fico tão contente em te ver bem! – comentou no ouvido dela – Se eu pudesse, saía desse lugar agora mesmo e te levava para dar um passeio, daqueles que a gente faz pra poder esquecer tudo e todos.
Ele separou-se dela e a olhou. Ela possuía uma alegria contagiante.
- Também fico muito feliz em saber que está bem. Esses dois dias foram terríveis sem você aqui. Esse hospital é muito sem-graça. Acho que vou trabalhar em um, mas que tenha uma organização mais dedicada.
- Você está aqui há dois dias inteiros?!
Ela confirmou com a cabeça e pediu para que ele não se preocupasse, que estava bem, e que valera a pena aqueles dias no hospital só para vê-lo tão disposto na sua frente. Ele sorriu e a abraçou de novo.
- Tudo bem, eu perdôo você... – ele contou e os dois caíram na gargalhada. Ele a olhou novamente. – Mas com duas condições. A primeira é que você vai voltar para casa nesse exato instante para poder dormir o sono dos merecidos. A segunda é que quando eu sair daqui, nós dois iremos sair para um lugar onde não possam nos encontrar, e iremos nos divertir como nunca, a fim de esquecer tudo e todos, que tal?
Ela abriu um sorriso que derreteu o coração de Harry. Aceitou o convite, abraçou-o e saiu do quarto. Ficou ali, com a cabeça nas nuvens, até adormecer novamente.
Andava em direção à clareira onde Voldemort se encontrava, aflito. Ficou desesperado ao perceber que seus pais haviam desaparecido. Respirou fundo diversas vezes, tentando entender o porquê de estar tão ansioso. Continuou rumando em direção ao seu fim quando ouviu um grito. Um grito que partiu seu coração.
Era Hermione.
Correu até onde Voldemort estava e o encontrou torturando sua melhor amiga.
- NÃO!
Bellatriz e outros dois comensais o agarraram por trás, impedindo-o de se aproximar de seu mestre e de Hermione.
- NÃO! – Harry gritou desesperado – O QUE PENSA QUE ESTÁ FAZENDO?
- Ora, ora, se não é Harry Potter – debochou o bruxo. – O menino que sobreviveu...
- Mione... – evitou os olhos ofídicos e olhou para os castanhos de sua amiga – Mione... Eu sinto muito...
- Deixe de bobagens, Harry – sua voz fraca o amedrontou. – Ele está me fazendo cócegas.
Voldemort se enfureceu rapidamente, lançando a maldição Cruciatus em Hermione novamente.
- Como ousa, sua fedelha de sangue-ruim?!
- DEIXE-A EM PAZ!
Voldemort virou o rosto para si novamente, um estranho sorriso em seu rosto.
- Então eu acertei ao escolhê-la, Potter? – o bruxo ria com gosto – É por ela que você mais sofre?
- Deixe-a em paz!
Sua ameaça não o intimidou. Voldemort parecia cada vez mais de bom humor.
- Que escolha lamentável, Potter! Lamentável. Você se parece tanto com seu pai... Um gosto desagradável por sangues-ruins.
- NÃO INSULTE MEUS PAIS! NEM HERMIONE! NÓS SOMOS MAIS BRUXOS QUE VOCÊ!
- Crucio! – Voldemort lançou contra Hermione novamente.
Os gritos da moça o deixavam cada vez pior.
- Pare! – lágrimas já rolavam por seu rosto. Hermione parecia prestes a desfalecer... – Por Merlin, pare! Mione...
- Crucio! – Voldemort atendeu ao seu pedido. – É, Potter... É dela seu coração. Quem diria...
- Deixe-a ir... – implorou, pouco se importando para seu orgulho. Precisava saber se Hermione estava bem, nada mais importava. – Por favor, deixe-a ir... Já tem a mim, apenas... Deixe-a ir...
- Não vou deixá-lo sozinho, Harry – ouviu a voz fraca de Hermione novamente, e seu coração pulou.
- Mione! – ele a chamou quando ela pareceu desmaiar – HERMIONE! MIONE!
Grossas lágrimas caíam de seus olhos quando Voldemort fez um aceno com a varinha, libertando-a. Hermione, porém, não se mexeu. Caiu no chão, morta.
- Mione... – parou de lutar contra os comensais e arriou no chão, uma tristeza sem fim – Por quê? Por que ela? Por que a minha Mione?
- Porque eu sabia que você viria por ela...
Rastejou até ela, abraçando seu corpo pequeno e sem vida com força.
- Mione... Minha Mione...
- HARRY! Harry, acorda!
Acordou assustado, a respiração pesada e irregular. Olhou para o lado e viu Hermione sã e salva. Fora um pesadelo...
Um terrível pesadelo.
Sentiu algo desagradável subir pela garganta. Passou direto por sua amiga e pôs todo seu jantar para fora assim que chegou ao banheiro. Enxugou a boca, fraco, e pôs as mãos no rosto, enxugando as lágrimas que escorreram enquanto dormia. Ficou envergonhado, sentindo o olhar de Hermione às suas costas.
- Pesadelo - explicou, a voz fraca.
- Você estava gritando...
- Voldemort talvez demore a me deixar em paz.
Hermione o ajudou a voltar para a cama, e Harry tremeu com seu toque delicado.
- Não vai me contar o seu sonho? – seu tom preocupado o deixou nervoso.
- Melhor não - ele forçou um sorriso. - Já passou, não é? Foi só um sonho.
- Você estava gritando - ela repetiu.
- Mas estou bem, não se preocupe. Aliás... O que está fazendo aqui? Achei que a tinha mandado para casa.
- Eu fui. Não adianta me olhar assim! – ela o cortou depois do moreno fazer uma careta desconfiada – Caso não se lembre, eu não vim te ver ontem. Passei o dia todo na cama.
- Merecia mais.
- Por quê? – protestou – Já dormi. Posso muito bem ficar aqui com você.
- Mas estava dormindo até agora há pouco.
- É claro! As noites servem para dormir, sabia? – rebateu teimosa – E você estava dormindo quando cheguei. O que esperava que eu fizesse?
Harry suspirou, derrotado. Hermione afagou seu rosto com a mão livre.
- Sei que faria o mesmo por mim.
Ele sorriu, levantando a mão da moça e depositando um beijo ali, fazendo-a corar.
- Sim, eu faria...
Hermione voltou para sua poltrona, hesitante, despertando a curiosidade do rapaz.
- O que foi?
- Me deixou preocupada. – ele a olhou confuso – “Deixe-a em paz”, “Por Merlin, pare! Mione...”, “Por favor, deixe-a ir...”. – Harry engoliu em seco – “Mione... Minha Mione...”.
Desviou o olhar do dela, fazendo-a bufar indignada. Sentiu ela se aproximar de novo, perguntando decidida:
- O que aconteceu, Harry? No seu sonho.
Hermione olhou atentamente para seu rosto, mesmo que ele não a olhasse, e se surpreendeu ao ver uma lágrima escorrer pelo rosto do rapaz.
- Harry...
- Ele a tirava de mim... Eu... – forçou-se a olhá-la, implorando para que ela o “perdoasse” – Eu não pude salvá-la...
Hermione o puxou para um abraço apertado.
- Tudo bem, esqueça. – murmurou, arrependida pela pergunta – Foi só um sonho...
No dia seguinte Harry foi liberado do hospital, depois de tanto tentar convencer os medi-bruxos de que estava bem. Arrumou-se na casa do padrinho e foi até a casa dos pais de Hermione para buscá-la para passear. Harry ficara admirado com sua beleza. Ela usava um simples vestido azul de alça, com uma fita branca na cintura, que descia até os joelhos. Estava com os cabelos castanhos e cacheados soltos, com uma tiara que dava a impressão de que eles estavam mais fofos do que já eram. Ele sorriu e ofereceu o braço para ela. Aparataram em Hogsmeade, onde se fartaram em doces e cerveja amanteigada. Depois Harry a levou para um campo no interior da Inglaterra, onde tinham acampado por alguns dias à procura das Horcruxes. Era um lugar lindo, principalmente à noite. O céu estava bastante estrelado e eles podiam ouvir o barulho de uma cachoeira à distância.
- Prometi a mim mesmo que um dia a traria aqui sem estar fugindo de ninguém.
Ele estava nervoso, mais do que disposto a arriscar sua idéia.
- Hermione, eu a trouxe aqui porque precisava te dizer uma coisa...
Ela virou-se para ele e segurou suas mãos, percebendo o quanto ele estava aflito.
- O que houve, Harry? Está tremendo!
- Mione, há algum tempo que eu guardo um segredo comigo. Tive medo de revelá-lo para alguém, como medo de que algo ruim acontecesse. Não contei nem mesmo para o meu melhor amigo, com medo de machucar seus sentimentos. Mas eu não estou mais agüentando...
Ele estava começando a ficar desesperado. Hermione tentou acalmá-lo, mas foi quase inútil.
- Não vou conseguir me acalmar, Mione. Não antes de fazer o que vim fazer aqui. Mas quero que você saiba que eu tentei controlar isso até onde pude. Mas agora estou deixando tudo por conta do destino...
Ele a puxou para perto com cautela. Foi se aproximando do rosto dela com calma e medo de que ela o rejeitasse no mesmo segundo. Ao ver que ela o encarava confusa, ele acariciou o rosto dela e finalmente a beijou, sabendo que a partir daquele momento seus sentimentos nunca mais seriam os mesmos. Beijou-a do jeito que nunca beijara ninguém, porque sabia que com ela era diferente. Porque com ela era especial... E sempre seria assim...