Junho de 1998.
- Estou devolvendo a Varinha das Varinhas – comunicou ele a Dumbledore, que o contemplava com enorme afeição e admiração – ao lugar de onde veio. Ela pode continuar lá. Se eu morrer de morte natural como Ignoto, o seu poder será rompido, não é? O senhor anterior nunca foi vencido. E será o fim dela.
Dumbledore assentiu. Eles sorriram um para o outro.
- Você tem certeza? – perguntou Rony. Havia um levíssimo vestígio de desejo em sua voz ao olhar para a Varinha das Varinhas.
- Acho que Harry está certo – disse Hermione em voz baixa.
- A varinha não vale a confusão que provoca – respondeu Harry. – Sinceramente – deu as costas aos retratos, pensando na cama de dossel à sua espera na Torre da Grifinória, e imaginando se Monstro lhe levaria um sanduíche lá em cima –, já tive problemas suficientes para a vida inteira. (*)
Foi acompanhado até o quase intacto Salão Comunal da Grifinória e despediu-se de seus amigos antes de subir a escadaria até o dormitório masculino.
Acordou com o estômago reclamando de fome e resolvera levantar-se de uma vez. Encontrou roupas limpas ao lado da cama e as pegou, satisfeito por finalmente não vestir uma das poucas mudas que usara durante todo aquele ano. Olhou para o lado e viu que Rony ainda dormia. Resolveu não incomodá-lo.
- Pensei que era o único acordado a esta hora – ele brincou.
Hermione riu.
- Acho que o cansaço ainda não me pegou por completo. Quase não dormi esta manhã.
Ela levantou seu olhar do grosso livro que lia.
- Você, no entanto, parece exausto. Por que não volta a dormir?
- Porque estou faminto – respondeu envergonhado. – Quer me fazer companhia?
- Claro, por que não?
Conversaram durante todo o destruído caminho até a cozinha, já que o Salão Principal estava um caos e sem condições de se servir comida. Encontraram poucos conhecidos no grande aposento.
- Então, como se sente? – perguntou uma tímida Hermione, depois que Harry comera tudo o que vira pela frente.
- Estranho – respondeu sincero. – Como se toda a minha vida tivesse mudado em uma noite.
Hermione riu.
- Mas mudou, não é?
- Sim, – respondeu com um sorriso – tudo mudou.
E o sorriso que ela lhe retribuíra quase o fez engasgar-se.
Passearam pelo jardim durante toda a tarde, apenas aproveitando a tranqüilidade do lugar e a companhia um do outro. Sentaram-se à margem do Lago Negro e Hermione lhe perguntou algo que parecia estar prendendo há muito tempo:
- Harry... – ela tinha a voz tímida.
- Sim?
- O que... O que aconteceu lá... Na clareira?
O garoto engoliu em seco, evitando seu olhar. Como contar que ela fora a última pessoa em que pensara antes de ''morrer''? Como dizer-lhe que ela, sua melhor amiga, o fizera perder o sono por não sair de seus pensamentos durante toda a noite? E, por que diabos, ela não saía de sua cabeça desde que se “despediram” na última madrugada?
- Eu vi meus pais... – optara por não contar o que tanto o incomodava. Hermione o olhou confusa. – A pedra estava mesmo dentro do pomo. Eu os trouxe de volta, junto com Sirius e Remo, apenas porque sabia que iria me juntar a eles pouco tempo depois.
- Mas não se juntou, não é?
- Não... Isso saiu diferente.
A garota se remexeu incomodada ao seu lado.
- E você morreu mesmo?
- Sim.
- E como voltou?
- Eu escolhi voltar – disse simplesmente.
Alguns minutos desconfortáveis se passaram antes de Hermione perguntar, inocentemente:
- Dói? Morrer?
Harry sorriu ao lembrar-se da mesma dúvida que tivera.
- Mais rápido e mais fácil do que dormir – respondera, lembrando-se do padrinho no mesmo instante.
- E como é lá?
- Branco.
- Perdão?
Harry rira de sua confusão.
- Dumbledore estava comigo. Estávamos num lugar todo branco; parecia muito com King's Cross. Ele me contou que é diferente para cada um, e disse que se eu quisesse voltar, eu poderia.
- Não seria mais fácil ter seguido em frente?
Harry notou sua voz triste.
- Seria, mas eu nunca me perdoaria se não voltasse. – ela o olhou surpresa – Descobri que tinha um assunto pendente aqui.
- Matar Voldemort?
Harry riu novamente.
- Não. Outra coisa.
Nem notou o sorriso bobo que tomara conta de seus lábios, mas Hermione notara. E ficara deveras curiosa a respeito.
- Então... – começou Harry sem-jeito – Você e Rony...?
Hermione sorriu.
- É... Talvez...
Uma curiosa sensação passou por seu estômago ao imaginar Hermione e Rony aos beijos. Tudo aquilo lhe parecia tão estranho.
- Não irão me fazer de vela de novo, não é? – ele brincou.
- Prometo que vamos nos comportar.
Harry riu. Uma risada sem emoção aos seus ouvidos. Imagens do novo casal passavam por sua mente e o deixavam deveras desconfortável.
- E você e Gina? Vão reatar o namoro?
Ele assustou-se ao constatar que não pensara na ruiva durante todo o dia. “O que há de errado comigo? Como pude esquecer-me dela?”.
- Não sei. Talvez.
- Ainda gosta muito dela, não é?
Olhou profundamente para Hermione, percebendo naquele momento o quanto era linda ao pôr-do-sol. Não sabia o que responder. Tudo aquilo estava confuso demais. Tentava enxergar Gina ali com ele, ou talvez um futuro ao lado da ruiva. Será que fariam esses passeios relaxantes e com conversas incríveis, como ele agora fazia com Hermione?
E, acima de tudo, por que tudo parecia tão diferente ao encarar essa “nova” Hermione?
- Vamos entrar – ela o despertou de seus pensamentos. – Rony e Gina já devem ter acordado.
Voltaram ao castelo, com Harry quieto e perdido na confusão que estava sua cabeça. Por que a companhia de Hermione lhe parecia melhor que a de Gina, sua suposta paixão? Pensava na ruiva com carinho e um sorriso tomava conta de seus lábios, lembrando-se dos momentos maravilhosos que passara ao lado da jovem. Mas quando pensava em Hermione... Suspirava, sorria e sentia o coração bater, com uma doce sensação de paz...
Será que...?
Não, não era possível.
Harry Potter estaria apaixonado?
Olhou para o lado e não a encontrou. Avistou-a mais à frente, correndo em direção a Rony e o abraçando fortemente, cobrindo os lábios do outro rapaz com um beijo. Harry ficara sério de repente, um monstro já conhecido revirando em suas entranhas. Olhou para Gina e percebeu que ela vira tudo.
- Vou me deitar! – decretou Rony – O dia vai ser longo amanhã.
- Vou com você.
Rony e Hermione levantaram-se do confortável sofá do Salão Comunal e despediram-se. Foram vigiados por dois pares de olhos até o momento que subiram escadas diferentes. Harry evitou o olhar de Gina, passando a olhar qualquer outro ponto.
- Boa noite! – Gina disse, depois de perceber que o moreno não lhe daria atenção. Ele suspirou, contrafeito.
- Gina, espera...
Ela parou a alguns metros dele e virou-se. Harry se intimidou com a amargura em seu olhar.
- Eu... – hesitou – Gina, eu...
Perdeu a noção de tempo ali, olhando aqueles olhos magoados e sem saber o que dizer. Pareceu passar muitos minutos até ela perceber que nada sairia da boca do rapaz. Ela deu uma risada sarcástica.
-Esqueça – falou friamente. – Foi tolice minha pensar que ainda tinha alguma chance com você.
E saiu pisando firme, deixando-o estático e decepcionado consigo mesmo.
Parou em frente à gárgula e fez a mesma pergunta de horas atrás. Ela apenas respondera um “à vontade”, e Harry passou, subindo a torta escadaria até a sala do diretor. A porta rangeu quando o garoto a abriu lentamente, procurando sinais de vida ali dentro. O escritório parecia vazio, com exceção dos inúmeros objetos de Dumbledore e os numerosos quadros de ex-diretores da escola. Caminhou até um em especial.
- Professor... – murmurou cauteloso – Professor Dumbledore?
Os olhos pequenos e azuis do ex-diretor abriram-se e fitaram curiosamente o garoto à sua frente.
- Não é tarde para estar fora da cama?
Harry deu um sorriso tímido.
- Podemos conversar?
- Claro, meu rapaz. Puxe uma cadeira para você.
Seguiu o conselho de Dumbledore, arrastando a cadeira do diretor para mais perto do quadro. Hesitou antes de começar, quase gaguejando ao tocar no assunto.
- Eu... – respirou fundo – O senhor se lembra de quando me perguntou... Quando me perguntou se eu e a Mione... Se eu e a Mione éramos namorados?
Dumbledore riu, baixinho, e confirmou com a cabeça, indicando que o rapaz continuasse.
- Pois é... Eu queria saber de onde o senhor tirou essa idéia.
- Eu tinha razão?
- Não! – respondeu apressado – Somos amigos, só isso.
- Então por que a curiosidade?
A hesitação do moreno, junto com seu rosto corado, pareceram ser o suficiente para o velho homem.
- Está apaixonado pela Srta. Granger, Harry?
O garoto hesitou novamente.
- Não sei. Quero dizer... – respirou fundo, passando as mãos pelos cabelos rebeldes. Lançou um olhar aflito para aqueles olhos azuis. – Não posso me apaixonar por ela.
Dumbledore lhe devolveu um olhar confuso.
- Ela é minha melhor amiga! – respondeu rapidamente – Ela é namorada de meu melhor amigo! Nunca daria certo entre a gente. Eles se amam, eu não posso...
O típico olhar penetrante do senhor o silenciou. Encarou-o envergonhado, pensando ter falado demais.
- Fale da Srta. Granger para mim, Harry. – o moreno o olhou, confuso – Por favor.
- Ah... Ela... – respirou fundo – Ela é minha melhor amiga. Ela sempre sabe se estou bem ou não. É impressionante, para falar a verdade! Acho que é por isso que muitas vezes evito seu olhar: porque sei que se ela olhar para mim por apenas alguns segundos, sei que meus olhos me trairão... Ela tem um jeito único, sabe? Carinhosa, dedicada. E mandona também! Até demais eu diria... Sem contar que é a garota mais inteligente que já vi!
Nem notou que tinha um bobo sorriso no rosto ao descrever Hermione. Ele parou bruscamente quando ouviu uma risadinha de Dumbledore.
- O quê?
- Ainda tem dúvidas se está apaixonado? Olhe para você: está sorrindo só ao lembrar-se dela.
Harry deu um sorriso envergonhado.
- Isso não muda o fato de que não posso me apaixonar por ela.
- Por que não?
- Porque ela ama Rony! Porque Rony a ama! E ainda tem a Gina...
- A Srta. Weasley?
- Sim... – murmurou tristemente – Ela está chateada comigo. Sabe que alguma coisa dentro de mim mudou.
Dumbledore acomodou-se melhor em sua poltrona, ajeitando seus óculos de meia-lua.
- Permita-me dar um conselho então – era tudo o que o rapaz queria ouvir. – Eu estava acordado quando você veio aqui na última madrugada e usou a Penseira. Sei que eram os pensamentos de Severo. – Harry engoliu em seco. Não gostava de lembrar-se dos planos de Dumbledore para com ele. – Você viu sua mãe, não viu?
Harry confirmou.
- Mais vezes do que esperava – confessou.
- Severo era apaixonado por sua mãe, Harry.
- Eu sei.
Dumbledore lhe deu um pequeno sorriso.
- E ele nunca contou isso a ela...
Minutos transcorreram até Harry murmurar que não entendera o que o ex-diretor queria dizer com aquilo.
- Severo nunca contou à Lílian que a amava, Harry. – começou pacientemente – Não consegue ver que tudo poderia ter sido diferente se ele o tivesse feito?
- Diferente como? Meus pais se amavam! Foram feitos um para o outro! – protestou, indignado – Não iria fazer diferença se Snape contasse algo. Mamãe e papai ainda ficariam juntos!
- E como você sabe?
Aquela pergunta calma o pegara de surpresa. Não parara pra pensar se o que dizia fazia sentido. Será que teria sido mesmo diferente se Snape falasse algo? Será que Harry existiria? E então ele entendeu.
- Não pode desistir de lutar por um amor, Harry... – Dumbledore lhe disse suavemente, ainda com aquele olhar que parecia penetrar a alma do rapaz. – Ninguém nunca sabe o dia de amanhã. Como você pode saber se está destinado a ficar com a Srta. Granger ou não? Como pode afirmar com tanta certeza que ela e o Sr. Weasley irão se amar para sempre, ter muitos filhos e morrerem velhos e juntos? Como pode saber se não tentar?
As mãos de Harry tremiam com as sábias palavras do senhor à sua frente. Não podia negar que o que Dumbledore dizia fazia sentido.
- Conheço uma frase muito boa para essa ocasião. Gostaria de ouvi-la? – Harry confirmou – “A distância entre o querer e o poder se resume a uma palavra: TENTAR”.
Tentar... Sim, tinha que tentar! Se não desse certo, paciência. Mas se desse... Harry sorriu ao imaginar como seria um beijo de Hermione... Ruborizou.
- Obrigado, professor – levantou-se e pôs a cadeira no lugar. Voltou seu olhar para o quadro. – Prometo que pensarei com cuidado.
E sorriu, tranqüilizando tanto a si mesmo quanto ao ex-diretor.
Levantou da cama com peso no coração. Aquele dia seria difícil. Olhar todas aquelas pessoas... Os que sobreviveram e os parentes dos que não resistiram... Engoliu em seco.
- Estamos atrasados – murmurou Rony da outra cama. Ele parecia estranhamente calmo, já vestido com uma roupa a rigor. Mirava os sapatos e respirava profundamente.
- Ficarei pronto em cinco minutos.
Não queria encarar os olhos do amigo. Ele era deveras parecido com Fred...
- Lembro-me de uma frase de uma poetisa cujo nome não me recordo agora... – Harry ouviu Hermione dizer, em meio às lágrimas e soluços dos demais ali presentes. – “Ausência física, ausência da voz e do cheiro, das risadas e do piscar de olhos, saudade da amizade que ficará na lembrança e em algumas fotos”. (**)
Harry olhou para o lado e encontrou Gina encarando firmemente Hermione, com os olhos marejados. A ruiva o olhou e deu um sorriso tímido, voltando a olhar para o túmulo do irmão.
- Sabe... – ele começou, falando baixo para que só Gina o ouvisse – Chorar nem sempre é sinal de fraqueza. Às vezes é sinal de que você tem sentimentos.
Gina o olhou chorosa e finalmente rendeu-se às lágrimas que tanto lutava em controlar. Harry ainda a conhecia o suficiente para saber o quanto a amiga era orgulhosa e, às vezes, ligeiramente insensível. Mas também conhecia seu interior frágil e emotivo. Ela o abraçou e juntos foram andando de túmulo em túmulo, prestando homenagens a parentes e amigos ali perdidos.
- Não quer dizer nada, Harry? – ele ouviu a Sra. Weasley dizer.
Ele engoliu em seco. Não sabia o que dizer. Nem sequer pensara em preparar um discurso. Falou a primeira e única coisa que passou pela cabeça:
- A vida me ensinou a dizer adeus às pessoas que amo, sem tirá-las do meu coração... (***)
Uma lágrima teimosa escorreu por seu rosto ao olhar os túmulos de Tonks e Lupin uma última vez.
- Você está bem?
Ele confirmou com a cabeça.
- Quer dar um passeio antes de irmos?
Harry negou.
- Não pode se esconder para sempre.
Olhou para Hermione e viu seus olhos ainda vermelhos do funeral, provavelmente não diferente dos seus. Ela segurou carinhosamente sua mão, sem desviar o olhar.
- Quer conversar?
Negou novamente.
- Harry...
- Estou bem, Hermione. – ele a cortou – Sério.
Voltou seu olhar para o castelo. Destruído. Era a única palavra que o definia perfeitamente. Tudo por causa dele...
- Harry, ninguém te culpa pelo que aconteceu – ela recomeçou, como se adivinhasse seus pensamentos. – Todos nós quisemos lutar. Ninguém se foi em vão... Todos morreram por uma causa, por um mundo melhor... Por você...
- Exatamente! – falou exasperado – Por minha causa! Você viu quantas pessoas enterramos hoje? Eu perdi a conta em vinte! Vinte pessoas, Mione! Vinte morreram por minha causa! Eu...
Calou-se, negando veementemente com a cabeça. A culpa parecia desolá-lo.
- Eu quero ficar sozinho.
E soltou a mão da moça, andando em direção ao castelo.
~x~x~x~x~x~
N.A.: (*) - Trecho retirado de Harry Potter e as Relíquias da Morte.
(**) - Frase de Martha Medeiros
(***) - Frase de Charles Chaplin
E para os futuros leitores, sejam bem-vindos. =)