VINTE E TRÊS
Coloco minha chave na fechadura e, lentamente, abro a porta do apartamento. Parece que se passaram um milhão de anos desde que estive lá da última vez e me sinto uma pessoa completamente diferente. Cresci. Ou mudei. Ou algo assim.
— Olá — digo cautelosamente no silêncio e largo minha bolsa no chão. — Tem alguém...
— Gina! — suspira Mione, surgindo pela porta da sala de estar. Está usando leggings pretas justas e segura uma moldura de retrato de brim quase pronta numa das mãos. - Ah, meu Deus! Onde você esteve? O que tem feito? Eu a vi no Morning Coffee e não pude acreditar! Tentei telefonar para lá e falar com você, mas disseram que eu precisava ter um problema financeiro. E eu disse, tudo bem, como devo investir meio milhão? Mas eles disseram que não era isso — ela interrompe. — Gina, onde você esteve? O que aconteceu?
Não respondo de imediato. Estou olhando para a pilha de cartas na mesa endereçadas a mim. Envelopes brancos, com aparência de oficiais, envelopes marrons, envelopes marcados com ameaças, "Ultimo Aviso". A pilha de cartas mais assustadora que já se viu.
Exceto que, de algum modo, elas não parecem mais tão assustadoras.
— Estava na casa de meus pais — respondo, ornando para ela. — E depois estava na televisão.
— Mas eu telefonei para seus pais! Eles disseram que não sabiam onde você estava!
— Eu sei — digo, corando levemente. — Eles estavam... me protegendo de um perseguidor. — Quando olho para ela vejo que está sem compreender nada. O que acredito ser mais do que justo. — Bem — acrescento, defensiva — deixei um recado na secretária eletrônica dizendo para você não se preocupar porque eu estava bem.
— Eu sei — reclama Mione —, mas é isto que sempre fazem nos filmes. E significa que os "do mal" te pegaram e você está com um revólver na cabeça. Honestamente, achei que estava morta! Achei que estava, bem, em algum lugar, cortada em um milhão de pedaços.
Olho para ela novamente. Não está brincando. Estava realmente preocupada. De repente sinto-me péssima. Nunca deveria ter desaparecido assim. Foi uma coisa completamente impensável, irresponsável e egoísta.
— Ah, Hermione. — Num impulso, corro para ela e a abraço com força. — Sinto muito mesmo. Nunca quis fazer você sofrer.
— Está tudo bem — diz Mione, me abraçando também. — Fiquei preocupada por um tempo, mas depois soube que você devia estar bem quando a vi na televisão. Esteve fantástica, por falar nisto.
— Verdade? — digo, com um pequeno sorriso tremulando no canto da minha boca. — Você gostou mesmo?
— Ah, sim! — diz Mione. — Muito melhor do que aquele cara, Harry Potter. Deus, ele é arrogante.
— Sim — digo após uma pequena pausa. — Sim, suponho que sim. Mas ele foi muito bom comigo afinal.
— Verdade? — diz Mione indiferente. — Bem, de qualquer modo, você estava brilhante. Quer um café?
— Adoraria — respondo e ela desaparece na cozinha.
Pego minhas cartas e contas e começo a folheá-las devagar. Numa outra época, esta pilha teria me deixado num estado de pânico total. Na verdade, elas teriam ido direto para o lixo, sem serem lidas. Mas sabe o quê? Hoje não sinto uma centelha de medo. Honestamente, como eu pude ser tão boba quanto às minhas finanças? Como pude ser tão covarde? Desta vez vou encará-las adequadamente. Vou sentar com meu talão de cheques e meu último extrato bancário e organizar metodicamente essa confusão toda.
Olhando para o punhado de envelopes na minha mão, sinto-me de repente muito adulta e responsável. Perspicaz e sensível. De agora em diante, vou organizar minha vida e manter minhas finanças em ordem. Mudei total e absolutamente minha atitude em relação a dinheiro.
Além disso...
Tudo bem, eu não ia contar isso a você. Mas Morning Coffee está me pagando fortunas. Fortunas. Você não vai acreditar, mas por cada "ligue-agora" que fizer, vou receber...
Ah, agora já estou envergonha da. Digamos que seja.., é muito. Hi-hii!
Eu simplesmente não consigo parar de rir com isso. Estou nas nuvens desde que me disseram. Portanto, agora vou poder pagar com facilidade todas essas contas. A fatura
do VISA, meu cartão da Octagon, o dinheiro que devo a Mione — tudo! Finalmente, finalmente minha vida vai ficar em ordem.
— E então, por que você desapareceu sem mais nem menos? — pergunta Mione, voltando da cozinha e me fazendo pular. — Qual foi o problema?
— Não sei exatamente — digo com um suspiro, devolvendo as cartas à mesa do hall. — Só precisei me afastar e pensar. Estava muito confusa.
— Por causa de Rony? — pergunta Mione de repente, e sinto-me enrijecer apreensiva.
— Um pouco — digo após uma pausa e engulo. — Por quê? Ele por acaso...
— Sei que você não é tão interessada em Rony — diz Mione pensativa — mas acho que ele ainda gosta muito de você. Veio até aqui umas duas noites atrás e deixou esta carta.
Ela aponta para um envelope creme grudado no espelho. Com as mãos levemente trêmulas eu o pego. Ah, Deus, o que ele diz? Hesito, depois rasgo o envelope e uma entrada de teatro cai no chão.
— A ópera! — exclama Mione, pegando-o. — Hoje! — Ela olha para mim. — Deus, que sorte que você voltou hoje, Gi.
Minha querida Ginevra. Estou lendo sem acreditar. Desculpe minha reserva não a procurando antes. Mas quanto mais o tempo passa, mais percebo o quanto gostei de nossa saída e o quanto gostaria de repetir.
Envio em anexo uma entrada para a ópera Die Meistersinger, na Opera House. Vou assistir de qualquer modo e, se você puder me acompanhar, ficarei muito feliz.
Um beijo do seu
Ronald Bilio Granger
Olho para a carta, completamente confusa. O que isto significa? Que Rony não me viu folheando seu talão de cheques, afinal? Que viu — mas decidiu me perdoar? Que ele é um completo esquizóide?
— Ah, Gi, você precisa ir! — diz Mione, lendo por cima do meu ombro. — Você precisa ir. Ele ficará arrasado se não for. Eu realmente acho que ele gosta de você.
— Não posso ir — respondo deixando a carta na mesa. — Tenho um encontro de negócios hoje à noite.
— Então tudo bem! — diz Mione. — Poderá cancelá-lo.
— Eu... eu não posso. É muito importante.
— Ah — diz Mione desapontada. — Mas e o pobre Rony? Vai ficar sentado lá, esperando você, todo ansioso...
— Vá você no meu lugar — sugiro. — Vá você.
— Verdade? — Mione faz uma careta e olha para a entrada. — Mas sinceramente... — E me olha. — Com quem é seu encontro de negócios, afinal?
— É... é com Harry Potter — digo, tentando parecer despreocupada. Mas não adianta, posso sentir meu rosto corar.
— Harry Potter? — diz Mione, pasma. — Mas o que... — Ela me olha e sua expressão lentamente se transforma. — Ah, não, Gi! Não me diga...
— E apenas um encontro de negócios — explico, evitando seu olhar. — Só isso. Dois profissionais se encontrando e falando sobre negócios. Numa... numa situação de negócios. É tudo.
E entro correndo para meu quarto.
Encontro de negócios. Roupas para um encontro de negócios. Tudo tem, vamos dar uma olhada.
Tiro todas as roupas do armário e espalho na cama. Tailleur azul, tailleur preto, tailleur rosa. Horríveis. Tailleur de riscas? Hummm. Talvez seja exagerado. Tailleur creme... tem cara de casamento. Tailleur verde... não significa má sorte ou algo assim?
— E então o que vai vestir? — pergunta Mione olhando pela porta aberta do quarto. — Vai comprar alguma coisa nova? — Seu rosto se ilumina. — Ei, vamos fazer compras?
— Compras? — digo distraída. — Hã... talvez.
Normalmente, claro, jamais recusaria um convite para ir às compras. Agarraria esta chance. Mas de algum modo hoje... Ah, não sei. Me sinto ansiosa demais para fazer compras. Muito tensa. Acho que não serei capaz de dedicar toda a minha atenção a elas.
— Gina, você me ouviu? — diz Mione surpresa. — Eu disse "Vamos fazer compras?"
— Sim, eu sei. — Olho para ela e depois pego um top preto e olho para ele criteriosamente. — Na verdade acho eu vou deixar para outro dia.
— Você quer dizer... — Mione faz uma pausa. — Quer dizer que você não quer sair para fazer compras?
— Exatamente.
Há um silêncio. Olho para Mione e a vejo me observando.
— Não entendo — diz ela, parecendo bastante aborrecida. — Por que você está agindo tão estranho?
— Não estou agindo estranho! — Encolho os ombros. — Só não estou com vontade de fazer compras.
— Ah, Deus, há algo de errado, não há? — reclama Mione gemendo. — Eu sabia. Talvez você esteja realmente doente. — Ela entra no quarto e coloca a palma da mão na minha testa. — Você está com febre? Alguma dor?
— Não — digo rindo. — Claro que não!
— Você bateu a cabeça em algum lugar? — Abana a mão na frente do meu rosto. — Quantos dedos você vê aqui?
— Mione estou bem — digo afastando sua mão. — Honestamente. Eu só... não estou num clima de compras. — Seguro um tailleur cinza contra meu corpo. — O que acha deste?
— Sinceramente, Gina, estou preocupada com você — diz Mione balançando a cabeça. — Acho que deveria ser examinada. Você está tão... diferente. Estou assustada.
— Sim, bem... — Pego uma camisa branca e sorrio para ela. — Talvez eu tenha mudado.
Levo a tarde inteira para decidir sobre uma roupa. Experimento muita coisa, misturo e combino, e de repente me lembro de coisas no fundo do guarda-roupa (preciso usar esses jeans lilás algum dia). Acabo me decidindo por uma roupa simples e básica. Meu melhor tailleur preto (liquidação da Jigsaw, de dois anos atrás), uma camiseta branca (M&SO) e botas de camurça pretas até o joelho (Dolce & Gabbana, mas eu disse a minha mãe que eram da BHS.O que foi um erro, porque depois ela quis comprar um par para ela e tive que mentir que tinham sido todas vendidas). Visto tudo, enrosco meu cabelo para cima num nó e olho para minha figura no espelho.
— Muito bonita — diz Mione, admirando da porta. — Muito sexy.
— Sexy? — Sinto uma ponta de desapontamento. — Não estou querendo ficar sexy! Quero ficar com uma aparência profissional.
— Não pode ser as duas coisas ao mesmo tempo? — sugere Mione. — Profissional e sexy?
— Eu... não — digo após uma pausa e desvio o olhar. — Não, eu não quero.
Não quero que Harry Potter pense que me arrumei toda bonita só para ele, é o que realmente quero dizer. Não quero dar a ele a menor chance de pensar que entendi errado o motivo deste encontro. Não como da última vez.
Sem nenhum aviso, uma onda de humilhação fresca passa pelo meu corpo quando me lembro daquele momento horrível na Harvey Nickols. Balanço minha cabeça com força, procurando afastar aquilo da mente, procurando acalmar as batidas do meu coração. Por que diabos concordei com essa droga de jantar afinal?
— Eu só quero parecer o mais séria e profissional possível — digo e franzo a testa séria diante desta minha reflexão.
— Eu sei. Então — diz Mione — você precisa de uns acessórios. Alguns acessórios do tipo mulher de negócios.
— Como o quê? Uma agenda?
— Como... — Mione faz uma pausa pensativa. — Está bem, tive uma idéia. Espere aí.
Chego ao Ritz, naquela noite, cinco minutos depois das 7:30, o horário marcado. Na entrada do restaurante, vejo que Harry já chegou. Está sentado, recostado, com um ar relaxado e bebe alguma coisa que se assemelha a um gim-tônica. Está usando um terno diferente daquele desta manhã, não posso deixar de perceber, com uma camisa leve, verde-escura. Ele na verdade está... Bem. Muito bem. Bastante bonito.
Na verdade não está com uma aparência muito profissional.
E, pensando bem, este restaurante também não parece muito de negócios. E cheio de candelabros, guirlandas douradas e cadeiras de um rosa suave, com o teto lindamente pintado de nuvens e flores. O lugar todo brilha com a luz e é...
Bem, na verdade, a palavra que me vem à cabeça é romântico.
Ah, Deus. Meu coração começa a bater acelerado de nervoso e olho rapidamente para minha imagem num espelho dourado. Estou usando o tailleur preto da Jigsaw, a camiseta branca e as botas de camurça preta como originalmente planejado. Mas, agora, também tenho um exemplar dobrado do Financial Times debaixo do braço, um par de óculos de tartaruga (com vidros claros) presos na cabeça, minha velha pasta executiva numa das mãos e — a pièce de résistance de Suze — um laptop AppleMac na outra.
Talvez tenha exagerado.
Estou quase voltando para ver se posso rapidamente guardar a pasta no armário de casacos (ou, para ser sincera, só deixar numa cadeira e me afastar), quando Harry se vira para meu lado, me vê e sorri. Droga. Sou forçada a ir em frente pelo carpete felpudo, procurando parecer o mais calma possível, apesar de ter um braço grudado no corpo para evitar que o FT caia no chão.
— Olá — diz Harry quando chego na mesa. Levanta para me cumprimentar e eu percebo que não posso apertar sua mão por causa do laptop. Sem graça, largo a pasta no chão, transfiro o laptop para o outro lado — quase deixando cair o FT nessa hora — e, com o rosto levemente avermelhado, estendo minha mão.
Um ar de riso passa pelo rosto de Harry e ele, solene, aperta minha mão. Aponta uma cadeira e observa educadamente enquanto coloco o laptop sobre a toalha da mesa, pronto para uso.
— É uma máquina impressionante — diz ele. — Muito... high-tech.
— Sim — replico e dou um sorriso breve e calmo. — Eu uso o laptop com freqüência para fazer anotações em reuniões de trabalho.
— Ah — diz Harry acenando com a cabeça. — Muito organizado de sua parte.
Obviamente ele está esperando que eu o ligue, portanto, experimentalmente, aperto a tecla return para ligar. Isto, segundo Mione, deve fazer a tela aparecer. Mas nada acontece.
Casualmente, aperto a tecla novamente — e ainda nada. Cutuco, fingindo que meu dedo escorregou por acidente — e, ainda nada. Merda, que situação embaraçosa. Por que tenho sempre que acreditar na Mione?
— Algum problema? — pergunta Harry.
— Não! — respondo imediatamente e fecho a tampa. — Não, eu só... Pensando bem, não vou usá-lo hoje. — Procuro na bolsa um caderno de notas. — Vou anotar as coisas aqui.
— Boa idéia — diz Harry suavemente. — Gostaria de um champanhe?
— Ah — digo um pouco amedrontada. — Bem... está bem.
— Excelente — diz Harry. — Esperava que quisesse.
Ele olha para um lado e um garçom sorridente corre na nossa direção com uma garrafa. Nossa, champanhe Krug.
Mas não vou sorrir ou parecer contente ou algo assim. Vou ficar bastante fria e profissional. Na verdade, só vou tomar uma taça, antes de mudar para água pura. Afinal, preciso manter a cabeça lúcida.
Enquanto o garçom enche minha taça de champanhe, escrevo no caderno: "Reunião entre Ginevra Weasley e Harry Potter." Olho para o que escrevi, analiso e depois sublinho duas vezes. Pronto. Parece muito eficiente.
— Então — digo fitando-o, e levanto os óculos. — Ao trabalho.
— Ao trabalho — repete Harry e dá um sorriso irônico. — O pouco que ainda me resta.
— Verdade? — Olho para ele confusa e aí eu percebo. — Quero dizer, depois do que você disse no Morning Coffee? Aquilo o deixou em apuros?
Ele acena que sim e sinto uma pontada de aflição por ele.
Quero dizer, Mione está certa — Harry é bastante arrogante. Mas devo dizer que achei muito bom da parte dele levantar a cabeça daquele jeito e dizer publicamente o que realmente pensava da Flagstaff Life. E, agora, se ele vai ficar arruinado em decorrência disso, bem, parece muito injusto.
— Você perdeu tudo? — pergunto calma e Harry ri.
— Eu não iria tão longe. Mas, esta tarde, tivemos que dar muitas explicações para nossos outros clientes. — Ele faz uma careta. — Devo dizer que insultar um de seus maiores clientes ao vivo na televisão não é exatamente uma prática normal de RP.
— Bem, acho que eles deveriam respeitar você! — retruco. — Por ter dito realmente o que pensa! Quero dizer, tão poucas pessoas fazem isso hoje em dia. Podia ser como... o slogan da sua empresa: "Nós dizemos a verdade.''
Tomo um gole grande de champanhe e olho para ele em silêncio. Harry está me fitando com uma expressão estranha no rosto.
— Gina, você tem uma habilidade fantástica para acertar em cheio — diz ele finalmente. — Foi exatamente o que alguns de nossos clientes disseram. É como se tivéssemos nos dado um selo de integridade.
— Oh — digo satisfeita. — Então não está arruinado.
— Não estou arruinado — concorda Harry e abre um pequeno sorriso. — Apenas levemente enfraquecido.
Um garçom aparece do nada, enche minha taça e eu tomo um gole. Quando olho para Harry ele está me fitando novamente.
— Sabe, Gina, você é uma pessoa extremamente perspicaz — diz ele. — Enxerga o que os outros não vêem.
— Ah, bem. — Balanço minha taça de champanhe no ar. — Não ouviu Zelda? Sou a guru de finanças que encontra a vizinha. — Nossos olhos se encontram e os dois começam a rir.
— Você é instrutiva e acessível.
— Informada com os pés no chão.
— Você é inteligente, charmosa, viva... — Harry murcha, olhando para sua bebida, depois me encara.
— Ginevra, quero me desculpar — diz ele. — Estou querendo fazer isto há algum tempo. Aquele almoço no Harvey Nickols... você estava certa. Não a tratei com o respeito que merecia. O respeito que merece.
Termina a frase, faz-se um silêncio e eu abaixo o olhar para a toalha da mesa sentindo meu rosto em chamas. Está tudo muito bem para ele, dizer isto agora, penso furiosa. Está tudo muito bem para ele reservar uma mesa no Ritz e pedir champanhe e esperar que eu sorria e diga "Ah está bem". Mas por trás de toda a brincadeira ainda me sinto ferida com aquele episódio. E, depois de meu sucesso esta manhã, estou num humor belicoso.
— Meu artigo no Daily World não teve nada a ver com aquele almoço — digo sem encará-lo. — Nada. E você ter insinuado que tinha...
— Eu sei — diz Harry e suspira. — Nunca deveria ter dito aquilo. Foi um comentário... defensivo e irritado num dia em que, francamente, você tinha nos deixado a todos em maus lençóis.
— Verdade? — Não consigo evitar um sorriso de prazer nos lábios. — Eu deixei todos em apuros?
— Está brincando? — diz Harry. — Uma página inteira no Daily World sobre um de nossos clientes, completamente sem mais nem menos?
Ah. Até que eu gosto desta idéia. A Potter C. inteira em polvorosa por causa de Janice e Martin Longbottom.
— Cho também ficou baratinada? — Não consigo resistir à pergunta.
— Claro — diz Harry secamente. — Mais ainda quando eu descobri que ela havia realmente falado com você no dia anterior.
Ah!
— Bom — ouço-me dizer infantilmente, e depois me arrepender. As grandes mulheres de negócios não exultam de satisfação maligna quando seus inimigos são repreendidos. Eu devia ter apenas feito um gesto significativo com a cabeça ou ter exclamado "Ah".
— Então, eu deixei você baratinado também? — pergunto, fazendo um ar de indiferença.
O silêncio toma conta do ambiente e, depois de algum tempo, olho para ele. Harry está com os olhos em mim, com uma expressão séria que faz meu coração começar a bater forte.
— Você tem me deixado assim já há algum tempo, Ginevra — diz ele calmo. Mantém o olhar por uns segundos enquanto eu também estou olhando fixo para ele, incapaz de respirar — depois desvia para o menu.
— Vamos pedir?
Parece que demoramos a noite toda comendo. Conversamos, comemos, conversamos mais e comemos mais um pouco. A comida é tão maravilhosa que não consigo dizer não para nada, e o vinho está tão delicioso que abandono meu plano de beber uma única taça, no estilo profissional, e depois me fixar na água. No momento em que estou brincando despreocupada com um chocolate feuillantine com sorvete de mel e pêras carameladas, já é quase meia-noite e minha cabeça está ficando pesada.
— Que tal essa coisa de chocolate? — pergunta Harry terminando de comer uma colherada de cheesecake.
— Bom — respondo e empurro o sorvete na direção dele. — Mas não tão bom quanto a musse de limão.
Esta é a outra coisa. Estou absolutamente empanturrada até a alma. Não consegui decidir entre todas as sobremesas que têm um barulhinho gostoso, então Harry sugeriu que pedíssemos todas cujos sons nós gostamos. Que foram a maioria. Portanto, agora meu estômago esta do tamanho de um pudim de Natal, e tão pesado quanto.
Honestamente, sinto-me como se não tivesse mais condições de levantar desta cadeira. É tão confortável e estou tão aquecida e aconchegada, e é tudo tão bonito, e minha cabeça está girando o suficiente para me fazer não querer levantar. Além disso... eu não quero que isto acabe. Não quero que a noite termine. Me diverti tanto. O curioso é que Harry me faz rir muito. Você pensaria que ele é todo sério, maçante e intelectual, mas realmente ele não é. Na verdade, imagine, não falamos sobre aquela coisa de cota de fundo fiduciário nem uma vez.
Um garçom se aproxima, retira todos os pratos de pudim e traz uma xícara de café para cada um. Recosto na minha cadeira, fecho meus olhos e tomo uns goles deliciosos. Ah, Deus, eu poderia ficar aqui para sempre. Na verdade estou me sentindo realmente sonolenta agora — um pouco porque estava tão nervosa na noite passada com o Morning Coffee, que quase nem dormi.
— Está na hora de eu ir — digo por fim e me forço a abrir os olhos. — Preciso voltar para... — Onde moro mesmo? — Fulham. Para Fulham.
— Certo — diz Harry, depois de uma pausa, e toma um gole de café. Coloca sua xícara na mesa e pega o leite. Quando faz isso, sua mão passa encostando pela minha — e fica parada. Logo sinto meu corpo todo enrijecer. Meu rosto começa a queimar e meu coração começa a bater apreensivo.
Tudo bem vou admitir, eu mais ou menos pus minha mão no caminho.
Só para ver o que aconteceria. Quero dizer, ele poderia facilmente mover sua mão para trás se quisesse, não poderia? Despejar o leite, fazer uma piada, dizer boa noite.
Mas ele não faz isso. Muito lentamente, fecha sua mão sobre a minha.
E agora eu realmente não posso mexer. Seu polegar começa a traçar desenhos no meu pulso, e eu posso sentir o quanto sua pele está quente e seca. Olho na sua direção e encontro seu olhar, e sinto uma sacudidela dentro de mim. Não posso afastar meus olhos dos dele. Não posso mover minha mão. Estou completamente fascinada.
— Aquele cara que vi com você no Terrazza — diz ele depois de um tempo, seu polegar ainda desenhando figuras na minha pele relaxado. — Ele era algum...
— Só... você sabe. — Procuro dar um riso descuidado, mas estou me sentindo tão nervosa que sai como um chiado. — Um multimilionário qualquer.
Harry me olha atentamente por um segundo — e desvia o olhar.
— Certo — diz ele, como que fechando o assunto. — Bem. Talvez devêssemos chamar um táxi para você. — Sinto um baque de decepção e procuro não demonstrar.
— Ou talvez... — Ele pára.
Há uma pausa interminável. Quase não consigo respirar. Talvez o quê? O quê?
— Conheço bem o pessoal aqui — diz Harry finalmente. — Se quiséssemos... — Ele encontra meu olhar. — Acho que poderíamos ficar.
Sinto um choque elétrico passar pelo meu corpo.
— Você gostaria?
Incapaz de falar, aceno afirmativamente. Ah, Deus. Ah, Deus, é a coisa mais excitante que já fiz.
— Está bem, espere aqui — diz Harry. — Vou ver se consigo quartos. — Ele se levanta e eu olho para ele abismada, minha mão fria e abandonada.
Quartos. Quartos no plural. Então ele não quis dizer...
Ele não quer...
Ah, Deus. O que há de errado comigo?
Subimos no elevador em silêncio com um porteiro elegante. Olho umas duas vezes para Harry, mas ele está olhando para frente, impassível. Na verdade, ele quase não disse uma palavra desde que saiu para perguntar sobre quartos. Sinto-me um pouco fria por dentro — para ser sincera, estou quase querendo que eles não tivessem quarto sobrando para nós afinal. Mas acaba que houve um grande cancelamento esta noite — e, também,
Harry é um tipo de cliente big-shot do Ritz. Quando comentei sobre como estavam sendo gentis conosco, ele deu de ombros e disse que faz muitas reuniões de negócios aqui.
Reuniões de negócios. Então é isto que sou? Ah, não faz nenhum sentido. Eu preferia ter ido para casa afinal.
Caminhamos por um corredor opulento, em completo silêncio, depois o porteiro abre uma porta e nos faz entrar numa sala espetacularmente linda, decorada com uma cama de casal e cadeiras fofas. Ele coloca minha pasta e meu AppleMac no suporte de malas, depois Harry dá-lhe uma nota e ele desaparece.
Há uma pausa, nunca me senti mais estranha na minha vida.
— Bem — diz Harry. — É isso.
— Sim — digo numa voz que não parece minha. — Obrigada... obrigada. E pelo jantar. — Limpo minha garganta. — Estava delicioso.
Parece que nos transformamos em completos estranhos.
— Bem —- diz Harry novamente e olha para seu relógio.
— É tarde. Você provavelmente vai querer... — Pára e faz-se um silêncio de expectativa.
Meu coração está batendo forte no meu peito, minhas mãos estão torcidas num nó nervoso. Não ouso olhar para ele.
— Já vou então — diz Harry finalmente. — Espero que você tenha uma...
— Não vá — ouço-me dizer e fico queimando de vermelha. — Não vá ainda. Nós podíamos só... — Engulo. — Conversar, ou alguma coisa.
Olho para ele, encontro seu olhar e algo amedrontador começa a bater dentro de mim.
Lentamente ele anda na minha direção, até ficar bem na minha frente. Consigo sentir
o cheiro do perfume de sua loção pós-barba e ouvir o ruído de sua camisa de algodão
quando ele se movimenta. Meu corpo inteiro está pinicando de ansiedade. Ah, Deus, quero tocá-lo. Mas não ouso. Não ouso mexer nada.
— Nós podíamos só conversar, ou alguma coisa — ele repete e lentamente levanta as mãos até envolverem meu rosto. — Nós podíamos só conversar. Ou alguma coisa.
E depois ele me beija.
Sua boca está na minha, gentilmente separando meus lábios, e sinto uma flechada incandescente de excitação. Suas mãos estão descendo pelas minhas costas e envolvendo
minhas nádegas, passando os dedos sob a bainha da minha saia. Depois ele me puxa apertado para ele e, de repente, acho difícil respirar.
E está bem óbvio que não vamos conversar muito coisa nenhuma.
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