Capítulo 10 – Pequenos detalhes.
Draco acordou no outro dia ainda com a lembrança fixa do beijo dela. Apesar de tudo, nunca havia dormido tão bem. Pegou no sono ainda lembrando-se do sabor do seu beijo, sonhou com ela a noite inteira e acordou querendo mais do que tudo tê-la nos braços. A mera lembrança dos lábios dela nos seus fazia parecer que estava em um sonho. Mas precisava acordar.
Não diria que esqueceria aquilo – ele nunca poderia esquecer-se do melhor beijo da sua vida. Mas precisava que ela achasse que aquilo não havia significado nada para ele, que havia sido só um beijo e nada mais.
Não iria para a aula aquele dia. Não queria encontrar o olhar dela antes que estivesse se sentindo pronto, pois poderia sucumbir e beija-la no meio do Salão.
Ao pensar neles juntos em frente às pessoas, não pôde evitar o pensamento de como seria se eles fossem apenas um menino e uma menina normais – sem rivalidade, sem sangue, sem guerra.
Depois do primeiro beijo, ele a acompanharia até seu dormitório, andando de mãos dadas pelos corredores. No outro dia ele acordaria ansioso para vê-la, e logo sairia da cama para encontra-la e acompanha-la até o Salão, onde tomariam café juntos. Porém, ali estava ele, deitado sozinho em sua cama, enquanto ela provavelmente se alimentava junto aos amigos.
Se fossem normais, ele a beijaria todo o tempo e sem medo, depois a pediria em namoro e desfilaria por ai com ela, para mostrar a todos o quanto era sortudo por namorar tão belo anjo.
No entanto, ele teria que afasta-la de si.
Deixou uma lágrima rolar diante dos pensamentos. Queria tê-la, queria ama-la, queria ser dela sem reservas. Queria fugir com ela para bem longe disso tudo; outro país, talvez. Ela iria amar a França...
Riu de seus planos mirabolantes. Ela nunca os aceitaria. Mesmo tendo ficado tão fora de orbita quanto ele, ela teria planos e ideais maiores – o que com certeza não incluía fugir para a Cidade Luz com o inimigo.
Em meio a tolos pensamentos, decidiu-se por fim que não poderia afasta-la completamente de si. Ainda havia o projeto de interação, as rondas juntos... E, de fato, não queria se afastar demais dela. Era quase como se fosse vital tê-la por perto. Então, um pedido de desculpas, falar que havia sido um erro e pedir que continuassem ao menos o coleguismo, provavelmente resolveria o caso – pelo menos, superficialmente.
O dia pareceu se arrastar dentro daquele quarto. Ele estava impaciente, queria vê-la, ver qual seria a reação dela depois do que aconteceu no dia anterior. Queria saber se ela queria mais ou se ela provavelmente estaria com vontade de mata-lo. Não tinha certeza de como ela poderia estar. Depois do ocorrido, encontrou-a chorando em um corredor que não dava para a Torre dos Monitores. Será que ela havia ficado tão abalada assim com aquele beijo? E por quê? Será que foi por ter gostado ou por ter odiado? Ele detestava ficar confuso, sempre teve tudo o que queria nas mãos e se ver procurando por respostas o fazia se sentir impotente diante daquele sentimento, daquela confusão. Mas era melhor não pensar muito nisso, pois poderia não resistir e ir atrás dela, pedindo respostas para tudo, e logo depois, beija-la novamente.
À tarde, Pansy havia parecido para saber o porquê de ele não ter ido às aulas. Deu uma desculpa qualquer de que estava com dor de cabeça e a mandou embora, pois não teria paciência para as investidas de tê-lo novamente da morena. E tudo o que ele pensava, envolvia Hermione, então se ela falasse demais ele poderia, sem querer, se condenar, o que faria um grande reboliço naquela escola em que todos acreditavam que eles eram inimigos.
À noite, ele achou que estaria mais calmo, mas pelo contrário, ele estava ainda mais nervoso, contando os minutos no relógio para que desse logo a hora da ronda, para que pudesse vê-la. Aliás, será que ela apareceria? E se ela não aparecesse, o que ele faria? Não, ele sabia, ela iria. Se bem a conhecia, ela iria querer dar uma de superior, e sumir não era do feitio dela. O que quer que fosse que ela estivesse sentindo, ela enfrentaria de cabeça erguida – e essa determinação e orgulho fazia com que ele se encantasse ainda mais por ela. Era diferente de qualquer outra mulher que houvesse conhecido.
Ela não seria daquelas mulheres que se submetiam a toda e qualquer vontade do marido sem pestanejar. Ela iria impor sua vontade sempre, onde quer que ela estivesse. Ela é daquelas que assume seus erros, mas que ainda sim se mostra superior, com o orgulho sempre intacto. Daquelas que não se entrega fácil; que mesmo apaixonada, nega a todo o momento, pois demonstrar sentimentos, em sua concepção, é coisa para fracos. E fraca, ela não era. Cada detalhe dela o prendia ainda mais.
Assim que ele viu que já estava em um horário aceitável, ele pegou a varinha e saiu do quarto, indo para a Sala Comunal, onde ela provavelmente estaria esperando por ele para a ronda. Com o coração em pulos, começou a descer as escadas. “O que é isso, Draco Malfoy? Seja homem!”, pensou, arrumando a postura. Desceu, fingindo confiança, e a encontrou onde esperava – na porta, batendo o pé, com os braços cruzados contra o corpo. Uma sobrancelha levantada em descaso, mas a expressão traíra, ansiosa. Vestindo calça jeans, tênis, camiseta e um casaco preto. Os cabelos presos em uma trança. Não pôde evitar observar todos os detalhes dela, mas já estava se demorando em falar alguma coisa, e antes que acabasse fazendo besteira, começou, com a voz insegura:
- Desculpe por ontem à noite. Foi um erro que não vai ser repetir, uma bobeira, um impulso pelo momento e o local. Espero que entenda.
A expressão dela o deixou surpreso. Por frações de segundos, vagou por surpresa, decepção e ironia, o que a fez largar os braços ao lado do corpo e bater o pé mais impaciente. Viu-a serrar os dentes, provavelmente contendo o impulso de avançar contra ele com os punhos fechados. E ele não a condenaria se ela o fizesse. Fora mesmo muito idiota no que disse, mas era necessário.
- Um erro, claro... – Ela começou meio irônica, mas pareceu que não era bem esse o tom que ela queria. Arrumou a postura e continuou firme – Eu concordo. E que realmente não se repita, por favor.
- Claro, não se preocupe. Mas espero que possamos manter ao menos o coleguismo, pois é necessário para continuarmos em um clima pelo menos ameno. Temos que nos ver todos os dias, dividimos a mesma Torre e já somos bem grandinhos para ficarmos nessa idiotice de “inimigos”. – Ela só balançou a cabeça, a postura completamente ereta, mostrando superioridade. Como ele imaginou. – E então?
- Tudo bem, eu acho que isso é o certo. – Ela estava muito séria, pensativa. – Vamos?
- Vamos claro. – Ela passou pela porta na frente dele. E continuou andando a frente dele, com passos pesados.
Ela era um completo enigma. Esperava que ela fosse gostar da atitude dele de pedir desculpas e que as coisas iriam ficar bem. Esperava ouvir um “Oh, Malfoy, que bom. Para mim também foi um erro, então me desculpe e espero que fique tudo bem”, mas no fundo sabia que devia começar a se acostumar. Com ela nada seria como ele esperava. Ao contrário do que ele pensava, ela estava séria, parecia chateada, mas por quê? Será que para ela não havia sido erro? Será que ela queria mais e, com o fato de ele ter dito que aquilo havia sido um erro, ficou chateada? A ideia fez seu coração acelerar. Se esse fosse o caso, poderia agarra-la ali mesmo e realizar seu desejo – até porque, também era o dele.
Mas provavelmente isso era tudo fruto de sua imaginação.
Já eram 22h00 e eles continuavam a andar em silêncio. Ela a sua frente, com os braços cruzados contra si mesma, e as mãos cerradas em punho, demonstrando raiva. Não podia entender, mas aquele silencio o incomodava, então, falaria.
- Então... Como foi seu aniversário ontem? – Ele começou e só depois se tocou de que era o assunto errado. Realmente não sabia como havia sido seu dia, mas sua noite ele sabia muito bem. Mas estava tão desesperado por ouvi-la que ele nem pensou nisso. Com a respiração entrecortada, ele esperou a resposta dela.
- Foi legal. – Ela virou o rosto e esboçou um sorriso, desacelerando o passo – Acordei com muitos mimos dos meus amigos, eles são os melhores. Ganhei muitos presentes deles, mas acho que o presente maior foi o que eles fizeram por mim. – Era obvio o fato de que ela amava os amigos. Seus olhos brilhavam.
- Esse cordão foi um presente também? – Ele perguntou, apontando o cordão em seu pescoço. Ela concordou com a cabeça, mexendo institivamente no pingente. – É lindo. Quem te deu?
- Eu não sei. – Deu de ombros – Foi em anônimo.
- Nossa, a Granger arrasando os corações masculinos de Hogwarts! – E o dele se encaixava facilmente nesse monte.
- Não diria corações. – Ela disse rindo, sem parar de mexer no cordão. – Foi um gesto muito bonito, eu amei, mas queria muito saber quem me mandou. E se ele for meu príncipe encantado e eu estiver perdendo o meu tempo sem ele?
- Nunca pensou em namorar, Granger? – Ele perguntou, agora tentando se afastar do assunto do cordão. Não era a hora.
- Claro. Eu sou uma garota como outra qualquer. – Ela riu, e ele riu junto. – Mas não vou ser dessas que troca de namorado toda semana. Quando eu assumir algo com alguém, terá que ser para sempre. Desde muito pequena eu sempre tive o sonho de casar com meu primeiro namorado, como meus pais foram. Claro que isso deve ser uma bobagem para o Senhor Pegador de Hogwarts, mas é um sonho meu.
- Não é bobagem, Granger, é uma coisa bonita. Bom, como eu não almejo casar, não tenho esses sonhos. Mas os entendo.
- Você não quer casar, ter filhos, nada assim? – Disse ela, franzindo a testa. Era impressão dele ou havia um tom de decepção na pergunta dela?
- Claro, quero. – Deu de ombros – Mas não acredito que eu vá viver até lá, então, procuro não fantasiar muito para não sofrer depois.
- Que isso, Malfoy, você é muito novo, vai encontrar a pessoa certa. E ainda vai viver muito, vaso ruim não quebra. – Falou irônica.
- Meu pai tem planos para mim, Granger. Se eu os cumprir, provavelmente alguém me matará. Se eu me negar, ele me mata. Não tenho muitas chances para viver. – Disse ele em um tom triste.
- Fuja do país, vá para a América, duvido que ele te ache lá. – Disse ela, rindo ironicamente.
- Sozinho? Eu fui mimado demais minha vida toda, Granger. Se eu fugir, vou renegar minha fortuna, o que significa que eu não vou ter uma empregada que me faça tudo.
- Aí é que vem a parte em que você encontra a sua esposa.
- Não sei... Eu prefiro não pensar que isso possa acontecer. O futuro pode ser cruel. – Na verdade, ele só preferira cortar o assunto antes que ele dissesse que ele sonhava sim em casar, mas com ela. Mudou de assunto. – Então, soube da festa que vai ter no sábado?
- Festa? Não soube...
- É uma festa que tem todo ano a muito tempo. “7 Sins”. É uma festa a fantasia.
- Ahh... Não, na verdade nunca ouvi falar dessa festa.
- Você deveria ir, é bem legal.
- Ninguém me convidou...
- Eu estou convidando. Vamos?
- Não sei se devo... As matérias estão começando a ficar pesadas demais, não é bom perder uma noite com uma festa...
- Ah, Granger, é uma noite só. E aposto como você nunca foi numa festa como essas, são muito legais, você vai gostar.
- Como você pode ter certeza?
- Porque você é uma adolescente como qualquer outra. Mais responsável e centrada que a média, claro, mas ainda assim é uma adolescente.
- Não sei... – Ela começava a esboçar um sorriso maroto, provavelmente considerando se iria ou não.
- Vamos, Granger, qual é. Só uma noite, deixe de ser uma sabe-tudo chata! – Ele disse, rindo.
- Só se você prometer que vai deixar de ser uma Doninha Albina saltitante e abusada. – Disse ela, no mesmo tom que ele.
- Eu prometo que eu vou tentar, pode ser?
- Tudo bem, tudo bem. – Revirou os olhos – Eu vou nessa festa. Mas aviso logo, que se for uma orgia dessas cheias de bebidas alcoólicas e adolescentes se... Devorando em todos os lugares, eu vou embora.
- Granger... – Ele arrastou a fala, irônico – Eu não vou mentir para você e dizer que não é assim porque aí quando você chegar lá, você verá.
- Então não!
- O que você esperava de uma festa chamada “7 pecados”, e que é produzida por adolescentes? Um grupinho de idosos jogando tranca enquanto bebem chá? – Ironizou.
- Não faz o meu tipo essas festas.
- Já foi em alguma?
- Não! – Disse já meio irritada.
- Então você não sabe se faz seu tipo ou não.
- Acho que sei sim.
- Vamos, Granger. Prometo que eu não vou te prender lá. Se você não gostar, você vai embora. – Ela revirou os olhos.
- É à fantasia, não é?
- Sim.
- E eu vou fantasiada de que?
- Isso aí você é quem sabe.
- Argh... Tudo bem, eu vou nessa bendita festa. – Cedeu meio emburrada.
- Isso! – Sorriu – Bom, já são 23h00, vamos voltar a nossa Torre. – Ela concordou com a cabeça, e quando chegaram lá, ela sussurrou um boa noite, e foi para o seu dormitório. Ele fez o mesmo.
Deitou-se, pensando no quanto havia se apego aos detalhes dela essa noite. Havia notado toda e qualquer expressão que mudasse em seu rosto alvo, e os detalhes que denunciava ela enquanto ela andava a sua frente. Havia notado também que cheiro dela estava mais forte, inebriante – ou era ele quem ficava mais fraco a esse perfume?
Percebeu que quando ela começava a se chatear, uma veia pulsava só do lado esquerdo. E quando ela sorria de verdade, o sorriso começava pelos olhos, que quase sempre brilhavam. Quando ela era irônica, o sorrisinho debochado que sempre vinha, repuxava pelo lado direito. Quando estava, provavelmente, com raiva, os punhos ficavam fechados com força, esticando a pele branca da mão. Quando impaciente, mexia sempre nos cabelos e batia o pé no chão. E o sorriso maroto que ela deu quando começou a considerar se iria ou não aquela festa, o fez imaginar como seria seu sorriso pensando em seus desejos – porque, ela querendo ou não assumir isso, sentia desejos. E pensava neles. Ela era uma adolescente normal, mesmo que não quisesse parecer, mesmo que quisesse se mostrar sempre muito centrada. Lembrou-se dos pelos eriçados em seu corpo quando se beijaram pela segunda vez, na noite anterior. Desejo? Nunca poderia saber... Mas era melhor parar com esses pensamentos antes que fizesse uma loucura.
Revirou-se na cama, revendo todos esses detalhes, várias vezes, sem parar, até que o sono veio tranquilo. Não poderia perdê-la de vista, não mais. Mesmo que não pudesse tê-la como queria. Precisava de todos esses pequenos detalhes por perto.
xxx
N/A: Oi meninas :D Bom, aqui não houve tantos reviews quanto eu esperei, mas no Nyah as meninas passaram da cota então estou postando de novo. A quem leu e comentou, obrigada. A quem leu e não comentou, quero que saibam que o dedinho não cai. Vamos lá...
Undiscoverd: Lindo não é? É dentro do castelo sim, mas um pouco afastado e escondido. *-*
Morgana Flamel: Sim, provavelmente ela vai ser mais dura na queda, e demorará a assumir que sente algo por ele. Hehe. Obrigada e continue acompanhando. Beijos. x
Nana-moraes malfoy: O que houve com a sua conta no Nyah, cara? hihi enfim, sem problemas, fico feliz que tenha gostado! Continue acompanhando! Beijos. x