SEIS
Chego à casa dos meus pais às dez horas no sábado e acho a rua cheia de festividade. Há balões amarrados em todas as árvores, nossa entrada está cheia de carros, e dá para ver uma tenda enorme no jardim dos vizinhos.
Saio do carro, pego a bolsa com as roupas para passar a noite - e fico imóvel alguns instantes, olhando para a casa dos Longbottom. Meu Deus, isso é estranho. Neville Longbottom se casando. Mal posso acreditar. Para ser honesta – e isso pode parecer meio maldoso -, mal posso acreditar que alguém queira se casar com Neville Longbottom.
Ele melhorou um pouco recentemente, tenho de admitir. Arranjou algumas roupas novas e cortou o cabelo num estilo melhor. Mas as suas mão ainda ao gigantescas e úmidas – e francamente, ele não é nenhum Brad Pitt, é?
Mesmo assim, é disso que se trata o amor, penso, fechando a porta do carro com uma batida forte. A gente ama as pessoas apesar dos defeitos. Lucy obviamente não se importa por Neville ter mãos úmidas – e ele obviamente não se importa por o cabelo dela ser escorrido e sem graça. Isso é bem romântico, acho.
Enquanto estou aqui parada, olhando para a casa, uma garota de jeans e com uma guirlanda de flores no cabelo aparece na porta dos Longbottom . Ela me lança um olhar estranho, quase agressivo – e desaparece de novo na casa. Uma das damas de honra de Lucy, obviamente. Imagino que esteja meio nervosa por ter sido vista de jeans.
Ocorre-me que Lucy provavelmente também está lá – e instintivamente me viro. Sei que ela é noiva e coisa e tal, mas, para ser franca, não estou desesperadamente ansiosa por ver Lucy de novo. Só a encontrei umas duas vezes, e nunca nos entendemos. Provavelmente porque ela imaginou que eu estava apaixonada por Neville. Ah, meu Deus, pelo menos quando Harry chegar eu finalmente poderei provar que todos estavam errados.
Ao pensar em Harry, uma onde de nervosismo me atravessa, e respiro longa e lentamente para me acalmar. Dessa vez estou decidida a não colocar o carro diante dos bois. Vou ficar com a mente aberta e ver o que ele diz hoje. E se ele disser que vai se mudar para Nova York, eu simplesmente... lido com isso. De algum jeito.
De qualquer modo. Não pense nisso agora. Rapidamente vou até a porta da frente e entro. Na cozinha acho meu pai tomando café vestido de colete, enquanto mamãe, com uma capa de náilon e rolinhos nos cabelos, passa manteiga em alguns sanduíches.
- Eu só não acho certo – ela está dizendo quando entro. – Não é certo. Eles deveriam estar liderando nosso país, e olha só. É uma bagunça! Paletós desenxabidos, gravatas pavorosas.
- Você realmente acha que a capacidade dos membros do governo é afetada pela roupa que eles usam, é?
- Oi, mãe – digo, largando minha bolsa no chão. – Oi, pai.
- É o princípio da coisa! – diz mamãe. – se eles não estão preparados para se esforçar com o modo de se vestir, por que vão se esforçar com a economia?
- Não é a mesma coisa!
- É exatamente a mesma coisa. Gina, você acha que Gordon Brown deveria se vestir melhor, não acha? Esse absurdo de terno comum, do dia-a-dia.
- Não sei – digo vagamente. – Talvez.
- Está vendo? Gina concorda comigo. Agora, deixe eu dar uma olhada em você, querida. – Ela pousa a faca e me examina adequadamente, e eu me sinto reluzindo um pouco porque sei que estou bem. Estou usando um vestido rosa-choque e um casaco, um chapéu Philip Treacy com pluma e os sapatos de cetim preto mais lindos, cada um decorado com uma borboleta de gaze fina. - Ah, Gina– diz mamãe enfim. – Você está uma beleza. Vai ofuscar a noiva! – Ela pega meu chapéu e olha. – Isso é muito incomum! Quanto custou?
- Hmmm... não lembro – digo vagamente. – Umas cinqüenta pratas, talvez.
O que não era bem verdade. Foi mais tipo... bem, sei lá, um bocado. Mas valeu a pena
.
- Então, onde está o Harry? – pergunta mamãe, recolocando o chapéu na minha cabeça. – Estacionando o carro?
- É, onde está o Harry? – diz meu pai, levantando a cabeça e dando um riso zombeteiro. – Nós estávamos ansiosos para finalmente conhecer esse seu rapaz.
- Harry vem depois – digo, e me encolho ligeiramente ao ver a cara dos dois cair.
- Depois? – diz mamãe finalmente. – Por quê?
- Ele está voltando de Zurique agora de manhã. Teve de ir lá por causa de negócios. Mas ele vem, eu prometo.
- Ele sabe que o casamento começa ao meio-dia? – pergunta mamãe ansiosa. – E você disse onde era a igreja?
- Disse! Sério, ele vai estar aqui.
Tenho a consciência de que minha voz sai meio ríspida, mas não consigo evitar. Para ser franca, estou meio estressada com relação ao Harry. Ele deveria ter me ligado quando chegasse ao aeroporto – e isso deveria ter sido há uma hora. Mas até agora não sei de nada.
Mesmo assim. Ele disse que viria.
- Posso fazer alguma coisa para ajudar? – pergunto, mudando de assunto.
- Seja boazinha e leve isto lá pra cima – diz mamãe, cortando rapidamente os sanduíches em triângulos. – Eu tenho de levar as almofadas de jardim.
- Quem está lá em cima? Pergunto, pegando o prato.
- Maureen veio para secar o cabelo de Janice. Elas queriam ficar fora do caminho de Lucy. Você sabe, enquanto ela se arruma.
- Você já esteve com Lucy? – pergunto interessada. – O vestido é bonito?
- Eu não vi – diz mamãe, e baixa a voz. – Mas parece que custou três mil libras. E isso sem incluir o véu!
- Uau – digo, impressionada. Por um segundo me sinto ligeiramente invejosa. Quer dizer, eu não conseguiria pensar em nada pior do que casar com Neville Longbottom, mas mesmo assim. Um vestido de três mil libras. E uma festa... e um monte de presentes... puxa, as pessoas que se casam se dão bem, não é?
No andar de cima ouço o som do secador vindo do quarto de mamãe e papai, e quando entro vejo Janice sentada no banco da penteadeira, usando um roupão, segurando um copo de xerez e passando um lenço nos olhos. Maureen, que já faz o cabelo de mamãe e Janice há anos, está brandindo seu secador para ela, e uma mulher que não conheço, com um bronzeado mogno, cabelos curtos tingidos de louro e um conjunto de seda lilás está sentada junto à janela, fumando um cigarro.
- Olá, Janice – digo, indo até lá e abraçando-a. – Como está se sentindo?
- Estou bem, querida – diz ela, e funga. – Um pouco tonta. Você sabe. Só de pensar em Neville se casando!
- Eu sei – digo com simpatia. – Parece que ontem mesmo nós éramos crianças, andando de bicicleta juntos!
- Tome outro xerez, Janice – diz Maureen em tom reconfortante, e joga um líquido marrom e denso no copo dela. – Vai ajuda você a relaxar.
- Ah, Gina – diz Janice, e aperta a minha mão. - Isso deve ser difícil para você também.
Eu sabia. Ela ainda acha que eu gosto de Neville, não é? Por que todas as mães acham que seus filhos são irresistíveis?
- Na verdade, não! – digo, o mais animada possível. – Quero dizer, eu fico feliz pelo Neville. E por Lucy também...
- Gina? – A mulher na janela se vira para mim, com os olhos semi cerrados cheios de suspeita. – Está é a Gina?
Não há uma grama de amabilidade em seu rosto. Ah, meu Deus, não diga que ela também acha que eu sou afim do Neville.
- É... sim. – Eu sorrio para ela. – Sou Ginevra Weasley. E a senhora deve ser a mãe de Lucy, não é?
- Sou – diz a mulher, ainda me encarando. – Sou Angela Harrison. Mãe da noiva. – acrescenta, enfatizando o “noiva”, como se eu não entendesse o significado.
- A senhora deve estar muito empolgada – digo com educação. – Sua filha se casando.
- Ah, bem, claro. Neville é dedicado a Lucy – diz ela agressivamente. – Totalmente dedicado. Nunca olha em nenhuma outra direção. – Ela me lança um olhar afiado e deu dou um sorriso débil de volta.
Honestamente, o que eu deveria fazer? Vomitar em cima do Neville ou algo do tipo? Dizer que ele é o homem mais feio que eu já conheci? Todos ainda iriam dizer que eu estou com ciúme, não é? Diriam que é negação.
- O... Harry está aqui, Gina? – pergunta Janice, e me dá um sorriso esperançoso. E de repente, o que é bem estranho, todo mundo no quarto está completamente imóvel, esperando minha resposta.
- Ainda não. Acho que ele se atrasou.
Há um silêncio, e eu tenho consciência dos olhares circulando pelo quarto.
- Atrasou – ecoa Angela, e em sua voz há um tom do qual eu não gosto. – É mesmo? Bom, que surpresa!
O que isso significa?
- Ele está vindo de Zurique – explico. – Imagino que o vôo esteja atrasado ou algo assim. – Olho para Janice e, para minha surpresa, ela fica ruborizada.
- Zurique – diz ela, assentindo um pouco enfaticamente demais. Sei. Claro. Zurique. – E me lança um olhar embaraçoso e simpático.
O que há de errado com ela?
- Nós estamos falando do Harry Potter – diz Angela, soltando uma baforada do cigarro. – O famoso empresário.
- Bom, sim – digo meio surpresa. – Quero dizer, eu não conheço nenhum outro Harry Potter.
- E ele é o seu namorado.
- É.
Há um silêncio ligeiramente incômodo, e até Maureen parece estar me olhando curiosamente. De súbito eu vejo um exemplar da Tatler deste mês perto da cadeira de Janice. Ah, meu Deus.
- Aquele artigo da Tatler, a propósito – digo rapidamente – está todo errado. Ele não disse que era solteiro. Disse “sem comentários”.
- Artigo? – diz Janice, de modo pouco convincente. – Não sei de que você está falando, querida.
- Eu... não leio revistas – diz Maureen, que fica toda vermelha e desvia o olhar.
- Nós estávamos ansiosas para conhecê-lo – diz Angela, e solta uma nuvem de fumaça. – Não é, Janice?
Encaro-a confusa – depois me viro para Janice, que mal sustenta meu olhar, e Maureen, que finge remexer numa bolsa de produtos de beleza.
Espere um minuto.
Elas certamente não acham...
- Janice – digo, tentando manter a voz firme. – Você sabe que Harry vem. Ele até escreveu uma resposta para você!
- Claro que escreveu, Gina! – diz Janice, olhando para o chão. – Bem, como diz Angela, nós todas estávamos ansiosas para conhecê-lo.
Ah, meu Deus, ela não acredita.
Sinto uma onde de humilhação encher minhas bochechas. O que ela pensa? Que eu inventei que estou namorando Harry?
- Bom, aproveitem seus sanduíches, certo? – digo, tentando não parecer tão abalada como estou. – Vou só... ver se mamãe precisa de mim.
Quando acho mamãe, ela está no patamar do andar de cima, enfiando almofadas de jardins em sacos plásticos transparentes, depois sugando o ar com o bico do aspirador de pó.
- A propósito, eu recebi um pacote para você – grita ela acima do barulho do aspirador. – Do Country Ways. Além de papel de alumínio, uma frigideira, um pote para fazer ovos pochê no microondas...
- Eu não quero nenhum papel de alumínio! – grito.
- Não é para você! – diz mamãe, desligando o aspirador. – Eles tinham uma oferta especial: apresente uma amiga e receba um jogo de potes de cerâmica. Por isso pus seu nome como a amiga. É um catálogo muito bom. Vou lhe mostrar.
- Mamãe...
- Uns edredons lindos. Tenho certeza de que você vai querer um novo...
- Mamãe, escute! – digo toda agitada. – Escute. Você acredita que eu estou namorando Harry, não acredita?
Há uma pausa ligeiramente longa demais.
- Claro que sim – diz ela finalmente.
Encaro-a horrorizada.
- Você não acredita, não é Todos vocês acham que eu inventei isso!
- Não! – diz mamãe firmemente. Ela pousa o aspirador e me olha direto nos olhos. – Gina, você disse que estava namorando Harry Potter. Para mim e seu pai é o bastante.
- Mas Janice e Martin. Eles acham que eu inventei?
Mamãe me olha – depois suspira e pega outra almofada.
- Ah, Gina. O problema, amor, vote tem que se lembrar, é que houve uma vez em que eles acreditaram que você estava sendo perseguida por alguém. E isso acabou sedo... bem. Não era bem verdade, não é?
Uma perplexidade fria se arrasta sobre mim. Tudo bem, talvez um dia eu tenha meio que fingido que alguém me perseguia. Coisa que não deveria ter feito. Mas, quero dizer, só porque você inventa um minúsculo perseguidor, isso não a torna uma doida de pedra, torna?
- E o problema é que nós nunca... bem, vimos o Harry com você, vimos, amor? – continua mamãe, enquanto enfia a almofada em sua capa transparente. – Não ao vivo. E saiu aquela matéria na revista dizendo que ele era solteiro...
- Ele não disse que era solteiro! – Minha voz está aguda de frustração. – Ele disse “sem comentários”! Mamãe, Janice e Martin disseram que não acreditam em mim?
- Não. – Mamãe levanta o queixo em desafio. – Eles não ousariam me dizer uma coisa dessas.
- Mas você sabe o que eles estavam dizendo pelas nossas costas.
Nós nos encaramos, e eu vejo a tensão no rosto de mamãe, escondida atrás de sua fachada luminosa. Ela devia estar esperando tanto que nós aparecêssemos no carro chique de Harry, percebo de súbito. Devia estar querendo tanto provar que Janice estava errada! E em vez disso cá estou eu, sozinha de novo...
- Ele vem – falei, quase para me tranqüilizar. – Ele vai chegar a qualquer minuto.
- Claro que vem! – exclama mamãe toda animada. – E assim que ele aparecer todo mundo vai ter de engolir as palavras, não é?
A campainha toca e nós duas enrijecemos, encarando-nos.
- Eu atendo, certo? – digo, tentando parecer casual.
- Então vá – concorda mamãe, e eu vejo um minúsculo brilho de esperança em seus olhos.
Tentando não correr, desço rapidamente a escada e, de coração leve, abro a porta. E... não é Harry.
É um homem carregado de flores. Cestos de flores, um buquê de flores e carias caixas aos pés.
- Flores de casamento – diz ele. – Aonde querem colocar?
- Ah – digo, tentando esconder o desapontamento. – Você bateu na casa errada. Elas precisam ir para o vizinho. Número 41.
- Verdade? – O homem franze a testa. – Deixe-me olhar minha lista. Segure isso aí, certo?
Ele empurra o buquê da noiva para mim e começa a remexer no bolso.
- Sério – digo -, elas têm de ir para a casa ao lado. Olhe, eu só vou pegar meu...
Giro, segurando o buquê da Lucy com as duas mãos, porque ele é bem pesado. E, para meu horror, Angela Herrison está chegando ao pé da escada. Ela me encara, e por um momento quase acho que ela vai me matar.
- O que você está fazendo? – diz rispidamente. – Me dê isso! – Ela arranca o buquê das minhas mãos e traz o rosto perto do meu, de modo que eu sinto o cheiro de gim no seu hálito. – Escute, moça – sibila a mulher. – Eu não me engano com os sorrisos. Sei o que você quer. E pode esquecer, certo? Eu não vou deixar que o casamento da minha filha seja estragado por uma psicopatazinha perturbada.
- Eu não sou perturbada! – exclamo furiosamente. – E não vou estragar nada! Eu não gosto do Neville Eu tenho um namorado!
- Ah, sim – diz ela, cruzando os braços. – O famoso namorado. Ele já chegou?
- Não, não chegou – digo, e me encolho diante da expressão do rosto dela. – Mas ele... ligou agora mesmo.
- Ligou agora mesmo – ecoa Angela com um sorrisinho de desprezo. – Para dizer que não vem?
Porque esse pessoal não acredita que Harry vem?
- Na verdade... ele vai chegar daqui a meia hora – digo em tom desafiador.
- Bom – diz Angela Harrison, e me dá um sorriso malicioso. – Bom, nós vamos vê-lo daqui a pouco, não é?
Ah, merda.
Ao meio-dia Harry ainda não chegou, e eu estou fora de mim. Isso é um pesadelo completo. Onde é que ele está? Fico esperando do lado de fora da igreja até o ultimo minuto, ligando desesperadamente para o número dele, esperando contra todas as esperanças vê-lo correndo pela rua. Mas as damas de honra chegaram, e outro Rolls Royce acabou de estacionar – e ele ainda não está aqui. Quando vejo o carro se abrir vislumbro o vestido de noiva, recuo rapidamente para a igreja antes que alguém possa pensar que estou esperando do lado de fora para estragar a procissão nupcial.
Esgueiro-me para dentro, tentando não atrapalhar a musica do órgão. Angela Harrison me dardeja um olhar maldoso, e há um sussurro e uma agitação no lado dos fundos, tentando ficar composta e tranqüila – mas tenho consciência de que os amigos de Lucy estão me lançando olhares sub- reptícios. Que diabo ela andou contando a todo mundo?
Por um segundo sinto vontade de me levantar e ir embora. Nunca quis vir a esse casamento estúpido mesmo. Só disse sim porque não queria ofender Janice e Martin. Mas é tarde demais, a marcha nupcial está começando, e Lucy está entrando. E eu tenho de admitir, ela está usando o vestido mais lindo que eu já vi. Olho para ele cheio de desejos, tentando não imaginar como eu ficaria num vestido assim.
A música pára e o vigário começa a falar. Tenho consciência de que os convidados de Lucy ainda me lançam olhares – mas ajeito o chapéu, levanto o queixo e os ignoro.
- ... para reunir este homem e esta mulher no sagrado matrimônio – entoa o vigário. – Que é uma condição honrada...
As damas de honra tem sapatos realmente bonitos, percebo. De onde serão?
E os vestidos também.
- Portanto, se há alguém que tenha algum motivo pelo qual eles não devam se reunir, que fale agora ou se cale para sempre.
Eu sempre adoro esse momento nos casamentos. Todo mundo sentado em cima das mãos como se tivessem medo de subitamente dar um lance pelo Van Gogh por engano. Ergo cabeça para ver se alguém vai dizer alguma coisa – e, para meu horror, Angela Harrison se virou no banco e está me encarando com ódio. O que há de errado com ela?
Agora um monte de gente do outro lado está olhando para mim também – e até uma mulher na frente, usando um grande chapéu azul, está se virando para dar uma boa encarada!
- O quê? – Sussurro irritada para ela. – o quê?
- O quê? – diz o vigário, pondo a mão atrás do ouvido. – Alguém disse alguma coisa?
- Sim! – diz a mulher de chapéu azul, e aponta para mim. – Ela disse!
O quê?
Ah, meu Deus. Não. Por favor, não. Toda a igreja está se virando lentamente para me olhar. Não acredito que isso está acontecendo. Agora Neville também está me olhando e balançando a cabeça, com uma expressão medonha de piedade.
- Eu não... eu não... – gaguejo – Eu só queria...
- Poderia ficar de pé? – grita o vigário. – Eu sou meio surdo, então, se tem algo a dizer...
- Na verdade eu...
- Levante-se – diz a mulher ao meu lado, e me cutuca com seu folheto da cerimônia nupcial.
Lentamente eu me levanto, sentindo duzentos pares de olhos em mim como tochas. Não posso olhar para perto de Neville e Lucy. Não posso olhar para mamãe ou papai. Nunca estive tão embaraçada na vida.
- Eu não tenho nada a dizer! Honestamente! Eu só estava... – Desamparada, estendo meu celular. – Foi... o meu celular. Eu achei que ele... Desculpe. Continue.
Sento-me de novo com as pernas trêmulas e há um silêncio. Gradualmente a congregação começa a se virar de novo e a se acomodar, e o vigário pigarreia e começa a dizer os votos.
O resto do casamento de passa como uma coisa nebulosa. Depois de tudo acabar, Lucy e Neville saem em procissão, solenemente me ignorando – e todo mundo se junta em volta deles no pátio para jogar confete e tirar fotos. Eu me esgueiro sem que ninguém perceba e corro febrilmente até a casa dos Longbottom. Porque Harry pode estar lá agora. Ele precisa estar lá. Ele deve ter chegado tarde e decidido não ir à igreja, e foi direto para a recepção. É óbvio, pensando bem. É o que qualquer pessoa sensata faria.
Atravesso correndo a casa dos Longbottom, que está cheia de funcionários do bufê e garçonetes – e vou direto para a tenda. Já há um sorriso jubiloso em meu rosto ao pensar em vê-lo, e em contar sobre aquele momento odioso na igreja, e em ver seu rosto se abrir em uma gargalhada...
Mas a tenda está vazia. Totalmente vazia.
Fico ali parada, pasma, durante alguns momentos – então saio rapidamente de novo e vou para a casa dos meus pais. Porque talvez Harry tenha ido para lá, ocorre-me de súbito. Talvez ele tenha entendido a hora errada, ou talvez tenha precisado trocar a roupa para o casamento. Ou talvez...
Mas ele também não está lá. Nem na cozinha, nem no andar de cima. E quando digito o número do seu celular, caio direto na caixa de mensagens.
Lentamente entro no meu quarto e me deixo afundar na cama, tentando não ter os maus pensamentos que estão se arrastando para a cabeça.
Ele vem, digo a mim mesma repetidamente. Ele só está... vindo.
Pela janela posso ver Neville, Lucy e todos os outros convidados chegando no jardim ao lado. Há um monte de chapéus e ternos matinais, e garçonetes distribuindo champanhe. De fato, tudo parece bem animado. Sei que eu deveria estar lá com eles – mas não posso enfrentar. Não sem Neville, não sozinha.
Mas depois de ficar ali um tempo, ocorre-me que, ficando aqui em cima, só estarei alimentando a intriga. Todos vão pensar que eu não posso encarar o casal feliz, que estou cortando os pulsos ou coisa assim. Isso só vai confirmar as suspeitas para sempre. Eu tenho de ir mostrar a cara, mesmo que só por meia hora.
Forço-me a ficar de pé, respiro fundo e retoco o batom. Depois saio de casa e vou até a casa dos Longbottom. Entro sem se notada na tenda através de uma aba lateral e fico olhando por um tempo. As pessoas estão chegando e, o burburinho é enorme, e ninguém nem mesmo me nota. Perto da entrada há uma fila formal com Neville, Lucy e seus pais, mas de modo nenhum vou chegar perto dali. Em vez disso. Vou para uma mesa vazia e me sento, e depois de um tempo uma garçonete vem e me dá uma taça de champanhe.
Durante um tempo só fico sentada ali, tomando a bebida, olhando as pessoas e sentindo que começo a relaxar. Então há um som farfalhante. Levanto os olhos – e meu coração afunda. Lucy está parada bem na minha frente em seu lindo vestido de casamento, com uma grande dama de honra vestindo um tom verde realmente pouco lisonjeiro. (O que eu acho que diz um bocado sobre Lucy.)
- Olá, Ginevra– diz Lucy em tom agradável. E dá pra ver que ela está se parabenizando por ser tão educada com a garota solitária que quase estragou seu casamento.
- Oi – digo. – Olha, eu realmente sinto muito pela cerimônia. Honestamente, eu não queria...
- Isso não importa – diz Lucy, e me dá um sorriso tenso. – Afinal de contas, Neville e eu nos casamos. Isso é o principal. – Ela dá um olhar satisfeito para a mão com a aliança.
- Sem dúvida – digo. – Parabéns. Vocês vão...
- Nós estávamos pensando... – diz Lucy em tom agradável. – Harry já chegou?
Meu coração afunda.
- Ah, digo, tentando ganhar tempo. – Bem...
- É só que mamãe disse que você falou que ele ia chegar em meia hora. Mas nenhum sinal dele! O que parece meio estranho, não acha? – Ela levanta as sobrancelhas inocentemente. Eu olho por cima do ombro de Lucy e vejo Angela Harrison parada com Neville , a poucos metros de distância, espiando com olhos de verruma, triunfantes.
Meu Deus, elas estão gostando disso, não é?
- Afinal de contas, isso foi, ah, há umas duas boas horas – está dizendo Lucy. – Pelo menos! Então, se ele não está aqui, parece um pouquinho esquisito. – Ela me dá um olhar que finge preocupação. – Ou será que ele teve um acidente? Talvez esteja retiro em... Zurique, não foi?
Encaro seu rosto presunçoso e zombeteiro, e uma idéia violenta atravessa minha cabeça.
- Ele está aqui – digo antes que possa me impedir.
Há um silêncio pasmo. Lucy e sua dama de honra se entreolham, enquanto eu tomo um grande gole de champanhe.
- Ele está aqui? – diz Lucy finalmente. – Quer dizer... aqui no casamento?
- Exatamente. Ele... ele já está há algum tempo, na verdade.
- Mas onde? Onde ele está?
- Bom, ele estava aqui agorinha mesmo... – Faço um gesto para a cadeira ao meu lado. – Vocês não viram?
- Não! – diz Lucy, arregalada. – Onde ele está agora? - E começa a olhar em volta.
- Aqui mesmo digo, apontando vagamente para a multidão. – Está usando fraque...
- E? O que mais?
- E está... segurando uma taça de champanhe...
Graças a Deus todos os homens ficam iguais nos casamentos.
- Qual deles? – diz Lucy impaciente.
- O moreno – digo, e tomo outro gole de champanhe. – Olha, ele está acenando para mim. – Levanto a mão e dou um acenozinho. – Oi Harry!
- Onde? – exclama Lucy, olhando a multidão. – Kate, você está vendo?
- Ele... na verdade, ele acabou de sumir – digo. – Deve estar pegando uma bebida para mim.
Lucy se vira para mim de novo, com os olhos estreitos.
- Então... porque ele não estava na cerimônia?
- Ele não quis interromper – digo depois de uma pausa, e me forço a sorrir naturalmente. – Bom, não vou ficar retendo você. Você quer se juntar aos seus convidados.
- É – diz Lucy depois de uma pausa. – É, eu vou.
Dando –me outro olhar cheio de suspeitar, ela sai na direção de sua mãe, e as duas começam a conversar num grupinho, lançando-me olhares de vez em quando. Uma das damas de honra corre até outro grupo de convidados, e todos começam a me lançar olhares também. E depois uma corre para outro grupo. É como ver o início de um incêndio no mato.
Alguns instantes depois Janice aparece, toda ruborizada e lacrimosa, com um chapéu florido torto na cabeça.
- Gina! – diz ela. – Becky, nós acabamos de saber que Harry está aqui!
Meu coração se aperta. Ah, meu Deus. Derrubar a noite do inferno era uma coisa, mas não posso me obrigar a dizer a Janice que Harry está aqui. Não posso fazer isso. Então tomo rapidamente um gole de champanhe e balanço a taça na direção dela, de um modo vago que pode significar qualquer coisa.
- Ah, Gina... – Janice aperta as mãos. – Gina, eu me sinto absolutamente... Seus pais já o encontraram? Eu sei que sua mãe vai ficar na lua!
Ah, porra.
De repente me sinto meio enjoada. Meus pais. Eu não tinha pensado nisso.
- Janice, eu tenho de ir e... e retocar o pó-de-arroz – digo, e me levanto rapidamente. – Vejo você depois.
- E Harry! – diz ela.
- E Harry, claro – digo, e dou um risinho agudo.
Corro até os banheiros portáteis sem encarar ninguém, tranco-me num cubículo e fico sentada, tomando as ultimas gotas quentes do champanhe. Tudo bem, não vamos entrar em pânico por causa disso. Só vamos... pensar com clareza, ver minhas opções.
Opção um: Dizer a todo mundo que Harry na verdade não está aqui, eu cometi um erro.
Opção dois: Dizer a mamãe e papai, em particular, que Harry não está realmente aqui.
Mas eles vão ficar muito desapontados. Vão ficar mortificados e não vão se divertir, e vai ser culpa minha.
Opção três: Blefar. E dizer a mamãe e papai a verdade no fim do dia. Isso pode funcionar. Tem de funcionar. Eu posso facilmente convencer todo mundo durante uma hora, mais ou menos, de que Harry está aqui- e depois digo que ele está com enxaqueca e que foi se deitar no silêncio.
Isso mesmo. É o que vou fazer. Tudo bem – vamos.
E é mais fácil do que eu pensei. Em pouco tempo todo mundo parece estar dando como certo que Harry está por aí, em algum lugar. A avó de Neville chega a me dizer que já o viu, e não é que ele é lindo e a próxima serei eu? Contei a incontáveis pessoas que ele estava aqui há um minuto mesmo, peguei dois pratos de comida no bufê – um para mim, um para Harry (joguei no canteiro de flores) e até peguei emprestado o fraque de um estranho e pus na cadeira ao meu lado, como se fosse dele. O fantástico é que ninguém pode provar que ele não está aqui! Há tanta gente circulando que é impossível rastrear quem está e quem não está. Meu Deus, eu deveria ter feito isso há séculos.
- Fotografia em grupo dentro de um minuto – diz Lucy, vindo rapidamente até mim. – Nós temos de fazer fila. Onde está Harry Potter?
- Falando com alguém sobre o preço dos imóveis. – respondo sem hesitar. – Estão ali na mesa de bebidas.
- Bom, não esqueça de me apresentar – diz Lucy. – Ainda não o encontrei
- Certo – digo, e lhe dou um sorriso luminoso. – Assim que eu achá-lo! – Tomo um gole de champanhe, ergo a cabeça. E lá está mamãe com se vestido verde-lima vindo para mim.
Ah, meu Deus. Até agora eu consegui evitá-la e papai por completo, basicamente fugindo sempre que eles se aproximam. É maldade minha – mas sei que não vou conseguir mentir para mamãe. Rapidamente saio da tenda para o jardim e vou para os arbustos, desviando-me do ajudante do fotógrafo, que está juntando todas as crianças. Sento-me atrás de uma árvore e termino a taça de champanhe, olhando sem expressão para o céu azul da tarde.
Fico ali pelo que parece horas, até que minhas pernas começam a doer e a brisa me faz tremer. E por fim volto lentamente e entro sem ser notada na tenda. Não vou ficar muito mais. Só o bastante para comer um pedaço de bolo, talvez, e tomar mais um pouco de champanhe...
- Lá está ela – diz uma voz atrás de mim.
Congelo um instante – e giro lentamente. Para meu horror absoluto, todos os convidados estão parados em filas bem arrumadas no centro da tenda, enquanto um fotógrafo arruma um tripé.
- Gina, onde está harry? – diz Lucy em tom cortante. – Nós estamos tentando coloca todo mundo.
Merda. Merda.
- Hmmm... – engulo em seco, tentando permanecer indiferente. – Será que não está na casa?
- Não, não está – diz Kate, a dama de honra. – Eu estive procurando lá agora mesmo.
- Bom, ele deve estar... no jardim, então.
- Mas você estava no jardim – diz Lucy, estreitando os olhos. – Você não o viu?
- Hmm... não tenho certeza. – Olho em volta na tenda, imaginando se posso fingir que o vi à distância. Mas isso é indiferente, já que não há mais grupos espalhados. Por que eles pararam de se espalhar?
- Ele deve estar em algum lugar! - diz uma mulher toda animada. – Quem o viu por último?
Há um silêncio mortal. Duzentas pessoas me olham. Capto o olhar ansioso de mamãe, e rapidamente desvio os olhos.
- Na verdade... – pigarreio. – Agora eu lembro, ele disse que estava com um pouco de dor de cabeça! Talvez tenha ido...
- Alguém o viu? – interrompe Lucy, ignorando-me. Ela olha os convidados reunidos. – Quem aqui pode dizer que viu Harry Potter em carne e osso? Alguém?
- Eu vi! – diz uma voz hesitante lá atrás. – Um rapaz tão bonito...
- Afora a avó de Neville – diz Lucy, revirando os olhos. – Alguém?
Há outro silêncio medonho.
- Eu vi o fraque dele – diz Janice timidamente. – Mas não... o corpo – sussurra ela.
- Eu sabia! Eu sabia! – a voz de Lucy soa alta e triunfante. – Ele nunca esteve aqui, esteve?
- Claro que esteve – digo, tentando parecer confiante. – Acho que ele só está no...
- Você não está namorando Harry Potter, está? – A voz dela chicoteia a tenda. – Só inventou essa coisa toda! Só está vivendo na lamentável terra da fantasia!
- Não estou! – para meu horror, minha voz está ficando densa e eu sinto lágrimas pinicando nos olhos. - Não estou. Harry e eu somos um casal!
Mas quando olho os rostos que me encaram – alguns hostis, alguns pasmos, alguns irônicos – nem sinto mais certeza disso. Quero dizer, se nós fôssemos um casal, ele estaria aqui, não é? Estaria aqui comigo.
- Eu só vou... – digo, numa voz trêmula. – Só vou ver se ele...
E sem olhar ninguém nos olhos, saio da tenda.
- Ela é totalmente pirada! – ouço Lucy dizendo. – Honestamente, Neville, ela pode ser perigosa!
- Você é perigosa, moça! – ouço minha mãe retrucando, com a voz tremendo um pouco. – Janice, não sei como você pode deixar sua nora ser tão grosseira! Gina foi uma boa amiga de vocês durante todos esses anos. E de você, Neville, aí parado, fingindo que isso não tem nada a ver com você. E é assim que você a trata. Venha, Arthur. Vamos embora.
Um momento depois vejo mamãe saindo da tenta, rebocando papai, com o chapéu verde-lima tremendo na cabeça. Eles vão para a entrada de veículos, e eu sei que estão voltando para nossa casa para uma boa e calmante xícara de chá.
Mas eu não os sigo. Não posso me obrigar a vê-los – nem ninguém. Neste momento tenho de ficar sozinha.
Ando rapidamente, tropeçando um pouco, até a outra extremidade do jardim. Então, quando estou a uma distância suficiente, deixo-me cair na grama. Enterro a cabeça nas mãos e – pela primeira vez hoje, sinto lágrimas escorrendo pelos olhos.
Esse deveria ter sido um dia ótimo. Eu deveria ter ido uma ocasião maravilhosa, feliz.
Vendo Neville se casar, apresentando Harry aos meus pais e a todos os nossos amigos, dançando juntos na noite... e em vez disso a coisa se estragou para todo mundo. Mamãe, papai, Janice, Martin... sinto pena até de Lucy e Neville. Quero dizer, eles não queriam toda essa confusão no casamento, queriam?
Sento-me sem me mexer, olhando o chão. Vindo da tenda posso ouvir os sons de uma banda começando a tocar, e a voz de Lucy sendo grosseira com alguém. Crianças brincam com uma almofada e ocasionalmente ela cai perto de mim. Mas não me mexo. Gostaria de ficar aqui sentada para sempre, sem ter de ver nenhum deles de novo.
E então ouço meu nome, baixo, junto à grama.
A princípio acho que Lucy está certa, e que eu estou ouvindo vozes imaginárias. Mas quando levanto os olhos meu coração dá um salto mortal estupendo e eu sinto uma coisa dura bloqueando a garganta. Não acredito.
É ele.
É Harry, andando pela grama, na minha direção, como um sonho. Está usando fraque e segurando duas taças de champanhe, e eu nunca o vi mais bonito.
- Desculpe – fala quando me encontra. – Estou morrendo de culpa. Quatro horas de atraso é... bom, é imperdoável. – Ele balança a cabeça.
Encaro-o ofuscada. Quase comecei a acreditar que Lucy estava certa, que ele só existia na minha imaginação.
- Você foi... retido? – pergunto.
- Um cara teve um ataque cardíaco. O avião foi desviado... – Ele franze a testa. – Mas eu deixei um recado no seu telefone assim que pude. Você não viu?
Pego meu celular, percebo como uma pancada enjoativa que não o olhei durante um bom tempo. E sem dúvida, o ícone de recados está piscando todo alegre.
- Não, eu não vi – falo, olhando para o aparelho com cara inexpressiva. – Não. Eu pensei...
Paro e balanço a cabeça. Não sei mais o que pensei. Eu realmente acreditei que ele planejava não vir?
- Você está bem? – pergunta Harry, sentando-se ao meu lado e entregando uma taça de champanhe. Passa um dedo gentilmente no meu rosto e eu me encolho.
- Não – falo esfregando a bochecha. – Já que você pergunta, eu não estou bem. Você prometeu que estaria aqui. Você prometeu, Harry.
- Eu estou aqui.
- Você sabe o que eu quero dizer. – Abraço os joelhos, arrasada. – Eu queria que você estivesse aqui na cerimônia, não que chegasse quando a festa quase acabou. Queria que todo mundo conhecesse você, e que nos visse juntos... – Minha voz começa a falhar. – E foi... medonho! Todo mundo achou que eu estava a fim do noivo...
- Do noivo? - pergunta Harry, incrédulo. – Quer dizer, daquele ninguém pálido chamado Neville?
- É, ele – ergo os olhos e dou um meio riso relutante ao ver a expressão de Harry. – Então você o conheceu?
- Agora mesmo. E sua esposa muito pouco amável. Um tremendo casal. – Ele toma um gole de champanhe e se recosta nos cotovelos. – A propósito, ela me pareceu bem abalada quando me conheceu. Quase... como se levasse uma frigideirada na casa, pode-se dizer. Assim como a maioria dos convidados. – Ele me lança um olhar interrogativo. – Há alguma coisa que eu devera saber, Gina?
- Hmm... – pigarreio. – Hmm... na verdade, não. Nada de importante.
- Foi o que eu pensei. Depois a dama de honra gritou “Ah, meu Deus, ele existe!” quando eu entrei. Ela presumivelmente...
- Estava latindo – digo sem mexer a cabeça.
- É. Eu só quis confirmar.
Ele estende a mão para a minha e eu o deixo pegá-la. Por um tempo ficamos sentados em silêncio. Um pássaro está girando e girando lá em cima, e à distância posso ouvir a banda tocando “Lady in red”.
- Gina, desculpe o atraso. – De repente sua voz está séria. – Realmente eu não podia fazer nada.
- Eu sei – e solto o ar com força. – Eu sei. Você não podia evitar. Foi uma daquelas coisas.
Durante um longo tempo ficamos os dois em silêncio.
- Bom champanhe – diz Harry, e toma um gole.
- É. Muito... muito bom. Bom e... seco... – Eu paro e esfrego o rosto tentando esconder como estou nervosa.
Há uma parte de mim que quer ficar aqui sentada, jogando conversa fora pela maior tempo possível. Mas outra parte está pensando: qual é o sentido de adiar isso mais? Só há uma coisa que eu quero saber. Sinto um espasmo de nervosismo no estômago, mas de algum modo me obrigo a respirar fundo e me viro para ele.
- Então. Como foram as reuniões em Zurique? Como está indo o... novo negócio?
Estou tentando ficar calma e controlada, mas posso sentir os lábios começando a tremer, e minhas mãos estão se retorcendo a ponto de dar nós.
- Gina – diz Harry. Ele olha sua taça por um momento, depois a pousa no chão e me olha. – Há uma coisa que eu preciso dizer. Vou me mudar para Nova York.
Sinto-me fria e pesada. Então este é o fim de um dia completamente desastroso. Harry está me deixando. É o fim. Tudo acabou.
- Certo – consigo dizer, e dou de ombros, descuidadamente. – Sei. Tá. Tudo bem.
- E eu espero, espero de verdade... – Harry segura minhas duas mãos e aperta com força - ... que você venha comigo.
LINHAS AÉREAS REGAL
Escritório Central
Preston House
354 Kingsway
Londres WC2 4°
Srta. Ginevra Weasley
Apartamento 2
4 Burney Road
Londres SW6 8FD
Cara Ginevra Weasley
Obrigada por sua carta de 15 de setembro.
Fico feliz porque você pretende viajar conosco e já os recomendou todos os seus amigos. Concordo que a divulgação boca-a-boca é valiosíssima para uma empresa como a nossa.
Infelizmente isso não a qualifica, como você sugere, para um “agradecimento especial” relativo às bagagens. As linhas aéreas Regal não podem aumentar o seu limite de bagagem além dos 20kg, que é o padrão. Qualquer excesso de peso estará sujeito a cobrança; estou anexando um folheto explicativo.
Por favor, aproveite sua viagem.
Mary Stevens
Gerente de Atendimento ao Cliente
PG N I F irs t Ba nk V isa
7 Camel Square
Liverpool L1 5NP
Srta. Ginevra Weasley
Apto. 2
4 Burney Road
Londres SW6 8FD
19 de setembro de 2001
BOA NOTÍCIA!
SEU NOVO LIMITE DE CRÉDITO É DE £10.000
Cara srta. Weasley
Sentimo-nos honrados em anunciar que a Srta. Recebeu um aumento no limite de crédito. Seu novo limite de crédito, é de £ 10.000, está disponível para gastar imediatamente e aparecerá em seu próximo estrato.
A Srta. pode usar nosso novo limite de crédito para fazer muitas coisas. Uma viagem, comprar um carro novo ou até mesmo transferir balanços de outros cartões!
Entretanto, sabemos que muitos clientes não querem se aproveitar do aumento no limite de crédito. Se a Srta. Preferir que seu limite de crédito permaneça no nível original. Telefone para um dos nossos representantes de satisfação do cliente ou devolva o formulário abaixo.
Atenciosamente
Michael Hunt
Gerente de Satisfação do Cliente
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Nome: Ginevra Weasley
Conta Número: 003 4572 0990 2765
Eu gostaria/ não gostaria de aceitar a oferta de um novo limite de crédito de £10.000.
Por favor, risque conforme for apropriado.
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