Leila levou Hermione para os aposentos luxuosos na ala branca e dourada das mulheres do palácio. Ela parou e ob¬servou tudo, incrédula. Era como algo saído de uma revista de luxo, com ladrilhos decorados no chão e no teto, e um banheiro do tamanho de sua casa em Jacobsville, incluindo uma pequena piscina ao ar livre. A piscina era revestida pelo mesmo tipo de ladrilhos do piso, cercada por pequenas pal¬meiras e flores em grandes vasos, de forma a ficar quase invisível.
— Gosta? — perguntou Leila.
— É lindo. Lindo.
— Aqui era o antigo harém — confidenciou Leila, em voz mais baixa. — O bisavô do sidi tinha vinte concubinas, e aqui era onde ficavam, cercadas por eunucos.
— Sidi? O que quer dizer? — quis saber Hermione.
— Quer dizer lorde, senhor.
— Lorde do deserto — murmurou ela.
Em sua mente, Hermione visualizou um sheik, de túnica branca e esvoaçante, cavalgando um garanhão a galope à frente dos guerreiros. Sorriu com a vivacidade de sua ima¬ginação, mesmo porque Harry mal devia ser capaz de ca¬valgar. A mística do lugar já começava a afetá-la.
— É um homem muito forte, o sidi — disse Leila, enquan¬to abria as malas que o guarda-costas trouxera.
Ao terminar, balançou a cabeça, desolada ao examinar o conjunto de roupas de Hermione. Havia duas saias, uma blusa e um par de calças, além do vestido mexicano e do xale que o acompanhava.
— Nada disso vai servir — disse ela, por fim. — Preciso avisar o sidi sobre seu guarda-roupa, lady Fil-fil. Ele espera que se vista como uma dama da sua posição.
— Da minha posição? — estranhou Hermione.
— Será minha ama, naturalmente — disse Leila. — A noi¬va de um sheik. Sim, conhecemos o desejo do sheik de se ca¬sar... tínhamos receio de que ele não trouxesse uma noiva. Existiam certos rumores de que ele não teria uso para uma mulher...
O rosto de Hermione ficou escarlate, traindo um sentimen¬to de culpa, porém a criada interpretou de outra forma.
— Certo... Então não era a falta de necessidade de uma mulher, era a falta de alguém de quem ele gostasse, certo? — disse Leila, com um sorriso cúmplice.
— Ele é... muito atraente.
— Ele é um homem e tanto, senhora. Um verdadeiro ti¬gre. Ainda contam histórias sobre ele ao redor das foguei¬ras dos acampamentos dos beduínos, sobre as batalhas fe¬rozes realizadas para retomar o Quawi dos mercenários.
— É, ele me contou sobre a sua guarda pessoal — Leila lançou à ama um olhar estranho.
— Todas as tribos se uniram na batalha, minha senhora. Todas do país. Não pode fazer uma idéia das divisões, dos clãs inimigos, das vinganças que precisaram ser deixadas de lado para que isso acontecesse.
— Sei muito pouco sobre o Quawi. Tenho muito que aprender — concluiu Hermione.
— Acho que vai gostar de aprender — assegurou Leila com um sorriso. — Agora, minha senhora, quer enxaguar o corpo na banheira com hidromassagem?
— Uma hidromassagem?! — exclamou Hermione, agra¬davelmente surpresa.
— Um dos progressos do mundo moderno que temos ago¬ra. E é grande o suficiente para uma mulher e seu marido.
— Leila! — exclamou Hermione, corando. O sorriso da outra era aprovador.
— Posso perceber que seus princípios são como os nos¬sos, minha senhora, e fico contente. Nós, das tribos, damos muito valor a moral.
— Venho de uma cidade bem pequena. Sou antiquada nessas coisas — disse Hermione.
— Nesse caso, seria bom aprender alguma coisa sobre nossas tradições. Será um prazer instruí-la, com a permis¬são do meu siâi.
— É preciso obter permissão dos homens para fazer as coisas por aqui? Quero dizer, todas as mulheres?
— Em boa parte do Oriente Médio vivemos pelo Corão — afirmou Leila, solenemente. — Isso significa que não permitimos explorações sexuais fora do casamento e ne¬nhum acesso a coisas imorais. Essa é a lei para as mulheres e para os homens. Somos um povo puro e cuidadoso com a moral...
Interrompeu-se para saber como uma mulher americana e liberada reagiria à afirmação.
— Aqueles que acreditam nos antigos valores são tidos como pré-históricos em meu país — afirmou Hermione.
— Nesse caso, bem-vinda ao tempo das cavernas, madame — disse Leila, erguendo uma sobrancelha.
Hermione riu. Iria gostar daquela companheira.
— De uma mulher das cavernas para outra, muito obri¬gada.
— Agora devo preparar seu banho?
A despeito do que Harry dissera sobre talvez não en¬contrá-la mais naquele dia, Hermione tomava café e comia doces de amêndoas no quarto, quando ele entrou nos apo¬sentos. Leila vinha junto, embora já tivesse sido dispensa¬da para a noite.
— Uma acompanhante para servir de vela? Que excitan¬te... — comentou Hermione enquanto ele se sentava à mesa baixa, de vidro, em frente a ela.
Harry riu. Agora usava uma túnica, como aquelas cha¬madas de djellabahs no Marrocos, porém azul-escura e ele¬gante, com trabalhos em dourado nos acabamentos. Os sa¬patos eram do tipo chamado babouche no Marrocos, sem salto. Ele inclinou a cabeça e lançou um olhar aprovador à gellabia de seda branca que ela trajava, fina o suficiente para revelar a túnica de algodão por baixo.
— Você se veste de forma conservadora. Mas não luxuo¬sa o suficiente, eu receio. Arranjei uma costureira para vir amanhã e tomar suas medidas para um guarda-roupa com¬pleto. Eu particularmente gosto muito de você de branco, mas acho que um tom profundo de verde também ficaria muito bem.
— Não devia gastar muito dinheiro comigo — protestou ela. — Na verdade, não sou do tipo que dá muita impor¬tância às roupas, e quando sair, usarei uma aba escura, de qualquer jeito, mesmo que saia com você.
— Você precisa vestir o que for necessário, porque faz parte do papel que veio representar. Além do mais, gosto de lhe comprar roupas bonitas. Permita-me esse prazer, sim?
Ela sorriu.
— Está bem, mas eu quero pelo menos um par de jeans para que possa cavalgar com você.
— Eu adoraria levá-la para cavalgar, mas precisa usar culotes e um capacete. Roupas de equitação, Hermione.
— Gosto de jeans — disse ela, com uma careta.
— Quando em Roma...
— Já sei. Faça como os romanos. Está bem — concordou ela, reparando no rosto vincado de Harry. — Você está cansado. Parece que alguém andou lhe tirando pedaços. Se comeu algum, ficou envenenado.
— É uma boa descrição de como me sinto — riu ele, erguen¬do-se e espreguiçando-se. — Alimentaram você direito?
— Está brincando? Não pararam de me oferecer coisas gostosas. Agora a pouco comi tortas de carne de pombo e achei uma delícia. Agora esses doces... — Hermione apanhou uma das tortas de amêndoas. — Quer?
Ele curvou-se e abriu a boca, sem deixar de olhá-la. De¬pois se inclinou e pousou a boca sobre a dela, pressionan¬do os lábios e roçando os pêlos do bigode.
Hermione correspondeu, mas Harry ergueu-se e estu¬dou-a por um instante. Em seguida voltou-se para a cama de quatro pilares e cortinado de gaze.
— As horas parecem dias para um homem sedento. Ve¬nha, minha pequena.
Curvou-se e ergueu-a nos braços, sem a menor dificul¬dade. Beijou-a nos olhos, enquanto a colocava com suavi¬dade na cama, e deitou-se a seu lado.
Hermione permaneceu ali, carente e imóvel, como se te¬messe quebrar o encanto. Então vieram as mãos, uma de cada lado de sua cabeça, a retirar as presilhas dos cabelos, até soltarem os fios castanhos e compridos, que caíram ao redor do rosto dela como um halo dourado.
Em seguida foi a vez dos pequenos botões da geliabia, que os dedos acompanharam um a um, libertando as abas e expondo o tecido abaixo.
O coração de Hermione parecia querer saltar no peito. Sa¬bia que isso também era visível a ele, pois a trama levíssi¬ma da túnica interior, apesar de não ser transparente, mo¬via-se a cada gesto pronunciado, revelando as formas abai¬xo. Quando Harry a tocou, era como se não estivesse usando nada, o que provocou uma excitação crescente.
Os dedos dele procuraram o fecho interno e deslizaram sob o tecido, em contato direto com a pele. A carícia continuou até onde apenas uma tira reduzida cobria as curvas dos seios.
— Ah... — exclamou ele, deliciado em tocar o mamilo excitado. — Sem enchimentos.
— Nunca mais vou usar enchimentos para você — mur¬murou ela, fitando-o. — Você fez com que eu tivesse orgu¬lho do meu corpo.
— É assim que tem de ser — observou Harry, com cari¬nho. — Como sua pele é macia aqui, Hermione! Escute... que¬ro colocar minha boca em você e fazê-la gemer de prazer. Mas Leila vai ouvir. Se acha que ficará com muita vergonha...
Beijou-a nos lábios e começou a mordiscar-lhe o lábio inferior, enquanto as mãos se tornavam mais ousadas. Ela não respondeu, mas em compensação ocupou-se em abrir os fechos restantes da roupa, sem timidez nem vergonha.
Os olhos castanhos fizeram com que ele se sentisse um rei de verdade, enquanto deslizava os lábios pelo corpo dela. As costas de Hermione se arquearam involuntariamente, o suficiente para que o mamilo escuro convidasse a boca e a língua a tocá-lo.
O gemido profundo que brotou da garganta de Hermione teve o poder de excitá-lo ainda mais. Harry sugou com vontade, transmitindo seu desejo com a língua. Seu corpo deslizou para cima dela. Nesse instante esqueceu as con-venções, o respeito que prometera e sua resolução anterior. Estava descontrolado. Seu corpo pulsava, de forma que mal sentiu as unhas que se cravavam em suas costas. Nada exis¬tia, a não ser aquela mulher desejável e sua vontade de se satisfazer. Afinal, talvez fosse possível...
— Sidi!
Harry estremeceu. Forçou o olhar a afastar-se do cor¬po macio de Hermione e focalizou-se na forma cuja silhueta aparecia no portal da frente, além das cortinas.
Leila estava ali, com os braços cruzados, o rosto osten¬tando uma expressão desaprovadora, fitando-o.
Ele resmungou algo, furioso, em árabe, e ela respondeu calmamente e com firmeza, na mesma língua.
Harry praguejou em francês, inglês e árabe antes de conseguir parar de tremer de excitação e raiva. Nunca fica¬ra tão fora de si. Ainda estava. Sua vontade era rasgar o que restava das roupas de Hermione e...
Resmungou alto e afastou-se dela, sentando-se do lado oposto da cama. Apoiou o rosto entre as mãos.
Hermione mal conseguia respirar. Arrumou a camisola sobre os seios e olhou para Leila com uma mistura de con¬fusão e embaraço.
— Venha comigo, senhora — disse Leila, movendo-se com firmeza para puxá-la da cama. — Antes do casamento, não, sidi. Que vergonha!
Harry irrompeu numa gargalhada, apesar de sua agonia.
— Peste! Eu devia ter dado você para Mustafá al Bakir quando ele me pediu!
— Seria melhor eu me casar com um boi. Agora, se me dá licença, vou com a senhora para o outro aposento até resolver partir, sidi — disse Leila. — O senhor não deve desonrá-la.
Harry fez um esforço para ficar em pé. Não ergueu a cabeça na direção das mulheres; Hermione ainda tentava se cobrir.
— Nesse caso, pode deixá-la trancada até sairmos para o deserto — disse ele. — A tentação é muito grande para re¬sistir.
— Foi o que Hassan me disse — respondeu Leila, erguen¬do uma das sobrancelhas. — Sei tudo o que aconteceu no avião, sidi. Minha senhora não está a salvo sozinha com o senhor. Meu dever é zelar para que a castidade dela perma¬neça intacta até a cerimônia. Quer vocês gostem, quer não.
— Eu não gosto — disse ele, piscando para Hermione. — É a terceira vez que tem sorte, mademoiselle.
Riu quando ela corou, saindo dos aposentos em seguida.
Leila ajudou Hermione a recompor seus trajes.
— O que ele quis dizer com "terceira vez"?
— Foi apenas uma expressão. E não pergunte o que sig¬nifica — avisou Hermione, com um sorriso.
— Aquele homem é uma ameaça, isso sim — disse Leila. — E pensar que confiei em deixá-lo sozinho com a senhora.
Hermione não disse uma palavra, mas podia imaginar como Harry se sentiria ao ser encarado como um sedutor em potencial. A proteção feroz de Leila o tinha agradado e divertido, por motivos que a mulher não poderia imaginar.
Lembrando-se da ereção rígida no corpo dele, mais a ur¬gência do abraço, Hermione não teve dúvidas de que em breve aprenderia todos os segredos da alcova. Mal podia esperar pela cerimônia do casamento, que tornaria Harry exclusivamente seu. Se conseguisse seduzi-lo, a misteriosa Brianne não manteria a preferência dele. De qualquer jeito, pretendia seduzi-lo.
Uma semana passou-se rapidamente, enquanto Hermione aprendia a orientar-se pelo enorme palácio e começava a travar conhecimento com o pessoal que trabalhava ali. Sen¬tia pena dos pobres servos que precisavam lavar as pare¬des, pois usavam alvejante e suas mãos sofriam com isso. Queixou-se a Harry, que providenciou luvas de borracha para os trabalhadores. Depois, Hermione descobriu na cozi¬nha uma mulher que mal conseguia ficar em pé, e insistiu em resolver esse assunto. Um médico foi enviado e a mu¬lher recebeu licença pelo tempo que durou o tratamento.
Havia outros problemas ainda que ela notara, para o divertimento do sheik. Descobriu que as horas de trabalho eram demasiadas e que a falta de instalações para as crian¬ças era preocupante. Provocou uma reunião com os criados, em que cada um teve a chance de dizer o que desejava, até mesmo o cozinheiro, que sofria havia longo tempo com a falta de eletrodomésticos para preparar as refeições à francesa que Harry tanto apreciava. O administrador ficou ressentido a princípio com a interferência de uma mulher, estrangeira ainda por cima, em sua área. Porém, à medida que Hermione conseguia transformar as condições de traba¬lho, passou a considerá-la uma aliada, e chegou a conspirar com ela para trocar o aparelho de jantar e as toalhas de linho.
Hermione não parou nos assuntos do palácio. Encontrou crianças brincando na terra com pedaços de madeira. Não havia brinquedos, ou um lugar apropriado para brincar. Acompanhada de um intérprete, visitou as casas imacula¬damente limpas e conseguiu reunir as mães, cuja maioria trabalhava nas indústrias têxteis. Não tinham quem tomas¬se conta dos filhos, que brincavam na rua porque não havia outro lugar. Ela foi até Harry e pediu uma área devida-mente cercada e uma pessoa para tomar conta das crianças, enquanto as mães trabalhassem. Uma escola maternal seria uma necessidade, com um educador habilitado na direção.
Harry concordou, ainda que chocado com a mudança que se processava nela desde sua chegada. Hermione pare¬cia estar em todos os lugares, observando, escutando, apren¬dendo. Viu coisas que precisavam ser mudadas e foi direto às providências. Tornou-se madura perante os olhos de Harry. Estava encantando a todos no palácio, inclusive ele. Queria estar com ela mais tempo durante o dia, mas Leila conseguia mantê-lo afastado de Hermione, a não ser por breves períodos à noite. Nessas ocasiões, porém, mantinha-se no interior do aposento com o casal.
Estavam num desses momentos, e Harry disse algo em árabe para Leila, que bordava, imperturbável, e ape¬nas sorriu.
— Partimos para Wadi Agadir em dois dias — disse ele a Hermione. — Suas primeiras roupas já devem ter sido entregues no palácio. Leila irá com você.
— Uma caravana? — indagou Hermione, entusiasmada. — Camelos, cavalos e...
— Calma. Vamos de jipe, um Land Rover — ele inter¬rompeu-a, lançando um olhar de advertência a Leila. — Sou um homem urbano. Por que deveria sofrer nas costas de um camelo se posso viajar num jipe?
— Acho que leio romances demais — disse Hermione. — Tenho certeza de que viajar de jipe será uma experiência e tanto, também.
— A viagem inteira será uma experiência. Espero que nenhum de nós a esqueça enquanto vivermos — declarou ele, misteriosamente. Bocejou. — Agora preciso ir. Durma bem.
— Você também. Obrigada por não se importar.
— Não se importar com quê?
— Tenho feito um bocado de agitação pelo palácio. Des¬culpe se causei muitos problemas. Talvez eu devesse ter ficado confinada no quarto...
Leila riu. Harry, também.
— O cozinheiro está fazendo os doces de que você gosta, pessoalmente, com as mãos... um homem que os ajudantes apelidaram de "Napoleão". A mulher da lavanderia usa os amaciantes mais caros na sua roupa. As crianças aparecem e ficam ao seu redor onde quer que você esteja. Meu pró¬prio criado roubou um vaso de orquídeas da estufa de meu pai... um deslize pelo qual poderia ter sido decapitado em outra época... para colocar em sua sala de estar. Problemas? Vivo em apreensão constante, imaginando que algum ser¬vo possa cortar o próprio pescoço por medo de ofender você.
— É verdade, minha senhora. Todos no palácio a ado¬ram — confirmou Leila, rindo da expressão de Hermione.
— Todos foram muito bondosos — disse ela. — Senti que devia fazer alguma coisa por quem eu pudesse.
Leila ergueu-se.
— Não é difícil gostar de uma mulher assim — declarou ela, olhando em seguida para o sheik. — Devo trocar de roupa, agora. Mas só vou demorar alguns minutos, sidi.
— Devo ficar contente com qualquer tempo que consiga — suspirou Harry.
A morena curvou-se e sorriu com ar malicioso para Hermione, enquanto deixava o aposento.
Harry esticou os braços e Hermione aninhou-se neles, apoiando o ouvido no peito dele, escutando o bater forte do coração.
— Tenho pensado sobre essa viagem pelo deserto — dis¬se ele. — Talvez seja melhor você ficar aqui.
— Por quê? Já mudou de idéia sobre nosso casamento? — perguntou ela, afastando-se para encará-lo.
— Isso nunca. Mas acontece que pensei melhor, seriamen¬te, sobre envolver você numa situação que talvez seja mais perigosa do que eu imaginei.
— Não tenho medo.
— Nem eu tenho medo por mim. Mas poderia ser um ris¬co para você.
— Só vamos nós dois, então?
— Que mulher impossível! — desabafou ele. — Não, cla¬ro que não. Minha guarda pessoal também estará lá, e vá¬rios guerreiros representantes das tribos. Quando nos reu¬nirmos, formaremos uma força respeitável.
— Você parece não estar muito contente com isso — co¬mentou ela, estudando-lhe o rosto.
— Pode ser. Passei essa semana inteira reunindo informa¬ções de meus espiões. Brauer está em Salid, o país em minha fronteira do norte. Tenho provas disso. Ele contratou um bando de malfeitores e assassinos pagos, e aguarda lá para lançar a próxima ofensiva. Não posso permitir que fique.
— E como vai fazer com que ele saia de lá? Ele tem ar¬mas automáticas e outras armas modernas, não tem? — perguntou ela, cada vez mais preocupada.
Harry assentiu.
— Tem explosivos plásticos, lançadores de mísseis ter¬restres, minas e granadas. Possui amigos que lhe devem favores, e o crédito dele é bom com a maior parte dos nego¬ciantes de armamentos. Se ele puder começar uma guerra, será capaz de repor as perdas só com as comissões em ven¬das de armas. Com a atual situação política, talvez ele seja capaz de realizar isso, se eu não o impedir a tempo.
— O que posso fazer para ajudar?
— Se está planejando usar um lançador de mísseis a meu lado na batalha, pode esquecer.
— Não teria força para isso, mas sei usar o laço e sei ati¬rar. Marc me ensinou. E posso cavalgar qualquer animal com quatro patas — afirmou ela.
— Habilidades que podem ser bastante úteis... Será que Leila não vai se perder a caminho daqui?
Beijou-a. Os dois se abraçaram, procurando sentir o cor¬po do outro responder à sensualidade que pairava entre eles como uma corrente elétrica. Hermione sentiu como se fizes¬se parte daquele homem.
— Eis-me aqui de volta — anunciou uma voz familiar à porta.
Harry voltou-se a tempo de ver Leila entrando.
— Depois da cerimônia, se você chegar a menos de cem metros de nós, vou usá-la para prática de tiro ao alvo da tropa — avisou ele.
— Nesse caso, quem iria preparar o banho da senhora? E quem tomaria conta das roupas e se empenharia para fazê-la mais bonita para o sidi?
— Ela não precisa ser mais bonita — disse ele, acarician¬do o rosto da noiva. — Ela é linda.
— E precisa dormir bem para ficar assim, sidi.
— Você se esquece de que sou o senhor aqui. Uma pala¬vra minha é lei.
— É verdade, sidi, para qualquer outra parte do palácio. Mas aqui é um invasor, e a palavra final é minha. Boa noi¬te, meu senhor.
Minas
Harry ergueu as mãos, num gesto de resignação, e ca¬minhou em direção à porta, resmungando em árabe o tem¬po inteiro.
Depois que ele se foi, Leila riu.
— Estou aqui há muitos anos, mas nunca escutei o sidi rir. Todos os criados comentam essa mudança, que aconte¬ceu logo depois de sua chegada, minha senhora. Ele parece encantado.
— Acho que foi ele quem me encantou — comentou Hermione, olhando ainda para a porta. — É como um conto de fadas, para mim. Jamais sonhei que um homem como ele pudesse se interessar por uma pessoa simples como eu.
— Simples? A senhora possui uma beleza interior como nunca vi em outras pessoas. É isso que encanta o sidi. Será uma boa esposa para ele, minha senhora. Vai lhe dar mui¬tos filhos saudáveis.
— Isso seria maravilhoso.
Hermione pretendia desempenhar sua parte da farsa, mas sabia que não haveria filhos. Ficava triste ao pensar nesse aspecto. Naturalmente existiam muitas crianças na corte, ela estaria envolvida nos cuidados e educação de todas. Talvez isso suprisse a falta de filhos próprios. A alternativa era deixar Harry e encontrar um homem que pudesse ter filhos, mas essa idéia era insuportável. O que quer que acon¬tecesse a ela agora, sua vida estava ligada à dele. Era seu verdadeiro destino, e o aceitava de bom grado.
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Continua...
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